Math For Love
28 Culpa sem fundamentos (Extra)
Notas iniciais
Namorei por três anos. Sério, três anos! Parece pouco, mas, olhando todas as oportunidades que deixei passar nesse período, parece que foi um investimento à toa, uma eternidade. Não me leve a mal, não falo de outras garotas, mas de oportunidades em geral. Sair com meus amigos, aproveitar minha adolescência, ir à festas, ter minha liberdade... coisas que não tive naquele relacionamento.
Já pensei em terminar antes, mas, me acostumei tanto à presença da Jhennifer em minha vida, que me imaginar sem ela era, não sei... estranho.
Em menos de uma semana após nosso término, fiquei um pouco abalado no início, não vou mentir, mas, me animei quando vi as imensas possibilidades que me apareceram. Fingi namorar a Mary, mas era algo novo, acho que boa parte da escola ainda não ficou sabendo, Mas, o meu término com a Jhenni... nossa, espalhou feito um vírus. Acho que essa é a única explicação para o fato de a maioria das meninas estarem, como posso dizer... dando em cima descaradamente de mim.
Sério, até eu fico besta com isso. Já vi esse tipo de coisa acontecendo com os outros caras do time de basquete, mas, comigo... enfim, é uma novidade.
E, agora, tem essa garota... a Taira. Cara, desde o meu término com a Jhenni ela está me perseguindo. Parece que conhece todos os meus passos, pelo visto acha que vai ter alguma chance comigo. E, qual é, eu estou solteiro, não é? Meu relacionamento com a Mary é algo temporário, algo passageiro, não é? Então, porque não ter algo com a Taira? É só pedir sigilo, acho que ela não contaria para ninguém. Sem falar que as roupas que ela usa estão mais do que me influenciando a ficar com ela.
Mas, tem a Mary... Porque me importar tanto com ela? Não foi ela quem aceitou passar por isso comigo? Era um relacionamento absolutamente profissional, certo? Então, porque ela seria um motivo a me fazer desistir? Para com isso, Daniel...
Foi por isso que marquei de a encontrar nas escadas de emergência hoje. Eu costumava matar as aulas e vir aqui com a Jhennifer no início do namoro... Isso mesmo, só no início. Depois, o namoro esfriou, mal conversávamos. Enfim, as escadas de emergência sempre foram o meu lugar preferido na escola, principalmente porque é um lugar só meu, aqui eu tenho minha privacidade.
Quando a Taira chegou, ela usava o tradicional uniforme de líder de torcida. O que era estranho com o frio que fazia em Nova Jersey pela manhã, mas, não importa, qualquer garota fica bonita naqueles uniformes.
- Você veio... — A cumprimentei enquanto ela chegava com aquele imenso sorriso.
- Claro!
A Taira não me deu tempo para conversar. Sério, eu juro que iria conversar antes de qualquer coisa, mas ela tomou a iniciativa, o que foi estranho... e, sei lá, não gosto desse tipo de atitude vindo de uma mulher. Mas, que seja, eu não iria a impedir. Eu com certeza não seria louco de a impedir.
Taira pulou no meu pescoço, me entrelaçando com seus braços magros. Logo alcançou minha boca, e começamos a nos beijar. Não era algo nada especial, me senti superficial, indiferente. Era algo rápido, sem gosto, sem nenhum prazer.
Ficamos por uns cinco minutos, eu já estava me cansando. Senti meu telefone vibrar no bolso, alguém deveria estar me mandando mensagem, mas não iria parar aquele beijo. Continuamos nos beijando, até eu ouvir o som de passos se aproximando. Achei que era coisa da minha cabeça, mas me assustei ao ouvir a voz dela. É, ela viu tudo.
- Daniel?...
Virei-me rapidamente, dando de cara com a Mary. Ela me olhava de uma maneira apreensiva, nervosa. Não sabia o que fazer. Aqueles poucos segundos foram suficientes apenas para que eu recuperasse o fôlego, não consegui formular nenhuma resposta antes que ela se virasse e fosse embora.
Porque a Mary ficou assim? Ela parecia triste... Algo aconteceu com ela? Será por causa da Taira? Mas, tecnicamente, não foi uma traição, não é? Não é um relacionamento de verdade...
- Daniel, quem é ela? — Taira perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Senti minha cabeça latejar, esfreguei os olhos com a mão esquerda.
- Minha namorada... — falei, ainda olhando para Mary que caminhava ao longe.
- Espera, você tem namorada? — Ouvi Taira dizer atrás de mim, ainda chocada. — Porque não me disse? Ah, não acredito...
Taira passou por mim rapidamente, saindo daquele local. Eu ainda estava sentado em um dos degraus, confuso pela Mary.
Peguei o celular no bolso direito de meus jeans e li a mensagem que havia recebido.
"Preciso conversar. Me encontre nas escadas de emergência."
Droga... Ela queria conversar comigo!
Levantei-me bruscamente e voltei para a entrada do colégio que já estava mais cheia do que antes. Passei pelos alunos que conversavam, procurando por ela, mas não a encontrava. Esbarrei em algumas pessoas, ouvi alguns xingamentos, mas não me importei. Só queria encontrá-la, entender o que estava acontecendo.
O sinal tocou, despertando os estudantes ao meu redor. De repente, me vi em um formigueiro de pessoas que entravam dentro do prédio escolar. Era impossível encontrar a Mary ali.
Os corredores logo esvaziaram, olhei para todos os lados. Pelo que conheço à Mary, ela provavelmente não perderia aquela aula por nada...
Pensei em desistir e ir para a aula, quando ouvi uma porta batendo ali perto. Não sei, simplesmente me senti motivado a ir até lá. Atravessei o corredor e abri a porta de madeira, entrando na biblioteca.
Claro, a biblioteca.
Deparei-me com a bibliotecária de óculos fundo de garrafa que lia alguma coisa atrás do balcão de entrada.
- O que você quer aqui, garoto? Não acha que deveria estar na aula agora? — Ela perguntou, sem nem mesmo olhar diretamente para mim.
- Eu... Eu estou procurando uma garota, queria saber se ela passou por aqui... Ela é dessa altura.. — Falei, estendendo a mão direita na direção de meus ombros. — Tem cabelos pretos, curtos. É bem pálida... Ela esteve aqui?
A bibliotecária me olhou arqueando uma das sobrancelhas.
- Ela está na sala de leitura.
Caminhei até o outro lado da biblioteca, atravessando um dos corredores de prateleiras e mais prateleiras de livros. Lá atrás, um espaço com um grande tapete e algumas cadeiras acolchoadas formavam um ambiente pequeno e aconchegante.
Lá estava ela, sentada em uma das cadeiras, com uns papéis na mão.
- Mary? — Chamei sua atenção.
Ela levantou o rosto e olhou para mim, desviando logo depois para os papéis em sua mão.
- Pensei que estivesse ocupado demais para mim.
Abaixei a cabeça. Porque me sinto tão culpado?
- Eu não sabia que você queria conversar. Aconteceu alguma coisa? — Perguntei, sentando-me na cadeira a sua frente.
- Pensei que nós tivessemos alguma coisa...- Eu arregalei os olhos, surpreso enquanto ela olhava para mim. — Não, não me leve a mal. Eu falo do namoro... o namoro falso.
- O namoro é falso... Porque não poderia ficar com uma garota? — Perguntei, ainda confuso.
Eu não entendo. É um namoro falso, não é? Se eu não pudesse me envolver com alguém ele não seria falso. Porque a Mary se importa tanto com isso?
Ela simplesmente abaixou a cabeça, levantando-se da cadeira.
- Pensei que quisesse conversar. — Disse, levantando-me também.
- Não... Deixa pra lá. — Mary sorriu, pegando sua bolsa que estava em cima de outra cadeira e colocando-a no ombro. — Eu vou voltar para a aula...
- A aula já começou, Mary. Não vão te deixar entrar.
Mary olhou para a janela atrás de mim.
- Então eu vou para casa. — Mary virou-se para a porta. — Eu deveria ter escutado minha mãe... melhor se eu não tivesse vindo à escola.
Então ela caminhou até a saída, me deixando naquele estado surpreso e confuso. E, para piorar, estava me sentindo culpado por um erro que eu não acredito ter cometido.
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