Matemática Do Amor
69 - Mais um dia, mais um risco. .
Notas iniciais
2 DIAS DEPOIS
Elena esticou o corpo, ouvindo um leve estalar de um de seus braços em seguida. O relógio dizia que se passava das 22:00. Tentou lembrar-se por quanto tempo havia dormido, mas não foi possível. Em volta o único detalhe diferencial era em seu corpo, adormeceu completamente nua e agora estava de calcinha e sutiã. Não era difícil adivinhar quem a havia vestido. Esperou seus olhos embaçados situarem-se melhor para procurá-lo, embora ele não estivesse do seu lado mais. Coçou a vista, com a memória já intacta pelo que aconteceu. Cada detalhe, cada toque, cada beijo, tudo parecia novo todas as vezes. A entrega na qual ele estava tendo era o passo que faltava para que as coisas se evoluíssem nesse aspecto, conseguia enxergar claramente a razão para essa mudança. E encontrou, ele não era mais seu professor e embora estivesse sob um julgamento penal o empecilho que dificultava tanto as coisas entre os dois não existia mais. Sentia-se vivendo no céu, enquanto ao seu redor tudo era um inferno.
Seus pensamentos foram interrompidos quando a sombra dele adentrou a soleira da sala, vindo do corredor. Segundos depois, foi a vez de seu corpo aparecer. Cabelos molhados, descalços, usando uma calça de moletom preto apenas.
Damon seguiria para o balcão, para que chegasse a cozinha mas parou ao vê-la acordada. Sorriu sendo retribuído, Elena ainda estava deitada mas com o olhar atento à sua frente. Viu o quanto ela estava linda, de expressão leve e riso bobo. Um riso que não ia embora desde ante-ontem.
— Oi. — Ela murmurou, mordendo o lábio inferior. Damon continuava na soleira da porta, a observando de maneira tendenciosa.
— Quanto tempo tá acordada? — Pensou em se aproximar, mas decidiu continuar olhando-a de longe. Ela deitada naquele sofá-cama era uma vista ótima.
— O suficiente pra mais um round. — Não escondeu o desejo em sua voz.
Antes que ele respondesse algo, um apito soou há alguns metros de distância. Abandonando o jogo de sedução, Damon correu até a cozinha. Com apenas um balcão separando a sala de onde ela estava, Elena sentou-se, surpreendida, pronta para questionar o que havia acontecido.
— Esquentei uma lasanha. — Ele se adiantou. — Ia separar pra gente, mas você acabou dormindo. — Explicava-se, enquanto retirava a massa do recipiente, colocando-a no balcão. — Melhor deixar aqui pra esfriar.
Ele veio até si, sentando-se ao seu lado. De imediato, Elena lançou os braços sobre os ombros do rapaz, que a acolheu do mesmo modo apressado. Ele a cheirava, expirando o ar na curvatura do pescoço dela lhe causando arrepios. Ela retribuía isso tocando em seus cabelos, apertando cada fio contra seus dedos. Em alma já sentia que ele era seu, mas precisava do toque para confirmar e não havia nada no mundo que se comparasse aquela sensação, ao prazer que tinha só de senti-lo perto.
— To tão feliz por você vim dormir aqui hoje. Aqui comigo. — Sussurrou em seu ouvido, o trazendo ainda mais para si.
— É meio estranho, a Rose lá com a mãe dela e a gente aqui na casa dela.
Elena assentiu em concordância, Damon retirou a face de seus ombros e a encarou.
— Eu sei, mas foi ela que sugeriu que você viesse pra cá. Ela não queria que eu dormisse aqui sem ninguém. — Mesmo com esse argumento, ainda era claro o desconforto dele em relação há isso. — Mas o que a mãe dela tem? — Resolveu mudar o assunto. — Ela nunca fala sobre isso.
Ele respirou fundo, um tanto incerto sobre sua escolha de palavras.
— A família dela é complicada. — Gaguejou, nas primeiras palavras. — O pai tem o mesmo problema que eu, a mãe era garota de programa e tem seus vícios também. É difícil pra ela.
Elena permaneceu sem reação, compartilhava agora um pouco o desconforto de Damon. Imaginava Rose lá, tendo que passar a noite com a mãe pela mesma ter tido uma espécie de surto, enquanto ela e Damon faziam amor feito loucos em seu sofá. Na qual a mesma emprestava para que dormisse.
— Rose parece tão forte. — Pensou em alto.
— E ela é. — Damon disse orgulhoso. — Ela é a pessoa que mais se mete em problema nessa vida, mas é sempre a que consegue sair mais firme. — Elena percebia a mente dele vagando pela nostalgia do passado enquanto falava. — Eu lembro de quando eu era adolescente, acho que ela era a pessoa que eu mais admirava. A maneira como lidava com as coisas, mesmo tendo todos os problemas do mundo nas costas, a coragem na qual ela enfrentava todo mundo. Era uma rebelde. — Sorriu sozinho, enquanto lembranças o atingiam. A única vez na qual Rose não foi capaz de enfrentar algo de frente, foi justo quando estavam prestes a casar. Na qual ao invés disso, ela resolveu fugir. Elena sentia-se dividida, de um lado contente por ele estar tão solto enquanto falava de sua vida. Mas de outro, fora impossível não se abalar pela maneira na qual ele se expressava; Com tanto encantamento e saudades. Damon a amava, só que tinha ela tinha claro em sua mente que um dia ele também amou Rose e, por mais que gostasse da mesma, via o quanto poderia ser insegura. Ele me ama, pensava. Só que será que me ama tanto quanto um dia amou ela?
Ao perceber a ausência do vai e vem que Elena fazia em seus cabelos, Damon a encarou. Encontrando uma pensativa menina em sua expressão, enquanto em seus olhos poderia claramente ver uma ambiguidade. Dúvidas provavelmente, embora quisesse disfarçar para que ele não percebesse. Ao reavaliar suas palavras, juntou as peças que precisava para saber porque ela estava assim.
— Sabe que não tem motivos pra ficar insegura, né? — Ele questionou, esperando que a mesma confirmasse. Se afastou de Elena e se ajeitou no sofá, de maneira que pudesse olhá-la e tentar passar segurança.
Elena tentou encarar as próprias unhas, em disfarce. Ao vê-lo esperando sua resposta, assentiu devagar.
— Sim, eu sei. — O olhou, um tanto tristonha. Era o máximo que poderia camuflar. — É que... — Parou. Tentando achar as palavras certas, fechou os olhos com toda a sua força em busca do que se dizer. — Não é que eu tenha ciúmes, só... Sei que o que você você sente por mim e o que sentia por ela são sentimentos diferentes.
— Em que sentido você diz isso? — Damon continuou, com o objetivo em mente de que não pararia até que ela pudesse colocar para fora o que estava sentindo. Conseguia ver pela confusão na expressão de Elena, que sua mente deveria estar um nó, tudo para encontrar a maneira correta de dizer o que parecia impregnado em sua mente. Por mais compaixão que ele tivesse, também queria os pratos limpos naquela relação e a última coisa que desejava era que seus sentimentos fossem postos em dúvidas. A amava, a amava mais do que tudo e não tinha mais vergonha de assumir.
— Damon, você é a primeira pessoa que eu amo na vida. E o que eu sinto é forte, é algo incomparável... Eu vivo por você, toda a minha vida gira em torno de você, me sinto uma dependente. Eu sou uma dependente sua, mas você. — Segurou uma lágrima. Sentia-se mal por estar falando isso depois de tudo que Rose fez para lhe ajudar. — Mas você... Já amou antes e amou muito, eu vi o quanto você a amava. E dizem que as segundas, terceiras, quartas paixões nunca são tão grandes quanto a primeira. E deve ser verdade porque eu honestamente, não consigo me imaginar amando alguém mais do que eu te amo. — Confessou, arrependida. Mas com um alívio grande no peito.
Houve uma curta pausa, aonde surpreendida pelo silêncio vindo dele, Elena adquiriu coragem para fitá-lo. Esperava encontrar toda a confirmação para suas palavras na expressão dele, só que ao invés disso tudo que conseguiu identificar era um homem pensativo em dúvida sobre algo.
— Quero que saiba uma coisa. — Ele disse com convicção, olhando profundamente em seus olhos. — Quando eu comecei a me sentir diferente em relação há você, eu lembro de pensar que... Eu não poderia tá te amando e sim que eu amava que você me amava. Gostava do fato de alguém se importar comigo, você entende? — Ela assentiu em entendimento. — Com a Rose foi diferente. Eu já era apaixonado por ela mesmo antes da gente se envolver. Não sei explicar, mas ela era a única pessoa do mundo que me entendia porque tinha passado por coisas muito parecidas com as minhas, até piores. — Explicava-se, enquanto um de seus dedos fazia uma carícia involuntária na perna de Elena. — Mas... Eu lembro que, enquanto eu estava apaixonado pedia desculpas pro Mason todo dia, na minha cabeça. Quando eu e ela nos envolvemos então, piorou. E eu lembro de me sentir muito arrependido, muito mesmo. Já com você. — Sem que ele mesmo percebesse, um sorriso pequeno veio em seu rosto. — Eu tinha muita culpa e pedia perdão pra Isobel todo dia também, mas nunca me arrependi. Um pouco antes do Mason descobrir, eu tinha terminado com a Rose por conta disso. Com você isso nunca aconteceu.
Atingida por aquelas palavras, Elena sentiu-se domada pela sensação de chegada de primavera dentro de si. O aroma de flores, os campos verdes e brilhantes e todo sol acolhedor na medida certa do frio e do quente. O abraçaria e o beijaria ali naquele momento, com toda a ardência que seu corpo pediu, caso não sentisse que ainda havia mais que Damon quisesse falar.
E ele continuou.
— Quando eu descobri que o flagra do Mason tinha sido planejado por ela e que no começo tudo que ela queria era me usar pra se livrar dele, eu a perdoei. A perdoei no mesmo dia, mas eu não queria. Eu contrariei todo o meu desejo ali, tudo porque eu não queria ficar sem meu melhor amigo e acabar ficando sem ela também. Precisava de algo que fizesse tudo aquilo valer a pena. — Disse ele chocado, sentindo-se como se estivesse confessando um assassinato. — Contigo, depois de saber sobre aquele plano todo, foi o contrário. Eu quis, quis muito perdoar. Mas não fiz. — Completou confuso, chocado com suas próprias palavras. Nem o próprio Damon havia parado para pensar e diferenciar aqueles dois sentimentos e aquelas duas situações. Para ele também era uma revelação. — Eu a amei e, você tem razão, a amei muito e nunca vou esquecer a relação que tivemos. Ela vai ter sempre um lugar muito especial em mim pro resto da minha vida. Mas... Talvez não fosse um sentimento tão inquebrável assim, porque ele não foi o suficiente pra que eu não me apaixonasse por você. Ainda mais dessa maneira. — Dessa vez, Elena não pôde prender. Abraçou-o, forte, trazendo seu corpo para perto do dele até que sentisse que fundiriam um no outro. Damon fechou os olhos e encostou seu rosto do colo da menina, completamente inebriado pelo toque daquela pele gelada e fresca. — Esse é o melhor lugar do mundo. — Fechou os olhos, afundando seu rosto no local.
Elena riu em resposta.
— Queria poder virar a noite com você assim, mas não posso. — Ele a encarou, com uma cara de dúvida no rosto. — Se esqueceu que agora eu trabalho? Eu te contei, não foi?
— É contou. — Damon Respondeu desanimado.
— Não gosta que eu esteja trabalhando? — Elena percebeu o tom dele.
— Não, não é isso. Só fico preocupado. Você tendo que pegar essa estrada perigosa, de manhã e de noite. Se você acha que um moletom é capaz de espantar maníaco tá enganada. — A lembrança daquela saída de bar que tiveram a meses atrás o atingiu, formando um arrepio em sua nuca.
— Eu também não gosto. — Ela disse, sentindo-se sem opções. — Mas não tem nada que eu possa fazer, eu tenho que trabalhar. Tenho que ajudar a Rose com as contas. — Mentiu. Ainda certa em não contar a origem do salário de Marcel.
— Eu vou dá um jeito de você consegui sua carteira e aí te empresto o meu carro. O que acha?
Elena deu os ombros, sem muita animação.
— Só não sei como vai consegui liberar minha carteira. John a reteve.
— Não se preocupa, vou resolver isso. — Exclamou, com uma confiança que fez Elena sobressaltar-se por dentro. Pôde ver definitivamente que ele faria alguma coisa, o que era estranho já que ela quem costumava ter esses planos misteriosos no passado.
Capturados com os olhos um postos sobre o outro, Damon aproximou-se iniciando um beijo na qual ela não pôde negar. Ele rapidamente elevou a mão até a nuca de Elena para que pudesse guiá-la, sem muita pressa. Assim que as mãos dela se lançaram sobre o pescoço do rapaz a velocidade cresceu, tornando-se o bastante para um contorcimento abaixo de seus quadris. Ainda queria mais do que já tiveram. Elena sugeriu seu desejo ao movimentar suas mãos para dentro da calça que ele vestia, Damon sorriu entre o beijo posicionando-se em cima dela de imediato.
Ao sentir as pernas dela já enroladas na sua, ele desceu sua cabeça em direção à baixo, deixando rastros de beijos molhados pelo colo e pescoço de Elena, que já mantinha os olhos fechados e a respiração elevada. Como um presente para o momento, o fecho do sutiã se abria na frente. Ao colocar-se no meio dos seios, Damon mordeu o fecho que abriu em seguida provocando uma risada e, ao mesmo tempo, um grito de surpresa em Elena. A visão por baixo daquela peça não durou muito sobre seus olhos, pois logo os teve em seus lábios. Os lençóis já havia desprendido do sofá graças as mãos de Elena que os puxavam enquanto sussurrava algumas palavras de incetivo para ele. O tinha de volta e o tinha mais completo do que nunca.
Tentava controlar seus gemidos devido ao fato de haver crianças no apartamento ao lado, mas assim que os dedos dele começaram a lhe acariciar em cima do pano da única peça que lhe cobria, não conteve-se. Esbravejando em alto a primeira coisa que veio em sua mente:
— O que nós somos? — Gemeu ofegante.
Confundido com o som que chegou em seus ouvidos, Damon interrompeu o que fazia e a olhou com seu semblante contorcido. Mas que droga, Elena pensava de maneira repetida ainda com os olhos fechados e a mesma posição de antes. Mantinha a esperança de que ele esquecesse e voltasse a fazer o que estava fazendo.
Ao perceber que ele não iria, o olhou temendo pelo que encontrar. Damon não estava frustrado ou com raiva como sua mente imaginou, apenas ambíguo por não entender a razão daquele questionamento. Demonstrava tão pouco seu amor para ela ter tantas dúvidas?
Em silêncio e encabulada, voltou o fecho do sutiã para onde estava e Damon sentou-se saindo de cima de seu corpo.
— O que quer dizer? — Ele tomou coragem para falar alguma coisa.
— Nada, foi uma besteira. — Tentou explicar, sem muita articulação. — Foi a primeira coisa que passou na minha cabeça só isso.
— Tá. Mas o que quer dizer com isso? — Ele insistiu, demonstrando que continuaria até ela se pronunciar.
Elena suspirou derrotada.
— É que há alguns dias, eu tenho pensado. — Parou graças ao medo da incerteza. — Quando fomos pegos, você tinha acabado de me dá um anel e me pedido em casamento. Esse anel agora tá no meu antigo quarto, com o resto das minhas coisas que eu não pude levar. Mas eu quero saber sobre o pedido... Ele ainda vale? — Silêncio. Por ter soltado cada palavra voltada para o chão, Elena não tinha ideia do que ele iria dizer e estava cansada de adivinhar expressões. Havia parado pra pensar naquele detalhe ontem, sendo atormentada pelo resto das horas com aquela questão.
Prevendo que o orgulho dela não deixaria encará-lo, Damon apanhou aquele delicado rosto com uma das mãos e a fez mirá-lo.
— Elena, você aceitou aquele pedido? E quando eu pergunto isso eu quero saber se você aceitou porque queria e não só porque sentiu que tinha que fazer.
Em resposta, Elena agarrou com toda sua força aqueles punhos que ainda seguravam sua face.
— Como pode pensar isso. É claro que eu aceitei porque eu quis, Damon eu sempre quis me casar com você. Sempre. Sempre.
Ele sorriu, ainda lhe acariciando a face.
— Então tem sua resposta. — Disse, dando-lhe um beijo que calasse qualquer outra dúvida. Não demorou até que ganhassem ritmo outra vez, a felicidade pela confirmação de que nenhum empecilho foi capaz de destruir. Antes que fossem interrompidos outra vez por mais dúvidas, ele os separou sob um grunho protestante dela. — Tem mais alguma coisa que queira me perguntar?
Para Elena, sua única vontade naquele momento era continuar o que ambos estavam insistindo em adiar. Tinha o não na ponta de sua língua, sendo sequestrada pelo aposto.
— Pode falar. — Damon começou, percebendo que ela queria saber mais, só que uma hesitação a segurava.
Ela respirou profundamente, poderia ser outro assunto delicado.
— É sobre a Grace. — Aquela resposta o assustou, mas disfarçou. — Depois de tudo. Ela teve raiva de mim? Quer dizer, por minha culpa o filho dela foi pra cadeia, seria natural que ela tivesse. E também eu esperava que ela tentasse me procurar esses dias, mas não aconteceu. — Tentava se explicar, não queria ser indelicada com Damon e nem muito menos que ele se zangasse com a mãe outra vez, aquele era um momento na qual ele precisava de todo mundo que o amava para apoiá-lo.
— Eu juro que eu pensei que vocês tinham tido contato, porque das duas vezes que ela teve lá. Me falou de você, que tinha saído da casa dos seus pais.
— Provavelmente ela soube por fofocas. — Concluiu obvia. Seu nome agora era o assunto favorito da cidade, caso não fosse a ameaça de John em denunciar todos caso isso vazasse toda essa história já estaria em Nova York.
Damon concordava.
— Elena, eu não vou mentir pra você. — Sua voz saiu em tom decepcionado, aquilo foi amedrontador. Mas também a preparou. — Eu lembro que depois de toda aquela confusão com a Rose, ela nunca conseguiu gostar dela por isso. Na verdade eu não sei direito o que te responder.
Pensando de maneira clara, era obvio. Elena lembrou-se de quando contaram a verdade à Grace, ela foi precisa o suficiente para dizer que ajudaria mas que sempre ficaria ao lado de seu filho. E para Elena, Grace não estava errada. Com a mente em febre por essa dúvida, eles foram, finalmente, dormir.
—--x----
O assobio de uma canção qualquer em seus lábios foi interrompido, pela presença do carro branco encostado ao meio fio. Mal poderia sair para resolver uns problemas e a casa já tinha novidades nem tão agradáveis. Não iria esperar para estacionar seu veículo na garagem, resolveu pará-lo logo atrás do Prius branco e descer o mais rápido possível.
John sabia que aquele era o carro de Damon, na qual estava mofando na casa de Isobel junto com as coisas dele em seu quarto, que agora estavam no mesmo automóvel lotado por caixas. Havia também um guincho junto aquele Prius, mas sem alguém no banco do motorista.
A pressa para adentrar à casa para saber o que acontecia foi interrompida com a saída de Isobel junto à outro homem na qual John não reconheceu em primeira instância.
— Alguém pode me explicar o que tá acontecendo? — Não titubeou em querer apresentações ou formalidades.
— Vim buscar as coisas do Damon. — O homem simplesmente disse, em um tom tão calmo como o de alguém que respondia que horas eram. Continuou andando até o carro, abrindo a porta e colocando a caixa que estava em suas mãos lá dentro. — Aliás, já terminei. Essa foi a última caixa.
— E posso saber quem é você? — John colocou as mãos sob a porta, impedindo-o de fechar.
— Me chamo Alaric, sou amigo do Damon e vim buscar o que é dele.
John simulou uma risada.
— Lamento, mas isso tudo aqui pode conter provas contra ele no caso e precisará de apreensão policial. Portanto você não pode levar.
— E cadê esse mandato? — Perguntou em tom irônico, retirando a expressão vitoriosa do outro. — Eu não sou um ignorante, sei muito bem que precisa de um mandato de apreensão e sei que se existisse um, essas coisas já estariam na delegacia... Há não ser que você tenha o papel aqui e agora? Tem? — John não respondeu, apenas encarou o chão com os dentes aparentemente rangidos de raiva. — Bom, sendo assim... Eu vou indo. — Virou-se para Isobel. — A cama, poltrona, móveis em geral... Vão ter que ficar aí por um tempo, só vou levar o que é importante.
Sem saída, o advogado retirou suas mãos da porta dando um rápido soco de raiva no ar, enquanto Alaric já se dirigia ao guincho para ir-se.
— Diz pro seu amigo que ele tá mexendo com a pessoa errada. — Gritou, para o outro já dentro do carro. Alaric sabia que aquilo era mais do que uma ameaça e temia por Damon, o avisou até onde pôde. Mas não havia o que se fazer, aquela briga já estava comprada e temia que as chances de tudo ser destruído na vida dele fossem grandes.
Aquele homem não era um qualquer e o brilho de raiva que enxergava nos olhos dele provava o quanto obstinado estava e quando se tem dinheiro, poder e vontade as coisas se complicavam para quem contraria.
Deu a partida indo embora com a cabeça quente, amedrontado demasiado para quem havia acabado de vencer uma batalha.
—--x----
— Psiu... Psiu... Psiu... — Um sonoro chamado atingia seus ouvidos, dando o efeito perfeito para um filme de terror. Interrompeu seu andar e olhou para os lados na esperança de achar quem estava fazendo aquilo e também que não fosse com ele, apenas mais um cara tentando chamar a atenção de alguma mulher bonita. Mas não, não era.
A rua estava vazia e após girar a cabeça umas quatro vezes para todas as direções ao seu redor, encontrou o dono daquela voz. Para sua infelicidade era o último dos rostos que gostaria de ver durante nos próximos dias.
Escondido por atrás de uma lixeira, Damon balançava os braços tentando chamar sua atenção. Apesar do baque, pois deduziu que não o veria tão cedo, seu primeiro instinto era continuar caminhando, mas sabia que ele viria atrás, para estar ali em um beco esperando pelo momento que passaria... Era obvio que parecia ser urgente.
Correu até ele, antes que alguém os visse.
— Tá louco? — Sussurrou, ao chegar. — Sabe que pode ser perigoso que nos vejam juntos.
Por precaução, Damon abaixou-se impedindo que a preocupação de Marcus viesse a se tornar realidade.
— Preciso de um favor seu. — Ele também murmurava, o que era irônico sendo que nem mendigos havia ali.
— Descumprir uma lei te roubando um depoimento não foi suficiente pra você? — Sua vontade era gritar.
— Eu sei que você disse que não era pra mim te pedir mais nada. — Tentou se explicar, atrapalhando-se algumas vezes. Estava nervoso. — Só que preciso de um favor.
— ESQUECE. — Rebateu de imediato.
— Dá pra me ouvir pelo menos.
— Não. — Sua vontade era deixá-lo ali, mas a possibilidade de um dia Damon entregar o que fez, caso provocasse sua raiva, o mantinha hesitante.
— Só ouve, ok? — Ele juntou as mãos em forma de oração, como uma criança implorando para que Deus realizasse seu pedido.
Marcus o olhou piedoso, aquele era um amigo seu de longa data que de repente tinha a vida totalmente destruída, de um dia para o outro, sem contar que toda sua jornada nunca foi das mais encaminhadas e nem das mais sortudas. E nunca achou realmente que Damon merecesse tudo o que a vida lhe impôs, a mesma piedade que lhe abateu ao fazer o que fez voltou. Mas um medo ainda o impedia de dizer um sim totalmente claro.
— Dois minutos. — Foi tudo que seu orgulho conseguiu pronunciar.
Damon sorriu agradecido.
— A Elena está trabalhando em uma loja em Whitmore. — Resolveu ser direto, a expressão acelerada de Marcus denunciava sua pressa e tudo que não poderia fazer era aborrecê-lo. — E está sem carteira de motorista, o pai dela conseguiu reter. Preciso que consiga pra mim uma segunda via.
Incrédulo, Marcus demorou em responder na espera de que Damon estivesse mais uma vez caçoando consigo. Mas estava tão sério quanto o dia de seu pedido anterior. Olhou o amigo como se ele fosse um marciano.
— Damon... Como quer que eu faça algo assim? O que eu tenho haver com isso? Tá ficando maluco? — Não conseguiu controlar sua onda de perguntas.
— Marcus, você é policial. Consegue comprar uma carteira sem problemas ou falsificar uma.
Marcus riu irônico.
— Damon, você tem noção do que tá me pedindo? Tem noção do absurdo que tá saindo da sua boca?
Não tenho mais noção de nada, pensou ele.
— Marcus essa menina foi expulsa de casa praticamente e tudo por minha culpa. — Disse ele, com um ar pesado em sua voz. — E agora, todo dia ela tem que atravessar essa estrada perigosa de bicicleta se quiser ter o que comer. Uma pessoa que nunca passou dificuldade na vida tá vivendo o inferno por minha culpa, eu to te pedindo algo que dessa vez não é por mim. É por ela. Porque se acontecer alguma coisa com a Elena nessa estrada perigosa do jeito que é, você também vai ser um responsável.
Damon o encarou seriamente, esperando por uma resposta positiva vindo das expressões dele. Veio mais rápido do que imaginou, o policial parecia convencido embora não desejasse admitir. Jeremy havia conseguido cópias dos documentos de Elena escondido dos pais, estavam eles agora no bolso da calça de Damon esperando pelo sim de Marcus. Caso ocorresse, Elena ficaria com o carro de Rose e Rose com o de Damon, até porque o de Rose possuía vidros bem mais escuros que o seu e também queria evitar que alguém a visse dentro de seu Prius e mais fofocas ocorressem. Algo que tinha aprendido com Elena era aquilo, planejar.
— Promete que vai me deixar em paz depois disso? — Marcus perguntou, antes de dar sua confirmação.
—--x----
— Tem certeza? — John perguntou, mal conseguindo conter um sorriso em seu rosto.
Tyler mirou os papéis em suas mãos ainda confuso com o que acabara de ler. Embora não estivesse surpreso, afinal em nenhum momento esperava pela verdade.
— Tudo o que tá aqui é mentira. Quer dizer, algumas coisas sim... Mas de resto — Ele fez uma careta de enojado para aquelas linhas.
Tyler havia desmentido cada detalhe do depoimento de Elena, Damon e companhia como a intuição de John o alertou que aconteceria. Algum tipo de esquema havia sido montado para que as respostas estivessem tão parecidas, até porque sabia que Elena não havia mantido contato com Damon enquanto ele estava preso. Tinha que atacar com todas as suas armas agora, afinal suas provas eram poucas. Foi negligente, resolveu esperar para inspecionar as coisas de Damon e pedir um mandato de apreensão, tudo porque estava ocupado demais em pensar se sua filha voltaria para casa, agora essas coisas já não estavam mais com ele, se havia algo que incriminasse Damon, o próprio já havia se livrado naquele momento. Esperando que a mais velha fosse com ele para Nova York, Isobel não tirou as xérox necessárias do diário que provava que não sabia, apenas a necessária para que Giuseppe se informasse sobre a mentira de sua esposa e os ajudassem. E agora, o mesmo diário havia sido exterminado. Estava a ponto de perder e era necessário correr atrás do prejuízo.
O carro agora estava pequeno demais para sua mente, que crescia ao pensar nas possibilidades do que supostamente havia acontecido. Para sua sorte havia marcado com Tyler naquele estacionamento vazio de um supermercado abandonado da cidade, onde ao redor tinha espaço suficiente para seu cérebro caso seus neurônios resolvessem explodir.
— Como conseguiu esses papéis? — O mais novo perguntou, intervendo em suas suposições.
John demorou um pouco para aterrizar e respondê-lo.
— Sou advogado do caso, esqueceu? Tenho permissão. — Disse simplesmente, sendo interrompido novamente. Dessa vez por si próprio ao lembrar de um detalhe. — Tyler você tem como provar isso? Provar que esse depoimento é falso. — Seus dedos quase cruzaram-se em desespero, até porque ele próprio havia deletado suas mensagens com Isobel que provava que a mesma não sabia de nada sobre o envolvimento dos dois. Tudo para que sua esposa não descobrisse e a própria Isobel também havia feito o mesmo levando em conta o risco de um de seus filhos verem, já que sempre tiveram mania de revisar seu celular.
— Se está falando de emails e mensagem de texto tenho sim. Minhas com a Bonnie, antigas minhas com a Elena... Quando a gente tava planejando tudo e quando descobrimos todos sobre o caso dela com ele. Tenho tudo no celular ainda.
A esperança dentro de si brilhou tão forte, que John até mesmo fechou os olhos ao ouvir aquilo. Respirou profundamente enquanto sentia o resultado do placar marcando para seu time.
— Tyler, imprime essas mensagens pra mim o quanto antes. — Ordenou, sem parecer disposto em levar um não como resposta. — Também preciso que se prepare. Principalmente a sua comunicação.
O garoto o encarou confuso.
— E isso pra que? — Uma ruga formou em sua testa.
— Talvez precise do seu depoimento no tribunal.
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