Matemática Do Amor
6 - O quê?
Notas iniciais
Querido diário — 12 de fevereiro
Porcaria... Já é a terceira vez que minha mão câimbra. Odeio isso. Parece um que tem um monte de formigas em mim.
Mas também, pudera. Tem duas horas que estou sentada nessa cadeira, fazendo esse trabalho de matemática que o Senhor Salvatore mandou, e pra piorar, era impossível que Jeremy fizesse para mim. Afinal, o diabólico passou o mesmo trabalho para ele. A diferença era que Jeremy, assim como April, eram dois cdf’s sem amigos e vida social.
Agora, eu fico aqui me perguntando, como um ser humano pode ser tão lindo, e ao mesmo tempo tão malvado e chato. Odeio esse professor, eu deveria estar fazendo minhas unhas ou quem sabe uma hidratação caseira, mas tenho que terminar essa porcaria.
Planejei fazer isso ontem, mas minha mãe inventou de nos levar para ver o novo consultório de dentista dela aqui em Mystic Falls, que inauguraria amanhã de tarde. Não era sofisticado como o antigo em Manhattan, mas tinha que admitir que muito bonitinho e organizado. Foi engraçado, principalmente quando Jeremy paquerou a recepcionista que minha mãe contratou, Lexi; O fora que ela deu nele fez definitivamente a viajem valer a pena. Viajem no sentido figurado, afinal nessa cidade tudo ficava tão perto de tudo. Hoje de manhã fui a casa de Rebekah, para treinar a coreografia para as audições de lideres de torcida, os testes seriam em pouco tempo. Caroline veio aqui de tarde, logo depois que meu pai foi embora. Andamos de carro até às sete da noite. Ao menos eu tinha aprendido a andar por esse lugar sem me perder, se é que isso fosse possível. Ou seja, eu oficialmente conhecia a cidade, exceto pela segunda parte, que ficava após essa ponte chamada, ponte Wickery construída na inauguração de Mystic Falls, reformada varias vezes, bem ao limite da cidade. Caroline disse que nunca foi para o outro lado, que tinha medo por conta das lendas e historias de vampiros que seu pai contava a ela. Mas segundo sua mãe que era a xerife da cidade, não havia nada demais. Apenas algumas colinas desmatadas, uma igreja antiga em ruínas que fazia parte da propriedade da família Fell, uma das famílias fundadoras da cidade, um pequeno vale, um cemitério velho que foi fechado e substituído por outro em 2001 e também às antigas propriedades dos ancestrais dessas chamadas ‘’famílias fundadoras’’ que Rebekah disse ontem no intervalo que eu teria que estuda-las, afinal eram de extrema importância aprender aqui. (São uma espécie de realeza de Mystic Falls). Além é claro, da parte rural da cidade, onde ficava a mansão Salvatore, pais do professor idiota. Uma velha pensão, três sítios e enfim, a floresta na qual, segundo as fontes de Caroline, diziam ser assombrado.
Mas para falar a verdade, eu nem ligo para esse papo de floresta nem ao menos para o que tem nessa cidade. Só enrolei com isso tudo para poder adiar em ter que escrever sobre o que tanto me atormentou hoje: A visita do meu pai...
Começou tudo normal, ele veio, trouxe meu carro, me abraçou, abraçou meus irmãos, fomos ao Mystic Grill (o único restaurante/ barzinho/ lanchonete desse lugar) onde almoçamos e ele rezou um sermão de como sentia falta de nós três. Típico de John Gilbert. E me deu a noticia de que tinha dito à imprensa que eu, minha mãe e meus irmãos tínhamos nos mudado para a Rússia. Afinal, uma grande socialite de Nova Iorque morando em uma cidadezinha do interior... Faria a festa dos jornalistas
É estranho para mim adquirir esses sentimentos tão repentinos pelo meu pai. E sentimentos nada bons. Eu e ele sempre possuímos uma relação de causar inveja aos meus irmãos, daquelas de comercial de dia dos pais. Meu pai ama o Jeremy e ama a April, tanto quanto me ama, mas era como se fossemos almas gêmeas, sempre concordamos com tudo, sempre gostamos das mesmas coisas e tínhamos as mesmas manias de estralar o dedo e morder os lábios. Minha mãe costumava o acusar de ser a razão do meu temperamento mimado e etc. Só que agora tudo mudou, não consigo perdoa-lo de maneira nenhuma. Seria mais fácil perdoar alguém que usa sapato combinando com a bolsa do que ele.
Nem em um milhão de anos eu ficaria triste com ele ou minha mãe por estarem se divorciando. Claro, que todos os filhos querem os pais juntos, mas eu iria entender a decisão dos dois, se fosse para o melhor. Se duvidar, continuaria morando com ele em Nova Iorque, na nossa cobertura em Manhattan e visitaria minha mãe nos feriados, mas o que não passa na garganta, é o que ele fez. Não suporto traição, de nenhum lado, ou de ninguém. E ficar sabendo que ele e essa mulher mantinham esse caso durante um ano e meio não o ajudou a subir no meu conceito. Me imaginar morando com ele... Essa sirigaita... E para piorar, as duas filhas dela. Parecia ser mais enlouquecedor que morar em uma cidade pequena no interior da Virginia, tive que escolher. E Mystic Falls acabou sendo minha ‘’melhor escolha’’. E pro meu dia ''melhorar'' ainda mais, minha caneta rosa acabou.
Como disse no começo, estou sentada aqui há um pouco mais de duas horas, cansei dessa escrivaninha. Preciso jantar, almocei muito cedo hoje, com meu pai e por mais que a Rebekah more numa casa enorme, aquele lugar não tem praticamente nenhuma comida...
Quando finalmente fechou o caderninho e guardou na gavetinha anexa a mesa para ir finalmente jantar, Elena sentiu todo o peso da escrita em sua mão direita. A esquerda não formigava mais... Estranho. Havia vezes que ela escrevia muito mais e não sentia dor alguma. Estalou os dedos e desceu escada abaixo.
Na sala de jantar, Jeremy, atacava o prato de carne com batata como um astronauta voltando do espaço após só comer aquela comida nojenta por sei lá quanto tempo. April servia-se com mais arroz na sua normal delicadeza de sempre.
Elena teve o vislumbre de uns papeis em cima da cadeira que normalmente era de costume sua mãe se sentar, pareciam panfletos.
– Onde está mamãe, April? – Perguntou Elena, alegremente. Sentando- se na cadeira ao lado de sua irmã
– Na cozinha. Gritando no celular com alguém
Elena deduziu que seria seu pai reclamando do seu comportamento frio com ele mais cedo, mas sua conclusão foi totalmente interrompida por Jeremy cuspindo comida ao falar com a boca cheia.
– Ela vai alugar o quarto.
Alugar um quarto? Que quarto, pelo amor de deus?
De que diabos ele estava falando?
– Como é? Não entendi –Falou Elena, confusa largando o guardanapo na mesa – Como assim vai alugar um quarto? – Não obteve resposta. Apenas entreolhadas da parte dos caçulas – Jeremy? Responde. Como assim alugar um quarto? Que quarto?
As trêmulas gaguejadas ele, finalmente, respondeu. Largando os garfos e tentando limpar a boca
– Assim, Eu ainda... Eu ainda não se-i direi...
– FALA LOGO, JEREMY.
– ELA VAI ALUGAR, TÁ LEGAL – Gritou. Agora foi a vez de ele interrompê-la. Com raiva. O jeito como Elena costumava tratar o mundo como se girasse ao redor dela, estava se tornando tema de muitas brigas familiares. – O quarto acoplado na cozinha. Ela vai alugar pra alguém. Satisfeita, agora?
Ninguém disse nada depois disso. April adiantou-se e tapou os ouvidos na tentativa de protegê-los do grito que Elena soltaria brevemente, Jeremy fez o mesmo. Eles conheciam a personalidade da irmã mais velha o suficiente para saber o que ela faria. Elena olhava um ponto da mesa com os olhos arregalados num choque inacreditável. Não podia acreditar nisso, e não iria aceitar. Droga, droga, droga, droga. Que diabos ela ta pensando em fazer dessa vez.
Precisava tirar aquele ódio de seu corpo, só havia uma maneira. A maneira com que Elena mais estava acostumada. Molhou a garganta e hesitou em fechar os olhos, mas quando os fechou tudo saiu no mesmo segundo. Dessa vez sem um intervalo de tempo.
–MANHÊEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE... AAAAAAAAAHHHHHHHH
Quando finalmente parou, encontrou a figura de sua mãe vinda correndo da cozinha com o telefone na mão. A expressão de Isobel era de surpresa, preocupação. Deveria ter ocorrido algo serio para um grito daqueles, mas... O que? Tudo parecia normal.
– O que foi Elena? Quer me matar?
– QUERO. Quero muito, acredite. – Dizia ela revoltante. Dessa vez Elena estava de pé. Andando lentamente na direção de Isobel. Fechou os olhos mais uma vez e levantou as mãos até suas tamparas, antes de continuar a falar. Ou melhor, a gritar. – QUE HISTÓRIA É ESSA DE ALUGAR O QUARTO DO ANDAR DE BAIXO.
– Elena, meu amor... – Articulou sua mãe com serenidade. Na tentativa de conter a agitação da filha, ela gesticulava com os braços para que Elena se acalmasse; Era como um adestrador tentando abrandar um leão. Só que nesse caso, ela sabia que não possuía chance. – Eu posso explicar. Por favor, Lena. Calma.
–Presta atenção, eu to tentando. Tentando de verdade, me adaptar a esse fim de mundo – Dessa vez, ela não gritava, mas dava ênfase a tudo que falava. A raiva ainda estava muito presente em sua voz. – Mas eu vou me sentar nessa cadeira e quero que você me explique direitinho que diabos está acontecendo aqui, e que droga você anda tomando.
Dito e feito, a morena sentou-se ao seu antigo lugar e abaixou a cabeça na mesa de carvalho, não poderia fitar Isobel sem poder dizer ao seu cérebro para não arrancar a cabeça dela. Seus irmãos estavam quietos, estáticos. Jeremy ainda com comida pelos cantos da boca e April com os olhos azuis arregalados olhando para baixo. Normalmente quando Elena se exaltava era assim, ninguém poderia interromper. Isso se não quisesse ser mais uma vitima de sua fúria, e ser vitima de uma patricinha mimada no meio de um de seus ataques, não era bom. A mesma murmurou num tom quase inexistente as palavras ‘’ comece’’, esperando até que Isobel prosseguisse. Assim fez ela, sentando-se e tentando explicar na sua dócil calmaria e delicadeza, na qual April herdara. Enquanto uma cachoeira caia no rosto daquela mãe.
– Desde que nós mudamos você me perguntou várias vezes o porquê de vimos pra um lugar tão... Tão pequeno e simples como esse. A verdade é que, quando eu descobrir sobre seu pai e a Miranda, eu fiquei sem chão. Estávamos juntos a mais de vinte anos e, é difícil ter coragem de encerrar, de colocar um ponto final em tudo. Quando você tiver seus filhos e seu casamento, quem saiba você possa entender melhor do que eu to falando – As mãos longas de Isobel tentavam acalcar os dedos de sua filha a todo custo, e quando finalmente conseguira. A mãe as acariciou com cuidado as costas debruçadas de Elena, que continuava com a cabeça abaixada– Mais eu queria fugir, queria sair de Nova Iorque. Pra um lugar totalmente diferente, onde eu pudesse simplesmente esquecer tudo isso. Então o marido de uma amiga minha disse que era daqui e... Ele me contou que era um bom lugar para relaxar e criar os filhos, onde não tinha bandidos, todos se conhecem. E onde eu poderia... Onde poderia simplesmente... Ter paz. Entende?
A culpa pelo egoísmo invadiu o corpo de Elena como caminhões em uma parede de concreto podre. Derrubara qualquer vestígio de raiva que ela ainda possuía. Levantou a cabeça e assentiu para a mulher ao seu lado como sinal de que a entendia. Normalmente Elena não era tão compreensiva e dócil, pelo contrario, ela era selvagem, mimada e tudo tinha que ser do seu jeito, senão não havia como discutir, sempre era sua vontade que prevalecia. Mas aquele assunto era complicado para Elena, falar de seu pai e da felicidade que sua mãe merecia depois daquela traição horrível, era seu ponto fraco, isso e a ideia de pensar em seus cabelos com pontas duplas. Apesar de que ela ainda não podia ceder, não por orgulho. Mas sim, porque não encontrava sentido para aquilo.
– E o que isso tem haver com alugar o quarto? – Perguntou ela com calma
– Elena, em tão pouco tempo eu tive que me desdobrar em duas para conseguir essa casa, linda, mobilhada, confortável. Transferir meu consultório de dentista para cá... Foi uma loucura, não sei como eu não enlouqueci. Amanhã é a inauguração, eu to feliz. – Com aqueles olhos brilhantes e fixos nelas, Elena pode ver que era verdade. O modo como ela apertava suas mãos, sem a machucar provava a confiança que tinha em si mesma naquele momento. Agora ela não falava mais com serenidade e cal Meira, e sim entusiasmo. Felicidade. – Vocês sempre foram acostumados a viver com extremo luxo, e espero que seja assim pra sempre. Não se preocupem, não estamos pobres nem ao menos passando necessidade. Para falar a verdade, não estamos nem próximos disso, mas pensem comigo; Teremos dinheiro extra, e enquanto vocês não trabalham alguém poderá me ajudar a pagar as contas. Nossas condições serão iguais como eram em Nova Iorque.
Elena se limitou a olhar para a mãe, de novo. Estava constrangida demais para se dar por vencida. Só deu um sorriso fraco e, finalmente, apanhou a mão de Isobel com força, depositando um beijo, não estou de batom então não borraria minha boca. Nessa hora ela tentava mais que tudo se controlar e Isobel pode ver isso no tom estranhamente angelical e hesitante de sua voz.
– Mas tem certeza? Colocar um estranho pra morar aqui com agente... E se for algum ladrão, um tarado, ou sei lá. Mãe, você tem realmente lucidez disso que tá fazendo? Se sumir algum sapato meu ou minhas maquiagens eu vou...
– Elena, nós não estamos mais em Nova Iorque. É Mystic Falls. Nada de ruim acontece por aqui. – Entoou Isobel em sarcasmo e a abraçou forte.
Não soltou.
Foi imitada logo depois por April que comovida pelo momento também se juntou a elas no abraço.
– Ai, eu também quero... – Disse a caçula rindo
– Pode vir – Falou Elena abafando a voz no ombro de Isobel – Mas se bagunçar ou tocar no meu cabelo perde a mão. Já vou avisando.
Jeremy rolou os olhos e voltou a atacar sua comida enquanto lia o papel que antes estava jogado numa cadeira, que chamou atenção de Elena logo que desceu para o jantar, levando em conta a mania de limpeza que Isobel tinha. Ela deduziu que aquilo seriam provavelmente os panfletos anunciando o quarto.
Nossa, ela foi rápida.
Antes que pudesse pensar em se soltar daqueles braços Elena somente se calou e fechou os olhos. Essa batalha ela havia perdido, pelo visto em pouco tempo haveria um novo morador em sua casa.
UM DIA DEPOIS...
– Já disse Ric, a resposta é não. De novo. – Respondeu Damon, já cansado de repetir aquelas mesmas palavras ao melhor amigo. Mas Alaric poderia ser muito irritante quando lhe convinha.
Estavam os dois novamente na sala dos professores, o período havia acabado em menos de dez minutos. A barulheira no estacionamento do colégio, e dentro dele, ficava cada vez menor, para o alivio dos mestres.
– Qual é Damon – Depois de uma pausa, ele continuou – Para de ser tão orgulhoso. Meredith gosta de você. Ela mesma disse que não teria problemas contigo morando lá por uns dias.
A janela da sala dava diretamente para o estacionamento, havia poucos alunos até agora. A maioria provavelmente teria ido ao Grill, para assistir a briga de Tyler Lockwood contra Chez Louis, tudo por conta de Chez não ter lhe passado cola em Química hoje, típico da professora Hutton, passar provas surpresa nos primeiros dias de aula. Tyler era tão estúpido quanto o irmão mais velho.
Por falar em Mason, o idiota havia lhe ligado duas vezes essa manhã para perguntar quando ele sairia do apartamento. Uma das vezes agora, há uns quinze minutos. O que fez Ric voltar ao tópico dessa ideia maluca dele ir morar com ele em sua casa.
– Já disse Ric. A resposta ainda é não – Falou Damon rindo enquanto olhava pela janela. Elena Gilbert e Bonnie Bennett eram as únicas ainda no estacionamento – Cansei de viver por conta dos amigos. Sabe quem eu to parecendo?... O carinha irmão do Charlie Sheen, naquele seriado. Só que numa versão mais bonita, lógico.
Alaric se viu farto do silêncio que estabeleceu na sala. Por mais que o argumento de Damon fosse bom, ele ainda estava disposto a ajuda-lo. Damon não encontrou nada. E nem encontraria. Numa cidade como essa onde ninguém quase nunca entra e ninguém quase nunca sai. Era impossível, a não ser que procurasse por algo na parte rural de Mystic Falls, ou naquelas casas distintas um pouco antes da ponte Wickery e do córrego Drowning, na Old Creek Road, mas ficava muito longe do trabalho e do centro. Mystic Falls já não possuía muitos patrimônios, e ficar afastado do pouco que tinha não era uma opção muito valida.
– Damon! – Chamou Ric, tentaria convencê-lo pela ultima vez. Se não desse certo, desistiria. – Damon, você tá me ouvindo? – A voz era alta e grave. Mas era como se ele não escutasse – Damon o que você tanto olha nessa janela, heim?
Rigidamente ele levantou-se e caminhou até a janela, apoiando fortemente no para peito. Não havia nada, só duas alunas, Elena Gilbert e Bonnie Bennett conversando em frente a um Prius branco.
Ric teve de olhar duas vezes antes de confirmar aos seus olhos que era isso que Damon vigiava com tanta atenção.
– Porque tá olhando as alunas, Damon?
– Não estou olhando as alunas, seu besta – Disse ele ríspido – E sim, meu carro. E se essa briga for só pra me distrai e depois esses pestes arruinarem com ele?
– Esse é o preço por ser o professor mais odiado do colégio. – Comentou Alaric como se fosse obvio. Mas depois, como se quisesse mudar de assunto, prosseguiu: – O que vai fazer mais tarde?
O impacto de alguma lembrança atingiu a cabeça de Damon fortemente, demorou alguns segundos para que ele enfim percebesse e começasse a reclamar em voz baixa.
– Ai merda, merda, merda. Droga, droga.
Afastou-se da janela o mais rápido que pode e recolheu suas coisas da enorme mesa no centro da sala. Como ele havia esquecido?
– O que foi maluco? – Perguntou o amigo atordoado. Devido à pressa exaltante de Damon.
– Marquei uma consulta nesse novo dentista da cidade em quinze minutos. Inaugurou hoje, olha que sorte. Vou me atrasar. Tchau. – Ele apanhou a maleta e se virou para sair.
– Mas Damon, você ainda não me respondeu se...
– A resposta ainda é não. Tchau, Ric.
– Mas Damon...
Tarde demais. Damon já dava a macha em seu carro em direção ao consultório no centro da cidade. Ainda era cedo e as ruas estavam desertas, como em todos os dias. Poderia andar a 80 quilômetros por hora sem o menor problema nesse horário. Mystic Falls era uma daquelas cidades paradas ao tempo, onde pais trabalhavam dia a dia, normalmente na prefeitura, fabricas ou pedreiras. As mães cuidavam da casa e dos filhos... E os filhos. Alguns fumavam maconha em seus quartos e outros afundavam a cabeça nos livros, mas todos ainda se esforçavam ao Maximo para manter as aparências.
Quando notou que já estava chegando a seu destino final, diminuiu a velocidade e estacionou o prius em frente ao pequeno prédio na Fell's Street. E adentrou na recepção.
Parecia ser menor por fora, pensou Damon. Essa é como qualquer outra recepção de dentista. Branco, limpo, bem organizado. O balcão de mármore ocupava a maior parte do espaço, com um computador e papeis por todo ele. Atrás sentava uma bela loira que o olhou de cima a baixo, assim que ele passou pela porta. Havia também um sofá novamente em tons claro e banquinhos cor de creme com revistas de fofoca distribuídas pela mesa de centro; E um pequeno bebedouro no meio da porta dos banheiros feminino e masculino. Existia outra porta, ao fundo, na qual Damon deduziu ser provavelmente o consultório. Sentou- se e esperou.
Levaria mais tempo para ser atendido do que imaginou. Passaram-se um, dois, três... dez minutos e nada. Só tinha ele ali! Porque demorava tanto? Resolveu ler algo.
Uma revista
Tudo que ele não esperava era familiarizar-se com uma modelo em algumas das capas. Estava vestida com um pequenino biquíni de estampa de animal em oncinha. O cabelo em penteado estilo leoa e a maquiagem forte acompanhada do batom vermelho. A manchete gritava em letras grandes:
SOCIALITE VIRA SUCESSO ENTRE AS ADOLESCENTES... MAIS UMA DESCOBERTA DA INTERNET.
A fama dessa garota era talvez um pouco maior do que ele subestimava que fosse. Damon não era muito ‘’ligado’’ em redes sociais ou vida das estrelas. A única coisa que ele tinha conhecimento era matemática e Uísque. Já havia visto ela algumas vezes em comerciais de roupas, mas foi só até ai. Quando o diretor do colégio avisou que teriam uma espécie de celebridade estudando na escola, sua primeira reação foi rir por dentro. E rir desesperadamente.
O que uma pessoa de tal status, fama, dinheiro, poder, e a provar pela foto, e pelo que viu pessoalmente, MUITA BELEZA, (a garota parecia uma daquelas top models na saída de um anuncio, de tão linda que é) O que gente assim vem fazer aqui em Mystic Falls? Pensou ele, Talvez a família tenha falido ou algum deles tornou-se fugitivo da policia. Seja o que for ele não ocuparia sua mente em descobrir o motivo de uma patricinha vir a morar em sua cidade. Mas que era estranho, isso era.
– A doutora Flemming já vai te atender – Disse a loira com as bochechas coradas e voz tímida.
– Ah, sim. Eu espero.
Damon endireitou o corpo calmamente, e mandou uma piscadela com indiferença para a loira. Só para vê se ela parava de encará-lo daquela maneira promiscua. Não que a moça não fosse bonita, ou que ele não gostasse de garotas. Não era isso. Era só que Rose ainda estava muito presente e, ele iria esperar por sua volta. Por mais que a raiva por sua fuga estivesse tão forte dentro de si, e a sede de vingança de sair por ai bebendo e dormindo com a primeira mulher que visse pela frente (que foi o que ele fez quando descobriu que ela havia fugido), fosse maior. Não havia como negar que Rose era a mulher de sua vida, e Damon não poderia fugir disso, mesmo se quisesse. E ele não queria.
Passaram-se alguns minutos até que então a Doutora estivesse pronta para atendê-lo. Já havia um tempo desde a última vez que Damon tinha ido ao dentista, afinal seus dentes eram ótimos, nunca precisou de aparelhos ou coisas do tipo.
Esperava encontrar um homem velho e rabugento com uma enorme agulha na mão, e quando para sua surpresa ele descobriu que se tratava de uma doutora, o que era raro levando em conta que eram poucas as senhoras que trabalhavam em Mystic Falls. Imaginou assim que se tratava, novamente, de uma mulher velha e rabugenta com uma enorme agulha na mão.
Não é a toa que seu forte são os números, sua criatividade não era das melhores.
Mas ao invés disso, se deparou com uma moça jovem e bonita, por volta de uns 37 anos. De porte magro, olhos azuis, como os dele, e cabelos bem pretos, como os dele também, só que diferentes dos de Damon, os de Isobel chegavam até a metade dos ombros, e agora se mantinham presos num alto coque. Na sua mão não havia uma seringa, e sim um telefone celular que foi desligado assim que Damon adentrou na sala.
– Desculpe a demora – Falou a dentista guardando o aparelho de volta na bolsa. Em seu tom de voz, Damon rapidamente pôde perceber que ela estava estressada com alguma coisa. Jazia avoada, com a mente muito longe dali.
– Não, tudo bem. Eu também cheguei atrasado e não demorou muito...
Mentiu.
– Que ótimo. – Suspirou olhando em sua ficha de cliente. – Você deve ser Damon. Damon Salvatore. É um prazer, sou Isobel Flemming.
– Ah, sim. O prazer é todo meu.
E toda aquela força que ela fez ao apertarem as mãos, deixou sua hipótese ainda mais em evidencia. Só esperava que ela não descontasse toda aquela frustração em seus dentes.
– Me desculpe mesmo, pela minha maldita demora – Disse Isobel, sem fôlego. – Nunca pensei que alugar um quarto poderia ser tão cansativo...
A expressão de Damon se retorceu ao ouvir aquelas palavras.
– Alugar um quarto? Você tá alugando... Um
– Sim alugar um quarto – Falou ela o interrompendo apressadamente. Caminhou até o fundo da sala e tirou uma luva do armário e pôs em suas mãos – É estressante... E o jornal dessa cidade não colabora pra colocar meu anuncio. Onde já se viu, é mais de cinquenta dólares. Não que eu não tenha dinheiro, só que ainda sim é um absurdo, não acha?
– Ah sim. Definitivamente. – Disse ele atordoado.
Isobel andava de um lado para o outro. Ia até seu armário pegava o equipamento necessário e arrumava as coisas tão apressadamente que até assustava. Ao tentar colocar a pequena toca azul esverdeada para bloquear os fios cabelos, deixou sua presilha cair.
– Droga – Gritou ela. Assustando Damon com toda sua fúria. Percebendo isso ela coloca os cabelos por trás da orelha e o olha tristemente, como se quisesse provar que não estava enlouquecendo por completo – Me desculpa, desculpa. É que eu to nervosa, se ao menos eu soubesse de alguém que se interessasse. Se ao menos eu conhecesse alguém nesse lugar. – Quando finalmente ela abaixou para apanhar o prendedor, Damon pôde ver lágrimas nos olhos da mulher. – Desculpa – Disse ela novamente, dessa vez chorando. – É que eu passei por tanta coisa recentemente. Mudança, traição, divórcio, ex-marido morando com a ex-amante na minha antiga casa... É muito pra uma pessoa só. Entende? Você me entende?...
Damon ainda atordoado assentiu em confusão. Essa mulher só podia ser uma desequilibrada, mas ele precisava saber sobre esse tal ‘’ quarto’’. Então faria o que tivesse que fazer.
Sem se importar com o fato de nem conhecê-la, ele a abraçou e a deixou chorar em seus ombros. Pelo desespero que o choro caia em suas roupas ele logo mudou de ideia. Em outras circunstancias ou até alguns segundos, atrás antes dela encharcar suas roupas, ele imploraria por esse quarto, mas agora ele tinha mais que certeza de que ela era mentalmente perturbada e o que ele menos queria era morar com alguém assim.
Quando ela se afastou, ainda falava. Bem emotiva.
– Eu não sou uma má profissional. Olha meu diploma na parede. Terceira melhor dentista de Nova Iorque – E quando Damon girou o rosto para olhar, ali estava na parede a direita um pequeno quadro do ministério da saúde de NY. Nas mãos de Isobel agora se encontrava um pequeno lenço – Ganhei esse prêmio ano passado, não sou maluca acredita em mim. É só que eu to estressada, ao menos se eu conseguisse logo alugar essa droga desse quarto eu não ficaria assim, eu não teria mais preocupações, ficaria normal. Como eu sempre sou, eu juro sou normal. Eu juro. Juro de verdade.
Damon respirou fundo e voltou a abraça-la. Não acreditava no que ia fazer, mas sentiu que de algum modo tinha que fazer isso. Por mais que a mulher não parecesse ser totalmente sã e consciente nesse momento; ela parecia frágil e de algum modo ele pensou no destino. Em que mundo um homem quase sem teto, perto de morar na rua, vai ao dentista e encontra uma profissional emocionalmente exausta com um quarto extra em sua casa para alugar? Aquilo não poderia ser só conhecidência.
A fé nunca fora o ponto forte de sua personalidade. Já fazia anos que Stefan foi expulso de casa, e Damon sempre foi muito apegado ao irmão, até hoje sentia uma falta inexplicável dele. Daquele dia em diante, há cinco anos, ele havia deixado de acreditar em qualquer tipo de sorte, destino ou milagres que a vida poderia lhe proporcionar. Mas aquilo era simplesmente inacreditável. Qualquer outra conhecidência era pequena demais se for comparar ao que estava bem na sua frente. Eu sou mesmo um bastardo de sorte, concluiu ele. E realmente era verdade. Seria sorte demais para quem sempre foi um azarão? Esse quarto deve ser um lixo, formulou sua mente, afinal o acaso poucas vezes cruzou com ele desse jeito, e lhe trouxe coisas boas... Quem sabe Deus resolveu lhe dar uma folga, ou apenas, testar a sua fé. Se é que ele possuía fé.
De qualquer forma, ele devia um bem grande para o destino.
Tirou novamente o rosto dela de seu peito e a olhou profundamente.
Não acredito que vou fazer isso. Essa mulher é altamente maluca, mas... Eu não tenho escolha
– E se... Eu conhecesse alguém que possa te ajudar, você gostaria?
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