Matemática Do Amor
21 - Nosso domingo. Parte 1.
Notas iniciais
Domingo. Sem nada pra corrigir, sem nada relacionado a trabalho. Só descanso. Aproveitaria para sossegar bastante, afinal, amanhã teria muita coisa pra fazer. As atividades para a semana dos fundadores sempre atrasava tudo.
Mas com o descanso também vinha o tédio, a solidão. Isso sempre acontecia aos domingos. Ainda mais sem a Rose. Sem ela, conseguia ser pior. Lembrou-se do dia que conheceu essa casa e sua atenção inteira foi voltada para a lareira da sala. Aquela vontade enorme de acender o fogo com uma manta e uma taça de vinho.
Mas não posso beber...
... Elena
O vinho do jantar com Elena. Era sem álcool. Isobel havia comentado essa manhã que passaria a tarde fora com os filhos para ir à igreja, só voltaria de noite. As missas da família Fell eram enormes, ainda mais em semana da comemoração dos fundadores. Eles eram de família fundadora. Podem ser religiosos, mas ainda sim adoram se gabar pelo feito.
Pegou sua manta e calçou os chinelos. Estava com uma calça de moletom marrom claro, uma regata preta e meias brancas. Típica roupa para um domingo em casa. Ainda eram cinco e quinze da tarde, se visse um filme agora acabaria por volta das sete e meia, dependendo do filme oito horas. Daria tempo.
Foi até a cozinha e pegou uma taça e o restante que sobrou do vinho do jantar com Elena. Não sabia se ainda estava bom, mas ainda sim era melhor que beber álcool nesse momento.
A sala estava vazia e silenciosa, as luzes se mantinham acesa. Colocou os travesseiros em cima do sofá e arrumou o cobertor para forrar chão, se cobriria com a manta. O controle da TV estava exposto em cima da mesa de centro, mas o que acendia a lareira, nem sinal. Ficava pouco na sala, aquela era a primeira vez que vinha aqui para assistir televisão e relaxar, era tudo sempre centrado em seu quarto. Não tinha ideia de onde esse controle poderia estar e não havia ninguém ali para perguntar, a casa inteira estava em silêncio; Ao menos até alguns segundos atrás. O barulho de saltos altos ecoando na escada o fez parar e saber o que estava acontecendo. Era Elena. No inicio ele estranhou o fato dela não estar junto com a mãe e os irmãos, só que logo entendeu. Ela não parecia ser o tipo de pessoal que frequentava uma igreja.
— O que tá fazendo aqui? – Perguntou ele controlando a voz. Ainda tinha que fingir ser legal – Pensei que vocês tivessem ido à igreja pra missa semanal.
— Eles foram. Eu não... – Afirmou Elena bem humorada o fazendo sorrir. Terminou as escadas por completo e olhou em volta. – O que é tudo isso? Vai acampar aqui?
— Infelizmente não. Achei que tava sozinho... E queria fazer um programinha de solitário. Vinho, lareira, cobertor e um filme do Bruce Willis. O básico.
— Entendi – Ela parecia mais feliz do que o normal, deveria ter algum motivo. – E eu atrapalho seu programa de solitário?
Ironicamente, Damon respondeu:
— Se você ficar vai, e muito. Afinal, com você aqui, eu não seria mais um solitário e sim um homem acompanhado, então... É contra as regras da solidão, desculpa.
— Então quer dizer que – Se aproximou ficando na frente dele. Ela parecia ter entrado na brincadeira. – Além de eu estar atrapalhando o domingo sozinho de um solitário eu também vou ter que ficar aqui e acabar com o vinho que sobrou. Porque o que tem nessa garrafa só da pra um – Em lógica, Elena apontou para a garrafa e Damon rapidamente olhou o recipiente em cima da mesa. Não era suficiente para dois. – Puxar o cobertor dele e reclamar pelos tiroteios e batidas de carro do filme de ação que você logicamente, como todo bom solitário vai querer assistir e ainda te obrigar a trocar por um clássico filme de romance sulista do Nicholas Sparks... Está mesmo disposto a isso, professor?
Ainda sem vontade de parar a diversão, Damon franziu a testa e colocou a mão no queixo, fingindo pensar. Elena poderia ser divertida. Sabia que tinha alunos divertidos, mas nunca se deixou nem ao menos trocar duas palavras fora da sala de aula que seja. Só que ela era diferente por um motivo: Aquilo não era real. Apenas queria que ela pensasse que ganharia benefícios por essa nova amizade. Ela estava sendo legal, nenhum aluno era legal com ele, a não ser por interesse. Ou seja, estava o fazendo de bobo e levando isso a novos extremos. Mas ainda sim não significava que ela não era divertida. Era impossível alguém manter uma mascara durante 24 horas por dia. Então porque não aproveitar a ‘’amizade’’ dela?
Afinal, Elena não era a pior companhia do mundo.
Respondeu ainda mantendo o sarcasmo:
— Bom, eu não quero correr o risco de assistir Nicholas Sparks, então acho que você vai ter que ir embora. Mas... Se você for, aí vai ser dois solitários em uma casa e seria muito depressivo, não acha?
— Um já é depressivo o suficiente, é melhor eu ficar. – Concordou Elena sorrindo em malandragem.
Damon achou melhor que ela pegasse outro cobertor. Não seria boa a ideia de dividirem uma manta juntos. Voltou com um de onça felpudo bem ao estilo patricinha e perua. Por algum motivo aquilo o fez rir, nem ao menos o cobertor dela escapava. O controle da lareira estava em uma gaveta de uma penteadeira na sala. Deixou o fogo baixo, não muito exagerado, sem que precisem desligar o aquecedor da casa. Na qual ele não fazia ideia de onde ficava, e ela provavelmente também não. Elena saiu novamente para pegar mais vinho e uma taça para si. Quando voltou, não estava com aquela expressão brincalhona de antes, parecia seria e nervosa. Deveria estar intimidada com a sua presença. Querendo ou não, os dois ainda eram professor e aluno e isso era estranho. Mas porque ela ainda tá aqui? Porque fazer tudo isso por uma nota boa? Ela não é burra na minha matéria.
Deu espaço para ela sentar e calmamente ela se pôs ao seu lado no chão cobertos pelas lãs de seu cobertor verde escuro. Virou e apanhou um travesseiro para por em cima de sua perna exposta pela saia rosa.
— Elena porque não troca de roupa? É domingo, você tá em casa... Vai, eu te espero.
— Não, não precisa – Contestou dando os ombros – Eu to bem assim. Serio.
— Elena. Você tá de saia, salto e blusa que mau cobre sua barriga direito. – Falava como se fosse um conselheiro. Compreensivo, dócil e preocupado. Achou sua atitude estranha, mas era um absurdo ver aquilo. Tem pessoas que se preocupam demais com as aparências que ficam paranoicas. Devia ser triste. – Vamos fazer assim: Você sobe, põe uma roupa bem confortável e enquanto isso eu vou colocando o filme no DVD. Pronto. O que acha?
Elena persistiu mais um pouco, só que ao fim acabou cedendo.
— Eu não tava mentindo sobre assistir Nicholas Sparks – Gargalhou ela se aproximando da estante de madeira ao fundo da casa. Damon jogou a cabeça para trás e bufou alto. Se ela quisesse assistir Querido John ele enfiaria uma faca no seu peito. – O que prefere... Diário de uma paixão, Amor para recordar ou Um porto seguro?
— O menos pior seria... Um porto seguro?
— Ah, não esse não – Gemeu ela em nojo. – Só sugerir porque tem aqui. Qualquer um menos esse.
— Pensei que você gostasse dos filmes do Nicholas Sparks.
— Quem gosta é a April, mas a gente vai ver porque eu quero te irritar. Menos um porto seguro.
— E você não quer ver esse filme por quê?... – Perguntou confuso esperando que ela o completasse.
— Por que... É que... – Gaguejou hesitante. Quando finalmente disse, explodiu em uma raiva que fez Damon segurar seu riso. – EU SIMPLESMENTE ODEIO A JULIANNE HOUGH. ELA É UMA VACA. VACA QUE ME ODEIA, SIMPLESMENTE POR SER UMA RIDÍCULA INVEJOSA E NÃO ACEITA QUE EU... – Pausou sua fala ao perceber que estava falando demais. Acalmou-se observando Damon, que parecia estar mantendo um gargalhar preso em seus lábios. – Porque tá rindo?
Ainda com os lábios trêmulos por segurar o riso, Damon respondeu tentando não se deixar levar pela graça da cena.
— É que... Desculpa. – Tentou manter-se sério de início, mas acabou rindo no meio de sua frase.. – É que você fica vermelha quando está nervosa. É engraçado só isso. – Jogou a mãos por cima de seu rosto e depois em seus cabelos, levemente desarrumados – Mais me fala porque você a odeia tanto?
— Aquela vadia ousou em dizer que meu cabelo não é liso natural. Tudo isso porque a L’Oréal Paris preferiu contratar a mim como garota propaganda ao invés dela. Invejosa isso que ela é.
Jovens. Damon refletiu em deboche.
— Escolhe logo um filme e vai se trocar, Elena. – Suspirou ainda rindo. Se todas as garotas de Nova Iorque fossem assim seu irmão tinha sorte por ser gay.
— Como se você ainda não me disse qual prefere? Anda.
— Tem algo contra a Rachel McAdams?
— Não, eu acho ela linda. – Disse Elena sorrindo.
— Então ficamos com Diário de uma paixão. Feliz?
Ela sorriu em silencio e virou-se para alcançar a pequena caixa de papelão amarela de April em cima da estante. A altura da localização da caixa e o esforço que ela fazia para obter a elevação necessária fez com que sua saia, já curta, subisse ainda mais. Foi quando se deparou com aquela pele cor de oliva, delicada e suave de sua coxa; Ele não conseguia parar de olhar. Seus olhos, antes azuis, a esse ponto deveria estar vermelho de luxuria. Ela esticou-se ainda mais levando outra parte da saia junto. As pernas longas e grossas agora estavam quase que por completas em suas vistas. Agarrou os dedos ao travesseiro jogando ao seu lado com a maior força que conhecia em seu corpo. Deveria levantar e ajuda-la ou ao menos parar de olhar, mas não conseguia desviar. Não conseguia nem ao menos se mexer.
Imaginou, por um segundo, sua mão tocando aquela pele e...
— Consegui. – Gritou Elena animada o fazendo despertar. Desviou os olhos e os voltou para o chão. Conseguiu se controlar na vez do Babydoll e do espartilho, mas agora havia sido complicado. Talvez fossem a proximidade dos dois ultimamente. Mesmo que fosse falsa, ainda sim era uma proximidade. – Pronto. Aqui. – Entregou o filme para ele e depois Damon desviou os olhos dela de novo. Olhando dessa vez Rachel e Ryan Gosling molhados se beijando na chuva na capa do DVD.
Lembrou-se de Rachel em meninas malvadas como Regina George. Era divertido apelidar Elena daquele jeito. Ligou o aparelho e a esperou voltar.
Ela desceu silenciosa vestindo um robe de seda preto um pouco acima do joelho. Não entendeu o porquê dela estar vestindo assim em primeiro lugar. Olhou confusamente e apanhou o controle do aparelho retirando do pause.
— Porque não pôs um pijama, Elena?
— Deixar com que outra pessoa me veja desarrumada é humilhante. Não posso. Prefiro morrer.
Disse ela sentando-se.
— Você é maluca. – Sorriu servindo-se de mais um pouco de vinho. Se teria que aguentar um filme de romance, ao menos queria estar bebendo algo e fingir embriaguez. Mesmo que aquilo não tivesse álcool – Quer um pouco?
— Só um pouquinho.
Serviu a taça dela até menos da metade. Passou a manta por seu corpo e em seguida Elena o imitou com seu cobertor de onça. Gostava daquele filme. Não era nenhum do Bruce Willis ou do Dezel Washington, mas não era ruim. O que era chato era ouvir Elena de cinco em cinco minutos dizendo o quão lindo Ryan Gosling era. Só eu que não entendo porque as mulheres babavam tanto assim por esse cara?
— Sempre tive vontade de fazer isso. – Comentou Elena em alguma parte do filme.
— O que?
— Beijar alguém tomando sorvete. Light, claro. Tudo menos engordar.
— Vai a uma sorveteria com o Tyler então – Disse Damon sorrindo. – Tem uma bem do lado do consultório da sua mãe.
— Seria uma boa ideia, mas a gente meio que terminou.
Arqueou as sobrancelhas e a fitou ignorando o filme.
— Meio?
— Não... – Suspirou negando com a cabeça. Não havia bebido nem uma gota de vinho até agora. – Nós terminamos mesmo.
— Não parece. Você anda tão feliz esses dias, talvez seja pra melhor – Já haviam se perdido entre o filme. Ela parecia estar sendo sincera, mas não parecia triste. Sempre que brigava com Rose ficava arrasado e sem vontade de absolutamente nada; Tanto que essas separações nunca duravam mais de um dia. – Gostava dele?
— Não. Acho que pra falar a verdade eu nunca gostei de alguém. Não desse jeito.
Mais uma vez, ela não parecia deprimida falando isso. O que surpreendeu Damon; Normalmente garotas nessa idade são tão desesperadas para amar e ser amada por alguém. Ela simplesmente falava no tom que conversavam normalmente.
— Você é muito jovem ainda. Muito, muito, muito. É uma criança.
Estavam tão próximos um do outro. Não só sentimentalmente, como fisicamente.
— Mas isso não significa que eu não queira amar.
— A questão não é querer, Elena. A questão é estar pronto, o que nunca se está. Quando a gente quer demais, acabamos pensamos demais e quanto mais a gente pensa, mais o amor dá errado.
‘’ Amor é uma daquelas coisas que não precisamos pensar quando é bom, só precisamos pensar quando é ruim’’ Era isso que sua mãe sempre o dizia. Baseou todos os seus relacionamentos em comparativo a essa frase. Por mais que não falasse mais com Grace, ela sempre o ajudava nesses momentos. Só que quando ficou ao lado de Giuseppe e não fez nada por Stefan, ela havia morrido para Damon também.
— Você fala de um jeito. – Sorriu Elena apertando a taça em suas mãos. – Tão experiente, mas você também parece ser jovem. Quantos anos tem?
— A questão não é a sua idade e sim o que você já viveu nesse meio tempo. Como, um garotinho de sete anos que mora no metrô, ele pode simplesmente te dar a melhor filosofia de vida já escutada. Isso não importa.
— Ainda não respondeu a minha pergunta. – Sussurrou largando a taça na mesinha de centro.
— Tenho vinte e sete.
— Ainda sim é jovem pras coisas que você fala.
— Já passei pelo suficiente.
— O quão suficiente? – Perguntou ela olhando para aliança de Damon. Havia uma nostalgia forte em toda vez que conversavam.
Desembrulhou-se da manta e bebeu um pouco mais de vinho enquanto se virava para frente dela que encostava-se ao sofá atrás de si. Parecia atentamente interessada no assunto.
— O que quer saber?
— O que quer me contar?
— Quero contar o que você quiser saber – Disse ele pensativo a fazendo rir timidamente.
— Porque tá aqui? Não me parece o tipo de pessoa sem condição e agora pesquisando sobre a sua família eu tenho certeza disso.
Será que era por isso que ela estava aqui?
Não. Ela já tinha tentado aproximação comigo antes mesmo de fazer esse trabalho.
— Fui expulso de casa. – Falou cautelosamente a fitando. O rosto dela não tinha expressão, era como se ela somente ouvisse. Parecia disposta a escutar tudo que ele quisesse dizer.
— Por isso veio morar aqui?
Damon suspirou pesadamente e negou com a cabeça. Ainda estava na duvida se contava a verdade ou não. Como já mencionado antes, não era muito bom com mentiras, a não ser para casos muito extremos. E a única pessoa pra qual contava essas coisas eram Rose e Alaric. Mas Rose foi embora e Ric já sabia de tudo. Na verdade, o conhecia tão bem que Damon nem precisa dizer que tinha um problema, ele já sabia. Não tinha nem mais graça.
— Depois que fui expulso, morei na casa de um amigo por uns seis meses; Ele tinha um apartamentinho vago no centro e forneceu pra mim alugar, só que ele pediu de volta por que o contrato de permanência venceu.
— Quanto tempo foi expulso? – Continuou em tom de interesse. Ela parecia uma daquelas assistentes investigativas dessas series policiais, enquanto ele era a pobre vitima que contava sua história. Mas estava tão desesperado para desabafar que mal se importou.
— Cinco anos. E antes que você pergunte o porquê, foi por conta que eu defendi meu irmão mais novo. Ele foi expulso primeiro. Meu pai descobriu que ele era gay e o baniu; Pra falar a verdade à cidade inteira o expulsou. E eu tive que defendê-lo. Financiei a mudança dele pra Nova Iorque, financiei a faculdade, um apartamento. Tudo. E quando meu pai descobriu, ele sempre descobre tudo, ficou uma fera. Quase me matou, mas eu tive que fazer.
Resolveu optar por não mentir, não tinha certeza se contaria tudo, afinal se ela começasse a perguntar demais sobre coisas que não pudesse contar, teria de dar um jeito de ser sincero.
— Eu sei sobre a Rose... O Mason e você. Tyler me contou.
— Imaginei. Acharia até estranho se você não soubesse. – Disse ele novamente em um suspiro. Terminou seu vinho em um gole rápido e seco.
Ficaram mais um pouco em silencio. Encarando o fogo da lareira e ouvindo as vozes dos atores sendo ecoadas da televisão. Não havia contado muita coisa, mas só aquilo já havia causado aquele constrangimento.
— Eu não sei se serve de consolo, mas seu irmão tá bem agora. Muito bem. Se ele não tivesse sido expulso ele continuaria aqui. Preso, sufocado. – Delicadamente dirigiu suas mãos até o rosto dele. O segurando firme em suas palmas para que Damon a olhasse. A falta de contato visual a incomodava e agora o contato físico os deixava assustado, mas sem vontade de desviar. – Em Nova Iorque... Nada é limitado tem inúmeras pessoas iguais a ele com os mesmos sonhos, com as mesmas opções e nada é escondido. Você se torna livre. Seu irmão está livre, tá feliz. E você – Apertou mais o rosto dele colando suas testas. – Você vai ser feliz também. Eu sei que vai.
Alguns segundos depois, ele respondeu, de olhos fechados e ainda ofegantes, aos sussurros pela proximidade:
— Você também. Você merece, Elena.
Damon sentia que se ela o soltasse cairia direto em abismo sem fim. Até suas respirações se tocavam. Só foram separados pelo grito vindo da personagem Allie no filme. Dessa vez não estavam constrangidos, tinham sido sinceros um com o outro e não havia motivo para sentir vergonha. Conversaram mais um pouco. Coisas bobas como escola e alguns alunos encrenqueiros. Era tão estranho. Quando chegou aqui, ele se imaginou nessa mesma situação. Rindo, com cobertor, vinho, filme e a pessoa amada. Só que por um momento, questionou a si mesmo. Seria tão bom se fosse com Rose? Estava ali realizando o que sua mente imaginou, mas... Era como se fosse melhor do que imaginou e como poderia se sentir assim, se Rose não estava ali?
Quando o filme então acabou, levaram as taças para a cozinha e Damon mais uma vez se encarregou da lousa. Guardou seus cobertores e travesseiros de volta em seu quarto e Elena levou a sua, descendo alguns minutos depois o encontrando na cozinha.
Apoiou-se com o corpo no balcão e ficou ali o observando secar as taças.
— Tá com fome? – Perguntou ela. –Tem bombom aqui. Pode comer se quiser.
— To bem assim. Ainda é cedo.
— Mas é domingo. O Grill abre domingo? Como você vai jantar? – Ela estava preocupada comigo? É isso?
— O Grill abre domingo, na verdade domingo é o dia em que mais enche. Vou ficar bem, não se preocupe.
Terminou o trabalho com as taças e passou o pano por suas mãos o secando. Ela ainda estava ali, com os cotovelos no balcão encarando seu esmalte em zebra. Pelo jeito ainda não queria ir embora.
— Eu acho que quem tá com fome é você. – Alegou Damon sorrindo de lado. Era engraçado ver que ela queria o persuadir a comer para, então, poder comer também. – O que acha de um talharim com salsichas? Não é o glamour que você tá acostumada, mas...
— Aceito.
Sorriu novamente, dessa vez, pela maneira afoita na qual ela o interrompeu.
Não demorou nem ao menos vinte minutos para a comida ficar pronta. Ela achou melhor ir para a sala do que ficar ali. Deveria estar com medo de atrapalhá-lo ou distraí-lo demais.
Ao fim, ele a chamou e calmamente começaram a comer. Não gostava da sala de jantar, era muito grande e Damon sempre foi fã de algo mais aconchegante. Ficou ali mesmo na pequena mesa da cozinha. Elena não questionou absolutamente nada; Apenas sentou-se ali ao seu lado.
— Eu não sou o melhor cozinheiro do mundo, mas tá aceitável, não é?
Esperou a massa descer por sua garganta para responder. Realmente estava bom.
— Que isso. Tá ótimo.
— Você realmente devia estar com fome – sorriu travesso apanhando seu guardanapo – Nem tá tão bom assim.
— Se saiu bem. Eu não faria melhor, na verdade eu acho que nem me atreveria a fazer. – Deveria ser verdade. Essa garota nunca deve ter tocado em um detergente na vida. Também era assim quando mais jovem, mas como sempre a vida ensina coisas e ensinaria para Elena também. Assim esperava.
— Eu te contei muita coisa lá naquela sala. Você ainda não me contou nada sobre você direito. Injusto, não acha? – Disse ele em um tom simpático ao terminar de comer. Tomou um pequeno gole do refrigerante a sua frente e esperou Elena engolir. Ela também já estava quase terminando.
— Bom, minha vida inteirinha tá lá no site do Perez Hilton e na revista Star, mas se você quiser ouvir a verdade. Eu posso tá disposta contar. Talvez...
Lá fora, um trovão alto se estalou fazendo Elena pular da cadeira. O vento forte abriu a janela da cozinha e fez a cortina laranja pular para o alto. Rapidamente, Damon levantou-se e fechou a vidraça a trancando.
— Merda, merda.
Pingos de chuva lentamente começaram a cair, ficando cada vez mais forte.
— Ai meu deus. Não, trovão não. – Disse ela novamente bem baixinho.
Em sua cadeira, Elena se encolhia olhando para baixo. Quando ele voltou para sentar-se ela agarrou forte em seu braço. Parecia desesperada de pavor.
— Damon eu tenho medo de trovão. Por favor, por favor.
— Eu, eu, eu... – Damon piscou e franziu a testa, confuso. Por mais maluco que seja não teve aversão àquela atitude e ao mesmo tempo não se sentia confortável. Depois deu os ombros e lentamente afagou a mão nos cabelos dela. Stefan também tinha medo de trovões quando criança, ela não era seu irmão, mas ainda sim era uma criança. Sentiu-se um louco naquele momento pela comparação, não conseguia controlar seus pensamentos. A ideia era afastar essa interesseira e não fazer cafuné nos cabelos dela durante uma tempestade. Mas parecia que o destino gostava de brincar cosigo próprio. Tinha que ser gentil e se risse da cara dela enquanto ela treme de medo por uma chuva, não seria muito agradável.
Mystic Falls tinha um dos piores invernos do sul, só que raramente chovia. Mas quando chovia... Era de devastar estradas com lama e água. Isobel chegaria ainda mais tarde. Pelo jeito teria que passar a noite com ela.
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