Matemática Do Amor
53 - New York, New York.
Notas iniciais
DIAS DEPOIS
Elena apertou a vista ao pressionar daqueles quentes lábios sob sua testa. Resquícios pequenos da saliva de Isobel a marcaram, junto ao batom bem claro da mãe. Mas a filha rapidamente os apagou com as costas da mão direita.
– Se cuida. E faça o que conversamos, sem briga com seu pai. – Advertiu Isobel ao se despedir.
Elena rolou os olhos. Já havia perdido a conta da quantidade de vezes que ela repetiu aquele discurso.
– Tchau maninha. – Os braços apertados e carinhosos de April vieram em direção a seus ombros.
Isobel conversava com Damon.
– Boa sorte com seu irmão, e por favor, caso a Elena dê trabalho no caminho. Não hesite e brigue com ela.
– Ela pensa que eu tenho oito anos. – Falou irônica, após se despedir de Jeremy.
– Ás vezes eu penso que você é imatura demais pra oito anos, minha filha. – Rebateu, mas não em sarcasmo como Elena, e sim com uma ponta de tristeza.
Elena a encarou em um misto da mesma decepção, mas com uma pitada estranha de raiva.
– Então vamos? – Damon preferiu interromper o ambiente constrangedor.
As coisas ultimamente estavam estranhas para Elena e Isobel, brigavam diariamente por conta da viagem. Em grande parte pelos avisos e advertências que a mãe dava a filha em relação ao seu comportamento em frente ao pai e a nova família dele.
O que logicamente causava muitas divergências entre as duas.
As malas já estavam deliberadamente postas no porta-malas do grande ônibus de viagem, parado a alguns poucos metros do grupo. A rodoviária parcialmente vazia mantinham um ar fúnebre no local.
– Qual o número dos lugares mesmo? – Perguntou Elena à Damon, antes de subirem ao ônibus.
– 30 e 31.
Calmamente ela assentiu.
– Bom, então tchau pra vocês. Se cuidem. – Disse para sua família, Damon já subira no veículo.
– Você também. – Respondeu April, em cortesia.
A buzina tocou indicando que era a última chamada para todos adentrarem. Elena respondeu ao chamado e logo em seguida a porta se fechou com ela já caminhando pelo corredor em caça pelo seu lugar ao lado de Damon.
Mais alguns passos até que chegasse.
– Quer sentar na janela? – Ele perguntou, antes que Elena pudesse responder, Damon levantou-se dando espaço para que se sentasse.
Ela sentou e ele em seguida fez o mesmo.
– Nunca andei de ônibus antes. É legal?
Damon riu baixo.
– Pra uma primeira vez pode ser. Agora pra quem anda todo dia, já nem tanto. Mas esse é um ônibus de viagem então... Faz muita diferença.
Elena olhou em volta, além dos dois tinham em média mais dez pessoas. O que logo mudaria de figura já que fariam algumas paradas em outras cidades para buscar mais pessoas. De Mystic Falls, iriam até Richmond aonde seguiriam até o aeroporto para embarcar para Nova York, dessa vez sem escalas. O que segundo as contas de Damon, demoraria em média sete horas até que as luzes da big apple brilhassem para os dois.
– Eu gosto dessa. E você? – Apontou para a saia bege no corpo da modelo. Em conta do tédio que facilmente viria ao longo desse tempo, Elena julgou que seria brilhante levar algumas revistas de moda consigo.
Damon deu os ombros.
– É bonita. – Falou desinteressado.
Elena sem perceber o tom de voz dele, continuou atenta as imagens. Torceu o rosto em dúvida.
– Sim, é bonita. O problema é a combinação da roupa. A saia já é rodada e essa blusa marrom e verde, com essa estampa feia estraga as coisas. Deviam ter colocado algo em forma de terninho na parte de cima ou até uma blusa mais simples, só que mais justa e sem esse cinto roxo no meio, nada haver. O marrom aqui deveria ser o cinto, e deveria ser mais grosso pra não sumir no meio da saia.
Mais atento, Damon mirou a imagem.
– Esse cinto é esquisito mesmo. – Concordou, mesmo sem compreender a fundo sobre o assunto. A mirou, Elena punha em seus olhos toda força e hipnose sobre cada página, como se as absorvesse para si. Ele sorriu. Gostava de vê-la naqueles momentos, tão entregue ao que era apaixonada. – Está com fome?
Com a cabeça, Elena negou.
O som de mais uma página sendo passada para trás, desconcertou de imediato a expressão de deleite que ela tinha. Sendo substituída por uma que Damon não soube identificar qual era, mas não lhe parecia contente.
Resolveu perguntar, mas não foi preciso. Ao se aproximar alguns centímetros dela para ver o que tinha lhe chateado, não foi preciso mais detalhes.
– Não liga pra essas coisas. – Tentou confortá-la.
Não adiantou.
– Nessa foto vemos Elena Gilbert, combinando um vestido de renda azul da Dolce & Gabana com uma sandália em preto e dourado Valentino. Como sempre, a socialite e ícone fashion, irradia seu brilho e bom gosto pelo tapete vermelho. Ou ao menos irradiava, já que essa foto fora tirada ano passado em um importante evento na Inglaterra. Bem diferente da imagem atual de Gilbert, que se distancia cada vez mais dos holofotes para o anonimato. Sim, ela ainda atualiza seu importante blog com frequência, esse que recebe diariamente mais de quatro milhões de visualizações por dia, mas a enorme falta da bela nas últimas temporadas de premiação, nas ruas de NYC e até mesmo nos exclusivos desfiles, no qual sempre sentava na primeira fila, deixa cada vez mais seu prestígio em queda.
Terminou a leitura, assim como a iniciou. Seca. Sem desejar aparentar emoções.
– Sério mesmo que vai se importar com essas coisas? – Perguntou gentilmente. – É só mais uma publicação maldosa. Ou vai dizer que mesmo quando você tava morando em Nova York não tinha essas coisas? É a primeira vez que publicam esse tipo de coisas suas? – Frustrada, ela respondeu que não, em um tom tão tímido que por pouco ele não ouve. – Então... Porque se incomodar? – Disse obvio.
– Não incomoda. Não mais, já to até acostumada. – Sussurrou, o encarando de perfil. – Só que, não é legal. – Ainda mais na sua frente. Pensou ela.
– Se está preocupada com o que eu vou pensar. Pra mim isso não passa de uma bobagem.
Elena não pôde disfarçar o sobressalto de sua reação pelo fato de Damon ter regido seu pensamento daquela forma. Surpresa, elevou as sobrancelhas.
Provavelmente pela maneira como seu rosto deveria estar, seria impossível de sua parte tentar negar. Ele, e nem muito menos a própria, acreditaria em suas palavras.
– Que tal mudarmos de assunto? – Sugeriu, sorrindo sedutoramente. – Me fala... Animado pra vê seu irmão?
Não haviam conversado detalhadamente sobre a viagem nos últimos dias, afinal Isobel sempre fazia questão de estar presente em todas as tentativas dos dois de se comunicarem. Queria saber os detalhes, os horários, os cronogramas até lá, como iriam; Então tudo se resolveu da forma mais formal possível, para a decepção tanto de um como do outro.
Damon iria condená-la por fugir do assunto, mas a ideia de ver Stefan logo o fez alegrar-se também.
– Não sei, parece até que não é real. Falei com ele ontem, antes de dormir... E, ainda é inacreditável.
Elena contentava-se por vê-lo daquela maneira tão incomum de felicidade, apesar de que ultimamente aquele semblante não era mais tão raro no rosto dele.
– E ele sabe que você vai comigo? Ou que eu vou com você? Se prefere dizer assim.
Damon desviou o olhar para os lados.
– Contei pra ele que viria com... A filha da moça que aluga meu quarto. – Gaguejou, nervoso. – Contei que vocês eram de Nova York, mas...
– Mas não contou quem eu sou. – Completou, em adivinhação. Procurou não demonstrar seu desânimo. Damon não respondeu, encarando o chão. – E eu imagino que também não contou sobre nós. Quer dizer, sobre o que tinha entre nós.
Novamente, Damon não disse nada. Não esperava que ele contasse para o irmão detalhadamente toda a história. Mas doía saber que Damon se preservava ao ponto de não contar uma palavra que fosse para a pessoa que menos o julgaria no mundo. Mas o desapontamento não durou tanto, logo se viu feliz folheando outra revista novamente. Estava contente com a posição no qual ocupava agora no ciclo social dele, apesar de não ser o que sonhava que fossem, só que realmente funcionavam bem como amigos.
Saíam da escola quase que direto para a floresta, aonde seguiam com a meditação que surpreendentemente apresentou resultados muito acima das expectativas. Depois, conversavam sobre o dia um do outro por poucos minutos e se exercitavam com algum esporte que fosse possível fazer em meio a mata. Ele restringiu-se a comentar sobre o diário, se havia funcionado, não tinha ideia.
O que incomodava um pouco eram as conversas, apesar de leves e pacíficas eram sempre resumidas em ajudar com os problemas alcoólicos dele e da evolução para que não caísse outra vez. Mas sempre que tentava aprofundar-se em outros temas mais profundos, Damon desviava e parecia desconfortável. Algumas risadas, sempre que ouviam algum ruído atrás das árvores e saiam correndo para se esconder com o pensamento de que poderia ser uma pessoa os vigiando, quando na verdade era só mais um cachorro perdido perambulando.
Mas em geral nada mais que isso.
Em meio ao silêncio que se estabeleceu, calmamente virou o rosto em direção a sua esquerda, sorrindo em seguida. Damon dormia tranquilamente, sem parecer se incomodar por estar em um ônibus apertado. Deduzindo que seria provável que ele não tivesse pregado o olho pelo resto da noite, pelo nervosismo da viagem, achou melhor que deixasse como estava.
Não pôde evitar o reflexo rápido pela vontade de tocá-lo. Nem ao menos pensou se era certo ou errado, no mesmo instante sua mão foi de encontro a macia face do canto das maçãs de Damon. Acariciou de leve a região descendo para o pescoço, tinha tanta falta de senti-lo que fechou os olhos instantaneamente para que pudesse se afogar naquela sensação.
Interrompeu o ato após ele se remexer rapidamente, mas mesmo que por um segundo que fosse, tinha valido a pena.
–-x--
– Já estamos perto do aeroporto. Vou falar com o motorista para nos deixar lá. – Informou Damon, aos bocejos pelo sono. Havia um pouco mais de dois minutos que se despertara.
Elena assentiu com a visão voltada para a janela. Quem diria que a Virginia também possuía sua parte moderna como uma boa metrópole, com direito a asfaltos movimentados e arranhas céus luminosos.
Com adormecimento do homem do lado durante todo o trajeto, a primeira parte da viagem era de extrema distinção ao que imaginou. Não que acreditasse que atravessariam o estado de mãos dadas e com beijos capazes de fundir o ar entre os dois. Mas sim, que ao menos risadas e boas conversas pudessem acontecer.
Acho que é isso que chamam de expectativa vs realidade. Pensou Elena.
Damon não voltou ao assento, ao invés disso apenas acenou para que ela levantasse e fosse até ele, que estava perto da cabine do motorista. Faltavam algumas quadras para o aeroporto.
– É aqui. – O homem sorriu para os dois. – Boa viagem pra vocês.
Eles retribuíram o riso.
– Obrigado. – Agradeceu Damon. Elena lançou um olhar cortês.
Com um tanto de dificuldade retiraram calmamente as malas do bagageiro com o auxílio de um funcionário do aeroporto, que veio há eles com um carrinho para se pôr as bagagens de peso. No caso de Damon era apenas uma preta de tamanho médio, diferente de Elena que trazia consigo duas a mais que ele e todas de porte grande e cheias até a borda máxima.
– Esse lugar é enorme. – Suspirou Damon impressionado.
Elena olhou em volta.
– Isso é porque ainda não viu o de Nova York. Quando chegar lá seu queixo vai cair.
– Eu imagino. – Sorriu levemente. – Quer comer alguma coisa? Tem essas lojinhas por aqui, deve vender algo decente pelo menos.
Ela assentiu devagar.
– Sim, a gente pode almoçar aqui. Mas... É melhor ir até o balcão, passar essas malas primeiros e tudo isso. Vai que acontece alguma coisa e a gente perca o avião, não sei.
Com a concordância dele, seguiram diretamente ao balcão para fazer os últimos tramites necessários para embarcar. Novamente sem dificuldades, a recepcionista entregou-os o recibo com o número do voo e os locais que sentariam.
– Sai em uma hora. – Repetiu Damon lendo o que tinha no papel em suas mãos. Guardou na carteira em seu bolso e iniciaram a procura por algum lugar que acalmasse seus estômagos.
–-x--
Um tanto enojada, Elena engoliu a garfada em suas mãos com um tanto de repudio, mas não rejeitou por completo. Não havia posto nada em seu corpo desde ontem de tarde, já que com o vai e vem de malas e organizações de última hora, não deu tempo que jantasse.
– Esse peixe não tá muito bom. – Reclamou, continuando a comer.
Damon parecia compartilhar a opinião.
– Tá um pouco estranho mesmo. Mas gostei do suco.
– Você? Gostando de um suco? – Disse animada, com um sorriso resplandecedor.
– São seus efeitos sobre mim. – Ironizou, sem a olhar.
Houve uma curta pausa, aonde ela o observou na espera que ele fizesse o mesmo. Antes que pudesse dar o próximo gole, Damon sentiu o olhar de Elena sobre si e timidamente retribuiu. Esperava encontrar um tom malicioso nela pelo que disse (sem a intenção parecer galanteá-la) mas tudo que encontrou foi um ar de orgulho pelo trabalho de ambos nessa inventada.
– Na verdade, eu acho que são os seus efeitos sobre você. – Afirmou de maneira doce, apanhando um das mãos dele em seguida. – E não faz ideia do quanto fico feliz com isso.
Retribuindo ao carinho, Damon lhe beijou as costas da palma que o segurava. Elena respirou profundamente pressionando mais sua mão contra aqueles lábios simplesmente para que ficassem mais tempo grudado em sua pele. Nunca uma boca desejou tanto converter-se numa mão como em naquele momento.
Ele encerrou o beijo, passeando o indicador em contorno de um pedaço da epiderme no local em que antes estava seus lábios. Os olhos continuavam fixos em algum ponto daqueles macios dedos.
– Acho melhor... Irmos. – Esforçou-se para falar sem nervosismo.
Despertando-se de seus pensamentos de desejos, Elena balançou a cabeça e trouxe seu braço de volta para próximo de seu corpo. Teriam que estar no portão de embarque em vinte minutos, segundo o relógio avisava.
–-x--
Elena percebia pequenos olhares de canto de rosto direcionados para si, pela gente sentadas proximamente, esperando pelo mesmo avião. Provavelmente com o pensamento de: '' Será que é ela mesmo? ''. Não seria plausível que retribuísse a esses olhos com a confirmação para a dúvida daquelas, em média, 15 pessoas.
Damon, claramente incômodo com algo, enxugava o suor das mãos ao longo do jeans de sua caça, repetindo o movimento mais e mais. Receava-se que ele estivesse assim por conta de alguma hipótese de que a reconhecessem, com ambos juntos, e pudessem tirar fotos ou dar alguma informação para qualquer tabloide. A verdade era que Damon conseguia obter uma imaginação muito a cima do céu quando se tratava de seus medos.
Resolveu arriscar a resposta, queria tranquilizá-lo.
– Que foi? Parece nervoso. – Perguntou preocupada, lhe tocando os ombros.
Damon suspirou pesadamente.
– Não é nada, é só uma ansiedade boba. – Tentou aparentar ser algo sem importância. Gargalhando baixo em seguida. – Coisas que acontecem com, nós, os caipiras quando vão visitar a cidade grande.
Pensativa, Elena demorou a responder na tentativa de juntar os pontos. Ao menos, se contentava em saber que ele não estava tão inquieto pelo motivo que pensara. Raciocinando mais um pouco, entregou-se a uma pequena risada, um tanto quanto terna.
Olhou-o carinhosa.
– É o avião. É isso? Está com medo.
– Não, medo não. – Respondeu de imediato, nervoso. – Só receoso, mas com medo não. Até parece.
Antes que ela lhe pudesse responder com alguma zombeteira, a voz feminina saindo do auto-falante lhe interrompeu. Elevou o indicador no alto, formando um chamado bico na ponta dos lábios. O aviso informava o obvio, que uma fila se formasse no portão de embarque para que finalmente adentrasse ao avião.
No mesmo instante, Damon levou suas grandes mãos a perna mais próxima de Elena, as apertando. Mas não em sinal erótico, e sim em sinal de suplência.
– Damon, calma. Tá. – Pediu com firmeza, levantou-se e em seguida o puxou pela mão. Não queria dar a ele tempo para que pensasse demais e fizesse aquele sentimento crescer. Viu-o se benzendo algumas vezes antes de posicionar-se na fila. – Também me senti assim na primeira vez que eu andei. Chorei a viagem inteira.
– É sério? – Sua voz saiu um tanto quanto em choque. Sentia-se melhor com o conselho dela. Ao menos agora não se sentia um ridículo por ser um homem feito e estar em tamanha situação de recessão, já que ela também havia passado pela mesma coisa. – E quantos anos tinha?
Elena deu os ombros.
– Sete meses.
–-x--
Elena segurou o gargalhar com força a fundo da garganta, mas ao mesmo tempo não pôde deixar de analisar a tamanha ternura do momento que desfrutava com tamanho prazer. Damon apertou um pouco mais seus dedos e fez o mesmo que com os olhos, imaginava as tamanhas borboletas que voavam pelo estômago naquele instante de decolagem.
– Meu Deus. – Deixou, sem querer, um sussurro escapar. Aos poucos, com os sentidos de seu corpo se estabilizando, os olhos puderam se abrir e as mãos voltarem para seus lugares. – Já acabou? – Perguntou, em um tom de voz que parecia anestesiado.
Elena sorriu.
– Já. Agora relaxa.
Por mais que quisesse, Damon não foi capaz de obedecer ao pedido dela. Arrependeu-se por ter adormecido no ônibus ao invés de esperar para poder hibernar durante aquela travessia de estados. Dessa vez, fora ele que sentou-se na janela para poder observar a paisagem de uma visão mais panorâmica do que estava acostumado. Mas as nuvens estavam mais carregadas naquele dia, então sua visão não se entretinha com nada muito espetacular.
– Devia ter ligado pro Stefan no aeroporto pra dizer que estava chegando. – Lamentou, ele em pesar.
– Aonde você disse que ele morava mesmo? – Ela voltou a folhear suas revistas.
– Antes ele morava em Tribeca, agora se mudou pra Midtown east.
– Ainda bem. – Suspirou aliviada. – Tribeca é muito longe de Upper East Side.
Carinhosamente, Damon retirou a revista do colo da menina e trouxe aquele macio rosto em direção ao seu, indicando que queria que ela o olhasse. Sem hesitar, e apesar do estranhamente, Elena cedeu ao toque no mesmo instante.
– E como se sente? Voltando pra lá, pro lugar onde você pertence? – Inquiriu compreensivo.
Elena sentiu-se divida, nem mesmo a própria tinha mais a certeza do que estava acontecendo dentro de si.
Silêncio, ela ponderava a resposta esforçadamente.
– Acho que isso eu só vou saber, quando eu chegar lá. – Disse pensativa. – É que faz tanto tempo que... A sensação é como se aquela cidade pra mim virasse um sonho, ou algo de uma vida passada. Não sei. Quer dizer, antes eu tinha a total certeza de que Mystic Falls não era o meu lugar e que... Eu fui roubada das minhas coisas e de tudo que eu tinha.
Atento, ele assentia a cada palavra que Elena proferia. Como o perfeito dos ouvintes mais compreensivos, já haviam tido conversas assim anteriormente. A diferença era que agora iriam viver da maneira mais intensa, algo que para Damon era um sonho e para Elena uma lembrança.
– E o que mudou nisso tudo?
Novamente, ela pensou antes de responder. Outra vez não tinha certeza, apenas suposições.
– Provavelmente... Eu. – Afirmou em tristeza. – Só não sei ainda o que foi que mudou.
Satisfeito com o momento que tinham obtido, Damon sorriu e em seguida passou o braço ao redor do ombro da garota ao lado, beijando-lhe a têmpora. Elena aconchegou-se em seu colo, fechando os olhos. Como de costume, das vezes que ficavam daquela maneira, ela afundou o rosto em seu colo e a absorveu seu cheiro com intensidade. Assim ficou de minutos há minutos, até ser a vez dela adormecer.
– Com licença. – A voz de uma adolescente de em média catorze anos, invadiu seu ouvido. Sentiu que ela iria falar algo, mas interrompeu sua fala ao ver Elena dormir. – Ah, que pena. – Falou decepcionada. – Queria tirar uma foto com ela, mas...
– Ela acabou de dormir. – Damon respondeu, sem afastar o corpo de Elena de seu ombro. – Dá uma folga pra minha prima, ela tá cansada. – Disse em bom humor e a menina sorriu para ele.
– Tudo bem, eu entendo. Obrigada mesmo assim.
– Tenta outra vez na saída, ela vai atender com o maior prazer.
– Obrigada. – Agradeceu outra vez e regressou ao seu lugar.
Prima. Pensou ele segurando um gargalhar. Estava aos poucos se tornando um mestre em algo que sempre foi o pior dos alunos, a mentira. Mas o que poderia fazer, assim que a garota os viu, com Elena abraçada em seu peito, lançou um olhar suspeitoso que o alertou em imediato. Nem em Mystic Falls e nem em Nova York poderia ter paz em relação aquele assunto.
Seguiram-se horas na qual Damon não prestou a atenção em contar. Elena despertou quando faltavam em média 30 minutos para aterrizarem no aeroporto de JKF, e a conversa entre eles se resumiram em: '' Já estamos chegando''. '' Será que vai tá muito frio? Será que vai tá muito quente''. Entre outras superficialidades.
Outro arrepio na barriga atingiu Damon com o pouso, repetindo a odisseia ao levantar voo, apertou a mão dela e fechou os olhos, ouvindo pedaços da risada que Elena segurava para não soltar.
Educadamente, ele avisou sobre a garota que a minutos atrás veio até eles, mas preferiu não dizer nada sobre o fator ''primos''. Durante o desembarque, não só aquela adolescente como outras também obtiveram suas fotos e autógrafos da assinatura juvenil de Elena, que os entregou de bom grado.
– É melhor eu colocar uns óculos escuros. Porque a minha cara de quem acabou de acordar não é das mais bonitas. – Reclamou abrindo a bagagem de mão, até achar o objeto que procurava. Colocou-os e fez uma careta sensual para ele. – Pronto. Agora podemos ir.
–-x--
O vidro aberto e transparente dando a visão de cartão postal, tão mostrada nos filmes, contorceu a expressão de Damon na mais atônita e impressionada. Já Elena, mirava saudosista. Conhecia cada metro daquela famosa e atemporal paisagem repleta de clichês.
– Meu deus, que lugar é esse. – Damon sussurrou, ainda sem acreditar.
– Vamos pegar um táxi, Damon. A saída é por...
– Elena? – Uma voz atrás de ambos a interrompeu.
Surpreendido, Damon virou-se não obtendo ideia de quem poderia ser tal pessoa. Ao contrário de Elena que nem ao menos precisou mexer a cabeça para que reconhecesse aquela voz, além é claro do próprio vidro que refletia a imagem de rosto tão conhecido, apesar de um tanto quanto destorcida.
– PETER. – Gritou animadamente, correndo em seguida aos braços do rapaz de em média 55 anos.
Peter afagou os seus cabelos, enquanto retribuía o enlaço.
– Minha menina linda. Que saudade.
– Eu também. – Os separou. – Foi meu pai que pediu pra você vir me buscar?
– Mas é claro que sim. E eu to muito feliz em ver você. – Exclamou de maneira carinhosa, dando um beijo na testa de Elena.
Rapidamente ela lembrou-se de Damon e acenou para que ele se aproximasse.
– Peter, esse é o Damon. O professor que viria comigo, não sei se John avisou sobre ele.
– Avisou sim. Como vai? – Peter estendeu a mão para Damon que o apertou.
– Vou bem senhor, obrigado. – Ele respondeu timidamente.
– Peter era meu motorista quando eu morava aqui. E é o cara mais paciente do mundo, garanto. Só ele mesmo pra aguentar, eu, meus amigos e nossas mini festas no banco de trás de uma limousine.
– É eu imagino que não seja algo fácil. – Ironizou Damon.
Após mais algumas informações trocadas, Peter os acompanhou até o veículo, na qual Elena não conhecia. Segundo o motorista, seu pai havia comprado um novo há alguns meses e vendido a velha limousine branca na qual Elena havia lembrado a alguns minutos. Aquela limousine era sua, e não dele. Nem se quer tinha informado de sua decisão, imaginava o que iria encontrar quando chegasse em seu antigo quarto.
– Não, não senhor. No banco da frente não. – A voz apressada de Peter a despertou.
Damon o olhou confuso.
– Mas porque não? – Parou, sem compreender.
– É que bancos da frente são só para motoristas, os passageiros e patrões ou convidados vão nos bancos de trás. É a etiqueta, senhor. – Explicou Peter educadamente.
– Tudo bem então. – Fechou a porta calmamente e foi até a parte de trás, que já estava aberta por Peter. Elena adentrou ao veículo e ele fez o mesmo em seguida. – Vocês ricos são cheio de frescura. – Sussurrou perto ao ouvido dela, que riu baixo.
– Peter, o Damon vai te entregar o endereço do lugar aonde ele vai ficar. A gente deixa ele primeiro e depois segue pra casa.
O motorista assentiu, enquanto Damon retirava o papel branco que continha a moradia de Stefan.
– É algum hotel em Manhattan? Se for, nem precisa de endereço. Me fala o nome que eu conheço todos.
Damon gargalhou rapidamente.
– Não tenho dinheiro pra isso não, senhor. É o apartamento do meu irmão. – Apanhou finalmente o papel e o entregou. – Tá aqui.
Calmamente, Peter leu as palavras tentando reconhecer o endereço. Era um bairro simples classe média, na qual não tinha o costume de ir. Já que suas rodas só conheciam as partes mais luxuosas da cidade.
Com a presença tão conhecida do homem ao volante, não arriscou qualquer assunto, por mínimo que fosse. Enquanto Elena, jogava palavras de maneira eufórica com Peter, que lhe perguntava de tudo um pouco. Como estava, como estava sua família, se estava bem entre outras diversas coisas que ele não se atentou.
Por chegarem ao aeroporto logo pelo começo da noite, Nova York estava em seu ápice. As luzes dos prédios reluziam em alta, junto a outdoor brilhantes e avenidas movimentadas por gente e coberta de táxi amarelos. O perfeito cenário de um filme comédia romântica bem em sua frente.
Sentia-se vivo, sentia-se em um lugar aonde realmente o mundo girava a ponto de poder fazer a diferença. Agora entendia a razão do porquê o mundo todo ia para aquele lugar, do porquê aquele era considerado o centro do planeta e o porquê de ser tão cobiçado por todos.
Elena sorriu ao vê-lo. Por estar de costas atento a janela, não pôde avistar o encantamento no rosto da menina. Sentiu que Damon assemelhava-se a um bebê, abobalhado por descobrir os pés ou alguma nova parte do corpo.
– Isso é incrível. – Repetiu ainda sem reação. – Sério. É sem igual.
Ela respirou profundamente. Esquecendo-se da presença de outros entre eles.
– Você moraria aqui? – Moraria aqui comigo? Pensou, mas não disse.
– Mas é claro que sim. – Nem ao menos hesitou em pensar. – Se pudesse nem ao menos voltaria.
Elena agradeceu mentalmente, mas interrompeu a cabeça de imaginar o futuro. Já que tinha certeza de que as decepções poderiam ser muito grandes a ponto de não ter forças para suportar. Ele continuou fixo nas ruas e em cada ponto luminoso de cada arranha céu, até Peter finalmente chegar ao endereço de Stefan. Aonde a própria conseguiu sentir o nervosismo dele por estar tão próximo de quem mais amava.
– Boa sorte. – Ela tocou seus ombros rapidamente, em sinal de amizade. Nat Cole King, o cantor predileto de Peter estava no rádio, então não estava muito fixo nos dois.
– Eu to tremendo. – Confessou envergonhado, lhe mostrando as mãos.
Elena sorriu.
– Pensa que... Não tem como ser ruim. Então não tem por que ficar nervoso.
Feliz, Damon assentiu despedindo-se dela com um abraço profundo. Rejeitou a ajuda de Peter com sua mala e deixou para o homem um aceno e um agradecimento sincero. Apanhou sua bagagem no porta-malas e entregou outro aceno para o carro que partiu. Eram nove horas e as ruas ainda estavam movimentadas o bastante para ser superior a um ápice de hora do rush em Mystic Falls.
Se é que Mystic Falls tinha uma hora do rush.
Domado pela ansiedade apertou a companhia esperando pela voz de Stefan no interfone, autorizando sua subida. Mas ao invés disso, a voz era de outra pessoa.
– Quem é? – Ele perguntou.
– É a Tessa. Porque? Quem é?
Por um minuto havia esquecido que Stefan morava com uma companheira de faculdade.
– É o Damon. Posso subir?
Antes mesmo que ela respondesse a porta foi liberada e a voz animada de Tessa avisou que seguisse, e que estavam o esperando. O prédio era pequeno, por isso sem elevador e com apenas três andares, mas muito confortável e aconchegante. Diferentemente do que conseguiu para Stefan em Tribeca, que mais parecia um ninho de ratos, no qual mesmo assim o irmão o fez questão de agradecer com toda sua devoção.
A porta de madeira pintada em creme, bem cuidada e bonita, dava a impressão necessária de que a parte de dentro era tão organizada e bela como imaginava que fosse. Assim que a porta se abriu, após bater duas vezes, não conseguiu confirmar ou menos descrever e se atentar a como era por dentro. Não foi possível. Sua visão embaçou-se e não prestou atenção em mais nada, nem ao menos as luzes da cidade de Nova York que admirou tanto durante sua vinda era superior ao que via naquele momento.
Como ele estava mudado. O corpo mais atlético, a aparência bem mais contente e até jovial, apesar do tempo passado. O via pelo skype, mas pessoalmente tudo se realçava. Ainda via o mesmo olhar inocente e a mesma paciência e cortesia ali.
Não disseram nada, apenas lágrimas e sorrisos e mais sorrisos e lágrimas. O impulso de um abraço partiu de Stefan que esticou um dos braços para que ele viesse. O impacto forte, fez Stefan cambalear para trás aonde logo se equilibrou. Em muitos momentos realmente teve uma certa certeza pessimista de que nunca voltariam a se ver. Mas era aquela mesma certeza e falta de esperança que fazia daquele momento algo tão intenso.
– Entra. – Ele gritou entre lágrimas, o puxando para dentro. – TESSA! Tessa, para de comer. O Damon tá aqui.
Damon tocou seu rosto fortemente, para obter algum tipo de garantia de que não era uma imaginação de sua cabeça.
– Olha pra você. – Chorou mais. Aquele adolescente que se lembrava não existia mais, em nenhuma parte de sua aparência. – Tá um homem. E tá maior que eu. – Gargalhou o abraçando outra vez.
Stefan riu também.
– Eu sempre disse que ia ser mais alto e você não acreditava.
Para Stefan, Damon também estava diferente. Não soube identificar claramente em quais pontos, mas definitivamente mudado em algo. E que não era fisicamente.
– Que cheiro de assado. – Damon suspirou inebriado pelo que vinha da cozinha, após se separarem do terceiro abraço. – Não me diga que preparou jantar.
– Acha mesmo que eu receberia você de cozinha vazia?
– Tenho um presente pra você. – Disse indo até a mala.
Stefan o interrompeu.
– E eu um pra você. Mas depois. Primeiro quero te mostrar o apartamento e depois vamos comer. – O mais novo pareceu-se lembrar de algo. – Se é que a Tessa não tenha comido tudo. TESSA. – A chamou outra vez, em direção ao que deveria ser a cozinha. – Vem ver meu irmão.
– Já vou. To terminando de temperar a salada. – A mulher respondeu. Damon ainda não a conhecia, nem ao menos sabia como era o seu rosto; Afinal, sempre que se falavam por Skype era no quarto de Stefan e ela provavelmente o respeitava muito para interromper.
Stefan rolou os olhos.
– Vem, vamos até a cozinha. Do jeito que ela é a salada não fica pronta hoje e vocês só se conhecem no último dia.
Em uma tentativa nula de o levar até a cozinha, Stefan parou os passos pelo braço de Damon que o segurou pelo pulso. Despejando mais lágrimas, ele o abraçou outra vez. Mas não era um simples abraço. Era a confirmação de que realmente estava vivendo aquele momento.
– Eu amo você. – Sussurrou Damon, após acalmar o choro.
Stefan o apertou mais proximamente.
– Eu também amo você.
Após se afastarem, sorriram na direção um do outro em silêncio. Terminaram por completo de soltar aquelas lágrimas, prometendo para si mesmo que a partir de agora seriam apenas sorrisos. Com a felicidade completa em cada peito, foram para a cozinha onde Damon conheceu Tessa.
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Controlando seu desprezo, Elena olhou em volta a velha cobertura que abrigou toda sua vida. As mudanças eram imensas, provavelmente a nova dona da casa havia sido responsável por elas. Brega. Pensou Elena. Não sobraram nem os restos do que ela própria havia decorado, como todo ano fazia.
Uma sombra se mexeu em um outro cômodo, no qual antes costumava ser a sala de jantar. Provavelmente ainda era, só que agora deveria estar enfeitada por estampa de onça e plumas, ao estilo perua de Miranda.
Ela saiu, ficando lúcida em sua visão. Assim que a viu, Elena bufou.
Houve uma curta pausa. Aonde uma pôde observar a outra, provavelmente com o pensamento repleto de xingamentos que deveriam ser proibidos por lei.
– Agora eu entendo o significado de '' estilo novo rico''. – Disse enojada, olhando ao redor outra vez. – Que horror.
Miranda não respondeu. John havia pedido para ser educada com ela e ignorar suas respostas e afirmações provocativas. Desde que se conheceram, em nenhum momento foram simpáticas uma com a outra, pelo contrário. Isobel apesar de a odiar era muito tímida e muito submissa para lhe ofender, mas Elena não. Ela não só comprava as brigas da mãe, como também criava suas próprias.
– Seu pai está no banho. – Disse seca. – Vamos jantar daqui a pouco e... Ele quer que você esteja presente.
– Ah que pena. Não vou poder. – Informou, fingindo uma voz de lamento. – Aonde vou dormir? Porque bom... Se essa casa tá assim, imagino o meu quarto.
– Kimberley dorme no seu antigo quarto agora. Seu e da April na verdade e a Liv no que era do Jeremy. Mas elas concordaram em dormirem juntas pra que você tenha sua privacidade.
– Mas que gracinha minhas irmãzinhas. – Proferiu em sarcasmo. – Então quer dizer que eu volto pro meu antigo quarto?
Miranda negou com a cabeça.
– Não. Elas concordaram em dormir juntas, mas no quarto que é da Kimberley. Você fica no do Jeremy, quer dizer... Da Liv.
Estressada, Elena preferiu encerrar aquela conversa. Que era a primeira das duas sem nenhum grito. Nunca imaginou que teria tamanha falta de Mystic Falls.
– Diz pro meu pai que estou com sono, e que já jantei no avião. Vou tomar banho e amanhã nos vemos.
– Ele não vai gostar...
– Não me interessa. – Interviu ríspida. – Michael! – Gritou em direção ao resto da casa, para o mordomo da casa. – Michael! – Sem respostas.
– Michael não trabalha mais aqui.
As sobrancelhas de Elena se elevaram.
– Como é? – O primeiro grito soou. – Ele se demitiu ou algo assim?
Não, Michael nunca se demitiriam. Ele tinha uma filha com câncer e aquele emprego era tudo que tinha. Pensou ela, confusa.
– Na verdade... Michael tava dando alguns problemas e... Achei melhor dispensar os serviços dele.
A primeira reação de Elena seria calar-se, mas não. A língua coçou a tal ponto que se acaso consentisse, era capaz de não poder falar nunca.
– Mentirosa. – Acusou decidida. – Michael nunca deu problemas, em todos os anos que teve aqui. Sei bem o porque você dispensou ele, e provavelmente o resto dos empregados que eram nossos. – Não esperou que Miranda respondesse, dirigiu-se até a escada parando alguns degraus depois. – Pede pra algum dos seus novos criados levar minhas malas lá pra cima. Ou leve você mesmo e relembre sua antiga profissão. – Disse simplesmente. Referindo-se ao fato de que a madrasta era faxineira antes de se casar com seu pai. Na verdade eles se conheceram daquela forma, Miranda fazia a limpeza do gabinete de John.
Terminou de subir até o segundo andar.
Não ficou para ver a reação de Miranda que provavelmente não era das melhores. Michael assim como todos os empregados eram todos muito fieis a sua mãe, que consideravam a melhor das patroas. Sempre gentil e compreensiva com todos. Na época quando decidiram por ir embora, a grande preocupação de Isobel era como eles ficariam nas mãos de Miranda.
Ao menos Peter continuou entre eles. Seria bem difícil que ele fosse, seu pai tinha uma confiança absoluta no motorista que estava com sua família a muito tempo, até mesmo antes ao nascimento de Elena.
Subiu para o quarto que era de Jeremy e novamente revirou os olhos pela decoração.
Tal mãe, tal filha. Cafonice é de família.
A água relaxante do banho foi o bastante para fazê-la esquecer, por alguns minutos, que ficaria em uma casa cercada pela madrasta da cinderella e suas duas filhas feias. Como havia pedido, após sair do chuveiro encontrou suas malas em algum ponto do quarto e trancou a porta. Não queria correr o risco de John adentrar, reclamando de seu trato a sua querida esposa.
Nem ao menos secou o cabelo com o secador. Se arrependeria disso pela manhã, sabia. Mas deveria dormir o mais cedo que conseguisse para que fizesse o que sua cabeça estava planejando; Com as boas horas de sono que teve durante o voo, recorreu a um calmante para que a ajudasse nisso tudo.
Provavelmente, no dia seguinte, ninguém naquela casa acordaria antes das nove da manhã, além dos empregados provavelmente. Indicou o despertador para as cinco e em seguida cobriu-se com um coberto de cheiro ruim, pertencente a Liv.
Não tinha tempo de trocar pelos seus, ao menos por aquela noite teria que suportar.
Apesar da ansiedade para que logo amanhecesse, conseguiu dormir.
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Por conta da rotina de levantar cedo para a aula, Damon sentiu que acordou até mesmo antes do sol. Olhou a vista e sorriu. Via gente diferentes umas das outras, via movimento, via vida. Algo que não estava acostumado a ter por perto. Stefan dormia na cama ao lado da sua, era a primeira noite de sono dele depois de tantos plantões ao longo dos meses. Tanto que o plano de conversarem ao longo da madrugada, igual a quando crianças, falhou consideravelmente em vista do sono do mais novo.
Tessa estava no outro quarto, provavelmente também bem adormecida. Teve a pequena impressão de que ela lhe lançou olhares um tanto além do que apenas amigáveis, mas torceu para ser apenas uma impressão. Não teria mente para ficar com alguém tão cedo.
O bater leve na porta interrompeu sua ida até a cozinha para que beliscasse algo. Visita a essa hora? Pensou. Eliminou as possibilidades de ser algum amigo de Stefan ou Tessa que, segundo eles, eram poucos e estavam todos viajando. A segunda hipótese era de ser algum vizinho e a terceira, era a mais provável. Assustou-se com aquele pensamento. Mas provavelmente estava certo, tinha certeza. Reconhecia até mesmo a maneira como ela batia a porta.
Além do mais, flagrou Elena dando uma olhada ou outra no seu papel com o endereço de Stefan. Então ela deveria saber qual andar e até qual apartamento estava.
Sem surpresas, encontrou o rosto angelical lhe sorrindo docemente ao abrir porta.
– Te acordei? – Perguntou assim que o viu.
Damon negou.
– Acordei tem uns cinco minutos. Não me acostumei com o novo horário ainda. Quer entrar? – Afastou o corpo, dando espaço para que ela passasse.
– Que elegante. – Sorriu ao caminhar pelo cômodo da sala. – Simples e chique. Seu irmão tem bom gosto.
– Não esperava essa visita. Aconteceu alguma coisa? – Poderia continuar a conversar com ela, mas temia que alguém despertasse com as vozes.
Não queria nem ao menos imaginar a reação de Stefan ou de Tessa se acordassem e em seguida, se deparassem em sua sala, com uma celebridade. Era de provocar ataque cardia a qualquer um.
– Acordei cedo e deixei um bilhete pro meu pai dizendo que iria rever uma amiga e que... Voltaria depois do almoço. – Ela explicava, enquanto sentava-se no sofá no centro da sala. Em pé, Damon a olhava atento. – Como não tenho carro aqui, peguei um táxi.
Damon franziu as sobrancelhas em dúvida.
– Ainda não entendi. Porque não foi ver seus amigos? Porque tá aqui?
Com uma expressão de cobra prestes a dar o bote. Elena levantou-se do sofá indo até ele. Damon estremeceu ao sentir os braços dela se enrolarem no seu pescoço. Estava de pijama com uma regata branca e uma calça listrada azul. Já ela, como sempre, incrivelmente sexy de vestido preto de couro apertado e botinhas de cano curto e salto alto e tudo isso em plena seis horas da manhã.
Sensualmente, Elena aveludou a voz.
– To aqui porque vou te sequestrar. – Aproximou o rosto do dele, mas não o beijou. Apesar de querer e ver que ele também. Suas respirações falharam. – Te levar pra um passeio turístico. Quero te apresentar a minha cidade, o meu mundo.
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