Match Point

28 ARCO 3 CONCRETO! - Capítulo 25 - Date


Notas iniciais
Oi, corvos! 🖤 Esse capítulo foi um dos mais especiais (e fofos) que escrevi até agora. Mergulhei fundo nos sentimentos do Charlie, no carinho do Nick e nos silêncios que dizem muito mais do que as palavras. Aqui, vocês vão ver o amor florescendo em meio à fragilidade, e o peso da culpa tentando se esconder atrás de sorrisos. Também temos uma surpresa no final — e mal posso esperar pra ver o que vocês vão achar dela. Leiam com calma, com o coração aberto. E, como sempre, se cuidem. Boa leitura! Com carinho, Bia.

CHARLIE

Na manhã seguinte, o sol invadia o quarto de Charlie pelas frestas da cortina branca, desenhando listras douradas sobre o chão de madeira clara. O ar estava fresco, carregando o cheiro suave de lençóis recém-trocados e chá de camomila que sua mãe havia deixado na noite anterior. O quarto era um refúgio: paredes em tons neutros, cartazes antigos de bandas colados meio tortos, livros empilhados no canto, e uma bola de vôlei encostada ao lado do armário.

Charlie ainda estava deitado, envolto no edredom azul-marinho que mal cobria os pés. Vestia uma camiseta cinza larga, antiga, com a gola um pouco gasta, e um short preto que lhe parecia ainda mais folgado do que semanas atrás. A camiseta escorregava suavemente por um dos ombros, revelando a pele pálida, os ossos um pouco mais visíveis do que deveriam. O corpo denunciava a fase difícil pela qual havia passado — mas naquele instante, tudo o que ele conseguia sentir era o leve peso do pingente repousando sobre seu peito.

Com os dedos, ele o alcançou. Uma corrente fina, delicada, dourada, com um pequeno pingente em forma de bola de vôlei. Ele o virou com cuidado, e mesmo sem olhar, já sabia o que estava gravado atrás: CHAR — em letras pequenas, mas profundas o bastante para nunca serem esquecidas.

Fechou os olhos.

A lembrança veio como uma onda calma, mas irresistível. O céu naquele fim de tarde estava pintado de laranja claro, e eles tinham se afastado dos outros, em silêncio, com os corações trocando olhares nervosos. Charlie se lembrava do modo como Nick tirou uma caixinha do bolso da jaqueta, com o papel de presente já meio rasgado, amassado pelas voltas no bolso.

“Me desculpa por isso… rasgou um pouco no meu bolso,” ele disse, envergonhado, com aquele sorriso torto que fazia o estômago de Charlie dar cambalhotas.

E então veio o colar. O brilho do pingente, o detalhe da gravação. O modo como Charlie sentiu a respiração falhar, como se o presente fosse muito mais do que um presente. Era uma promessa. Uma declaração.

O abraço veio antes das palavras. O beijo, logo depois. Mas o que ficou, gravado na alma de Charlie, foi o instante em que Nick o olhou com os olhos verdes firmes, trêmulos, mas decididos, e disse:

"Você... você quer ser meu namorado? Tipo... oficialmente?"

Charlie sorriu só de lembrar. O coração disparado, as mãos suando, a vontade de gritar sim tão forte que quase não coube na boca. Ele tinha balançado a cabeça, levado as mãos ao rosto, lutado contra a explosão de sentimentos e depois… simplesmente dito.

"Sim."

A resposta saiu com a força de quem tem certeza. De quem ama.

Agora, deitado na cama, sozinho, mas com o pingente firme sobre o peito, Charlie sentia tudo de novo. Não com a euforia do momento, mas com o calor de quem guarda algo precioso bem guardado. Era mais do que um objeto, era uma âncora. Uma lembrança do que ele tinha. De quem ele era. Do que ele estava reconstruindo.

E mesmo nos dias em que se sentia frágil, mesmo quando seu reflexo parecia estrangeiro, bastava lembrar: Nick o escolheu. Eles se escolheram.

Charlie sorriu, ainda com o rosto meio afundado no travesseiro. O cabelo bagunçado caía sobre os olhos, mas ele não se importava. Apertou o botão para desbloquear a tela com um certo cuidado, como se abrir aquela mensagem fosse algo que merecesse ser feito com calma. E era. Porque Nick estava ali. Porque o dia começava com o nome dele. E só isso já mudava tudo.

Nick: Bom dia, Char.

Nick: Sei que ontem foi seu aniversário, mas… topa um date só nós dois hoje?

Charlie sentiu seu coração acelerar e, sem hesitar, digitou a resposta.

Eu: Sim! Onde vamos?

Nick: Surpresa. Te pego em meia hora.

Charlie nem tentou esconder o sorriso bobo enquanto pulava da cama, o celular ainda na mão. O quarto estava tomado por uma luz suave, e por um instante, ele apenas ficou ali, respirando fundo. Depois, como se o próprio corpo estivesse agindo antes da mente, ele caminhou até o banheiro com passos leves.

O azulejo frio sob os pés descalços o despertou por completo. Tirou a roupa com calma, observando o reflexo por um segundo antes de entrar no chuveiro. A água morna deslizou pela pele, levando embora o resto de sono, as inseguranças da noite anterior, o peso que parecia ter ficado na memória do travesseiro. Lavou o cabelo com cuidado, o sabonete deixando um cheiro cítrico e fresco no ar. Ao sair, enrolou a toalha na cintura e se aproximou da pia, escovando os dentes com movimentos precisos. Os olhos encararam o espelho, ainda havia traços de cansaço, mas naquele dia havia também algo novo ali: esperança.

De volta ao quarto, Charlie abriu o armário e escolheu uma camiseta azul clara e um short leve e confortável. O dia estava quente, e ele queria se sentir à vontade. Passou os dedos pelos fios úmidos do cabelo, tentando arrumá-los de forma minimamente decente, mas depois de algumas tentativas frustradas, acabou desistindo com uma risada abafada. No fim, não importava.

Charlie sentia o coração bater como um tambor acelerado. A ansiedade girava no estômago como uma borboleta presa, inquieta. Ele se arrumara com pressa, mas também com cuidado: lavou o rosto duas vezes, passou o desodorante favorito, ajeitou o cabelo com os dedos. Nada parecia no lugar, mas ele só conseguia pensar em uma coisa — ou melhor, uma pessoa.

Nick.

E nada no mundo parecia mais importante do que vê-lo.

Quando o som de um motor conhecido se aproximou pela rua, Charlie se levantou num salto da escada da frente de casa. O carro parou bem em frente ao portão, o mesmo carro preto com detalhes foscos que Nick usava sempre que podia pegar emprestado da mãe. O motor desligou com um ronco suave e, então, a porta se abriu.

Nick saiu de dentro do carro e, por um instante, Charlie sentiu o ar falhar.

Ele vestia uma regata preta justa ao corpo, revelando os músculos dos ombros e dos braços pálidos, definidos pelas semanas de treino intenso. O peitoral subia e descia com a respiração leve, e havia pequenas gotas de suor ainda reluzindo em sua clavícula, como se tivesse corrido até ali de tanta pressa para vê-lo. A calça jeans clara, um pouco rasgada no joelho, caía perfeitamente no quadril. E o cabelo, perfeitamente penteado, deixava o rosto ainda mais bonito sob a luz dourada do fim da tarde.

Charlie sorriu ao notar o perfume familiar que chegou até ele com a brisa — amadeirado, suave, aquele que Nick usava sempre que queria se sentir mais confiante. E funcionava. Porque, naquele instante, ele parecia um sonho.

"Pronto para a melhor surpresa da sua vida?" Nick disse com um sorriso largo, girando as chaves do carro no dedo com charme despreocupado, mas os olhos brilhando com nervosismo bom.

Charlie não respondeu de imediato. Deu dois passos à frente e ficou de frente para Nick, olhando cada detalhe de perto, como se não o visse há semanas, como se estivesse vendo de novo pela primeira vez. Ele sentiu o coração disparar ainda mais forte, os dedos formigarem.

"Isso é uma promessa?" ele perguntou num sussurro, com a voz presa na garganta.

"Definitivamente," Nick murmurou, e naquele instante, seus olhares se encontraram com tanta intensidade que palavras não cabiam mais.

Charlie deu um passo. Nick deu outro. E então se encontraram no meio, como se algo os puxasse inevitavelmente. O beijo veio com urgência suave, os lábios se tocando como se precisassem se reconhecer de novo. As mãos de Nick foram para a cintura de Charlie, puxando-o com firmeza. Charlie envolveu o pescoço dele, sentindo a pele quente e o perfume cada vez mais forte, inebriante.

Foi um beijo terno, com gosto de saudade e necessidade. Um beijo que dizia "estou aqui", "você é meu lugar seguro".

Quando se afastaram, ainda com as testas coladas, Nick sorriu pequeno.

"Agora sim… pronto?"

Charlie mordeu o lábio inferior, os olhos brilhando.

"Prontíssimo."

Nick abriu a porta do carro pra ele com um gesto galante e divertido, e Charlie entrou sorrindo, sentindo o coração mais leve do que em dias. O caminho foi tranquilo, repleto de músicas tocando baixinho no rádio e as janelas abertas deixando o vento quente entrar. Só quando estavam perto, Charlie percebeu a paisagem se transformando. O cheiro de sal no ar, o barulho distante das ondas quebrando na areia. Seus olhos brilharam quando finalmente viu o oceano se estendendo diante deles.

A praia estava linda sob o sol dourado. A brisa fresca balançava as barracas coloridas ao longo da orla, onde famílias e casais aproveitavam o dia. Crianças corriam rindo, as ondas batiam suavemente na areia, e o céu azul se espalhava sem fim.

"Eu achei que seria legal vir aqui," disse Nick, saindo do carro e estendendo a mão para Charlie. "Tem várias coisas divertidas para fazermos."

Charlie segurou a mão dele e sorriu. "Perfeito."

Eles começaram passeando pela orla, de mãos dadas, sentindo a areia quente sob os pés. Em uma das barraquinhas, Nick comprou algodão doce e estendeu para Charlie, que deu uma mordida relutante e riu.

"Isso é absurdamente doce."

"Exatamente como deveria ser," Nick disse, roubando um pedaço.

A barraca de tiro com jatos d’água chamava atenção com suas luzes piscando em vermelho e azul, sons de sinos e alarmes e uma fileira de prêmios pendurados logo acima das cabeças dos visitantes: bichos de pelúcia de todos os tamanhos, chaveiros coloridos, brinquedos de plástico brilhantes. O cheiro doce de algodão-doce e pipoca misturava-se ao som de risadas e passos apressados.

Nick e Charlie se aproximaram, e um atendente animado entregou a eles duas armas de água prateadas e reluzentes, cada uma com um cano alongado, pontaria ajustável e um botão que liberava o jato com pressão surpreendente.

"Preparado pra perder?" Charlie disse, arqueando uma sobrancelha com aquele sorriso que misturava charme e provocação.

Nick riu, girando a arma na mão como um cowboy. "No máximo, vou perder com estilo."

Os dois se posicionaram frente aos seus respectivos alvos: bonecos com chapéus de palha em uma plataforma giratória, que subiam e desciam em trilhos metálicos. O objetivo era acertar a boca de um pequeno palhaço de plástico para encher o balão acima dele o mais rápido possível. O primeiro a estourar o balão, vencia.

Ao sinal do atendente, o jogo começou.

Charlie foi uma máquina. Os jatos de água disparavam firmes e certeiros. Enquanto Nick tentava mirar e rir ao mesmo tempo, errando o alvo a cada desequilíbrio, Charlie estava impassível, com o olhar concentrado, o corpo firme e a postura levemente inclinada para frente. Era como assistir um atirador profissional em ação. Ele compensava o movimento dos alvos com pequenos ajustes rápidos da mão, e seu balão foi crescendo… crescendo…

PUM!

O som do balão estourando ecoou como um gol em final de campeonato.

"UAU!" Nick exclamou, largando a arma e encarando Charlie de boca aberta. "Você me destruiu! Tipo… nem foi perto!"

Charlie deu uma piscadinha, soprou a ponta da arma como se ela estivesse quente e a apoiou com estilo na bancada.

"Não duvide das minhas habilidades com armas," disse com uma pose vitoriosa.

“Anotado,” Nick respondeu, levantando as mãos como quem se rende. "Você é perigoso, Char."

O atendente, rindo, ofereceu a Charlie uma escolha entre os prêmios pendurados. Ele olhou por um momento, avaliando os gigantescos ursos de pelúcia e os brinquedos chamativos, mas então apontou para um pequeno urso marrom, com olhos costurados e uma fita vermelha em volta do pescoço.

"Esse aqui," disse.

Sem hesitar, Charlie se virou e o estendeu para Nick.

"Aqui. Pra você."

Nick piscou, surpreso. "Sério?"

"Você merece um prêmio de consolação," respondeu Charlie, com um sorrisinho travesso no canto da boca.

Nick pegou o ursinho com cuidado, como se fosse feito de vidro, e o apertou contra o peito com um suspiro dramático.

"Eu nunca mais vou me separar dele," disse com falsa emoção, mas os olhos entregavam algo mais sincero.

Charlie riu, e os dois se olharam por um instante, até Nick, sorrindo, esticar a mão e entrelaçar os dedos aos de Charlie, enquanto os sinos da barraca tocavam de fundo, como se celebrassem o momento perfeito de uma vitória — que, no fim das contas, era dos dois.

Continuaram andando pela feira, as luzes coloridas refletindo nos olhos de Charlie como se tudo tivesse um brilho novo, talvez porque ele estivesse com Nick. Até que pararam diante de uma cabine de fotos antiga, com uma cortina vermelha meio desbotada e o letreiro piscando em amarelo neon: Capture seu momento.

Nick olhou para Charlie com aquele brilho travesso nos olhos, como se já soubesse a resposta antes mesmo de perguntar.

"Temos que tirar algumas. Agora."

Charlie riu, um riso leve, quase nervoso, mas não disse não. Era impossível negar qualquer coisa para aquele sorriso.

"Vem, vamos..." Nick disse, puxando-o pela mão com uma pressa animada, quase criança.

Eles entraram. A cabine era pequena e abafada, com o cheiro leve de tecido antigo e eletricidade. O banco de couro estava um pouco gasto, e as paredes eram cobertas de rabiscos e corações desenhados com caneta. O espaço era tão estreito que seus joelhos se encostaram sem esforço, seus ombros colados, seus perfumes se misturando no ar quente.

A máquina brilhou em azul.

Primeira foto: os dois sorrindo, bochechas quase se tocando.

Segunda: caretas exageradas, Charlie com a língua de fora e Nick apertando os olhos, fazendo paz com os dedos.

Terceira: um beijo rápido, tímido, doce, os lábios roçando como se o tempo fosse pouco demais para tanto sentimento.

Quarta: Charlie se virou e abraçou Nick de lado, o rosto escondido no pescoço dele, sentindo o calor da pele e o cheiro amadeirado do perfume que o fazia perder o fôlego.

Nick então o olhou. O olhar era diferente agora. Mais denso. Mais seguro. Ele mordeu de leve o lábio inferior.

"Senta no meu colo pra última?"

Charlie piscou, pego de surpresa. O coração deu um salto desajeitado.

"O quê?"

"Vem cá," Nick disse, a voz mais baixa, rouca. A mão deslizou suavemente pela cintura de Charlie, puxando-o com firmeza, mas sem pressa.

Charlie hesitou. Só por um segundo. Mas então cedeu. Sentou-se no colo dele, o corpo tremendo levemente, e foi aí que sentiu, os braços de Nick ao redor da sua cintura. Fortes. Presentes. Seguros. Algo nele esquentou de dentro pra fora. Um arrepio subiu pela espinha, e por um momento, ele esqueceu onde estavam.

A máquina piscou. Flash.

Nick apertou sua cintura de leve, o polegar roçando a pele entre a camiseta e o cós da calça. Charlie não conseguia respirar direito. O contato era suave, mas acendia alguma coisa nova nele. Um calor que começava no peito e se espalhava feito fogo calmo.

"Ficou perfeito," Nick sussurrou contra sua orelha, a voz vibrando perto demais. Charlie mordeu o lábio, tentando conter o sorriso e o coração acelerado ao mesmo tempo.

A máquina imprimiu a tira de fotos com um clique abafado. Charlie se abaixou e a pegou. Olhou cada quadro com cuidado. Eles estavam ali, juntos, como se o mundo lá fora tivesse desaparecido por um instante. No último, ele no colo de Nick, o rosto encostado no dele, as expressões serenas, intensas, cheias de algo que Charlie ainda não sabia nomear, mas sentia.

Como se fosse o começo de algo que ele nunca mais esqueceria.

Nick e Charlie caminharam lado a lado até uma lanchonete próxima, o cheiro de batatas fritas e hambúrgueres grelhados pairando no ar. O ambiente era aconchegante, com luzes amareladas e uma brisa fresca entrando pelas janelas abertas. O céu lá fora começava a se tingir de tons alaranjados e rosados, anunciando o entardecer. Era uma daquelas tardes que pareciam se arrastar de maneira tranquila, como se o mundo estivesse em câmera lenta.

Depois de pedirem seus lanches, caminharam até uma mesa perto da janela, onde a vista se abria para o mar tingido de dourado pelo pôr do sol. As ondas quebravam com suavidade ao fundo, e o reflexo do céu tingia a água de tons cor-de-rosa e laranja. O cenário parecia tirado de um filme, mas, para Nick, o que importava mesmo era quem estava do outro lado da mesa.

Nick abriu a embalagem com entusiasmo, revelando um hambúrguer gigante de dois andares, recheado com queijo derretido escorrendo pelas bordas, bacon crocante, alface americana e rodelas generosas de tomate fresco. O pão era dourado, levemente tostado e polvilhado com gergelim. Ele pegou o lanche com as duas mãos, como se estivesse segurando um troféu, e deu uma mordida generosa, soltando um som satisfeito logo em seguida.

"Hmm... isso tá incrível," murmurou com a boca cheia, sorrindo de olhos fechados por um segundo.

Do outro lado da mesa, Charlie ainda não tinha tocado no seu pedido: um sanduíche natural com peito de frango grelhado, queijo branco, rúcula, fatias finas de maçã verde e um molho de mostarda suave. O pão integral era fino e levemente aquecido, com as bordas crocantes. Ao lado, havia uma porção de batatas rústicas com alecrim e um suco de frutas vermelhas servido num copo gelado com canudo curvado.

Nick mastigava enquanto observava Charlie em silêncio, seu olhar atento, os dedos entrelaçados no colo, o sanduíche ainda intacto no prato. O contraste entre a empolgação de Nick e a hesitação de Charlie era quase palpável, mas havia algo gentil em como ele esperava.

"Tá sem fome?" Nick perguntou entre uma mordida e outra, limpando um pouco do molho do canto da boca.

Charlie hesitou por um instante antes de dar um sorriso pequeno e forçado.

"Sim… me desculpe."

"Não peça desculpas," Nick disse, rindo de leve.

Charlie abriu a boca, instintivamente pronto para dizer “descul...” mas se interrompeu no meio da palavra. Ele franziu o cenho e baixou os olhos para seu prato, percebendo o que estava fazendo. De novo. Sempre pedindo desculpas. Sempre tentando minimizar sua presença. Sempre tentando esconder quando algo estava errado.

Pegou o sanduíche com as mãos trêmulas. O cheiro do pão fresco e do recheio simples, que em qualquer outro momento pareceria inofensivo, agora parecia enjoativo. Mesmo assim, Charlie levou à boca e mordeu uma mordida pequena, ensaiada. Quase simbólica. Ele mastigou devagar, o gosto apagado, como se estivesse comendo papelão. O alimento pesava na língua como cimento.

Engoliu à força.

Por Nick.

A segunda mordida veio logo em seguida, mais pelo impulso de tentar do que por fome. O estômago se revirou no mesmo instante. Aquela sensação de repulsa, de desconforto, de culpa mascarada em cada pedaço mastigado. A garganta fechava, como se quisesse impedir que mais alguma coisa passasse por ela.

Ele pousou o sanduíche de volta no prato. As mãos continuavam segurando o pão com leveza fingida, mas os dedos estavam rígidos. Empurrou o prato um pouco para o lado, fingindo arrumá-lo. Sentiu o nó apertando o estômago, um peso no peito. A respiração saiu mais rápida. As paredes do restaurante pareciam se fechar ao redor.

Charlie apenas baixou os olhos, com o maxilar travado, tentando se convencer de que estava tudo bem. Que era só mais uma mordida. Que precisava provar, pelo menos para Nick, que estava bem. Mesmo que estivesse despedaçando por dentro.

"Mas tá tudo bem mesmo?" Nick perguntou de repente, sua voz soando suave, mas atenta.

Charlie respirou fundo e abaixou a cabeça, seus dedos apertando o guardanapo sobre a mesa. O peso em seu peito que vinha crescendo nos últimos dias parecia querer transbordar ali mesmo. Ele fechou os olhos por um instante antes de finalmente soltar as palavras.

"Desde a derrota contra o Seijoh, eu tenho tido certos pensamentos que faziam tempo que eu não tinha."

Nick parou de mastigar, sua expressão mudando imediatamente para algo mais sério. Ele largou o hambúrguer no prato e inclinou o corpo um pouco para frente, atento a cada palavra de Charlie.

"Não consigo parar de pensar que foi por minha culpa" Charlie continuou, sua voz saindo baixa. "Se eu tivesse feito aquele último ponto... Se eu tivesse saltado um segundo antes... Se eu não tivesse hesitado…" Ele mordeu o lábio, os olhos fixos na mesa, como se estivesse preso naquela espiral de pensamentos.

Nick deslizou a mão pela mesa, tocando a de Charlie com cuidado, entrelaçando os dedos aos seus.

"Char…" ele disse baixinho, como se quisesse ter certeza de que Charlie realmente o ouvia. "Não foi culpa sua. Foi um jogo muito disputado, ninguém está buscando um culpado." Ele apertou a mão de Charlie, seu toque quente e firme. "Se você precisar de alguma coisa, eu tô aqui pra você."

Charlie levantou os olhos e encontrou os de Nick. Havia tanta sinceridade ali, tanta paciência, tanta compreensão. Ele engoliu em seco, sentindo um calor estranho no peito. De alguma forma, aquelas palavras significavam mais do que ele conseguia expressar. Ele não respondeu de imediato, apenas apertou a mão de Nick de volta, segurando-a como se estivesse se agarrando a algo sólido em meio ao caos que sua mente insistia em criar.

"Obrigado," ele sussurrou.

NICK

Nick e Charlie saíram da lanchonete e voltaram a caminhar pela orla da praia, o som das ondas quebrando suavemente contra a areia criando um fundo tranquilo para sua conversa. O sol começava a descer no horizonte, pintando o céu com tons de laranja suave e rosa, e a temperatura estava agradável, o tipo de clima perfeito para um passeio. O vento leve balançava os cabelos de Charlie, e Nick não resistiu a esticar a mão e brincar com uma mecha teimosa que insistia em cair sobre os olhos dele. Charlie sorriu de leve, inclinando a cabeça contra o toque antes de segurar a mão de Nick, entrelaçando os dedos.

Eles caminharam em silêncio por um tempo, aproveitando a presença um do outro sem a necessidade de palavras. O mundo ao redor parecia desacelerar, como se só existissem eles dois ali, pisando na areia fria e ouvindo a música rítmica do mar. Nick apertou um pouco a mão de Charlie antes de finalmente falar.

"Eu vi que o Seijoh perdeu a final," ele disse, a voz baixa, como se ainda estivesse processando aquilo. "Mas Oikawa foi escolhido como melhor levantador do torneio."

Charlie olhou para ele de soslaio, estudando sua expressão.

"E como você se sente sobre isso?" perguntou, com um tom gentil, mas direto.

Nick suspirou, chutando levemente um pouco de areia para longe.

"Eu não sei... quer dizer, eu fiquei feliz por ele. Sério. Ele merece. Mas ao mesmo tempo..." Ele hesitou, buscando as palavras certas. "Foi estranho ver ele chegar tão perto e perder. Eu sei o quanto ele queria essa vitória. E eu sei que, no fundo, parte de mim queria que ele ganhasse só para... sei lá, ver se isso o faria feliz."

Charlie apertou um pouco mais a mão de Nick, trazendo-o de volta ao momento.

"Você quer arrumar as coisas com ele?" perguntou baixinho.

Nick parou de andar, virando-se para encarar Charlie. Seu olhar estava sério, um misto de insegurança e esperança.

"Quero. Mas não sei se ele quer."

Charlie observou Nick por um instante, tentando entender tudo o que passava pela cabeça do namorado. Ele sabia que Oikawa e Nick tinham um passado complicado, mas também sabia o quanto Nick valorizava as pessoas que marcaram sua vida. Havia um peso ali, algo não resolvido, e Charlie sentia que isso ainda afetava Nick mais do que ele deixava transparecer.

"Teremos bastantes chances de vencê-lo no Torneio de Primavera," disse Charlie, sorrindo levemente, tentando trazer um pouco de leveza ao momento. "E talvez, quando vocês se enfrentarem de novo, isso ajude a colocar as coisas no lugar."

Nick riu fraco, balançando a cabeça.

"Você tá dizendo que a solução para nossos problemas é esmagar o Seijoh na quadra?"

Charlie deu de ombros, um brilho travesso nos olhos.

"Não vejo problema nisso."

Nick riu de verdade dessa vez, soltando um suspiro mais leve. Ele olhou para Charlie e sentiu um aperto no peito, mas era diferente. Não era o aperto da culpa ou da confusão que sentia em relação a Oikawa. Era um aperto bom. Algo que o ancorava, que o fazia sentir que, independentemente do que acontecesse, ele não estava sozinho.

Ele se aproximou um pouco mais, puxando Charlie para mais perto, sentindo o calor reconfortante do corpo dele.

"Eu acho que você tem razão," murmurou, olhando para os olhos azuis acinzentados do namorado. "Mas, independentemente do que acontecer com Oikawa... Eu sou muito mais feliz quando estou com você."

Charlie sentiu o coração disparar e sua respiração falhar por um segundo. Ele abriu a boca para responder, mas no fim, apenas sorriu e se inclinou, encostando os lábios nos de Nick em um beijo lento e cheio de significado. O mar continuava seu ciclo infinito ao fundo, as cores do céu mudavam, e ali, entre as brisas salgadas e o som das ondas, Nick e Charlie estavam exatamente onde deveriam estar.

Nick desviou o olhar de Charlie por um momento, sua atenção sendo capturada pelo grupo de rapazes jogando vôlei na areia, um pouco mais à frente. Eles eram claramente amadores, mas ainda assim tinham uma energia intensa, jogadas rápidas e bem coordenadas. Um deles, alto e magro, com cabelos escuros e bagunçados, era ágil e se movia pela quadra improvisada com facilidade, recebendo a bola com precisão. Outro, um pouco mais baixo, mas robusto, saltava para bloquear os ataques com força bruta, o corpo coberto por uma fina camada de suor brilhando sob o sol. Havia também um terceiro jogador, de pele bronzeada e um sorriso constante no rosto, que parecia ser o mais habilidoso, acertando os cortes com potência e controlando os passes com calma.

Nick observava cada movimento, analisando instintivamente as estratégias do jogo, reparando na postura dos jogadores, no tempo dos saltos, na forma como se comunicavam sem precisar falar. Ele sequer percebia o quanto estava imerso naquela cena até sentir os olhos de Charlie sobre ele.

"Quer jogar?" Charlie perguntou, inclinando a cabeça e sorrindo de leve, como se já soubesse a resposta.

Nick piscou, voltando ao presente.

"Não. Prefiro ficar aqui com meu namorado," respondeu sem hesitar, desviando o olhar dos jogadores para Charlie.

Charlie sorriu satisfeito e o puxou pela mão, guiando-o até um espaço mais afastado na areia, onde ambos se deitaram lado a lado. O calor da areia sob seus corpos era reconfortante, e o som das ondas quebrando suavemente criava uma melodia de fundo tranquila. Nick virou o rosto para Charlie, observando como a luz dourada do fim de tarde deixava sua pele ainda mais suave, seus olhos acinzentados perdidos no horizonte, pensativo.

"O que foi?" Nick perguntou, percebendo a expressão distante de Charlie.

Charlie suspirou, mordendo levemente o lábio antes de responder.

"Temos que ficar melhores."

Nick franziu levemente a testa.

"O que quer dizer?"

Charlie virou a cabeça para ele, e então fez um gesto sutil com a cabeça na direção dos jogadores.

"Para o Shiratorizawa, devemos parecer como eles."

Nick o observou por um instante, absorvendo aquelas palavras. Charlie sempre foi dedicado, determinado a melhorar, mas algo na forma como ele falou fez Nick sentir um leve aperto no peito. Como se Charlie estivesse se cobrando demais, como se estivesse se comparando a cada jogador ali e sentindo que nunca seria o suficiente.

Nick suspirou e balançou a cabeça, um pequeno sorriso brincando nos lábios.

"Char... Vamos combinar de não falar mais de vôlei nos nossos encontros?"

Charlie piscou, surpreso, antes de rir baixinho.

"Foi você que começou," provocou, puxando Nick para um beijo.

Nick riu contra os lábios dele antes de aprofundar o beijo, sentindo o gosto salgado do mar misturado ao calor familiar de Charlie. O mundo ao redor se dissolveu por alguns instantes, e pela primeira vez naquele dia, o vôlei foi a última coisa em que pensaram.


CHARLIE

O sol já havia mergulhado no horizonte, tingindo o céu com tons suaves de roxo, azul e laranja desbotado. As ruas estavam mais calmas agora, envoltas naquela tranquilidade típica de fim de tarde à beira-mar. O carro de Nick parou a poucos metros da esquina da rua onde Charlie morava. As janelas abertas deixavam a brisa do oceano entrar, trazendo o cheiro salgado e fresco que grudava suavemente na pele, no cabelo, em tudo.

Nick desligou o motor, mas não fez menção de sair do carro imediatamente. Ficou olhando para Charlie por alguns segundos, como se tentasse gravar cada detalhe do seu rosto sob aquela luz dourada tardia. A boca de Charlie ainda tinha vestígios do milk-shake de morango que tomaram mais cedo, e o pingente no peito brilhava discretamente sob a camiseta fina.

"Deixa eu te acompanhar até a porta?" Nick perguntou, a voz gentil, mas carregada de intenção, como se estivesse tentando se prolongar um pouco mais ali, só mais uns minutos ao lado dele.

Charlie hesitou por um instante. Seu sorriso era verdadeiro, mas havia uma nuance sutil por trás dele, algo que Nick percebeu na forma como ele baixou os olhos por um segundo antes de responder.

"Já tô quase em casa... não precisa se incomodar," disse Charlie, tentando parecer despreocupado. "Quero... quero andar um pouco, limpar a cabeça."

Nick não insistiu. Não porque não quisesse, mas porque entendeu. Porque amar também era saber respeitar esses pequenos espaços que o outro precisa, mesmo sem explicar.

"Tem certeza?" ele perguntou ainda assim, só para ter certeza.

Charlie assentiu, desta vez olhando nos olhos dele. "Tenho. Mas obrigada por hoje. Foi... perfeito."

Nick suspirou, vencido, mas com um sorriso calmo. Estendeu os braços e puxou Charlie para perto, abraçando-o com um carinho que só os dois entendiam. A mão dele deslizou pelas costas de Charlie, e o rosto repousou por um instante na curva de seu pescoço, sentindo o cheiro doce do shampoo e o calor da pele.

"Se cuida, tá?" murmurou, como se dissesse muitas outras coisas que ficaram em silêncio.

Charlie retribuiu o abraço, mais apertado do que de costume, e respondeu num sussurro suave:

"Sempre."

Eles se afastaram devagar. Nick ainda ficou parado ao lado do carro, observando enquanto Charlie colocava as mãos nos bolsos da jaqueta e começava a caminhar sozinho pela calçada. O passo era leve, mas havia algo melancólico ali, uma necessidade silenciosa de se reconectar consigo mesmo.

Nick não o chamou. Apenas encostou no carro e ficou olhando até que Charlie dobrasse a esquina e desaparecesse da vista, com o céu agora escurecendo sobre a cidade adormecida. E então, com o coração calmo, mas apertado, Nick entrou no carro de novo, ligou o rádio baixinho, e deixou que o som da música se misturasse com o da saudade.

Nick o observou caminhar para longe, os passos aparentemente firmes, o corpo ereto... mas, por dentro, Charlie estava desmoronando. O dia tinha sido perfeito, luz dourada, sorrisos, beijos, o colo quente de Nick na cabine de fotos. Tão perfeito que parecia mentira. E talvez fosse. Porque agora, com o céu escurecendo e as luzes dos postes piscando lentamente sobre a calçada vazia, Charlie sentia que estava afundando. Afundando em silêncio.

A culpa voltava. E não só voltava — ela explodia dentro do peito, um soco surdo no estômago, uma mão invisível apertando seu pulmão até o ar faltar.

O jogo contra o Seijoh.

A imagem vinha inteira, como uma sequência impossível de esquecer. A quadra. O silêncio antes do último saque. O bloqueio triplo. O som da bola batendo no chão. A decepção nos rostos ao redor. O grito preso de Nick. Os olhos arregalados de Tao. E ele ali... parado. Estático. Fraco.

Se ele tivesse sido mais rápido. Se tivesse aberto os olhos. Se tivesse confiado mais.

Se não tivesse falhado.

O pouco que tinha comido mais cedo parecia virar chumbo dentro dele, um peso insuportável. O peito apertava. O ar rareava. Seus passos vacilaram como se as pernas não fossem mais suas. Uma tontura violenta o tomou de surpresa, e tudo ficou embaralhado, a calçada, as luzes, o mundo.

O suor frio escorreu pela têmpora. O estômago se revoltou com brutalidade. Charlie tropeçou até um pequeno arbusto perto de uma cerca e se apoiou ali com o braço trêmulo. Sentiu a bile subir antes mesmo de ter tempo de reagir.

Então, vomitou.

Com violência. Com dor.

O corpo inteiro se contraiu, as costas arqueadas, os dedos afundados na grama suja e úmida. O som do vômito ecoou pela rua vazia, solitário. Seus olhos se encheram de lágrimas involuntárias, não de emoção, mas de exaustão física. O gosto amargo invadiu sua boca, e o peito arfava como se tivesse acabado de correr uma maratona.

Ficou ali por alguns segundos, os joelhos encostados no chão, os cotovelos tremendo sob o peso do próprio corpo. A respiração era um ruído seco, instável. Ele limpou a boca com as costas da mão, depois com a barra da camiseta, e se encolheu, como se quisesse desaparecer ali mesmo.

Era isso. Era essa a verdade. Ele não estava bem. Nunca esteve, talvez.

O momento de alívio que veio logo após foi tão passageiro quanto cruel. Porque assim que o corpo parou de reagir, a mente voltou com força total. E a culpa... Deus, a culpa... caiu como uma enxurrada em cima dele. Pesada. Vergonhosa. Devastadora.

Ele queria voltar no tempo. Queria apagar tudo. Queria não ser esse fardo.

Mas não podia.

Charlie respirou fundo. Uma, duas, três vezes, tentando fazer com que o ar entrasse direito. Os ombros ainda tremiam. As mãos, frias, não paravam de se contorcer dentro dos bolsos quando ele voltou a caminhar. Como se enfiá-las ali fosse o único jeito de mantê-las presas, de conter tudo que queria escapar: o choro, a confissão, o pedido de ajuda.

Cada passo era um esforço. Cada pedra na calçada, uma lembrança de que ele ainda estava ali, mesmo querendo desaparecer.

E o pior de tudo era que, naquela noite linda e perfeita, ele estava voltando pra casa sozinho. Com o peito cheio de uma dor que ninguém via.

Nem mesmo Nick.

Charlie caminhava lentamente pela rua vazia, o som de seus próprios passos abafado pela brisa suave que soprava folhas secas pela calçada. A noite já começava a engolir o dia, e o céu, antes dourado, agora exibia um azul profundo pontilhado por estrelas tímidas.

Foi ao virar uma esquina que ele se deparou com um beco estreito, ladeado por muros de tijolos antigos cobertos por trepadeiras. Movido por um impulso inexplicável, entrou. E então parou.

Ali, num banco velho de madeira desgastada, sob a sombra rarefeita de uma árvore recém-florida que deixava cair pequenas pétalas brancas sobre o chão úmido, estava um garoto. Estava sozinho. Os ombros caídos, como se carregassem o peso de dias silenciosos. Os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça levemente inclinada para frente, e a atenção fixa na tela do celular. Os dedos se moviam com lentidão, preguiçosos, como quem apenas deslizava por mensagens antigas ou passava o tempo em um jogo qualquer.

Seu cabelo chamava atenção. Era loiro, visivelmente tingido, com as raízes escuras já bem evidentes, o que dava um ar de negligência proposital, como se ele não ligasse, ou como se quisesse mesmo que fosse assim. Era liso, caindo desordenadamente sobre os olhos semicerrados, e moldando o rosto pálido com uma delicadeza quase fria.

Mas o que mais chamou a atenção de Charlie foi o olhar.

Mesmo com a postura desleixada, mesmo com a expressão neutra, quase entediada, havia algo nos olhos daquele garoto que não combinava com o resto. Um brilho atento, penetrante. Um tipo de olhar que parecia absorver o mundo ao redor sem dizer uma palavra. Charlie sentiu-se exposto por um instante, como se estivesse sendo lido.

Foi então que ele viu. O uniforme.

A jaqueta vermelha com detalhes em preto. O nome bordado em branco sobre o peito.

NEKOMA.

Charlie parou no mesmo instante, o corpo enrijecendo. Sentiu uma fisgada no estômago, como se algo tivesse se revirado por dentro. O símbolo rival estampado ali, tão casualmente, o transportou de volta à quadra, às redes, aos bloqueios, à tensão que parecia grudar na pele durante cada set.

Um jogador do Nekoma. Sozinho. Na cidade deles. No caminho de volta pra casa.

Ele franziu a testa e apertou os lábios, confuso, um leve desconforto percorrendo sua espinha.

O que ele tá fazendo aqui?

A curiosidade despertou, viva como uma centelha. Charlie não sabia quem era aquele garoto, nem por que seu uniforme estava ali, tão deslocado quanto ele se sentia algumas vezes. Mas alguma coisa dizia que aquilo não era coincidência.

O garoto, percebendo o olhar fixo de Charlie, guardou o celular no bolso com um movimento rápido, quase automático, como quem já estava acostumado a se proteger. Seus olhos se encontraram por um breve instante, e mesmo sem palavras, aquele silêncio pareceu pesado, carregado de significados não ditos.

Charlie ergueu as mãos em um gesto de paz e deu um passo para trás, apressado.

"Calma, não vou fazer nada!" disse com um sorriso nervoso.

"Você me assustou." A voz do garoto era baixa, quase monótona, mas havia firmeza ali. Ele não parecia bravo, só... deslocado. Como se o susto não fosse de medo, mas de ser visto.

"O que tá fazendo aqui?"

"Me perdi. E fiquei sem bateria." respondeu, os olhos voltando a vagar, como se não gostasse de sustentar contato visual por muito tempo.

"Você não é daqui, né?"

"Sou do outro lado da província." Ele respondeu sem detalhes, como quem mede as palavras antes de oferecê-las.

Foi então que o som seco de um grasnado rasgou o ar. Um corvo, negro e majestoso, estava empoleirado na cerca de ferro enferrujada que dividia a calçada de um terreno abandonado. As penas arrepiadas pelo vento pareciam sombra sólida contra o céu que começava a escurecer. Abaixo dele, um gato preto, de pelo emaranhado e olhar selvagem, andava em círculos lentos. Tentava abrir com as patas uma sacola de plástico rasgada, como se algo ali dentro pudesse matar sua fome, ou apenas lhe dar algum sentido.

O corvo observava em silêncio. Suas asas abriram por um segundo, em um gesto quase simbólico, como quem diz "eu poderia voar". Mas não voou. Escolheu permanecer.

Eram dois animais diferentes, mas estranhamente parecidos. Ambos em um terreno de ninguém. Ambos observando, ambos sendo observados.

Charlie quebrou o momento primeiro, a voz mais suave desta vez.

"Quer usar meu celular?"

Kenma assentiu com um aceno mínimo. "Sim, por favor."

Charlie entregou o aparelho e estendeu a mão junto, como quem oferecia um nome e um gesto de boas-vindas.

"Eu sou Charlie Spring."

O garoto pegou o celular, mas não a mão. Seus olhos estavam fixos na tela, os dedos rápidos e metódicos. Só depois de alguns segundos ele notou o gesto e coçou a cabeça, sem jeito.

"Foi mal..." murmurou.

Charlie riu, sem qualquer mágoa. Havia algo honesto naquela falta de cerimônia. Algo que o fez se sentir mais à vontade.

"Tudo bem. Eu também odeio cumprimentar gente nova."

Kenma ergueu os olhos por um segundo, e naquele instante breve, alguma coisa se alinhou entre eles. Não rivalidade. Não tensão. Mas reconhecimento. Dois seres deslocados, cruzando caminhos por acaso, como um corvo que escolhe não voar e um gato que não para de tentar. E talvez, bem ali, naquele beco entre a luz fraca do poste e o silêncio de um encontro improvável... algo tivesse começado a florescer.

“Eu não pude deixar de notar que você joga vôlei.”

Kenma abaixou os olhos para a própria camisa, como se estivesse se lembrando do que vestia, e depois voltou a olhar para Charlie.

“Eu também jogo,” Charlie continuou. “Sou do Karasuno. Conhece?”

Aquela frase fez algo mudar na expressão do garoto. Ele ergueu os olhos de outro jeito, encarando Charlie com mais atenção.

“Karasuno?” Ele repetiu, assentindo levemente. “Já escutei falar de vocês.”

Charlie sentiu um lampejo de orgulho, o Karasuno estava ficando conhecido! Mas antes que pudesse sorrir, o garoto completou:

“Os corvos sem asas, né?”

O entusiasmo de Charlie morreu instantaneamente. Ele revirou os olhos.

“Ainda nos chamam assim?”

Kenma deu de ombros, voltando a mexer no celular.

“Pra perder um apelido desses, vocês têm que fazer algo maior do que vencer o Muro de Ferro.”

Charlie arregalou os olhos. Ele sabia do jogo contra o Date Tech?! Se ele sabia disso… significava que estavam realmente ganhando atenção. Charlie fechou os punhos, determinado.

“Nós seremos os campeões do Torneio de Primavera,” declarou. “E nunca mais nos chamarão assim.”

Kenma olhou para ele com uma expressão calma, quase divertida. Como se estivesse avaliando sua determinação. Depois, apenas assentiu lentamente.

“Tudo bem.”

Charlie ergueu as sobrancelhas, surpreso. “Você joga em que posição?”

Kenma ajeitou a gola do uniforme. “Sou o levantador do Nekoma.”

Os olhos de Charlie brilharam. “Uau, levantador? Você é um pouco diferente do nosso levantador.” Ele riu baixo. “Parece que eu tenho facilidade em conhecer levantadores.”

Kenma deu um meio sorriso, como se aquilo não o surpreendesse. “E você?”

“Sou o central do Karasuno,” respondeu Charlie, inflando o peito com orgulho.

Kenma arregalou os olhos, avaliando sua altura.

“Você não é meio pequeno?”

Charlie sentiu a veia saltar na testa. “Eu posso ser pequeno, mas eu sei pular!”

Kenma riu de leve. “Me desculpe. Tenho certeza de que você deve ser um ótimo atacante.”

Charlie relaxou e retribuiu o sorriso.

De repente, um grito ecoou pela rua, rompendo o silêncio suave da noite.

"KENMAAAAAAA!!!"

Charlie se virou no mesmo instante, seus olhos pousando no garoto que se aproximava em passos largos e despreocupados. Ele era alto, com cabelos pretos desgrenhados, como se não tivesse sequer tentado arrumá-los o dia inteiro. Seu sorriso afiado e confiante exalava provocação, e seus olhos escuros brilhavam com uma energia travessa, como se sempre estivesse prestes a dizer algo que faria alguém revirar os olhos.

Ao lado de Charlie, Kenma soltou um longo suspiro, pesado e resignado, sem tirar os olhos do celular de Charlie.

"Ah, não…" murmurou, claramente esperando que aquilo acontecesse mais cedo ou mais tarde.

Charlie observou o recém-chegado com curiosidade. Ele é bem… atraente, pensou, antes de afastar a ideia tão rápido quanto surgiu. O garoto parou ao lado de Kenma e bateu no ombro dele com uma familiaridade despreocupada, seu toque meio brusco, meio afetuoso.

"Você sumiu! Fiquei te procurando, cara."

Kenma finalmente desviou os olhos da tela e olhou para ele com um ar indiferente. "Me perdi."

O rapaz cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, claramente duvidando. "Você não pode sair sozinho, a gente não conhece esse bairro”

Kenma apenas revirou os olhos, mas não parecia irritado de verdade.

Charlie percebeu a dinâmica entre eles e riu baixo, antes de se dar conta de que ainda não sabia o nome do garoto.

Kenma suspirou de novo, como se não tivesse escolha a não ser fazer as apresentações.

“Esse é Kuroo,” disse, apontando para o outro.

Charlie assentiu. “Prazer.”

Kuroo abriu um sorriso travesso, os olhos brilhando com um toque de curiosidade. “E você é…?”

"Charlie," ele respondeu. "Charlie Spring."

"Entendi," Kuroo assentiu, como se estivesse registrando aquela informação. "Bom te conhecer."

Antes que Charlie pudesse dizer algo, Kuroo virou-se para Kenma novamente. "Kenma, estamos atrasados. O ônibus já vai sair."

Kenma fechou os olhos por um breve instante, soltando um suspiro ainda mais pesado, como se estivesse reunindo forças para lidar com Kuroo por mais algumas horas.

"Até mais, Charlie Spring do Karasuno" disse finalmente, erguendo uma das mãos em um aceno rápido antes de se virar para seguir Kuroo.

Mas antes de dar o primeiro passo, ele parou abruptamente. Charlie viu Kenma franzir levemente o cenho, como se estivesse lembrando de algo. Seus dedos ágeis deslizaram pelo celular, e, segundos depois, ele devolve o celular de Charlie.

Charlie pegou o aparelho, e uma notificação apareceu na tela.

Kenma Kozume deseja te adicionar no Instagram.

Charlie sorriu e aceitou sem hesitar.

Ele não sabia dizer exatamente por que, mas tinha um bom pressentimento sobre Kenma.

Notas finais
Se você chegou até aqui… obrigada. De verdade. Esse capítulo foi como um abraço e um soco ao mesmo tempo. Falar sobre amor, distúrbios, culpa e esperança em um único dia não é fácil — mas é necessário. Charlie está tentando, Nick está tentando, e talvez isso seja o que mais nos conecta a eles: o fato de que ninguém precisa estar perfeito o tempo todo. Às vezes só precisamos ser vistos. Obrigada por ler, por sentir, por estar aqui. Me conta o que você achou nos comentários. Até o próximo capítulo. Com afeto, Bia.