Match Point
19 ARCO 2 DOMINE! - Capitulo 18 - Monstro
Notas iniciais
CHARLIE
Charlie estava deitado em sua cama, um livro aberto sobre o peito, mas seus olhos não estavam mais focados nas palavras impressas. A luz do abajur ao lado da cama projetava um brilho suave no quarto, deixando sombras longas nas paredes azul-acinzentadas. O espaço era pequeno, mas aconchegante, com pôsteres discretos presos acima da escrivaninha, uma prateleira abarrotada de livros de capa gasta e uma pilha de cadernos rabiscados no canto da mesa.
Ao lado dele, no criado-mudo, estava um prato com a janta que Tori havia lhe deixado algumas horas antes. Mas a comida continuava ali, pela metade, o arroz misturado com os legumes intocado na borda do prato. Charlie tinha pegado o garfo algumas vezes, mexido a comida, mas cada garfada parecia pior que a anterior. Ele encarou a refeição e uma leve náusea subiu por sua garganta. O cheiro que antes era agradável agora parecia enjoativo. Ele afastou o prato com um suspiro pesado.
Havia muitas coisas ocupando sua mente. Nick, a semifinal contra o Aoba Jōsai, e esse tal de Oikawa. Desde que Nick apontou para o garoto do celular no ônibus, Charlie sabia que havia algo ali. O jeito que Nick olhava para a tela do celular, a maneira como sua expressão mudava sempre que o nome de Oikawa era mencionado… Havia algo maior do que apenas rivalidade.
Charlie queria entender. Precisava entender. Mas, acima de tudo, ele estava preocupado. Nick não parecia bem desde o jogo contra o Tokonami. Mesmo depois da vitória, ainda havia algo nele que parecia... desmoronando por dentro. Charlie fechou o livro sem sequer marcar a página. Não adiantava tentar se distrair. Algo estava errado. E então, como se seus pensamentos tivessem invocado o próprio Nick, a campainha soou. Tarde da noite.
Charlie franziu o cenho. Seu coração acelerou. Ele se levantou rapidamente, deixando o livro de lado, e saiu do quarto, descendo as escadas para atender a porta. Quando Charlie abre a porta ainda de pijama, ele quase não tem tempo de processar o que está acontecendo. Nick estava parado ali, os ombros curvados, a respiração irregular. Seus olhos estavam vermelhos, e seu rosto molhado, como se já estivesse chorando há um bom tempo antes de chegar ali.
E então, sem dizer nada, Nick se jogou nos braços dele.
Charlie mal teve tempo de reagir antes de sentir o peso de Nick desmoronando contra ele. Os braços de Nick se fecharam ao seu redor com tanta força que era como se estivesse tentando impedir que seu próprio corpo se despedaçasse. O peito dele subia e descia rapidamente, sua respiração quente e irregular batendo contra o pescoço de Charlie.
"Nick..." Charlie sussurrou, sem saber o que fazer além de segurá-lo.
"Eu sou um monstro, eu sou um monstro..." Nick repetia entre soluços, sua voz embargada e fraca.
Charlie sentiu um nó no peito. Nunca havia visto Nick assim antes. Ele tentou afastá-lo só um pouco, para conseguir olhar em seu rosto, mas Nick segurou sua camisa com força, como se estivesse se segurando em algo para não desmoronar completamente.
"Calma," Charlie murmurou, erguendo a mão e segurando o rosto de Nick com cuidado, os polegares afastando as lágrimas que desciam por suas bochechas. Ele nunca gostou de ver ninguém chorar, mas ver Nick daquele jeito era algo que o destruía por dentro.
"Você não é um monstro," ele disse, com uma certeza que fez Nick parar de soluçar por um instante.
Um barulho nas escadas fez Charlie erguer o olhar. Tori estava ali, o rosto carregado de preocupação. Charlie não precisou dizer nada. Fez um pequeno sinal com a mão para que ela voltasse para o quarto, e ela assentiu, hesitante, antes de sumir pelo corredor. Nick ainda estava respirando de forma irregular, os braços caídos ao lado do corpo, como se estivesse esgotado.
"Vem," Charlie disse suavemente, pegando a mão dele. Os dedos de Nick estavam frios, contrastando com a pele quente de seu rosto.
Charlie precisou de esforço para levá-lo até o quarto, já que Nick era mais alto e pesado. Quando chegaram, Nick afundou na cama como se seu corpo não tivesse mais força para sustentar o próprio peso. Charlie o ajudou a se ajeitar, puxando um cobertor fino para cobri-lo, mas Nick apenas olhou para ele, os olhos ainda brilhando com as lágrimas. Sem pensar duas vezes, Charlie se sentou ao lado dele e puxou sua cabeça para seu colo.
Nick não resistiu. Ele fechou os olhos e se permitiu sentir a segurança do toque de Charlie, o calor de suas mãos passando suavemente por seu cabelo, um carinho lento e silencioso. A respiração dele foi aos poucos desacelerando, mas Charlie sabia que aquilo não era o suficiente. Nick estava quebrado. Depois de alguns minutos, quando o choro de Nick finalmente se transformou em um silêncio denso, Charlie perguntou, a voz quase um sussurro:
"Se sente melhor?"
Nick respirou fundo e, por um instante, pareceu envergonhado.
"Muito," respondeu, a voz rouca pelo choro.
Charlie observou o rosto de Nick. Ele parecia vulnerável de um jeito que raramente deixava transparecer. Então, Nick se sentou lentamente, os movimentos ainda pesados, e olhou para Charlie com algo indefinível nos olhos. Ele hesitou. Abriu a boca para falar, mas fechou logo em seguida.
Charlie apenas esperou. Finalmente, Nick respirou fundo e soltou as palavras que pareciam pesar toneladas dentro dele.
"Preciso te contar uma coisa. Eu não contei tudo la no banco"
Nick respira fundo como se buscasse forças em algum lugar.
"Lembra que te falei sobre Oikawa?" A voz de Nick saiu baixa, rouca, quase trêmula. Ele sentia um nó apertado no peito, algo sufocante e frio.
Charlie assentiu lentamente. Seus olhos eram serenos, gentis, sem vestígio de julgamento. Apenas compreensão. Isso deixou Nick um pouco mais tranquilo, mas ao mesmo tempo, mais vulnerável. Nick respirou fundo e pegou as mãos de Charlie. As dele estavam quentes, firmes. A sensação era reconfortante, mas Nick sentia que seu próprio toque estava frio, instável, trêmulo demais.
"Eu não quero te decepcionar." Sua voz quebrou no final da frase.
Charlie apertou suas mãos, firme, como se estivesse tentando segurar Nick no presente.
"Relaxa," disse ele com um sorriso pequeno e meigo. "Geralmente sou eu quem decepciona as pessoas." Ele riu de leve, tentando aliviar o peso da conversa.
Nick soltou um riso abafado, mas logo a sombra do passado voltou, sufocando qualquer tentativa de leveza.
"Como eu te disse aquele outro dia... eu era chamado de ‘Rei da Quadra’." Dizer aquelas palavras ainda doía como uma faca enfiada em seu próprio peito. Ele respirou fundo, como se estivesse reunindo forças para continuar. "Era uma outra época. Eu não pensava como penso hoje." Sua voz soava como uma tentativa de justificativa, mas ele sabia que desculpas não mudavam o que aconteceu.
Charlie apenas esperou. Não pressionou, não disse nada. Ele sabia que Nick precisava desse tempo para conseguir continuar.
"Eu era muito egoísta. Muito egocêntrico." O peso em sua voz era indescritível. Cada palavra parecia um fardo esmagando seus ombros. "Tudo por causa de uma frase do meu pai... Fique forte."
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto antes mesmo que ele percebesse.
"O pior..." Nick engoliu seco. Seu corpo estava tenso, e um arrepio percorreu sua espinha. "O pior é que eu gostei."
Charlie piscou, atento.
"Eu gostei de ser o melhor. Eu gostei que os outros tivessem medo de mim. Eu gostava de impor respeito. Eu... eu... eu... gostei de ser o Rei da Quadra naquela época”
Dizer isso foi como abrir uma ferida antiga e expô-la ao vento. Nick abaixou a cabeça, envergonhado, o peso da culpa o esmagando. Charlie não disse nada, apenas apertou sua mão mais forte.
"Mas isso tinha um preço," Nick murmurou, sombrio. "Eu perdi todos os meus amigos do time e eu perdi minha vaga “garantida” no time principal do Shiratorizawa."
Ele fechou os olhos e outra lágrima caiu. "Todos... Menos ele..." A voz de Nick mudou. Por um instante, ficou mais suave, como se o nome de Oikawa ainda carregasse algo que ele não queria admitir.
"Oikawa..." Nick respirou fundo. "Ele foi meu melhor amigo durante muito tempo. Nós nos conhecíamos como ninguém."
O silêncio de Charlie dizia tudo. Ele sentia o peso daquelas palavras.
"Éramos um time. Um time de dois."
Nick sorriu, mas não foi um sorriso feliz. Foi um sorriso cheio de nostalgia e arrependimento.
"Ele sempre esteve lá por mim." A voz de Nick ficou trêmula. "Quando meu pai me batia, eu corria até ele. Quando eu tirava uma nota ruim, ele me ajudava a estudar."
Nick sentiu o peito apertar tanto que mal conseguia respirar.
"Mas quando ele não foi aceito no time juvenil, algo começou a martelar na minha cabeça."
Ele fechou os olhos, tentando conter as lágrimas.
"Eu pensava que ele era fraco demais para ser seu amigo."
Charlie franziu o cenho, e se mexeu levemente, como se aquela frase tivesse o incomodado. Nick percebeu. Mas continuou.
"Na final da liga juvenil... meu time fez um protesto e me abandonou." Sua expressão ficou sombria.
Charlie prendeu a respiração.
"Eu nunca senti tanta raiva na minha vida." Nick cerrou os punhos, as unhas cravando na própria pele. "Me senti traído. Me senti injustiçado. Me senti... como ele."
Nick desmoronou no ombro de Charlie, chorando sem controle. Charlie não disse nada, apenas passou as mãos suavemente pelas costas dele, esperando que ele se acalmasse. Nick tentou respirar fundo, tentou colocar as palavras para fora. Mas seu corpo tremia inteiro.
"Eu me tornei igual ao meu pai."
Aquelas palavras foram ditas tão baixas que Charlie quase não ouviu. Nick voltou a encará-lo. Seus olhos estavam inchados, vermelhos.
"Oikawa tentou me salvar," ele confessou, "mas meu orgulho era grande demais. Como eu poderia deixar ele me ajudar?" Nick respira fundo. "Ele nem sequer tinha entrado no time, eu costuma."
A confissão queimava como um veneno dentro dele.
"Eu me achava melhor que ele. Superior." Ele abaixou a cabeça. "Como eu fui idiota. Como eu queria saber naquela época o que sei hoje." Nick soluçava.
E então...
"Ele me beijou."
Charlie sentiu algo quente escorrer por sua bochecha. Ele não sabia quando havia começado a chorar. Mas ele segurou ainda mais forte a mão de Nick. Charlie piscou, chocado. Nick o olhou de um jeito que partia o coração.
"E eu o empurrei." As palavras de Nick saíram com tanta dor
Charlie sentiu o peito apertar de um jeito que nunca tinha sentido antes.
"Eu o humilhei." Mais lagrimas rolam pelo rosto de Nick
Nick olhou nos olhos de Charlie, e pela primeira vez, Charlie viu algo neles que nunca tinha visto antes.
Desespero.
"Eu disse coisas... abomináveis."
Charlie sentiu algo quente escorrer por sua bochecha. Ele não sabia quando havia começado a chorar. Mas apertou ainda mais forte a mão de Nick.
"Eu acho que fui o Ben dele." Aquelas palavras fizeram o mundo Charlie para de rodar.
Nick fechou os olhos, como se dissesse aquilo para si mesmo, como se aceitasse, finalmente, o que fez.
"Ele nunca vai me perdoar."
Aquelas palavras atingiram Charlie de um jeito que ele não esperava. Ele sentiu a dor de Nick. Sentiu a culpa, o arrependimento, a vergonha, o desespero.
"Você me acha um monstro, Charlie?"
A voz de Nick era um sussurro carregado de dor, um pedido de socorro disfarçado em palavras. Seu peito subia e descia de maneira irregular, os olhos vermelhos e inchados, repletos de algo que Charlie reconhecia bem. Medo.
"Você me perdoa?"
Charlie sentiu o peito apertar. Ele não precisava de tempo para pensar. Ele já sabia sua resposta. Mas Nick precisava ouvir do jeito certo. Charlie inspirou fundo, sentindo a tensão no ar, e então se aproximou mais, segurando com firmeza as mãos de Nick entre as suas.
"Nick." Ele esperou. Esperou até que Nick tivesse coragem de encará-lo de novo. Os olhos verdes de Nick estavam cheios de pavor e insegurança, esperando por um veredito. Charlie não desviou.
"Esse perdão não é meu para te dar."
Nick prendeu a respiração. Charlie sentiu os dedos de Nick estremecerem ligeiramente entre os seus, como se ele tivesse levado um golpe invisível.
"Mas por experiência própria..." Charlie apertou suas mãos com mais força. "...você primeiro precisa se perdoar."
Nick piscou algumas vezes, os olhos marejados, como se essa fosse a resposta mais difícil de todas.
"A decisão de Oikawa te perdoar ou não..." Charlie continuou, "é algo que você terá que aprender a lidar."
Nick abaixou a cabeça, os ombros tensos e pesados, como se carregassem um fardo que ele não sabia como soltar. Charlie levantou uma das mãos e pousou suavemente no rosto de Nick, forçando-o a levantar a cabeça e olhá-lo de novo.
"Como uma escada..." sua voz foi ficando mais firme, "comece de baixo." Nick piscou, confuso. "Se perdoe." O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Nick engoliu em seco, os olhos arregalados, como se Charlie tivesse acabado de arrancar o chão sob seus pés. Charlie respirou fundo e segurou o rosto de Nick com ambas as mãos agora, os polegares roçando suavemente sua pele úmida de lágrimas.
"Você não é mais aquele garoto, Nick. Isso é óbvio." A voz dele saiu cheia de convicção, sem espaço para dúvidas. "Você mudou. Você amadureceu."
Nick cerrou os punhos sobre o lençol, tentando conter mais um soluço, como se tivesse medo de se permitir acreditar naquelas palavras.
"Mas a cicatriz..." Charlie fez uma pausa, passando o polegar suavemente sobre a pele de Nick, como se pudesse enxergar a marca invisível. Nick fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras. "...talvez você tenha que levar com você para sempre." A respiração de Nick falhou. "E isso nem sempre é ruim."
Nick abriu os olhos, confuso, vulnerável.
"Essa cicatriz te lembra que você é forte." Charlie sorriu de leve, com carinho genuíno. "Que você passou por muita coisa." Nick respirou fundo, como se aquelas palavras fossem o ar que ele não sabia que precisava. "Te faz lembrar de nunca mais cometer os mesmos erros." Charlie afastou uma mecha do cabelo loiro da testa de Nick, os olhos fixos nos dele. "Use isso." Nick segurou o ar nos pulmões. "Use isso para ser uma pessoa melhor do que foi ontem."
O silêncio caiu sobre os dois. Mas não era um silêncio desconfortável. Era o silêncio de algo importante sendo absorvido. Nick fechou os olhos novamente, inclinando a cabeça para frente, até sua testa encostar na de Charlie. Charlie não recuou. Os dois ficaram ali, respirando juntos, se apoiando sem precisar de mais palavras.
Oikawa
O ginásio do Aoba Jōsai era imenso, uma estrutura imponente que refletia a grandiosidade do time que o representava. O teto alto era sustentado por enormes vigas de metal pintadas de branco, e as arquibancadas cercavam a quadra com espaço suficiente para acomodar centenas de torcedores. As linhas perfeitamente demarcadas no chão brilhavam sob as luzes intensas que iluminavam cada canto do espaço. A madeira polida refletia os movimentos dos jogadores, e a acústica do lugar amplificava cada som — o quique da bola, os gritos de incentivo e o barulho das solas dos tênis deslizando pelo piso.
Oikawa estava no centro da quadra, o uniforme azul celeste e branco impecável, as mãos na cintura e um sorriso despreocupado nos lábios. Seus olhos mel corriam pela quadra, observando cada jogador com atenção, como um maestro conduzindo uma orquestra. Ele não era apenas o capitão do Seijoh — ele era sua alma.
O treino do Seijoh estava longe de ser apenas mais uma tarde comum de prática. O ginásio fervilhava de energia, o som das solas dos tênis rangendo contra o piso de madeira e o eco seco das bolas de vôlei preenchendo o ar. Oikawa estava no centro disso tudo, o maestro da orquestra. Seus olhos varriam a quadra sem descanso, analisando cada pequeno detalhe com atenção clínica.
A bola saía de suas mãos com suavidade, mas era nítido que cada levantamento escondia uma precisão quase cirúrgica. Para Iwaizumi, os passes vinham mais retos e rápidos, aproveitando a força bruta do Ace. Para Kunimi, as bolas eram mais baixas e cruzadas, adaptadas ao estilo mais ágil e técnico do jogador. Para Kindaichi, os levantamentos eram mais altos, permitindo que ele aproveitasse sua altura e saltos potentes no centro da rede.
Oikawa parecia ajustar a intensidade e a trajetória de cada bola como se fosse um relojoeiro, adaptando cada engrenagem ao movimento do time. Seu rosto carregava um leve sorriso, mas em seus olhos havia concentração absoluta. Ele não era apenas um levantador naquele momento – era um líder silencioso, guiando cada jogador a dar o melhor de si.
Do outro lado da rede, Watari, o líbero, mergulhava em recepções quase impossíveis, seus reflexos parecendo mais rápidos a cada tentativa. Kindaichi e Kunimi, os centrais, testavam variações de bloqueio duplo com uma sincronia que arrancava breves acenos de aprovação de Oikawa. Iwaizumi, com seu braço direito implacável, finalizava os ataques com estalos secos que faziam até o ar parecer mais pesado.
E mesmo assim, Oikawa não descansava. Chamava o time para o círculo e discutia novas jogadas, corrigia a movimentação de Kindaichi com uma leve batida no ombro, ajustava a distância de Kunimi com a rede apenas com um gesto. Seu tom era sempre motivador, mas com a autoridade de quem carregava o time nas mãos.
Entre cada jogada, ele também testava suas próprias habilidades. Saques viajantes potentes que obrigavam Watari e os outros a se esticar até o limite. Fintas de segunda que deixavam a rede sem defesa quando pegavam os bloqueadores distraídos. Mas o que mais se destacava era sua leitura de jogo – Oikawa sempre estava dois passos à frente, enxergando as jogadas antes mesmo de acontecerem.
Mesmo com o suor escorrendo por sua testa, o brilho nos olhos de Oikawa era inconfundível. Era como se cada ponto marcado fosse combustível para aquela obsessão silenciosa pela perfeição. Ele não apenas guiava o Seijoh – ele fazia o Seijoh acreditar que poderia derrotar qualquer time, até mesmo os gigantes do Shiratorizawa.
Do canto do ginásio, o treinador observava em silêncio, braços cruzados, satisfeito. Oikawa estava no controle.
Nas arquibancadas, o barulho era constante. Um grupo de garotas agitava cartazes escritos com glitter, corações e frases exageradas como “Oikawa-sama!” e “Nosso capitão lindo!”. As vozes ecoavam pelo ginásio a cada levantamento ou saque preciso, como se cada movimento de Oikawa fosse um espetáculo à parte. Algumas batiam palmas em sincronia, enquanto outras suspiravam sempre que ele sorria ou ajeitava os cabelos suados com os dedos. Era uma devoção visível, quase uma legião particular.
"Oikawazinho!" uma delas gritou, as bochechas completamente coradas. "Seu saque foi perfeito!"
Oikawa, acostumado à atenção, lançou um pequeno aceno com a mão, seguido de um sorriso de canto que arrancou gritos ainda mais altos da arquibancada. Mas seu olhar desviou rapidamente para o lado oposto da quadra, onde Iwaizumi estava encostado na parede, observando tudo com uma mistura de tédio e... uma pontada de algo mais fundo.
Iwaizumi cruzava os braços, o maxilar tensionado, os olhos seguindo Oikawa em silêncio enquanto ele continuava o treino. Era sutil, mas ali, naquele olhar firme e nos suspiros discretos, havia uma familiaridade carregada de cumplicidade e algo que ia além da simples amizade.
"Patético, Kawa," Iwaizumi murmurou, balançando a cabeça com uma expressão resignada.
Oikawa virou-se para ele com um sorriso travesso, os olhos brilhando como se tivesse ouvido o comentário a quilômetros de distância. “Ciúmes, Iwa?” disse baixinho, só para que ele ouvisse.
O olhar de Iwaizumi se suavizou brevemente, quase imperceptível. Um levantar de sobrancelha, uma leve mordida no canto da boca, e a resposta veio com o tom seco de quem já conhecia aquele jogo.
“De você? Nunca.”
Mas a forma como ele olhou para Oikawa, mesmo de longe, entregava uma familiaridade íntima demais para ser apenas sobre o jogo. Enquanto o resto do Seijoh seguia os comandos de Oikawa com respeito – ajustando as jogadas, acatando suas orientações sem hesitar –, Iwaizumi era o único que podia provocar sem medo. E Oikawa era o único que aceitava essa provocação com um sorriso genuíno, como se aquilo fosse o combustível secreto que o mantinha em movimento.
Iwaizumi soltou um suspiro exasperado antes de pegar uma bola e lançá-la com precisão na direção de Oikawa. O capitão desviou no último instante, com uma risada leve e provocadora.
“Você nunca desiste, né?” Oikawa comentou, ainda sorrindo.
Iwaizumi se aproximou devagar, os braços cruzados e o olhar firme. “Só tô te lembrando que estamos aqui pra treinar,” disse, a voz baixa, mas carregada de familiaridade. Por um instante, seus olhos se encontraram, e no breve silêncio que se seguiu, havia uma tensão sutil – um entendimento mútuo que ia além das palavras.
Oikawa manteve o sorriso, quase desafiador. “Então me dá aquele corte forte que só um Ace sabe fazer.”
Iwaizumi revirou os olhos, mas o leve levantar no canto de sua boca o traía. “Idiota,” murmurou, sem raiva, antes de se posicionar para o próximo exercício.
Eles voltaram ao treino, mas entre um saque e outro, as provocações silenciosas continuavam – olhares rápidos, sorrisos escondidos e comentários abafados entre os pontos. Aos olhos dos outros jogadores do Seijoh, era apenas mais uma rotina normal de treino, mas para os dois, cada interação carregava um significado particular, algo que ninguém mais parecia notar.
Quando o treino terminou, Oikawa reuniu o time no centro da quadra. Seu olhar passeou por cada um deles, e seu sorriso gentil se tornou mais sério.
"Bom trabalho hoje, pessoal." Ele inspirou fundo e colocou as mãos nos quadris. "A semifinal é amanhã e precisamos estar preparados. Mas eu sei que podemos vencer. Porque…" Ele fez uma pausa dramática, olhando cada um dos seus companheiros nos olhos. "EU CONFIO EM VOCÊS."
Aquelas palavras, ditas com tanta convicção e carinho, carregavam um peso imenso. Para cada jogador do Seijoh, ouvir aquilo de Oikawa era o que os fazia continuar.
Iwaizumi foi o primeiro a assentir, um brilho determinado nos olhos. "Vamos arrancar as penas daqueles corvos amanhã."
Os outros jogadores concordaram com acenos e sorrisos confiantes. Oikawa sorriu satisfeito olhando para a bandeira do Seijoh.
"É isso aí. Vamos dominar essa quadra!"
Oikawa observou os companheiros de time saírem do ginásio, em direção ao vestiário, os sons dos passos diminuindo até que o silêncio tomou conta do espaço. Ele permaneceu ali, imóvel, sentindo a leve vibração do piso de madeira sob seus pés, a respiração ainda acelerada do treino intenso.
Com passos firmes, Oikawa caminhou até o fundo da quadra e pegou sua garrafa d’água. Ele a posicionou com precisão no canto mais distante da quadra, exatamente onde queria. Não era apenas um exercício. Era um ritual. Uma obsessão.
Ele caminhou de volta para o lado oposto, os olhos fixos no alvo como um predador calculando seu próximo ataque. O mundo ao redor desapareceu. O barulho do vento batendo contra as janelas altas do ginásio, o som abafado dos passos ecoando na madeira... nada existia além da rede e da garrafa.
Oikawa respirou fundo, os dedos giraram a bola em um movimento automático, e então ele a lançou para o alto. Seu corpo se moveu no instante exato, os pés ganhando impulso, o salto perfeito. Oikawa adorava a sensação de estar no ar—era como se, por um breve momento, nada pudesse tocá-lo, nada pudesse segurá-lo.
O golpe veio com precisão mortal. Seu pulso girou no último instante, guiando a trajetória da bola com força e controle absoluto. O impacto foi imediato. A garrafa tombou no chão com um som seco, rolando alguns centímetros antes de parar, mas Oikawa já estava se preparando novamente. Ele pegou outra bola, girou-a entre os dedos, os olhos brilhando com uma determinação feroz.
"De novo." Sua voz ecoou no ginásio vazio.
Não havia ninguém ali para vê-lo. Não havia ninguém ali para aplaudir. Mas isso nunca importou para Oikawa. Ele não treinava para ser bom. Ele treinava para ser o melhor.
Oikawa repetiu o ritual como se fosse um feitiço, cada saque afiado como uma lâmina, cada acerto um lembrete do seu próprio compromisso com a perfeição. A garrafa caía, ele pegava outra bola, recomeçava. Era quase hipnótico, um ciclo de obsessão e precisão. Seus companheiros já haviam ido embora, deixando apenas o eco dos passos no vestiário. Iwaizumi surgiu da porta, os cabelos ainda úmidos, os músculos relaxados pelo banho quente, mas os olhos atentos ao amigo que insistia em continuar.
"Seu braço vai ficar fraco para amanhã," ele disse, cruzando os braços com um suspiro.
"Não vai não!" Oikawa rebateu sem hesitar, erguendo a garrafa como um troféu. "Se você vai bater, bata até quebrar!"
E então, mais um saque. Mais um golpe preciso. A garrafa tombou no chão sem resistência. Iwaizumi revirou os olhos, já sabendo que discutir era inútil.
"Já foram quantos?"
"Noventa e oito," Oikawa respondeu com um brilho teimoso nos olhos. Ele pegou outra bola, lançou ao ar e... mais uma vez, a garrafa caiu. "Noventa e nove."
Iwaizumi suspirou, rendido. "Só mais uma, então."
Oikawa sorriu, aquele sorriso travesso e provocativo que sempre o acompanhava. Ele inspirou fundo, ajustou os pés, mirou... e então o golpe final.
Cem.
A garrafa rolou alguns centímetros antes de parar. Ele baixou o braço e fez um movimento circular para aliviar a tensão no ombro. Foi quando sentiu uma mão quente em seu antebraço, puxando-o para mais perto.
"Vem aqui," Iwaizumi disse suavemente, os olhos firmes, mas carregados de carinho.
Oikawa obedeceu sem hesitar, deixando-se guiar. Iwaizumi deslizou as mãos com firmeza sobre o braço tonificado dele, os dedos pressionando os músculos com habilidade, desfazendo cada nó de tensão. Oikawa suspirou, fechando os olhos por um momento, se rendendo ao toque.
"Bem aí," ele murmurou, relaxando contra ele.
Iwaizumi sorriu de lado, sentindo o calor de Oikawa contra si.
"Senti sua falta no banho" ele provocou, a voz baixa e carregada de intenção. Oikawa abriu um olho e sorriu, lento e malicioso.
"Depois te recompenso," ele sussurrou, deslizando as mãos pelos ombros de Iwaizumi antes de puxá-lo para um beijo.
Foi lento, intenso, um toque que dizia mais do que qualquer palavra. Oikawa sentiu Iwaizumi sorrir contra seus lábios antes de retribuir, segurando-o pela nuca e aprofundando o beijo, como se quisesse lembrá-lo que, ali, naquele momento, ele não precisava provar nada. Só precisava estar ali.
Iwaizumi terminava de fechar sua mochila quando algo chamou sua atenção. Dentro da bolsa de Oikawa, um DVD marcado com letras garrafais dizia DATE TECH X KARASUNO. Ele arqueou uma sobrancelha, já sabendo exatamente o que aquilo significava.
"Nem vem, Oikawa," disse, apontando para o disco. "Não vai passar a noite inteira revendo esse jogo!"
Oikawa abriu um sorriso travesso, jogando a mochila sobre um ombro. "Qual é, Iwa, você é minha mãe por acaso?"
A expressão de Iwaizumi imediatamente escureceu, e ele cruzou os braços, lançando aquele olhar que fazia Oikawa se encolher por reflexo.
"Me desculpe, me desculpe!" Oikawa levantou as mãos em rendição, rindo. "Eu juro que não vou ficar acordado!" Ele se aproximou, batendo de leve no braço de Iwaizumi. "Vou dormir direitinho, prometo."
"Não seja idiota, otário-kawa," resmungou Iwaizumi, fechando seu próprio armário.
Oikawa riu, inclinando a cabeça. "O que aconteceu com o tonto-kawa?"
"Estou variando os insultos..." Iwaizumi disse sem emoção, mas Oikawa percebeu o canto de seus lábios querendo subir.
Oikawa se aproximou ainda mais, seus dedos deslizando contra os de Iwaizumi, entrelaçando-os de leve. "bobo-kawa?" Diz Iwaizumi suspirando, revirando os olhos antes de puxá-lo para um beijo rápido e suave, sentindo o sorriso satisfeito de Oikawa contra seus lábios.
"Quer ver o jogo comigo?" Oikawa propôs, a voz carregada de charme.
Iwaizumi soltou um suspiro cansado. "Amanhã é a semifinal, Kawa. Vamos virar a noite de novo."
Oikawa ergueu as sobrancelhas, fingindo indignação. "E se eu fizer pipoca?"
Iwaizumi apertou os olhos, como se estivesse tentando resistir, mas, no final, bufou e olhou para ele de canto."Agora me pegou."
A luz fraca da TV piscava no quarto, iluminando suavemente as paredes repletas de pôsteres de vôlei e prateleiras abarrotadas de DVDs com partidas de volei. Oikawa colocou o DVD no aparelho, um modelo antigo que ele se recusava a substituir, e se acomodou entre as pernas de Iwaizumi no tapete espalhado pelo chão.
Os braços de Iwaizumi o envolveram automaticamente, puxando-o para mais perto enquanto Oikawa se encaixava contra seu peito. O calor reconfortante do corpo de Iwaizumi fazia seus músculos relaxarem, e ele suspirou, deslizando os dedos preguiçosamente pelo braço dele.
"Pronto pra estudar o inimigo?" Oikawa provocou, pegando o controle remoto.
Iwaizumi bufou. "Só se isso não significar que vamos passar a noite inteira nisso de novo, seu viciado."
A partida começou a rodar na tela. O Karasuno contra o Date Tech. Conforme os primeiros lances se desenrolavam, o clima leve no quarto desapareceu. Oikawa se inclinou ligeiramente para frente, sua expressão se tornando mais séria, os olhos mel cravados na tela.
Quando Nick sacou, ele prendeu a respiração, observando a trajetória perfeita da bola. Seus olhos mal piscavam.
"Bom saque," murmurou.
E então, aconteceu.
Charlie apareceu na tela, atacando rápido demais, batendo na bola com precisão absurda. A velocidade, o impacto, tudo foi executado com perfeição.
"Caralho!" Iwaizumi exclamou, os olhos arregalados. "Isso vai ser um problema."
"Vai sim," Oikawa concordou, a voz carregada de seriedade. Ele franziu a testa e avançou o vídeo até o último ponto da partida. Lá estava Charlie de novo, cortando com força total e derrubando a muralha de ferro.
"Como você vai lidar com isso?" Iwaizumi perguntou, os braços ainda ao redor dele.
Oikawa pausou a imagem na recepção de Cristian, Daichi e Harry. Seus olhos analisaram cada detalhe, cada posicionamento. Ele já tinha a resposta.
"A bola não pode chegar no Niko," disse, obstinado. "Temos que quebrar esses tres na defesa."
“Você é um monstro nas estratégias...” Iwaizumi observou a forma como Oikawa mordia de leve o lábio inferior, concentrado. Ele sorriu pequeno, apertando o abraço ao redor dele. "...mas fica tão lindo quando está determinado a destruir outro time," ele sussurrou, espalhando beijos pelo ombro e pela lateral do pescoço de Oikawa.
Oikawa revirou os olhos, mas sua boca já se curvava num sorriso satisfeito.
"Idiota," murmurou, relaxando contra ele.
"Agora chega. Temos que dormir," Iwaizumi decretou, roubando o controle remoto da mão dele e desligando a TV.
Oikawa bocejou, largando o corpo na cama sem resistência.
"Mas amanhã de manhã a gente vê de novo," disse com um sorriso sonolento.
Iwaizumi apenas suspirou, puxando o cobertor sobre os dois. Ele já sabia que não teria escolha.
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