Match-Point
22 Vinte
Notas iniciais
— Se divirtam ai pombinhos, mas não muito! – disse Lipe ao fechar a porta.
— Ai que idiota, pelo menos agora vamos ficar algumas rodadas sem jogar, quem sabe quando voltar para a sala eles já tenham desistido desse jogo. – disse me sentando na cama.
— Quem sabe! – exclamou Kevin, que andava pelo quarto observando a decoração. – Quantos anos tem a irmã do Bry? Porque esse quarto é de criança!
— Sei lá, uns seis ou sete, mas ela fica mais com a mãe deles depois que os pais se separaram, esse é só um quarto de hospedes. – Bry havia me contado como estava sendo difícil esse momento, em que seus pais estavam se separando, e que sua irmã estava sofrendo muito por conta disso.
O assunto se encerrou, então tateei meus bolsos a procura do meu celular e percebi que tinha deixado na sala, ótimo. Mais alguns minutos se passaram e com certeza os cinco minutos já se acabaram, me levantei na tentativa de abrir a porta, mas percebi que ela estava trancada, olhei para Kevin que estava distraído e então comecei a gritar para que Felipe abrisse a porta, não obtive resposta já que a musica alta abafava meus chamados.
— Relaxa Mel, daqui a pouco ele abre – disse relaxado, comecei a procurar um meio de sair daquele quarto mas não tinha nenhuma janela, procurei então por um grampo para quem sabe tentar destrancar a porta, percebendo como eu estava aflita para sair do comodo, Kevin disse – Você não tem para onde ir, agora somos só eu e você aqui!
Não sei se foi o modo como ele falou, ou seu olhar sobre mim que me fez estremecer, Kevin então se levantou e caminho em minha direção, eu então caminhei para o outro lado do quarto tentando ficar o mais longe possível dele.
— Ei Mel, calma, daqui a pouco o Felipe vem abrir tá? – falou lentamente.
— Eu não quero ficar aqui trancada com você! – disparei, me arrependendo logo em seguida.
— E você acha que eu quero? – perguntou voltando a se sentar. – olha aqui o que eu achei, vem vamos jogar, que já estou com saudades de ganhar de você. – riu ao me mostrar um tabuleiro de xadrez.
— Não vale, eu não sei jogar xadrez, e acho que você é bem bom nisso! – disse emburrada.
— Sou bem bom mesmo, mas vem cá que eu te ensino, para você não dizer que eu não te ajudei. – me sentei então ao seu lado enquanto ele me explicava para que servia cada peça, mas não adiantou nada pois logos esquecia, o que facilitou para que ele ganhasse de mim por umas três rodadas seguidas.
— Meu deus mulher você é muito ruim, não tem nem graça jogar contigo – debochou, mas eu tinha que concordar, rimos e guardamos as peças, e vasculhamos o resto do quarto para ver se tinha algo mais interessante para fazer.
— Que tipo de criança é ela que não tem um brinquedo decente no quarto? – se indignou Kevin.
— Ela tem, Barbie, mas duvido que você goste de brincar com elas – disse rindo, enquanto penteava o cabelo de uma delas.
— Pois saiba que eu sou o melhor cabeleireiro, que existe, da aqui! – ele então tomou o brinquedo de minhas mãos e começou a trança-la.
— Onde você aprendeu a fazer isso? – perguntei impressionada com seu talento.
— Minha irmã me obrigava quando era mais novo, até que um dia matei uma de suas bonecas afogada! – rimos – Aqui o talento é nato bebê. – disse fazendo uma voz fina e gesticulando como se fosse a boneca quem estivesse falando. – Do que você está rindo, o Kevin é o melhor cabeleireiro do mundo todinho. – aquilo me fez rir tanto que minha barriga chegou a doer.
— Pois então fale para ele que eu quero uma trança igualzinha a sua – disse apontando para a boneca.
— É pra já, mas fique sabendo que eu cobro caro! – disse kevin largando a boneca e me analisando. – Mel teu cabelo é cacheado, vamos ver como posso fazer isso.
— Para de ser bobo, que eu tava brincando, não vou deixar você pegar no meu cabelo – ri, ele então puxou uma mecha do meu cabelo – Ai idiota, meu cabelo não é igual de boneca, dói sabia?
— Só pra você ficar esperta!, nossa será que esse povo bebeu demais e capotou? – perguntou mudando totalmente de assunto.
— Não, é que você é insignificante mesmo!
— Aposto que eles só queriam arranjar uma desculpa para que você saísse da sala, já que é insuportável.
— Se eu fosse tão insuportável assim, você não teria ido lá em casa implorar para que eu viesse. – disse por fim, já que ele não tinha resposta para minha afirmação
— Certo, acho que eles queriam se livrar de nós dois – disse se deitando no tapete do quarto. Mais alguns minutos se passaram e nada. — O Bry pensa que estamos namorando escondido – soltou do nada.
— Pensa porque é besta, não teria motivo para esconder uma coisa dessas! – disse – As meninas, a Anne e a Yvi também pensam eu acho, quer dizer elas ficaram insistindo para eu contar o que tinha acontecido, eu não contei e agora elas pensam isso eu acho.
— Você não contou pra mais ninguém? – perguntou e eu apenas neguei com um movimento de cabeça. – Obrigado! Por confiar em mim e tal, mas você precisa contar alguma hora Mel, elas estão preocupadas com você eu acho, quer dizer você está diferente, querendo ou não.
— Eu não te contei porque confio, só contei porque você viu – disse baixo – e é claro que eu estou diferente, eu mal consigo entrar na quadra de vôlei que já me bate um medo de sei lá, não sei direito, entende?
— Não Mel, não entendo, primeiro porque nunca passei por isso e segundo que você não falou nada com nada! – disse se sentando em minha frente. – então é por isso que você anda faltando?
— Eu tentei falar com o Rick, mas ele estava ocupado e depois perdi a coragem, e se ele falasse o mesmo que o trenador Mauricio? – me justifiquei – e também não é fácil sair falando esse assunto, é vergonhoso sabia?
— Claro que você tentou falar com o Rick! – revirou o olho – mas, eu tenho certeza que ele não vai ser um escroto, não se ele gosta de você de verdade, qualquer mulher hoje em dia pode passar por isso, não precisa ter medo e muito menos ter vergonha.
— Você ta sendo bem legal, o que aconteceu? – perguntei, pois era sempre um idiota, achei que seria o primeiro a me questionar, mas está sendo bem compreensivo.
— Eu sou legal Mel, mas só com quem merece – ele riu. – e nesses assuntos, queria que eu falasse o que?
— Não sei, na verdade não queria nem que você soubesse, não quero ninguém com pena de mim, ou questionando minha história, não mesmo.
— Você que sabe, mas talvez tuas amigas possam te ajudar, ou sua mãe sei lá. – Deus me livre, se eu conto uma coisa dessas ela nunca mais me deixa sair de casa.
— Vou pensar nisso, mas de qualquer forma já passou, já estou bem!
— Se estivesse bem mesmo, não teria medo de mim, porque eu sei que ficou, quando percebeu que estávamos trancados aqui! – me acusou, e eu decidi não falar mais nada já que ele estava certo. – se você quiser a gente não fala mais disso, mas só se você prometer que vai no treino segunda.
— Eu não consigo, tipo, eu travo, eu gosto muito de jogar, muito mesmo, mas não consigo ficar em quadra, parece que algo ruim vai acontecer, mesmo que eu saiba que não vai, mas ao mesmo tempo, não quero ter que parar de fazer as coisas que eu gosto, por medo de chamar atenção, ou sei lá de alguém me fazer algo.
— Mel eu vou estar lá, nada que um bom soco não resolva – disse rindo, e imitando o movimento, aproveitei esse momento para observar suas mãos já sem nenhum hematoma, a puxei para mim, fazendo um carinho de leve no local antes machucado. – Tudo que você faz chama atenção Mel, de um jeito ou de outro. – se aproximou de mim.
— Você é um idiota, não sei porque fez aquilo! – disse baixo – você poderia ter se machucado de verdade.
— Alguém precisava te defender, eu nem pensei direito no que estava fazendo, mas o sangue me subiu a cabeça, e eu faria de novo! – olhou para nossas mãos entrelaçadas e me encarou – para te proteger eu faria quantas vezes fossem necessárias.
Eu não tive resposta e nem tempo de processar algo para falar pois a porta foi aberta por Lipe, que começou a rir quando viu onde nos encontrava-mos, só então percebi que estava mais perto de Kevin do que o recomendado, e ainda segurava sua mão.
— Eu não acredito, pessoal vem ver isso! – ele gritou e logo tinha mais gente na porta querendo saber do que se tratava.
— Você é um idiota sabia, não sabe contar não, cinco minutos Felipe! – disse Kevin se levantando, e indo em direção a porta.
— Pois vocês dois não pareciam nem um pouco incomodados com o tempo que passaram aqui dentro! – debochou e Kevin o acertou com um tapa na nuca, e eu apenas revirei os olhos, estava saindo do quarto quando percebi o olhar de Anne sobre mim.
— Você pode até negar, mas que vocês fariam um casal bonito fariam.
— Para de falar besteiras Anne, a gente só estava conversando, o que deu em vocês em confiar no Lipe controlando o tempo? – desconversei.
— Não me parecia só conversa, mas você quem sabe! – voltamos para a sala, e como o previsto o jogo já havia acabado, fazia um tempo. A musica tocava alto mas ninguém dançava, que pessoal desanimado, a próxima musica começou e eu amava, mas fiquei em um dilema entra dançar ou não, não queria que nenhum dos meninos pensassem coisas, não que eu fosse dançar para provocar, mas alguém poderia interpretar errado, fiquei pensando uns segundos e me despertei quando ouvi a risada do pessoal.
No meio da sala estava Kevin dançando ridiculamente, quando me encarou, piscou, então entendi, ele estava fazendo aquilo para que eu me sentisse confortável para dançar também já que chamava toda a atenção da sala para ele.
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