Match-Point
7 Seis
POV KEVIN
Porra, não tinha alguém pior pra treinar comigo não Rick? – era só ó que me faltava – só for pra mim ajudar ela em “suas dificuldades” — Preste atenção nas aspas. – Vamos ficar o resto do ano treinado.
— Para de ser invejoso e agradeça a honra que você vai ter em aprender comigo – Parece que consegui deixa-la mais irritada ainda, ótimo. – Porque você sabe que a única coisa que você leva vantagem é na altura.
— Sim, na altura, e em todo o resto – ri, recolhendo meus pertences e me encaminhando para a saída, afinal aquele treino já deu o que tinha que dar, agora era só me preparar psicologicamente para aguentar aquela insuportável querendo roubar minha vaga, eu sei que apesar de ocuparmos a mesma posição, ela é infinitamente melhor que eu e não mentiu em nada no que disse, mas eu não posso e não vou perder para ela, não mesmo.
Ao chegar em casa tomei um banho para tirar todo o suor de mim e comecei a pensar em estratégias para vence-la, tudo bem que eu ainda tinha chances de não ser selecionado mas, precisava me focar e ser melhor com a bola nos momentos do jogo. Comecei então a pensar em seus pontos fracos, a começar pelo saque, aquilo sim eu era melhor que ela, já era uma vantagem, e também o fato dela nunca jogar o último set, pois sempre ficava nervosa e pipocava² pro time adversário, então era fácil desestabiliza-la enquanto eu uso desses momentos para me focar mais no jogo e quase sempre levo o time a vitória, tinha então dois pontos de vantagem, mas só isso, porque nos outros aspectos ela ainda é melhor que eu, resolvi deixar esse assunto de lado até o próximo treino.
Obviamente foi mais difícil do que parece, ter que conviver ainda mais de perto com ela, e só de pensar nisso já me senti desanimado para os treinos, pelo menos não nos enfrentamos mais durante as aulas vagas já que o professor substituto já tinha chegado. As semanas seguintes se resumiram em ter que ficar escutando aquela voz chata que tinha certeza que ela fazia só para me irritar, principalmente quando estava me ajudando na impulsão e posicionamento de mãos, falava como se estivesse ensinando uma criança que um mais um é igual a dois, e ainda ria quando eu errava, escrota! É a palavra perfeita pra definir Ludmila, até na forma que eu me alongava ela reclamava, tipo foda-se que eu não estava fazendo da maneira correta o importante é fazer, certo? Mas, se ela pensou que eu também não ia atormenta-la estava redondamente enganada. Tenho certeza que ela não aguenta mais ouvir minha voz falando “repete” após cada saque, porque querendo ou não eu tinha que ajuda-la em melhorar em algo, e tenho pra mim que isso é a única coisa em que ela vai mal, e era muito mais divertido para vê-la olhando pra mim e bufando, tenho certeza que ela imaginava minha cabeça no lugar da bola. E por mais que me doa admitir, nestas duas semana eu tinha aprendido muito com ela, pois a maneira dela de ler o jogo era incrível, mas nunca admitirei isso em voz alta
Após o almoço, na escola mesmo, comecei a me preparar para mais um dia de treino e ao entrar na quadra minhas pernas já começaram a amolecer, caralho o vai ser hoje!
— Gente quero apresentar a vocês, meu chefe e também treinador do município, Mauricio. – disse Rick como se a gente já não conhecesse ele – Vamos esperar o resto do time chegar, que ai começamos, fazemos dois sets de jogo normal, e após algumas demonstrações individuais, certo Mauricio?
— Isso mesmo, mas preciso avisar a vocês que os jogos estão chegando e vocês vão precisar realmente me surpreender para que sejam escolhidos – só de escutar o tom sério com que ele falava já senti uma dor de barriga, caralho se concentra Kevin, você precisa focar e dar o seu melhor, pensei comigo mesmo, sei que essa pressão está afetando todo mundo então o melhor que faço é usar isso a meu favor, principalmente com a Ludmila que odeia esses momentos e acaba dando pra trás.
— Bom agora, que todos já estão aqui, podem começar a alongar e logo depois iniciaremos a partida. – Nunca tinha visto aquela quadra tão silenciosa, deve ser o nervosismo de geral, mas por incrível que pareça até Bryan e Felipe estavam retraídos, acho que isso nunca aconteceu antes. Após alongarmos, até estranhei a falta de reclamações e caretas de Ludmila, com minha “forma ridícula de alongar”, dividirmos os times me concentrei totalmente no jogo que se iniciaria, olhei para o outro lado da rede e encontrei uma Ludmila nervosa por ter que me encarar cara a cara, ela mordia os lábios e piscava mais rápido do que o considerado normal, sei bem o que ela está sentindo nesse momento, tenho certeza que é a mesma coisa que eu, me posicionei de forma correta na quadra, de costas para o outro time e assim que o treinador Rick apitou senti meu coração disparar, era agora.
O jogo começou bem equilibrado com chances de ponto a todo instante, e pouco a pouco começou a esquentar, já estávamos vencendo de dezessete à dez quando o outro time começou a encurtar a distância no placar, Bryan do outro time estava me dando trabalho parecia que sabia o que eu iria fazer e antecipava minhas ações, interceptando pelo menos três jogadas minhas, o que já estava me deixando irritado, com certeza ele seria chamado, percebi que no momento do saque Ludmila estava tremendo e acabou errando, o que dava vantagem pro nosso time, ótimo! Mas ela logo se recuperou pois assim que Cass sacou a bola, Ludmila a recebeu lindamente com uma manchete, e passou para Bryan que estava no canto esquerdo da quadra que a levantou e posicionou para o corte que veio de Felipe e não me deu nem chance de defender a rede do nosso time, que vergonha a bola passou por entre meus dedos e não consegui segura-la, preciso melhorar meu desempenho ou tenho certeza que não vou para os jogos estaduais. E com esse pensamento, ajudei meu time a ganhar o primeiro set, com três pontos de vantagem.
No segundo set percebi que todos estavam mais tensos, e que minha mão estava suando, à limpei na barra do short esportivo e me concentrei no que estava por vir, era minha vez de receber a bola e caralho, eu era péssimo nisso também, acabei descobrindo após não conseguir nem encostar na bola, o que levou o outro time a pontuar, olhei para o lado de fora da quadra e Rick me olhava indignado, eu também estou, mas fazer o que né, sorte que Mauricio não viu o papelão que eu acabei de me prestar. Após o jogo rodar mais um pouco, fiquei novamente de frente para Ludmila na rede desta vez do lado direito e é obvio que ela não perdeu a chance de debochar da minha cara.
— Eu sabia que você era ruim, mas dessa vez você se superou em Kevin – riu assim que cheguei próximo de sua posição, apenas, rolei os olhos e ignorei sua fala, mas mesmo assim ela continuou – É sério sua mão de alface hoje está de parabéns, qualquer um conseguiria pegar aquela bola.
— Assim como qualquer um poderia ter feito aquele saque, que você errou porque está tremendo mais do que vara verde – ela realmente achou que era boa ideia ficar me provocando na reta final do jogo? – O jogo tá acabando em, não acha melhor pedir pra sair, sei que você não fica confortável em jogar próximo do fim – debochei após dar um toque na bola e ver meu time pontuar, realmente nunca entendi porque dela não gostar de jogar o último set era sempre o mais emocionante e é revigorante sentir a adrenalina correr pelas veias, e saber que ajudou seu time em momentos decisivos.
Apesar de ter me esforçado, não foi o suficiente e nosso time acabou perdendo o segundo set, o que me deixou furioso, pois sei que contribui diretamente com a derrota. Após o pequeno jogo o treinador pediu para que trenássemos um pouco o saque, recepção, levantamento, bloqueio e ataque,³ para que assim pudesse ter uma visão melhor da cada jogador. Dei o meu melhor e de vez em quando me vinha a voz dela em minha cabeça, “levanta mais essa mão”, “sério que é esse o seu melhor?”, “olha pra bola e foca, esquece o resto”, mas a cada jogada boa, ela estava lá e se movimentada duas vezes melhor que eu, Ludmila podia não agir bem sob pressão do jogo, mas sabia se movimentar em quadra, desgraçada!
Assim que o treino acabou o treinador Mauricio nos disse que já tinha sua decisão, o que me deixou apreensivo, e assim q ele começou a falar respirei fundo e esperei que fosse chamado.
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