Match Macabro
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Clara estava sentada com as amigas ao redor de uma mesa de barzinho ao ar livre cheia de petiscos e taças com os mais variados drinques coloridos da estação. Conversavam sobre muitos assuntos após um longo dia de trabalho para algumas e diversão para outras. Clara estava no meio termo entre os dois grupos, pois havia trabalhado bastante naquela sexta, mas se divertira muito no trabalho. Adorava sua profissão, mesmo ainda estando em início de carreira, mas sabia que tinha um futuro promissor se continuasse no caminho em que estava. Ninguém podia negar isso.
Então, como se lhe atingissem com um inesperado jato forte de água gelada com cubos de gelo, uma de suas amigas perguntou sobre o que ela tentava evitar falar desde que se reuniram ali.
— Como estão as coisas depois de... você sabe. Daquilo.
O silêncio tomou conta de todas e um clima fúnebre recaiu sobre a mesa. Clara levou alguns segundos planejando o tamanho exato do sorriso falso que deveria aplicar no rosto para responder à pergunta. Ainda sem ter certeza, ela sorriu e falou:
— Estou bem. Muito melhor.
Nenhuma das amigas acreditou e sequer tentaram disfarçar nas expressões de incredulidade que fizeram. Clara continuou, remexendo de um lado para o outro o palito empalando a azeitona do seu drinque:
— Vocês me conhecem, meninas. Eu me recupero logo. Não é porque o idiota misógino do meu namorado, digo, ex—namorado terminou comigo por mensagem de celular após me trocar por uma garota que ele conheceu em um desses novos aplicativos de “pegação” que vou sofrer por bastante tempo. Não mesmo. Nós dois não nos falamos desde que ele terminou comigo. Nunca mais o vi. E nem quero. — Tratou logo de acrescentar, dando outro sorriso forçado. — Agora está na hora de seguir em frente e partir para outra.
— Isso mesmo, amiga — disse a mesma que havia tocado no assunto. — Te dou o maior apoio. Vamos sair, correr festas, baladas, passeios.
— Sim, vamos! — Clara se animou.
— Vamos te cadastrar em um aplicativo de pegação e paquera e te fazer esquecer aquele idiota do seu ex.
Clara sorriu, mas já não tão animada.
— Não sei. Não curto muito esses aplicativos. Acho algo muito impessoal e perigoso — afirmou, pensativa. — Prefiro tudo no contato físico.
— Menina, larga de ser boba. O contato físico ainda vai existir. Estes aplicativos só aumentam suas chances e facilitam todo o processo. Você se cadastra, olha os carinhas cadastrados, escolhe um e começa a conversar pelo celular. Depois é só marcar um encontro quando se sentir segura. Nada de outro mundo. E se não der certo é só escolher outro no menu do aplicativo. É ótimo.
— É mesmo — concordaram as amigas, sorrindo.
Clara não falou mais nada, limitou-se a tomar um gole da sua bebida enquanto as próprias amigas tratavam de mudar de assunto, ou melhor, de focar nos problemas de outra do círculo. E assim o encontro delas transcorreu da melhor forma possível.
Ao chegar em casa, Clara foi direto tomar banho para se livrar de qualquer sonolência trazida pelos dois únicos drinques que tomou e dedicar à noite para um serviço árduo: fuçar incansavelmente as redes sociais do ex-namorado para ver como ele estava passando depois de terminar com ela há uma semana. Estaria ainda com a mesma garota com quem a trocara? Ela seria mais bonita que ela? Seria melhor de cama que ela? Responderia estas e outras perguntas ao fuçar a vida dele logo, logo.
Tomada banho, vestida e sentada no sofá fofíssimo recém-comprado, Clara pegou o telefone, ativou a internet wi-fi e começou sua pesquisa na vida social virtual do seu ex. Não encontrou nada de diferente, exceto o fato de em todos os perfis virtuais dele já constar a palavra “solteiro” no status. Fora isso tudo estava como há uma semana. As mesmas fotos, os álbuns deles juntos como um casal feliz, as declarações de amor de um para o outro e tudo mais.
Pelo visto ele está tão ocupado com a nova garota que nem tem tempo para atualizar as redes sociais e apagar nossas fotos, pensou desdenhosa e magoada.
Clara jogou o telefone para o lado, cansada da pesquisa, e cruzou os braços, assoprando forte o ar para fora dos pulmões. Ao cair na almofada do sofá, o celular soltou um bipe agudo e sua tela grande e cristalina se acendeu — a julgar pelo som do bipe era a mensagem de alguma atualização chata disponível para os seus aplicativos. Clara pegou o aparelho e leu a tela de mensagem brilhante e alegre que dizia em letras cursivas:
“Olá! Teste o novo aplicativo de pegação e paquera, Trorer. É sensacional. ”
Isso deve ser coisa das meninas, Clara pensou, lembrando-se dos conselhos de suas amigas na mesa do barzinho. Elas devem ter me mandado esse aplicativo para eu testá-lo e esquecer de vez meu ex. Mas não estou com vontade de usar estes aplicativos. Não confio neles. Não devem servir para nada.
O telefone bipou novamente e a tela se acendeu com uma mensagem na mesma fonte cursiva que a anterior:
“Veja a opinião de alguns dos nossos usuários: ”
Abaixo da mensagem vinha uma série de frases explicitando os comentários e satisfação dos usuários do Trorer:
“Foi uma experiência inesquecível ”.
“Ele faz você esquecer qualquer problema”.
“Você nunca mais usará outro aplicativo”.
“Depois do Trorer nada mais vai importar”.
Clara ponderou:
— Nossa, ele deve ser muito bom mesmo.
Outra mensagem surgiu na tela do celular:
“O que você está esperando? Clique agora no coração e cadastre-se”.
Um enorme coração vermelho pulsava no final da mensagem, tendo um reluzente “clique aqui” em letras garrafais no seu interior.
Bem, o que pode acontecer de ruim?, Clara pensou, deu de ombros e clicou no coração pulsante. A tela foi redirecionada para um formulário virtual de cadastro e ela começou a preencher todos os seus dados pessoais nos espaços indicados, dos seus gostos musicais, literários, cinematográficos até o de homem ideal. Ao responder todas as perguntas e preencher o formulário inteiro, Clara aceitou a política de privacidade e finalmente estava cadastrada no Trorer.
A tela se abriu para um menu com várias fotos de belíssimos rapazes aparentemente solteiros e Clara deslizou o dedo pela tela do celular, olhando avidamente para cada foto que passava pelo display até que eles se fixaram na de um rapaz específico.
O sorriso dele era lindo, os dentes brancos e arrumados, o cabelo loiro, liso e penteado com estilo, o corpo sem camisa definido e meio bronzeado pelo sol da praia. O sonho de consumo de Clara. Ela se animou e clicou na foto dele. Um enorme coração vermelho piscou e explodiu na tela, surgindo a mensagem:
“Um match foi dado. Felipe também te curtiu. Partam juntos para uma viagem inesquecível. Iniciem um chat agora. ”
Ela aceitou o pedido, sendo redirecionada para uma sala privada de bate-papo, onde Felipe — o lindo, sorridente e bronzeado rapaz da foto que ela clicara — a recebeu com o texto:
“Olá, Clara. Eu sou o Felipe. Você é nova por aqui? ”
Animada, o coração palpitando de excitação e a mente se deixando levar através de rápidos planos de felicidade passageira, Clara digitou e enviou a resposta:
“Oi, Felipe. Sim, sou novata. Testando o aplicativo agora”.
“Legal! Vamos nos divertir? ”
“Sim, espero que sim”. Clara enviou uma figurinha arredondada de rosto bem amarelo a dar um sorriso discreto e amigável para arrematar a mensagem.
“Nós vamos sim. Garanto”. Felipe enviou a mesma figurinha de rosto amarelo e redondo só que a expressão era diferente, essa figurinha estava piscando um dos olhos de forma marota enquanto sorria, estática.
Clara achou um pouco estranho toda aquela confiança demonstrada na simples frase de Felipe, parecia ter algo mais naquela mensagem de homem paquerador, determinado e otimista de um aplicativo de encontros do que ela deixava transparecer, entretanto, ela olhou para a foto sorridente de Felipe, concentrando toda a sua atenção no corpo definido do rapaz e resolveu ignorar a sensação incômoda que surgira no fundo do seu estômago; devia ser o efeito retardado das bebidas tomadas com as amigas.
“Vamos deixar rolar e ver o que acontece entre a gente, ” ela disse, esclarecendo de uma vez que desejava ir com calma ali. Ainda não tinha muita experiência com tais aplicativos e a velocidade com que as pessoas os usavam para alimentar mais e mais relações fugazes.
“Tudo bem. Vamos deixar rolar, ” Felipe concordou. “Hei, coloca uma foto sua no perfil para eu te ver, por favor, ” ele pediu gentilmente, mandando logo em seguida a redonda cara amarela agora com uma expressão de súplica inocente.
Clara pensou um pouco, apreensiva. Seria o certo a fazer para alguém que não conhecia de verdade? Hoje em dia não se pode confiar muito na internet e nas pessoas escondidas atrás dela.
Ela olhou para o sorriso da foto de Felipe e pensou:
Ah! Não é como se ele estivesse me pedindo uma foto pelada. É apenas para o perfil da minha conta no aplicativo.
Ela endireitou a postura no sofá, arrumou os cabelos castanhos, alisando a franja lateral algumas vezes para deixá-la mais certinha e arrumada, então pendeu um pouco a cabeça para o lado e fez uma expressão mista entre a casualidade, a beleza e a sutil provocação. Tirou a foto na câmera do celular, deu uma conferida no resultado, aprovando-o e postou logo no perfil do Trorer. A foto levou alguns segundos para ser carregada e antes mesmo que Clara pensasse no que Felipe acharia dela, ele escreveu:
“Nossa! Você é muito linda”.
Ela se encabulou, mas gostou de ler aquilo, então disse, mandando uma carinha amarela e rechonchuda com um sorriso largo:
“Obrigada”.
“Sério, você é tão gostosa que eu vou te devorar todinha quando nos encontrarmos”.
O sorrisão nos lábios de Clara se apagou e suas bochechas deixaram de ficar levemente coradas para se tornarem bastante vermelhas enquanto a sua expressão se desconcertava. Ele não precisava ter mudado tão repentinamente de nível. A conversa tinha estado tão boa até aquele ponto. Ela achava que esse tipo de papo era para quando se estava com mais intimidade e não para uma primeira conversa em um aplicativo de encontros. Não achava aquilo nada divertido. Beirava até a um certo nível de bizarrice.
Ser devorada...
Lembrou-se de um filme de terror que viu um dia desses em uma noite solitária enquanto zapeava pelos canais da televisão e não gostou da associação e da imagem mental que se formaram na sua cabeça fértil. Fez uma careta de asco para o celular nas mãos e balançou fortemente a cabeça para os lados na esperança de apagar as imagens grotescas do filme que assistira.
O celular vibrou e fez o sonzinho divertido e irritante de que uma nova mensagem chegara pelo Trorer. Ao olhar pela tela brilhante do aparelho, Clara leu a mensagem de Felipe.
“Você ainda está aí? Está viva? ”
Revirando os olhos para o teor ridículo daquelas perguntas, Clara digitou no celular, aborrecida:
“Sim, ainda estou”.
“Que bom. Pensei que já tinha perdido você. ” Felipe enviou.
Sentindo toda a animação inicial e a euforia de conhecer alguém novo por um aplicativo de paquera ir embora no mesmo rompante, ou até maior, de como vieram, Clara bufou, irritadíssima. Não acreditava que tinha perdido tempo com um cara desse tipo. Pelo jeito havia no mundo homens piores que seu ex-namorado. Mas claro, ela sabia que a culpa não era do aplicativo em si. O programa não tinha culpa de existir tantos babacas no mundo. Ela se livraria o mais rápido, e da forma mais educada possível, de Felipe e daria outra chance para o Trorer. Quem sabe a segunda vez não fosse melhor. Geralmente é assim que acontece. O seu segundo namorado tinha sido dez vezes melhor que o primeiro.
Antes que demorasse demais para responder e Felipe lhe enviasse outra mensagem pedindo uma prova de vida, Clara tratou de enviar pelo chat do aplicativo:
“Olha, você não me perdeu porque nunca me teve, mas enfim. Está ficando tarde e amanhã acordo cedo. Foi bom te conhecer, ou melhor, falar com você, mas tenho de ir. Boa noite. Até uma próxima, Felipe”.
Não enviou nenhuma carinha arredondada e amarela com algum tipo de expressão ou emoção, pois sabia que o aplicativo não teria uma que traduzisse fielmente como o seu rosto estava naquele momento. Também não enviou nenhum dos variados símbolos de beijo e afins disponível no leiaute do Trorer porque não queria passar a mensagem errada para Felipe. Não queria que ele acreditasse que algum dia ela voltaria ali para conversar com ele. Não gostava de caras desse tipo, “apressadinhos”. Conhecera alguns e não gostou de nenhum deles. Para ela tudo tinha o tempo certo de acontecer. Fosse no que fosse.
Sem esperar ver se Felipe estava digitando algo para enviar ou qualquer coisa do tipo, Clara deslizou o dedo para o botão de saída daquele chat, que piscava no canto inferior esquerdo da janela do aplicativo, mas antes de seu dedo o pressionar, a tela de mensagens do Trorer se encheu com novas letras enviadas por Felipe que diziam:
“Ah, não! Você já tem de ir? Fica mais um pouco, vai. A gente está se divertindo tanto”.
Só você, então, ela pensou, chateada.
“Pelo menos eu estou, ” Felipe disse em outra mensagem.
Ainda por cima é chato e insistente.
Clara perdera completamente a paciência com ele. Um sorriso bonito, olhos e corpo encantadores não valiam todo aquele aborrecimento. Se no mundo digital ele era daquele jeito não queria nem pensar como ele seria no mundo físico.
Ainda tentando ser educada, ela enviou:
“Olha, infelizmente não vai dar mesmo, Felipe. Na próxima falamos mais. Tchau”.
“Mas não haverá próxima vez, Clara, ” dizia a mensagem que Felipe enviou de volta quase que automaticamente após o envio da de Clara.
Parece que ele adivinhou, ela riu ao pensar na ironia.
Com o dedo coçando para apertar o botão de sair do chat e deixar ele falando sozinho, Clara resolveu ser boazinha e mandar uma mensagem otimista antes de se desligar para sempre daquele Felipe inconveniente.
“Não diga isso. Você não tem como saber disso, Felipe. Outra hora conversamos. Até mais”.
Antes que conseguisse sair do chat, uma mensagem curta de Felipe chegou no seu celular e a última palavra, digitada em letras maiúsculas, a fez estancar.
“Se sair da conversa eu te MATO! ”
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