Matando a Vida - Diário de 2016

9 O dia que descobri que meu amigo é gay.


Notas iniciais
O dia que descobri que meu amigo é gay.

MATANDO A VIDA 9: O dia que descobri que meu amigo é gay.

Eu já fui muito machista nessa vida, cresci assistindo Sobrenatural, uma cultura absurda de ser obrigado a pegar garotinhas na rua, ouvir Matanza, Rap e rock. E além de tudo nasci nos anos noventa, a época dos brucutus, e infelizmente isso me influenciou bastante. Gay sempre foi uma causa de abuso sexual na infância. Gay não trisca em mim! Gay não é meu amigo! A religião foi um grande problema para esse pensamento também. Minha antiga igreja nos proibia até de ouvir Mamonas Assassina porque na musica Robocop Gay ele comenta “Larga sua mente, gay também é gente”.

Isso tudo agravou no ensino fundamental quando conheci Batata, outro rapaz que tinha o mesmo pensamento que eu, não tolerávamos o homossexualismo de forma alguma, e só por parte de homem, porque pelo menos eu, corria para chegar em casa, abrir o RedTube e assistir pornô lésbico.

“O lesbianismo pode! Homem com homem não! Isso é nojento!”

Tudo mudou quando conhecemos o Andy no auge da nossa adolescência, era da nossa igreja, nariz grande, cabelo encaracolado, branco, adorava anime, vídeo game e as demais. Por algum motivo estranho adorava aquele jogo de dançar no Xbox. Mas normal, a maioria dos homens tem um hobbie meio estranho. Eu por exemplo tenho um diário, algo SUUUPER GAY.

Nessa época tínhamos um grupo de zoeira, mesmo a maioria dos membros do grupo serem da igreja, éramos meio que “Os vingadores caídos”, não éramos firmes na igreja, saímos muito para zoar, beber e bagunçar. O mais certinho era o Andy como sempre. A nossa vida mudou quando fomos visitar uma igreja no Goiás, foi uma galera, pegamos chuva, o carro quebrou e no final de tudo, depois de deixarmos as meninas cada uma em sua respectiva casa, ficou só eu, Andy, Japa e Batata no carro, já era madrugada e voltávamos para Brasília. Não sei como, mas por algum motivo o assunto virou abuso sexual, e aconteceu um comentário que mudou minha vida:

—Eu já sofri abuso sexual quando eu era criança. – O Japa falou isso. Japa era nosso amigo maconheiro e mais hétero que conhecíamos, pegava geral. Andy já conhecia esse histórico do Japa, mas pra mim e o Batata foi um tiro no meio do peito. –Eu tinha um amigo mais velho, tínhamos duvidas de como era beijar garotas, transar. Então até os dez anos começamos a trocar carícias. Eu masturbava ele e vice-versa. Passei anos com duvida de qual era minha opção sexual, mas hoje eu tenho certeza. Eu gosto de mulheres.

Caramba! Foi um baque tremendo! Puta que pariu! Eu e Batata entreolhávamos assustados. Aquilo era muito para a gente. Sabíamos sim que existia abusos infantis, e tudo mais. Mas parecia tão distante!

Paramos no Super Maia, compramos refrigerante e fomos na pizzaria. E lá aconteceu outra treta:

—Eu também já sofri abuso sexual. –Dessa vez foi o Andy.

“Dentre três amigos, dois deles sofreram abuso sexual. Essa foi à informação que tive naquele dia”.

—Quando eu era criança os garotos do meu colégio abusam de mim, passavam o pênis duro em mim na fila do lanche, me obrigaram a fazer coisas que nunca imaginei fazer nessa vida. O que eu tenho para falar com vocês é que eu sou gay. Isso me influenciou desde criança, eu já tentei lutar contra isso de todas as formas possíveis, mas não consigo, eu tenho tesão mesmo por homem, eu gosto de pica.

“Ele não falou com essas palavras, mas foi assim que soou na minha mente e do batata”.

Ficamos de boca aberta mais uma vez, o caso mais atípico de tudo isso é que mesmo ele sendo homo, ele era preconceituoso com ele mesmo. Via sua sexualidade como uma doença, algo errado, algo a ser curado. Na mente de Andy a homossexualidade era algo abominável. E isso é culpa dele? Logicamente não. Cresceu em um lar evangélico, sua mãe morreria de desgosto se soubesse que seu filho é gay e seu pai O MATARIA se soubesse que ele é gay. Situação complicada não é mesmo? O Andy está fardado a ficar sozinho, jamais poderá assumir sua opção, ele vive com uma mascara todos os dias, fingindo ser quem não é, e isso é muito triste de se pensar.

Aquele dia eu não dormi, caramba! Dois amigos bem próximos que eu conhecia no mínimo há quatro anos sofreram esse traumas absurdos e não saber me deixou muito abalado, sério mesmo, eu tive pesadelos, tremedeira, eu não sabia como me comportar.Eu era machista. Como um machista poderia ter dois amigos que foram abusados por outros homens sendo que um deles é gay? Isso era inadmissível.

Eu e Batata passamos a noite em claro conversando sobre isso.

Eu iria parar de falar com eles por causa disso?

Esse baque mudou minha concepção sobre as coisas. Eu parei de olhar os gays como pessoas estranhas, pessoas que mereciam o meu desgosto. Minha namorada me ajudou bastante a perder esse machismo todo. Com o tempo percebi que todos são iguais, a opção de cada um não mudaria o que eram. Atualmente eu tenho vários amigos gays, faço zoeiras com eles. E você acha que algumas coisa mudou? Não. Cada um respeita sua opção sexual.

OBS: E o bom disso tudo é que a minha namorada tem o Andy para fofocar com ele coisas de meninas e eu sou poupado dessas baboseiras! HE! HE! HE! Ele dá excelentes dias de produtos de cabelo. Pena que eu não tenho um.

E essa é a lição de hoje para vocês. Machismo é uma merda, pega isso e joga fora, tem muitas pessoas legais e interessantes, sendo gay, lésbica, hétero ou qualquer porcaria. Abraços!

Notas finais
O dia que descobri que meu amigo é gay.