João voltou pra casa de seus tios, cabisbaixo pelo desfecho que aquilo tomou. Ele escondeu bem seu ferimento, enquanto levava um longo sermão de sua tia pelo atraso. Ele fez a janta e suas obrigações restantes dentro de casa, até ser dispensado para o seu quarto para ir dormir as 20 horas.

Aquele sótão escuro, no qual ele chamava de quarto, era um dos poucos lugares que ele podia ficar sozinho longe de toda aquela gente. Ele era alto, e o teto baixo lhe trazia dificuldade em se movimentar naquele espaço de 4m². Havia uma cama, nada confortável, uma cômoda velha próxima da pequena e única janela do quarto, um criado mudo que ficava próximo a cabeceira da cama, um abajur que era a segunda fonte de lux do ambiente.

Deitado em sua cama, João mergulhava em seus pensamentos, lembrando d tudo que ocorreu naquele dia.

– Afinal, como eu irei provar? – ele diz alto consigo mesmo.

A luz da lua salta da janela, ajudando a formar sombras por todo o quarto. Sombras essas que cresciam no contraste da luz do luar.

– Não consigo acreditar que aquela maldita conseguiu... – diz uma voz grotesca que onde não se sabia de onde era a fonte – Ela te dominou, te iludiu e capturou seu coração... tenho que admitir que ela é muito boa, conseguiu tão facilmente que foi até invejável. A grande questão agora é: “Como provar a ela que você a ama”, estou certo?

– Não enche...

– Ora... vamos, como ira faze-lo? Tudo que pensou até agora não ajudou em nada... mas juntos, ah juntos podemos faze-lo. Se é ela que você quer, eu a darei a ti. Eu já pensei em como faze-lo... só basta uma coisa...

Enquanto isso, as coisas não iam nada bem para o lado do prefeito. Que ele era corrupto, isso todos daquela cidade sabiam, mas é claro que ninguém iria abrir a boca pra dizer tal coisa. Entretanto, com a mídia voltada para Laguna, fazia pensar o que tipo de coisas o prefeito estaria fazendo para deixar que tal barbárie acontecesse.

O senhor Cezar realmente estava com um grande problema em suas mãos e apesar de seus assessores demonstrarem empenho em tramar algo que pudesse reverter aquela situação, nada o agradava. Daí veio a brilhante ideia “culpar alguém”, ou melhor dizendo, arrumar um bode expiatório. Um plano que era mais como uma faca de dois cumes, mas era a coisa mais óbvia que se podia fazer naquele momento.

Estava claro que alguém havia feito aquilo com o garoto, então acha-lo, seja lá quem fosse era prioridade. Enquanto todos se distraiam, culpando e odiando aquele que cometeu tamanha barbárie, o prefeito teria tempo de ao menos esconder suas cagadas e de quebra, quando o suposto culpado fosse pego, o senhor Cezar sairia como um herói e claro que ninguém o contestaria sobre como ele foi tão desleixado deixando a segurança municipal em tal decadência que algo assim acabou acontecendo. De fato, um ótimo plano onde a maioria caiu direitinho.

Se passado alguns dias, claro que a sobra de um colega morto brutalmente ainda estava presente, mas o clima aos poucos se normalizava. Até o filho do prefeito estava como antes, claro, ainda ressentido, mas seguindo em frente.

João e Helena ainda estavam naquele impasse, como se fossem duas crianças do primário.

– Ei, João ninguém! Você e aquela... garota cadáver brigaram? – pergunta Thais, com um olhar malicioso frente a carteira do garoto.

Normalmente, essa seria a hora em que João ficaria hipnotizado com a beleza daquela bela loira e perderia totalmente o foco, mas não daquela vez.

– Eu não sei... – ele responde com uma voz fraca, mal voltando o olhar para aquela que estava ao seu lado.

Se havia algo que deixava a Thais fora do sério era ser ignorada, o que era praticamente o que o João estava fazendo.

– Sabe João? – Thais parte pra cima, usando seu charme al máximo, chegando a falar bem perto do rosto do João e apoiando seus enormes peitos sobre a carteira do garoto – Nesse fim de semana vai ter uma festa pra animar a galera, vai ser lá na casa do Cezar, vai começar a meia noite e vai até o nascer do sol... Eu estava pensando em pedir pro Carlos te chamar, mas eu decidi te chamar pessoalmente... o que você acha? Você vai né?

É claro que mesmo estando um pouco afastada, Helena conseguia perceber o que estava havendo entre a Thais e o João, e ao ver aquilo ela se retira da sala. João apenas confirma, não estando nem ai para o que a bela loira havia lhe dito, só para que ele pudesse sair e procurar a Helena.

Não precisava ser um detetive pra saber onde ela estaria, ele apenas correu pra biblioteca e lá a encontrou.

– Helena! – ele grita eufórico devido a correria.

– Shhh! Faça silencio, esqueceu que aqui é uma biblioteca?

– Helena... – ele diz de uma forma mais branda.

– O que é, meu nome é doce por acaso? Aliais, o que cê ta fazendo aqui? Não devia estar com aquela lora aguada?

– Eu decidi! Eu me decidi em como eu vou provar. – ele diz de uma forma firme quase inabalável.

Helena tenta quebrar toda aquela banca com seu sorriso iônico, mas ao ver nos olhos dele a seriedade de suas palavras, ela desiste.

– Então, o que será?

– Me espere na cabana, hoje após horário do jantar... provarei que nós somos iguais realmente...

Aquelas palavras proferidas com tamanho empenho pareciam ressoar pelo ambiente, mesmo depois do sinal ter tocado e os dois terem ido de volta para a classe.

Aparentemente, aquele ar hostil entre eles tinha desaparecido e isso todos sentiram. O professor, de volta a classe anuncia que devido a tal calamidade o prefeito decidiu patrocinar uma viagem de 3 dias para os alunos do ensino médio.

Claro que aquilo tinha o intuito de amenizar o estresse vivenciado por aquela turma, mas beneficiar apenas uma turma não seria justo, então todas as outras foram incluídas.

A aula se seguiu normalmente, ao soar do alarme as 17 horas, os alunos saíram de suas classes em disparada. Helena seguiu os outros, esperando que o João viesse em seguida, mas ele ainda estava sentado em sua carteira. Ela então decidiu deixa-lo e ir embora, já que parecia que ele tinha algo a resolver.

– Que milagre João, ainda não foi embora? – questionou o professor.

– É que tinha algo que eu gostaria de falar com o senhor, professor Mario. – diz João em tom sereno.

– Ora, então façamos o seguinte, você me ajuda a arrumar a sala e levar esses papeis até a sala dos professores e lá podemos conversar, mas terá de ser rápido, ou logo vai escurecer.

O garoto consente e logo eles põem em prática o acordado, não levando mais que 10 minutos. Ao chegarem na sala dos professores, João ainda teve de esperar toda conversa que seu professor tinha com seus outros colegas de profissão. Enfim, todos os outros professores saíram para suas casas, ficando apenas os dois naquele lugar.

– Então João Lucas, o que o senhor queria falar comigo? – diz o professor enquanto se sentava e verificava algo em sua caderneta.

– O senhor veio de carro hoje né professor? – ele diz enquanto anda pela sala mexendo e observando alguns papeis sobre outras escrivaninhas próximas.

– Sim e se ficar muito tarde eu posso te levar pra casa se quiser.

– Isso pode vir a calhar...

– Então filho, o que você queria falar? É sobre suas notas? Sabe, João, suas notas têm sido bem medianas durante o ano passado e pelo visto esse ano também parece ser o mesmo, como seu professor de física, eu tenho que garantir que você tenha boas notas pra fazer com que você tenha uma oportunidade fora desse lugar aqui, tá me entendendo? Bom, era pra ser um segredo que só algumas poucas pessoas sabem, mas eu vou pra Brasília semana que vem numa conferência de professores que vai durar 5 dias, então eu não vou estar para o acampamento de vocês. – ele dizia enquanto estava despreocupadamente foleando algumas páginas do que estava lendo.

– Isso com toda certeza é muito conveniente... – dizendo isso, João já estava por trás do professor.

A sua respiração ficou ofegante, seus lábios ficaram secos assim como sua garganta. O suor escorria pelo seu corpo, movimentos cardíacos intensos e suas mãos tremulas enquanto tirava um saco plástico de seu bolso esquerdo de sua calça.

Seu corpo se paralisa, ele não consegue mover nem um centímetro à frente e naquele momento lhe bate lapsos da conversa que ele teve com Helena...

...provarei que somos realmente iguais... eu vou matar uma pessoa, então essa será a prova definitiva!

Acha mesmo que consegue? Não me faça rir, existem 5 coisas que se é preciso para matar alguém: o desejo de matar; saber quem matar; o porquê matar; como matar; e o principal, não ser pego... tem certeza que é isso mesmo que você quer?

De repente, uma aura escura brota do chão, subindo pelas pernas e percorrendo o corpo do garoto, até envolve-lo completamente. Sua respiração normalizou, suas mãos não tremiam mais e sua transpiração cessou.

João se aproxima friamente, passando a língua umedecendo seus lábios, seus olhos não são mais os mesmos, estão enegrecidos, num olhar horripilante.

– Fim da aula... professor!

Num movimento brusco, João cobre a cabeça do professor com o saco e rapidamente envolve o pescoço com uma corda para garantir que não seria possível remover o saco.

O professor se debate desesperadamente, João escolheu o momento exato em que o seu professor tinha expirado e sem ar em seus pulmões acabar sufocado era só uma questão de segundos. Em movimentos desesperados para tentar escapar, o senhor Mario tenta se levantar de sua cadeira e assim suspender o garoto afim de fugir de seu algoz.

João percebe o movimento, ele sabe que poderá acabar falhando se sua vítima concluir seu movimento, afinal, de pé o senhor Mario era muito maior e o garoto iria perder totalmente seu apoio e força para conte-lo.

João não tem escolha a não ser soltar uma das mãos, então o homem desesperado aproveita a oportunidade e se levanta de sua cadeira.

Ao primeiro passo para frente para tentar escapar do recinto, o homem vê um esguicho vermelho atingir sua mesa, papeis, documentos e a tela de seu computador.

Só levou 2 segundos para que ele percebesse que aquele liquido vermelho vivo que parecia não ter fim ao banhar a mesa a sua frente vinha dele mesmo.

Em um rápido movimento, João sacou um pequeno canivete e cortou profundamente o pescoço de sua vítima, tamanha velocidade tornou o golpe indolor a princípio.

O homem tomba de joelhos, sua vista se embaça rapidamente, tudo está se desfocando. Ele tenta gritar, mas não consegue e a tentativa de parar o sangramento com a mão se mostra inútil. Quase sem gemidos, a vítima ainda tenta engatinhar, mas cai já morto no cão frio, enquanto seu sangue se espalha pelo recinto.