"Toc toc", e a porta abriu:

– Senhor, seu pai o espera, junto à lareira da sala de estar.

– Ok, diga a ele que já desço — e ela saiu do meu quarto confirmando com a cabeça minha ordem.

"Droga!", cheguei a dizer, baixinho. Sabia exatamente o que ele queria comigo a essa hora: será que minha opinião não valia nada? Já havíamos conversado. Ele sabe o que eu penso! Mas não: meu pai sempre foi acostumado a estar acima de tudo (e todos). Não poderia deixar meus argumentos vencerem. Essa é a parte ruim de ter um pai bilionário: ele acha que sempre está certo. Larguei o controle; não adiantava, já tinha morrido no video-game com a distração que a presença da empregada havia causado, e adiar essa discussão, talvez fosse pior. Não! ele já havia vencido. Restava-me agora descer, e ouvir o que ele tinha a falar. Calcei os meus tênis e desci pelos corredores iluminados e cheios de quartos vazios que meu pai insitia em manter, para o caso de "Visitas Especiais": as vezes, um ou outro presidente árabe se hospedava ali, para firmar contratos milionários com meu pai, a cerca dos poços de petróleo que o pertenciam.

Cheguei à sala onde meus pais me esperavam. Meu pai com um profundo sorriso de triunfo no rosto. Minha mãe com algumas lágrimas no olho: gostava tanto da ideia quanto eu. Me aproximei, pedi licensa e sentei em uma poltrona, olhando para meu pai com uma enorme expressão de "manda logo a bronca".

– Então, filho, — começou meu pai, ainda sorrindo — espero que tenha pensado na nossa conversa. Talvez tenha percebido o quão bem essa mudança fará a você.

Minha mãe soltou um soluço.

– É, talvez... — suspirei demonstrando imenso tédio.

– Ah, filho, que animação é essa? Escute: você deveria ter ficado feliz quando recebeu o convite. Digo, somente mais nove crianças receberam.

– Tá, pai, acontece que eu não quero ficar preso num internato com nove mauricinhos que só pensam em si mesmos. Além do mais, no que essa escola é tão diferente? Porque não posso continuar na cidade? Dá impressão que o senhor quer é se livrar de mim, apenas isso.

Isso foi demais pra minha mãe. Ela caiu em prantos, se esvaía em lágrimas. E eu sabia exatamente porque ela estava assim: a ideia de ficar tão longe de mim não a deixava bem. Ela até tentava argumentar com o meu pai, mas como eu disse, a opinião dele sempre prevalece.

– Claro que não, filho. Não pense que eu te quero longe de mim. Acredite-me, a ideia de estar tão longe de você me agrada tanto quanto agrada a sua mãe. Mas não há outro jeito, entende?

– Não, pai! Não entendo! Se não quer se livrar de mim, porque é que eu tenho que estudar no meio do nada? Andei vendo na Internet, e aquela escola é cercada de mato.

– A questão é simples, meu filho — agora ele me mirava com um leve tom de nervosismo em sua voz, como quem me mandaria subir ao meu quarto e dormir, se não houvesse algo tão sério a ser discutido — O Instituto New Caledonia não admite bolsistas e nem qualquer outro tipo de ralé que as outras escolas vem admitindo. Entenda, eles examinam atentamente a conta bacária dos pais, antes de convidar um aluno. É por isso que são tão poucos aprovados. Você deveria se orgulhar de estar entre eles.

– Eu já disse: não vou me orgulhar de estar entre um bando de mauricinhos egoístas! e qual o problema com bolsistas? Lembra do Nick, ele era bolsista e era meu melhor amigo!

– É extamente essa a intenção, filho. Te tirar dessas péssimas companhias. Onde já se viu?! o melhor amigo de Erick von Dhöme é um bolsista! Tem noção de como ficaria a minha cara se alguém da Imprensa descobrisse? Eles cairiam em cima de mim! E como eu iria explicar o fato do meu filho estar se relacionando com pobres?

– Já que tocou no assunto, pai, me diz porque você tem essa maldita mania de julgar inferiores as pessoas que não tem dinheiro?

– Exatamente por isso, filho, por não terem dinheiro. É assim, Erick, e sempre vai ser: quanto mais você tiver, melhor você é. Não fui eu quem fiz a regra; apenas cumpro-a. Não queira fugir disso, você sabe que sua amizade com pessoas desse tipo é proibida. Não por mim, mas pela própria humanidade. Bom, — acrescentou meu pai, olhando seu relógio — está ficando tarde. Quero que suba agora, sem dizer mais nada, e vá direto para a sua cama. Se eu souber que andou passando a noite naquele maldito video-game de novo, você não vai a aula de hipismo amanhã!

Meu pai fez uma expressão de quem encerra o assunto, uma expressão que eu conhecia bem, e não ousaria contestar. Dei um beijo no rosto da minha mãe, lancei um frio "boa noite" ao meu pai, e subi para meu quarto. Como consegui dormir, nunca soube. Estava com a cabeça cheia demais para simplesmente fechar os olhos e apagar. Droga! como meu pai podia ser tão egoísta? estava beneficiando apenas o seu próprio interesse. E essa mania dele julgar os outros pela conta bacária. Quando ia parar? Se ele ao menos se desse ao trabalho de conversar com os seus empregados... mas não! quando dirigia a palavra a eles, ou era para dar ordens, ou reclamar do serviço que faziam. Naquele momento, só desejei que algo pudesse mudar a opinião dele, ainda que soubesse que era difícil. Bom, me restava ir para aquela escola sem reclamar. Me relacionar com filhinhos de papai metidos a besta com a mesma opinião repugnante do meu pai sobre aqueles que não tem dinheiro, prontos para pisar em qualquer um. Esses seriam meus novos amigos.