Mas é Melhor se Você Fizer
1 Versão do Ryan [parte 1]
Notas iniciais
A parte 2 será postada já já. [comentem! u_ú] :B
Acordei com beijos em minha nuca que me faziam cócegas. Acariciava meus cabelos gentilmente, sentia prazer com o gosto de vinho na boca. O que me agoniava era saber que estava me esquecendo de alguma coisa...
— Eu te amo... Ryan. — Ela murmurou e me envolveu num abraço sufocante. Palavras da boca para fora também me faziam bem.
Olhei para os ponteiros do relógio, eles marcavam três da madrugada. Perdi o sono.
— Ficaria dias trancada nesse quarto em sua companhia, esqueceria o mundo que me cerca se você quisesse. — Ela sussurrou em meu ouvido, causando um arrepio desconfortável.
— Não posso — As palavras escaparam de minha boca — Não sei por quê... Não me lembro.
Kátia suspirou e deitou a cabeça em meu ombro — Algum compromisso importante?
Recordei que seria meu primeiro dia no novo emprego como professor. Balancei a cabeça afirmativamente, levantei da cama.
— Tenho que sair...
— Quando você volta? — Ela falou autoritária, seus olhos ficaram tristes não combinavam com a pintura preta e brilhante, estava enrolada nos lençóis, seus cabelos platinados estavam despenteados e contribuíam para deixá-la com uma aparência vulgar. Para ser sincero, estava cansado de garotas como aquela.
— Talvez nunca... — Procurei ser doce. Peguei suas roupas que estavam espalhadas pelo chão, amontoei e joguei-as em cima da cama, como um convite a se retirar.
— Se quiser que eu vá embora, eu vou! — Decidiu ela rispidamente — Não me procure mais, depois que eu sair por aquela porta.
Ela se vestiu, me beijou pela ultima vez e se foi. Não sentiria sua falta... Era indiferente.
Tomei um banho quente, vesti trajes formais, penteei minha franja e a deixei cair sobre os olhos suavemente. Usando gel, arrepiei os fios que ficavam na parte de trás de minha cabeça. Ainda eram cinco da manhã.
Fui até a cozinha e fiz café preto, tomei com leite quente, estava um pouco nervoso. Novas experiências me deixam assim até hoje. Tentei relaxar ouvindo um pouco de musica clássica.
Sete horas em ponto, eu estava na classe do primeiro colegial para ensinar álgebra. Rabisquei meu nome no quadro e procurei ser sério para conseguir respeito da turma. Prossegui com explicações exatas. Não queria olhar para Nicholas Van Ross Dam, meu irmão, e naquele instante, meu aluno. Mamãe o adotou logo que fui para a faculdade: "Preciso de um garotinho em casa" encarei o fato como uma ofensa, pois ela quis dizer que eu era substituível, ou coisa assim...
— Mas então, toda parábola com côncava para cima possui o "a" positivo? — A voz era amável, mas o tom perturbador. A garota me fitava com seus grandes olhos verdes cheios de duvidas.
— Sim — respondi — Numa equação do tipo "ax²+bx+c".
Ela jogou seus lisos cabelos castanho-escuros para trás e abriu um largo sorriso, em um jeito desafiador.
— Para todos os interessados eu ensino piano. Procurem-me nos intervalos. — Avisei, afinal... Precisava de dinheiro.
A caminho da cantina escutei uma voz feminina chamar meu nome. Virei-me e deparei com a mesma garota dos olhos verdes, percebi que era esbelta, como uma mulher adulta.
— Quando é que o senhor pode me ensinar a tocar, professor? — Ela me fitou com um olhar meigo.
— Não precisa me chamar de senhor... Ryan está bom. Não sou tão velho assim, sou? — Tentei ser gentil.
— De forma alguma, Ryan. Parece ter uns vinte anos. — Ela riu e ajeitou seus longos cabelos atrás das orelhas, seu rosto corou.
— Quem me dera! Tenho trinta e cinco. — Fiquei embaraçado com a confissão. — Mas voltando ao assunto... Estou disponível à noite. — Forcei um sorriso. Ela continuava a me encarar, olho no olho, eternamente.
— Vou falar com minha mãe — Sua expressão ficou séria, como a de uma moça determinada, talvez ela fosse.
Um garoto a abraçou por trás, a deixando surpresa: era Nick, inconfundível, cabelo escorrido e impecável, por causa do gel, usava óculos redondos e camiseta por dentro da calça. Patético.
— Oi Ryan — Disse ele sarcasticamente com sua voz rouca e fanhosa.
— Oi Nicholas — Retruquei no mesmo tom — Tenho que ir, estou atrasado! — Virei às costas, me dirigi até o carro e voltei para casa.
Será que eles estavam namorando? Impossível. Ri comigo mesmo, fui até a geladeira e me servi com vinho tinto. Ela era boa demais para ele. Já eram oito horas, liguei a televisão e assisti a minha novela. Habito ruim... Acabei dormindo no sofá.
— Minha mãe concordou, temos um piano que ela herdou em casa e ninguém sabe tocar. — Ela sorriu, seus dentes eram brancos como pérolas. — Qual horário?
— Nove horas? Ou é tarde? — Não podia perder minha programação.
— Pode ser. Hoje? — Ela estava ansiosa. Balancei a cabeça afirmativamente.
O portão era enferrujado e a casa era amarela, por dentro era grande. Entrei numa sala confortável, cheia de quadros abstratos pendurados na parede. A escura madeira envernizada da qual era feito o piano me chamou a atenção com seu brilho. Natalie estava sentada ao banco, me esperando, seus olhos esverdeados sorriram quando se encontraram com os meus.
— Uma rosa para minha aprendiza, e outra para sua mãe. — Entreguei-lhe as flores.
— Obrigada — Ela encolheu os ombros.
Os meses se passavam rapidamente e cada dia, eu passava mais tempo com Nat. Ela era a companhia perfeita, sabia disso.
— Não tente decorar as notas! Leia a partitura. — Indiquei rispidamente. Naquela noite, a chuva batia na janela, castigando-a.
Nat fingiu não ouvir, insistiu e errou na mesma tecla. Tomei suas mãos, estávamos sentados no mesmo banco, ela olhou dentro de meus olhos com um ar satisfeito. Baixou a cabeça. Ergui seu queixo delicadamente com a ponta de meus dedos, nossos rostos se aproximaram, consegui enxergar as lágrimas em suas pestanas. Nossos lábios se tocaram por uma fração de segundo, antes de Natalie virar o rosto.
— Desculpe — Me apressei a ir embora.
Cheguei em casa e me olhei no espelho... Não me sentia bem. Meus olhos castanho-claros apresentavam uma expressão maliciosa, que até então eu desconhecia. Lavei o rosto e com as mãos molhadas baguncei meus lisos cabelos escuros. Lembrei-me que precisava corrigir as provas de cálculos estequiométricos.
Sentei-me na escrivaninha de cerejeira, que ficava ao lado de minha cama, endireitei a postura e comecei a ler as respostas dos alunos.
Ao todo, corrigi trinta e duas avaliações: Nick, como sempre, foi genial... Tive o desprazer de escrever a nota máxima no papel, quem me dera... Rasgá-lo. Porém, Natalie foi uma decepção, conseguiu errar mais da metade da prova... Ela sempre foi uma garota esforçada... Não compreendi seu baixo desempenho. Dei uma ajuda desonesta: Pontuei cada detalhe correto que estava marcado cuidadosamente e descontei pouco dos erros, totalizando sete e meio. Não fui muito justo, mas segui meu coração.
Passei a noite em claro e na manhã seguinte entreguei as provas a meus alunos. Natalie se surpreendeu ao receber a sua e Nick, como sempre, se sentiu superior aos outros. Ridículo.
No intervalo vi Natalie e Nicholas se beijando sentados em um banco de madeira embaixo de uma árvore, quando estava a caminho da sala dos professores. A cena foi nauseante... Meu querido irmão conseguia me deixar fora do sério. O ódio consumia meu coração e corroia meus olhos.
Ao chegar a minha casa, me afoguei em um wisky barato que encontrei no armário branco da cozinha. Um pouco enjoativo, mas amenizava minha dor... Depois de beber quase todo o conteúdo da garrafa, atirei a mesma contra a janela, estilhaçando o vidro. Uma das vantagens de morar sozinho era essa: ninguém poderia me censurar num momento de fúria.
No dia seguinte não fui ao trabalho... Meu estado físico e mental me impediu: vomitei a manhã inteira e a dor de cabeça me prendeu na cama. Por que Nat não conseguia me amar?
Recebi um telefonema lá pelas quatro da tarde, era Natalie com sua voz meiga, porém infantil, dessa vez.
— Professor?
— Sim. — Tentei ser firme.
— Liguei para saber se devo esperá-lo para a aula de piano hoje.
— Não.
— Tudo bem com você? — Perguntou desconfiada.
— Nem um pouco.
— Também gostaria de falar sobre outros assuntos importantes... Mas acho melhor mais tarde. Espero melhoras. — Desligou.
Fui dormir logo depois da novela, pois o descanso era necessário... Teria de enfrentar uma jornada de trabalho pela manhã.
Entrei na sala de aula iluminada, parecia maior naquele dia. Todos os alunos me fitaram com espanto: talvez minha aparência não fosse das melhores... Natalie foi até minha mesa e estendeu sua avaliação.
— Professor... Devo conversar sobre minha prova. Eu errei a questão inteira e o senhor considerou...
— Também me decepcionei com seu desempenho senhorita. — Debochei.
— Desculpe... É que eu não consigo fazer o balanceamento das equações químicas. Pode me explicar melhor?
Uma vontade de mandá-la pedir ao Nick me invadiu, mas me controlei e fiquei em silencio, balançando a cabeça afirmativamente. Como uma aluna pode ir tão bem a álgebra e piano, e ir mal em química? Tudo esta ligado ao raciocínio rápido e lógico.
— Pode ser hoje depois do almoço? — Sugeri e ao mesmo tempo ajeitei a franja que entrava em meus olhos, incomodando.
— Claro! — Ela sorriu feito uma criança. Sua infantilidade agora me trazia angustia.
Cheguei às duas da tarde na grande sala, o vazio me comovia e enchia minha mente de idéias um tanto e quanto maldosas.
— Professor Ryan, desculpe o atraso! — Natalie entrou e bateu a porta. Estava linda naquele dia... Sua saia branca pregueada deixava levemente descobertas suas pernas finas a cada passo que dava. De certa forma, isso me perturbava. — Eu não estou, nem um pouco, a fim de estudar agora... Se me permite o comentário. — Ela ajeitou os cabelos atrás das orelhas e me encarou com olhos provocantes.
— Esta bem — cedi — Vamos fazer algo diferente.
— Não sei não... Que tal um parque de diversões? — Nat sugeriu espontaneamente. — Mas tenho que voltar cedo.
— Seria ótimo — segurei sua mão, ela corou, porém sorriu.
— Não sei se minha mãe deixaria... — Sua expressão ficou triste, e isso me agoniava.
— Diga a ela que varias amigas suas também vão.
— Certo. Só faço isso, pois confio em você! — Ela me abraçou fazendo com que meus batimentos cardíacos acelerassem.
Durante todo o caminho, ela não abriu a boca, ficou olhando a paisagem pela janela do carro. Chegamos a menos de vinte minutos, o silêncio entre nós me desgastava, talvez Nat não quisesse estar comigo... Talvez a grande duvida me mataria um dia.
O lugar era imenso e cheio de cores, os brinquedos alcançavam o céu e giravam sem parar, só de ver me dava tonturas. Natalie me agarrou pelo braço e me arrastou para a fila de uma montanha russa. Olhei para a monstruosidade e me arrepiei: havia uma descida que fazia noventa graus em relação ao solo e a um metro deste, ela desviava o percurso retomando seu trajeto. O tempo que esperei serviu para me fazer pensar em desistir, ou talvez não...
Montei no banco desconfortável e uma trava apertada envolveu meu peito. Nat estava ao meu lado, despreocupada. Seria possível eu morrer na descida. O carrinho começou a andar pelos trilhos vagarosamente e o estrondo era alucinante. A subida era infinita e meu coração estava saindo pela boca naquele momento, me deixando paralisado. Como alguém pode gostar de ser torturado?
Natalie apertou minha mão contra seu peito: as batidas de seu coração eram sufocantes. Despencou! Tive a sensação de estar caindo de um abismo, fechei os olhos e os poucos segundos de queda se transformaram em horas... Não tive forças para gritar, estava imóvel e agarrado na trava.
— Ryan, já acabou! — Natalie apertou minha mão, as suas estavam geladas.
Abri os olhos e saí do acento: estava em terra firme novamente! Mas a tontura era insuportável.
— Aonde vamos? — Ela me perguntou entusiasmada.
— Qualquer coisa que não seja tão violenta.
Natalie me fitou indignada. Estávamos passeando pelo parque enquanto o sol se punha.
— Ry, seus cabelos ficam loiros quando refletem o sol... — Ela sorriu — Olha! Eu adoro algodão doce! — Nat apontou uma barraquinha que vendia a guloseima.
— Eu também! Deixa que eu pago para a gente! — Acariciei seu rosto.
Natalie devorou o doce em alguns segundos e me levou para a roda gigante. A cabine era apertada... O bom disso era que ela estava mais próxima de mim. De lá de cima dava para ver praticamente a cidade inteira, era lindo.
— Natalie... — segurei suas mãos tremulas e olhei fixamente em seus olhos, que naquele instante lacrimejavam. — Preciso te dizer uma coisa... — A puxei para perto de mim e a beijei violentamente. Não pensei em mais nada... Ela se deixou beijar e isso me deu esperanças, me encorajou...
— Ryan, você se apaixonou por mim? — Ela me condenava.
— Não, eu te amo. AMO. — As lagrimas lavavam meu rosto.
— Não está certo! — Ela balançou a cabeça negativamente. — Não podemos. Nunca daria certo. NUNCA. — Ela me abraçou, puxava meus cabelos.
— Você me ama? — Perguntei.
Natalie me encarava, seu choro abafado me destruía... Não respondeu.
— Não há nada no mundo que impeça duas pessoas que se amam.
— Ryan! Acorda! Não posso. NÃO POSSO! — Ela balançava a cabeça o tempo todo. Estava nervosa.
Quando o brinquedo parou, ela desceu correndo, fugiu de mim. Quebrou meu coração, me machucou. Tentei segui — lá, mas ela já tinha me despistado. Olhei no relógio: sete e meia da noite. Tinha que voltar... Naquele dia, a novela estava imperdível. Odiava Natalie naquele instante. ODIAVA. Desisti de procurar e decidi ir embora, ela merecia.
Ao dirigir, me sentia culpado por abandonar a menina sozinha naquela imensidão de lugar, mas já estava feito... Não poderia voltar atrás. Não fui para minha casa, mas sim para a de mamãe... Estava com medo da besteira que poderia cometer se estivesse sozinho. Entrei sem bater: Mamãe estava na pequena sala tricotando alguma coisa indistinguível.
— Ryan! Onde estão seus modos? — Indagou ela com um olhar de censura.
Liguei a televisão e sentei no sofá sem dizer uma palavra. Ainda não tive o desprazer de me deparar com Nick. Não conseguia prestar atenção na programação, estava perturbado pela culpa. Andei pelo corredor procurando o banheiro... Sem querer avistei Nicholas em um quarto, sentado na cama, com a expressão preocupada falando ao telefone. "- Calma eu vou dar um jeito de ir para ai..."
Apressei-me em pegar a extensão que ficava em meu antigo quarto. Pude ouvir algumas palavras de despedida.
"- Tudo bem eu estou indo... Fique logo na entrada." — Era a voz de Nick.
"- Venha logo! Estou aflita... Estou sozinha! Minha mãe já me ligou varias vezes e eu não tive coragem de atender, não posso cotar a verdade!" — Era a voz de Natalie.
Desliguei o telefone. Ela não cofiava em mim... Ela não me amava... O que ela via em Nick? Qual era o problema comigo?
Talvez eu estivesse realmente cego, ou não quisesse enxergar o motivo.
— Preciso sair mãe. — disse Nicholas aflito, ele não sabia que eu estava na casa.
— Meu querido, aonde vai à uma hora dessas?
— Preciso ajudar uma amiga. Onde fica o ponto de ônibus mais próximo?
— Ônibus? Não precisa disso... Ryan esta no quarto peça para ele te levar.
— Acho melhor não. Estou indo.
— Na rua de baixo tem um ponto. Juízo! Volte logo.
O barulho da porta batendo foi o sinal de que Nick não estava mais em casa. Fui até a sala.
— Ryan, meu filho, qual é o problema? — Mamãe falou séria.
— Que problema? — procurei me controlar.
— Não seja cínico! Não minta para sua mãe! Você sabe por que Nick saiu... E além do mais, esse clima de discórdia. — Ela explodiu.
— Quer saber? Nunca gostei de Nick, ele não é meu irmão. NÃO É! E você o trata como se fosse... Ele roubou minha vida! Achou que poderia me substituir...
— Não! — Ela me interrompeu. — Não foi com essa finalidade que o adotei... Fiz isso para fugir da solidão. Seu pai me abandonou quando soube que eu estava grávida de você... Não queria casar. Eu te amo e te criei sozinha. Agora, você já é um homem feito... Não precisa mais de sua mãe... Mas eu preciso de alguém. PRECISO. — Ela se debulhava em lágrimas.
Senti um peso na consciência... Tinha sido muito rude, grosseiro. Deixei o lar e minha mãe chorando... Entrei num bar de esquina, o cubículo era imundo e mal iluminado. Alguns goles de álcool poderiam me curar.
Na manhã seguinte cheguei atrasado ao colégio. Meu humor estava péssimo, intragável. Natalie faltou... Acho que errei com ela...
— Nicholas... — Chamei depois da aula.
— Diga "maninho"... — Ele foi sarcástico.
— O que aconteceu ontem?
— Não se faça de tolo... Você sabe. — Ele me fuzilou com os grandes olhos negros. — Aposto que foi você quem deixou a Nat daquele jeito... Fazer esse tipo de maldade é a sua cara.
Com um bofetão calei-o e também quebrei a lente de seus óculos.
— Será que você vai sempre ser uma criança? Partir para a ignorância é um ato infantil de quem perde a razão. CRESCE! — Ele explodiu.
Nossos olhos se encontraram: a fúria que estava dentro dos dele parecia ciúmes doentio. Não pude evitar uma gargalhada sádica. Nick deixou a sala de aula, fiquei só. Precisava de um momento como aquele para por a cabeça no lugar. Deveria pedir desculpas a Natalie... Queria voltar no tempo e concertar tudo.
— Alô, gostaria de falar com Natalie. — telefonei.
— Ryan? — Era a voz dela! Pude reconhecer, mas parecia depressiva.
— É... Eu... Preciso falar com você. Preciso do seu perdão... Eu confesso: Fui um tolo! Nat, fala comigo. Nat? — Fez silêncio por alguns minutos.
— Também preciso me desculpar. Agi como uma garotinha assustada... Não soube como lidar com a situação. Vou entender se não quiser mais falar comigo... Ou...
— Não! Espere... Vamos concertar isso. — Interrompi.
— Ryan, eu estou confusa... Não sei o que é melhor para mim... Não sei o que devo fazer. Não sei exatamente o que sinto por você. Não me leve a mal...
— Nunca! Respeito suas decisões. Não importa o que acontecer, quero sempre estar por perto. Só quero o seu bem, que seja feliz, mesmo que não seja ao meu lado. -Atuar também era uma de minhas qualidades.
— Você é um doce. Ryan... Quero você aqui comigo nesse momento. Preciso te ver. — Sua voz foi suplicante.
— Não posso... — Coloquei o aparelho no gancho.
O perdão de Natalie foi para mim uma pancada e um anestésico ao mesmo tempo: dava-me esperanças e incertezas. Será que ela me amava?
O relógio não ajudava, andava devagar e o dia estava tedioso demais... Talvez fosse melhor eu deixar esse emprego e começar uma nova vida. Estava realmente disposto a fazer isso. Peguei um papel e uma caneta: rabiscaria meus sentimentos em uma carta para Natalie.
"Natalie,
Ainda sou eu quem te faz suar?
Eu sou quem você pensa quando esta na cama?
Eu tenho mais inteligência...
Um beijo melhor,
Um toque mais sensual,
Que qualquer garoto que você conhecer,
Querida você me teve!
É difícil dizer...
Mas ninguém é perfeito.
Apaixonamos-nos, simplesmente...
Agora tenho que seguir meu próprio caminho...
Vou sentir sua falta...
Mas não te amo como te amei antes."
Deixei na caixa de correio da casa dela no dia seguinte e não fui trabalhar. Fiquei a manhã inteira vasculhando a lista telefônica procurando escolas em que poderia oferecer meus serviços. Mas foi um fracasso: recusas e mais recusas.
Ouvi alguém bater na porta com força, apressei-me a atender. Abri a porta ruidosa e me deparei com Natalie.
— Ryan — Ela me abraçou
— Calma, ainda estou aqui — dramatizei.
— Não vá! Fique comigo! — Ela chorava e me sufocava em seus braços. — Essa noite... Fique.
— Não vou embora... Vou mudar de emprego.
— NÃO! Não mude... — Ela ofegava. — Vamos sair... Quero sair!
Natalie estava diferente por algum motivo, o qual eu desconhecia. Saímos para dar um passeio, fomos andando.
Durante o percurso observei o céu estrelado... As copas das árvores rendilhavam o luar. Nat segurava minha mão. Caminhamos até o centro da cidade, onde as luzes transformavam noite em dia.
— Vamos assistir a um filme? — Ela sugeriu e apontou o cinema.
— Por que não? — Brinquei.
Entramos, compramos pipoca e assistimos uma comédia romântica, que eu, particularmente, não achei engraçada. Natalie se divertiu.
— Não gostou? — Ela indagou com um ar de suspeita.
— ADOREI! — Fui cínico.
Natalie caiu na risada. — Como você é bobo!
— Não imagina o quanto!
Parei de andar. Ela agora me fitava com malicia. Beijamos-nos com a mais ardente vontade... Com a mais insuperável das paixões... Ela me amava! Tive certeza.
— Você gosta de mim? — Perguntei.
— Você é lindo! — Continuamos a andar... Levei-a até sua casa.
No sábado seguinte eu acordei tarde. Estava mais feliz do que nunca! Tive sonhos angelicais e um café da manhã de príncipe: vinho tinto. Senti que nada poderia me aborrecer... Talvez estivesse um pouco precipitado. Escutei alguém bater a porta, olhei pelo "olho mágico" e descobri que era Nicholas.
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