Maré Alta
2 Capítulo um
Notas iniciais
Em realidade, por mais inóspito e cruel que tenha sido um dia, é no continente de Lacrafta que essa lenda começa. Durante a guerra, Lacrafta, o segundo maior continente de Mercya, foi quase completamente devastado, mantendo-se vivo por um fio. Assolados pela fome e pela pobreza, o povo de Lacrafta cresceu ao mesmo tempo forte e resistente, e cruel e dissimulado. Em terras secas e sem comida, quaisquer meios eram aceitos para a sobrevivência.
O exército era divido em três, e, embora eu fosse capaz de conta-los detalhadamente sobre essas divisões, não irei, por um motivo muito simples. A garota sobre a qual estou prestes a falar não seria capaz de distingui-los nem se sua vida dependesse disso — o que, ironicamente, não estava tão longe da verdade. O que ela sabia, no entanto, era que aqueles que rodeavam a divisa entre A Fenda e o Deserto eram sádicos e inescrupulosos, e que ela fazia um favor ao próprio pescoço em se manter longe deles e de seus uniformes verdes e metálicos.
Morgan tinha um sobrenome, mas estava se esforçando em esquecê-lo. Um dia, havia sido a filha mais nova de um soldado respeitado do fraco e decadente exército de Lacrafta. Quando o pai retornou na guerra, no entanto, sem uma perna e com a psicológico abatido, não demorou muito para que a garota se tornasse Morgan, o estorvo. Não havia comida para todos, ou água, ou amor. O pai caíra gradativamente em uma espiral de loucura da qual não fora capaz de escapar, até o fatídico dia em que falecera sobre a própria mesa, embriagado de álcool e remorso. A mãe, então não apenas arrasada como também consumida pela miséria, vira a filha se transformar mais uma vez na frente de seus olhos. Ela passara a ser Morgan, a oportunidade.
Os arranjos foram feitos em pouco tempo. Morgan era bonita: descendente de elfos, de pele muito clara, cabelos escuros lisos que seriam infinitamente mais bonitos se tratados com cuidado e encantadores olhos verdes. E era também obediente. A guerra afetava aos pobres, eles diziam, mas os ricos não sentiam seus efeitos.
Morgan gostaria de ser rica um dia. Vira a paisagem fúnebre e depressiva da Fenda transformar-se em estradas assentadas percorridas por carruagens bonitas e os casebres de madeira darem lugar às construções de alvenaria. Fora arrancada de seus farrapos e teve as unhas limpas e cortadas. O cabelo foi lavado com sabão. Um dos dentes foi arrancado, puído demais para permanecer na boca de uma das futuras esposas de um jovem nobre, e ela adormeceu pouco tempo após a operação, ainda tonta de morfina.
Quando acordou, procurou pelo anel em seu dedo. Não sabia ao certo porque a mãe havia decido por vende-la, e não a joia: era de prata e provavelmente valia mais do que Morgan — ou assim a garota pensava. No entanto, sentiu-se estranhamente grata. O anel estivera com ela desde quando era bebê, e sentia-se estranhamente despida sem ele.
O jovem que viria a ser seu mestre era educado e gentil e falava em uma voz doce. Os pais dele, no entanto, eram rígidos e fediam à gente velha. Pareciam ter mais de cem anos cada um, e certamente possuíam uma quantidade de amargura que só poderia ter sido acumulada naquela quantidade de anos ou mais. O patriarca, calvo e robusto, a avaliou dos pés à cabeça com os olhos quase saltando das órbitas e uma mão dolorosamente pressionando as bochechas de Morgan — não que ela pudesse fugir. A mãe, de cabelos brancos presos no topo da cabeça e olhar duro a viu por um segundo e disse que ela era ao menos “melhor do que as prostituas pelas quais meu filho é tão facilmente encantado”.
Morgan não tivera certeza se aquilo havia sido um elogio.
A primeira noite na casa grande foi tortuosa. Haviam enxovais a serem preparados, pessoas à serem convidas e rituais a serem seguidos. Era absolutamente necessário que Morgan fosse banhada duas vezes no Lago de Cristal da cidade — o único contato de Lacrafta com a água salgada desde que Draconlay subira as barricadas marítimas — e então passasse ao menos dois dias tomando sol, nua.
Os deuses do Sol e da Lua eram muito específicos com suas demandas matrimoniais, ela concluiu.
Morgan tinha catorze anos e estava prestes a se casar. Ela não dormiu naquela noite.
— Morrigan — ela encontrou a si mesma sussurrando.
O rapaz sentado ao seu lado, que até estivera altivo e estoico, virou a cabeça para ela, com tamanha delicadeza que ninguém mais percebeu. Durante o jantar matrimonial, todos os presentes estiveram a chamando repetidas vezes de “a primeira concubina”. Morgan tentara manter a si mesma calada.
— O que?
Ela não era capaz de encará-lo. Ele sequer a tocara desde que haviam se conhecido, e parecia muito mais preocupado em agradar aos pais do que à noiva... — concubina. Era um rapaz bonito, de olhos azuis cintilantes e cabelo loiro cor de areia, mas tudo o que Morgan sentia quando o olhava era a lancinante dor de saber que havia sido vendida pela própria família e o peso do bracelete de ferro que a marcava como escrava.
Tudo isso, e, é claro, o temor pela tão ojerizada noite de núpcias.
— É o meu nome — ela engoliu em seco.
Imaginou que ele fosse ficar furioso. Era um nobre, e Morgan não tinha nenhum direito de fazer imposições. Ele poderia chama-la como bem entendesse. Mas ela sentia-se sufocada. Queria que ele ao menos soubesse seu nome, se seria obrigada a deitar-se sob ele.
— Que nome bonito — ele sorriu, e ela notou a maneira como os olhos dele se fechavam quando ele o fazia. — Eu me chamo Samir, mas você pode me chamar de Sam, Morrigan.
Faltando duas semanas para a cerimônia, em uma tarde na qual Samir a mostrava sua extensa coleção de mapas-múndi e diários de viagem, o rapaz deixou escapar:
— Eu gostaria de viajar o mundo um dia — ele segurava uma réplica de sabre pirata nas mãos, e Morrigan viu os olhos dele brilhando como nunca antes. — Você viria comigo?
Morrigan pensou na família, e em como tudo o que fizera nas noites anteriores antes de adormecer havia sido pensar neles e chorar. E então, como uma corrente de agua límpida, sua mente clareou.
Sua família a havia vendido.
Mesmo que conseguisse escapar, Morrigan não poderia retornar à Fenda. Sua família enlouqueceria com a ideia de serem então perseguidos por nobres a procura de uma escrava fugitiva. Além disso, os únicos ferreiros de Lacrafta trabalhavam para o Grande Conselho, confeccionando armas de guerra, ou para os poderosos aristocratas, como a família de Samir — ela viveria para sempre com o bracelete de ferro em seu pulso e ninguém jamais a aceitaria em lugar algum.
Morrigan chegou, então, à conclusão de que precisava retribuir a gentileza do único que até então lhe mostrara qualquer forma de carinho. Nas pontas dos pés, deixou um beijo no canto do lábio do rapaz e sussurrou-lhe:
— Em um piscar de olhos.
Para a sua surpresa, Samir não se moveu para lhe capturar os lábios em um beijo mais fervoroso ou toma-la para si. Do contrário, afastou-se um pouco e sorriu.
A noite começou a cair, e Morrigan sentiu o frio castigando o corpo. Quão mais próximo do Deserto, mais frio era a noite, ela sabia, mas havia avistado uma tropa de jaquetas verdes movendo-se não muito longe e não podia arriscar.
Zara, o corvo que a seguia para todos os lugares, começou a grasnar alto, e Morrigan imaginou que até ela estivesse sofrendo com a temperatura. Havia conseguido algumas moedas em uma aldeia no dia anterior, mas precisava comer a carne recém-adquirida logo, antes que estragasse.
Decidida, acendeu uma fogueira. Seu corpo todo ardia e doía, pelos dias caminhando sem lavar-se. Fedia e sentia cabeça coçando, mas, para sua sorte, os homens robustos das aldeias não se importavam com isso e pagavam por sua dança como alguém pagaria por uma boa cerveja. Gostaria de um banho, e uma refeição de verdade, mas contentou-se com espetar as peças de carne em um graveto e coloca-las para assar.
E foi só depois de já ter comido três pedaços — e dado um para Zara — que Morrigan notou o Tigre.
O enorme animal estendia-se na areia do Deserto, longo torso esticado com os músculos em evidência, e bocarra aberta. Apavorada, Morrigan buscou pela lança, mas, quando deu alguns passos para trás, sentiu um impacto forte na base da nunca e despencou.
Antes de perder completamente a consciência, Morrigan viu o esboço borrado de uma mão girando o que parecia ser uma faca entre os dedos e:
— Jade, acho que você assustou a garota.
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