Maré Alta
4 Capítulo três.
Capítulo três.
O garoto virou o cantil de cabeça para baixo, afim de despejar até as últimas gotas em sua boca. A água estava morna, e desceu ardendo pela sua garganta seca. Ele balançou o objeto mais uma vez, certificando-se de que, realmente, estava sem mais nada.
Jogou-o em um canto, o metal tilintando contra a parede. Caminhou em torno da saleta, esticando os músculos doloridos das costas. O sol estava se pondo lá fora, e a pouca luz que entrava pela janela quadrada submergia o ambiente em um tom alaranjada bonito. Ele andou até o homem mais próximo, tirou um papel do bolso e o estendeu na frente do rosto dele.
— Você sabe onde fica essa vila? — Perguntou, calmamente.
— Eu já disse que não! — O homem vociferou, mas sua voz saiu fraca e estrangulada. — Ela nem deve estar mais... — sua fala foi cortada por um soluço de dor — no mapa!
— Hm... — Nobi murmurou — tudo bem.
Em só átimo, agarrou o cabo da espada a deslizou, livrando-a da carne onde estivera enfiada. O homem urrou de dor, encolhendo-se e agarrando a própria costela. Nobi piscou, desinteressado. Do que adiantava? Ele já havia perdido muito sangue, não tinha mais salvação.
Nunca ia entender essa vontade inebriante que as pessoas tinham em manterem-se vivas, mesmo quando estava óbvio que não havia mais chance. Não fazia sentido para ele. Pessoas morrem, acontece. Por que lutar contra isso? Não era cansativo demais?
Caminhou até um outro, jogado contra uma parede. Mais cedo, quando invadira o loca, Nobi lembrava-se vagamente de ter enfiado um canivete em seu olho esquerdo, mas a lembrança parecia distante agora. Porém, ao julgar pelo modo como ele desesperadamente cobria o rosto, e como o mesmo estava ensopado de sangue, ele supôs ter sido aquilo mesmo.
Abaixou-se, mostrou o papel mais uma vez, e perguntou:
— E você?
A única resposta que recebeu foi um choro desesperado, e uma visão patética de um homem adulto encolhendo-se contra um canto e abraçando a si mesmo. Pensou ouvi-lo murmurar algo como:
— Por favor, não. Por favor, por favor. Por favor, não...
Antes de atravessar a garganta dele com a lâmina. Olhou ao redor, despretensioso. Estava em uma guarita do exército, as paredes internas pintadas de verde-musgo. Outrora, uma mesa de escritório havia ficado no canto esquerdo, e um sofá de couro marrom à frente.
No momento, o local todo fedia. Haviam rastros de sangue nas paredes, e o líquido acumulava-se em poças sob seus pés. Fez um muxoxo com a boca, pensando em como teria que lavar as botas mais uma vez. Contou seis corpos: dois jogados sobre o sofá, atravessados respectivamente pelo estômago e pelo peito. Um caído sobre a mesa, com um buraco na cabeça. Um que simplesmente morrera jogado no chão após ser acertado apenas por um golpe, antes que Nobi houvesse tido ao menos a chance de pergunta-lo alguma coisa (o que o deixara meio irritado) e os dois últimos que acabara de matar.
Ele suspirou, balançando os ombros. Mais um interrogatório infrutífero. Era a quinta guarita onde buscava informações, e a quinta vez que retornava ainda no mais completo escuro. Estava começando a ficar cansado daquilo.
Deixou o lugar e caminhou até encontrar um afluente de algum rio. Primeiro, encheu um cantil que pegara para si na saída, e então lavou as roupas, deixando-as secarem por não mais do que alguns momentos. Seu pai havia lhe dito que, com o começo da guerra e o bloqueio marítimo de Draconlay, o continente deles, Lacrafta, ficara sem outras opções que não desmatar a vegetação para criar campos de cultivo. Por isso, o continente inteiro estava sempre muito quente, e não demorou muito para que a água de suas roupas evaporasse. Vestiu-se mais uma vez e continuou caminhando.
Seu velho pai havia lhe ensinado muitas coisas: como conseguir alimento na floresta, como fazer fogueiras e tratar ferimentos com ingredientes encontrados na natureza.
E também o ensinara a manusear a espada. A mesma com a qual fora morto por Nobi, alguns anos depois.
Cansado, deitou-se ali mesmo, com a cabeça recostada na mochila. O sol lhe castigava a pele, mas não lhe causava dor. Nada causava. Em algum momento entre as torturas psicológicas e físicas, Nobi perdera a capacidade de sentir dor. O que facilitava suas lutas, mas também era um tanto perigoso.
Acabou caindo no sono, mas acordou assim que anoiteceu. Era natural de seu organismo, acostumado a passar noites em claro. Não demorou muito para que Hopper, a coruja, o sobrevoasse, indicando um caminho seguro. De algum modo, o animal de estimação que seu pai lhe dera sempre era capaz de dizer onde o vilarejo mais próximo ficava.
A população rica de Lacrafta tinha dinheiro para construir enormes vilas subterrâneas e protegerem-se do sol. Ouvia dizer que eram tão esnobes ao ponto de considerarem um banho de sol como uma benção, e não como o castigo que o resto dos habitantes era obrigado a aguentar.
Tinha raiva deles, mas tinha ainda mais raiva do exército inútil e covarde que não fazia nada mais além de extorquir a população e endoidar oficiais idosos. Nobi achava que eles podiam muito bem serem postos para queimar no sol por um dia. Ou cinco.
Adentrou o vilarejo, que estava barulhento. Era assim na maioria deles. As pessoas esperavam a noite cair para fazer seus afazeres sem serem queimados. Ele caminhou com cautela. Era realmente pequeno, não deveria haver mais do que quinze casas. Procurou pelo poço mais próximo, afim de beber mais um pouco de água.
E encontrou sua mãe lá.
Queria sentir-se surpreso. Aliviado. Emocionado. Qualquer coisa.
Mas não sentia nada.
Ela estava ali, na sua frente, depois de quase cinco anos. Não havia envelhecido muito, mas parecia cansada, enquanto puxava a corda do balde. Tinha a mesma pele clara queimada de sol e cabelo preto liso do qual ele lembrava.
Eles eram muito parecidos, em aparência ao menos.
Devia sentir saudade dela. Seu pai havia fugido com ele quando tinha dez anos, e desde então nunca mais a vira. Conseguia imaginar por que tipo de tormento e desespero a mulher deveria ter passado. Estivera até então procurando por ela, afim de conseguir algum tipo de desfecho para aquela história. Achava que, encontrando-a, poderia conseguir algum tipo de paz.
Mas não conseguiu. Tudo o que sentia ainda era o mesmo desejo de vingar o pai e matar o homem que fizera aquilo com ele.
Ao olhar para sua mãe, Nobi não sentiu nada. Ficou parado lá, observando-a, por um longo momento, tentando fisgar em sua memória qualquer sentimento, qualquer emoção.
Ela finalmente notou sua presença.
— Olá? — Ela cumprimentou. Ele viu quando seus olhos voaram para espada que ele tinha guardada, pendurada em um cinto. — Eu posso ajudá-lo?
Ela não o reconhecia.
Nobi não ficou surpreso. Ele havia mudado tanto em tão pouco tempo. Seu braço esquerdo coberto de runas negras, o corpo magro e alto. As olheiras profundas, o cabelo preto liso e desgrenhado. O olhar selvagem em suas írises cinzas, como o de uma besta. Nobi não parecia mais em nada com o filho querido que ela tinha perdido um dia.
— Ah, eu só queria um pouco de água — disse.
Ela sorriu. Terminou de puxar o balde para a superfície e estendeu a mão para ele. Nobi precisou de um momento para perceber que ela estava pedindo pelo cantil. Entregou-o. Ela aguardou que ele bebesse tudo e então preparou-se para o encher mais uma vez, mas pareceu ter uma ideia:
— Só um momento.
Correu e desapareceu dentro de uma casa de aparência frágil. Nobi perguntou-se se ela morava sozinha, ou se havia se casado mais uma vez. Mas não se importava o suficiente para pergunta-la. Ela retornou com um cantil ou pouco maior, e melhores condições.
— Aqui. Você parece ser um viajante, e esse acumula mais água. Acho que é melhor — disse, mergulhando-o no balde e o enchendo de água.
Nobi o aceitou. Hesitantemente, ela perguntou se ele passaria a noite no vilarejo. Ele demorou para responder.
— Não — disse, por fim. — Eu já vou indo.
E deixou-a lá. Saiu do vilarejo sem delongas, e ganhou a noite, com Hopper voando calmamente à frente. Nobi não tinha mais nada para resolver ali.
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