Mary

1 Capítulo 1


A aurora estava dando indícios de acontecer há mais ou menos meia hora. Para os que ainda estavam dormindo dentro de casa, a noite continuava negra. Uma andorinha enfiou-se no chafariz de Mary Anne e pôs-se a brincar com as gotas peroladas, salpicando-as sobre si mesma. Do outro lado da rua, um esquilo vermelho era atropelado pelo caminhão do leiteiro. O cadáver de um gafanhoto era levado por um grupo de formigas trabalhadoras que o encontraram por acaso.

Uma gostosa brisa noturna dissipava-se devagarzinho, para a infelicidade dos pássaros que por ela eram levados, economizando energia. Os raios de Sol, belos como um desenho infantil, nasciam timidamente, como se temerosos de irradiar o dia com atrevimento.

Os orbes azuis de Mary abriram-se lentamente, os raios de Sol adentrando por sua retina. Suas pupilas negras como o ônix contraíram-se imediatamente. Mary sentou-se na cama, os olhos ardendo levemente. A camisola de seda pura acariciava sua pele como uma luva.

Alongou seu pescoço por vago tempo. Os cabelos cor de cobre e compridos deslizando por seu pescoço alvo e macio. Mary caminhou leve como uma pena até o banheiro de mármore. Molhou seu rosto levemente na água pura e transparente. Ela também a acariciava.

Mary pôs seu robe Chanel em matelassê branco e saiu do banheiro. Abriu as cortinas cor de vinho de quase o dobro de sua altura. A luz do Sol, agora forte, irradiou seu quarto com alegria. Aquele ia ser um lindo dia. O céu estava mais azul do que um olho de bebê inocente, salpicado de nuvenzinhas brancas como algodão doce.

Para Mary, o dia ficou ainda mais radioso quando avistou, ao longe, uma nuvem acinzentada, precursora do mau tempo. Aquele seria um dia fantástico.

Desceu as escadas bem trabalhadas de madeira e foi até a cozinha. Programou a cafeteira para fazer um café forte. A seguir, saiu da cozinha, virou à esquerda e deu de cara com a porta de cimento puro e avermelhada do porão. A porta na verdade era cinza. Uma mancha vermelha cobria quase toda ela. Que pena. Mary achou que havia limpado todo o sangue na noite anterior.

Abriu a porta, ascendeu as luzes do recinto escuro e sinistro e desceu as escadas. Aproximou-se de uma das macas de metal que lá havia. O corpo da criança esquartejada já estava em putrefação. A criança de oito anos, uma garota, Susan Webber, como era conhecida, estava sem braços e pernas, mas ela não ligaria para isso agora, pensou Mary.

Na outra maca, o pequeno Tommy Rockfeller, também oito anos, tinha o peito aberto, por inúmeras facadas e no rosto também. O sangue quase escorreu da maca na divertida noite anterior. Fétido, Mary arrastou o corpo com a maca até a fornalha a lenha. Jogou o corpo de Tommy lá, observando-o se abrasar.

Na outra maca, em putrefação, assim como o corpo de Susan, o peito de Angelina Williams arfava rapidamente. Ainda estava viva, mas por enquanto. Seu peito estava aberto e seu coração quase visível. Mary aproximou-se dela e acariciou seus cabelos loiros e lisos. Angelina abriu os olhos. Olhos verdes brilhantes como a grama depois da chuva. Quase conseguiu gritar, mas Mary arrancou seu coração antes que ela pudesse fazer tal coisa. Jogou o coração dela na fornalha, para incendiar-se junto com o de Tommy.

A maca seguinte a de Angelina estava vazia, por enquanto. Mary deslizou seu dedo pelo metal frio da tábua cinzenta. Esta tábua, em especial, era diferente das outras, pois possuía amarras. Logo estará ocupada, pensou feliz.

No andar de cima, a cafeteira apitava, indicando que o café estava pronto.

Mary saiu de sua casa e os raios de Sol quentes e reconfortantes trombaram com seu rosto. Ela abriu um sorriso radioso e congelado. Obrigatório. Mas convincente. Cumprimentou sua vizinha, a senhora Webber, que estava preocupada por sua filha não ter voltado para casa na noite anterior. Ela havia ficado brincando na rua até mais tarde com a filha da senhora Williams, que estava na mesma situação.

Na casa da senhora Rockfeller, a mulher de meia-idade chorava copiosamente enquanto falava com a polícia sobre o desaparecimento de seu filho de oito anos. Mary observou tudo aquilo com um olhar de pena. Ou melhor, doentio, em sua própria opinião. Seus cabelos vermelhos esvoaçavam na brisa matinal como o vento escarlate de um romance fantasioso.

Ajeitou suas roupas amarelas berrantes como um canário feliz que reflete a luz do Sol. O contraste que o vermelho de seus cabelos fazia com as roupas amarelas era ridículo. Mas Mary gostava disso. Dava a impressão de que ela era apenas uma dona de casa caretona que não fazia nada de interessante o dia todo além de varrer a casa. Ela queria isso. Era uma bela fachada. Afinal, quem iria suspeitar de Mary Anne?

Do outro lado da rua, Dylan Marcheline, desta vez seis anos, brincava com um carrinho de plástico no qual logo perderia o interesse. Mary apreciava a inocência das crianças. É por isso que eram suas preferidas.

Aproximou-se do pequeno Dylan como uma pluma flutuando num mar branco de inocência. O garoto ignorava qualquer coisa que acontecesse ao seu redor. Exceto o vulto alto e contrastado de Mary. A rua agora estava vazia. A senhora Rockfeller, a senhora Webber e a senhora Williams já tinham voltado para suas casas e a polícia tinha ido embora. A andorinha do chafariz de Mary já tinha alçado voo depois de refrescar-se. O cadáver do esquilo vermelho atropelado havia sido recolhido pelo leiteiro desatento. A carcaça do gafanhoto já havia sido levada para dentro do formigueiro para ser devorado ou estocado. Nem uma viva alma na rua. Nenhum ser ou presença fora da segurança de sua toca.

Exceto Dylan e Mary.

Os diamantes de Mary cruzaram-se com as esmeraldas da criança. Olhos nos olhos. Mary puxou Dylan pelos braços, tapando-lhe a boca. O garoto ainda tentou se debater, mas a mulher enfiou-lhe uma agulha no braço e ele adormeceu profundamente. Mary achava adorável ver crianças dormindo. Eram tão bonitinhas.

Carregou aquela miniatura de gente até sua casa. Ao entrar, sentiu que ninguém a vira. Isso era bom.

Carregou o pequeno Dylan até seu porão. Ao chegar ao sinistro recinto, deitou-o gentilmente na maca de metal e, com cuidado, amarrou seus quatro membros em cada amarra. Agora ele estava ali. Sozinho e indefeso num quarto de torturas a prova de som. Isso era delicioso.

Mary Anne pegou uma imitação de faca Bowie. Linda e mortífera. Assim como ela. A faca deslizou suavemente pela pele exposta da barriga de Dylan, sem cortá-la. Mary lambeu os lábios. Pressionou mais a ponta do objeto na pele. Uma gota vermelho-viva surgiu, seguida de muitas outras.

Mary começou pelo umbigo do garoto. Subiu lentamente a faca, um rastro vermelho de agonia sendo deixado. Finalmente chegou ao ponto ao qual se localizava o coração do garoto. Parou. Sentiu-se extremamente tentada a enfiar a faca ali, mas se conteve. Isso era depois.

Mary levou a faca até pouco abaixo do mamilo esquerdo de Dylan. Encostou-a lá, cortando a pele mais uma vez, depois a deslizou para a direita. Parou quando a faca chegou bem abaixo deste mamilo. Os dois fios de sangue formaram uma cruz quase perfeita.

Foi mais ou menos nesse momento que Dylan Marcheline acordou. A princípio, sua primeira reação fora gritar e se debater. Mas parou quando se deu por conta de que estava preso e quanto mais se debatia, mais seu peito ardia. Gritar era pior do que levar uma facada. Ficou apenas calado, aterrorizado.

Mary observou suas esmeraldas verdes brilhando de terror. Sorriu. Dylan observou seus diamantes azuis brilhando de loucura. Teve vontade de chorar. Mas se conteve.

Mary pegou um saco grande com um pó fino e muito branco. A princípio, Dylan achou que fosse açúcar, mas quando Mary despejou o pó na cruz de sangue recostada em seu peito, foi que ele compreendeu que era sal.

O ferimento começou a arder e rapidamente se transformou em uma bola de fogo. Dylan gritou, parecia que seu peito ia explodir a qualquer momento. A dor do grito já não era mais tão grande quanto a dor que o sal provocava.

Com os olhos lacrimejando, Dylan viu Mary manusear uma garrafa cheia de um líquido transparente. Água! Oh, graças a Deus! Mas o previsível alívio que a água deveria dar se transformou em uma agonia desesperadora.

Mary Anne guardou a garrafa de álcool ao lado da maca. Dylan contorcia-se como uma truta epiléptica, gritando. Mary sorriu. A bola de fogo transformara-se numa super-nova. A respiração era mais pesada agora e seu peito parecia que ia realmente explodir.

Foi meia hora que se passou. Dylan jazia na maca, quase inconsciente pela dor excruciante que parara minutos atrás. O sangue coagulara e o ferimento tinha um aspecto horrível. A cruz de sangue parecia uma mortalha, tecendo o fio retilíneo da morte.

Mary segurou a faca contra a luz, admirando o brilho assassino que já matara tantos. O garoto Dylan ainda estava vivo, por enquanto. Respirava com tanta dificuldade que surpreendia que ainda estivesse vivo. A criança jazia semiconsciente na maca de metal, provavelmente não sentia mais dor.

Estava na hora.

Havia uma bacia grande embaixo da maca pela qual o sangue escorria. Havia apenas uma pouca quantidade na bacia, mas era suficiente. Mary retirou a bacia dali. Abriu um armário em que havia apenas um galão de água de vinte litros enchido até a metade. Mas não era água que dentro dele havia. Havia um líquido viscoso e vermelho. Muito vermelho.

Mary Anne retirou o galão de sangue do armário e o colocou em uma bancada ao lado da maca, a vista de Dylan. Abriu a tampa do galão e despejou o sangue de Dylan no galão, junto com o sangue das outras crianças que matou. Logo depois, mergulhou a faca Bowie no líquido quente e grosso até a lâmina ficar inteiramente coberta. Mary ergueu a faca sanguinolenta e esperou o excesso de sangue cair de volta no galão. Desperdício nunca é bom. Olhou para o menino. Havia um terror profundo em seus olhos.

Aquilo a fez sorrir.

Mary se aproximou do menino, o rosto duro como pedra. Dylan possuía o mais genuíno e verdadeiro terror que uma simples criança pode expressar.

Ele seria um excelente ator, pensou Mary. É uma pena que o medo era real, e não atuação.

Dylan começou a suar frio. Foi acometido de um ataque de asma. Mary encostou a ponta afiadíssima da faca na cruz sanguinária do peito do menino, bem na parte em que as duas listras sanguinolentas se chocavam. No centro da cruz.

Mary ergueu a faca com as duas mãos e olhou para a face espantada de Dylan. O garoto compreendia o que iria lhe acontecer. Começou a chorar. Era inacreditável.

Era inacreditável que a adorável Mary Anne, a mulher que sempre fazia biscoitos de chocolate, que ofereceu um funeral de mentira para a tartaruga morta da amiga de Dylan, Angelina Williams, que sempre deixava as crianças ficarem na sua casa enquanto esperavam o ônibus da escola, que sempre dava os melhores presentes aniversário, que Dylan nem imaginava que, onze anos atrás, Mary tivera uma filha chamada Grace que morreu com nove anos por ser empurrada de brincadeira por uma escada por outra criança, matando-a, e por isso Mary passou a odiá-las, era na verdade uma assassina psicopata, doente, pedofóbica, cruel, violenta e… assustadora.

Mary Anne desceu a faca. Dylan parou de chorar.

Mary pôs a faca ao lado do corpo da criança e lavou as mãos na pia com álcool. Esfregou cada centímetro daquelas máquinas de matar com força, tentando tirar cada resquício do que acabou de fazer. Feito isso, lavou-se com água normal e pura.

Olhou para o teto, fechou os olhos e disse a Grace que mais uma criança assassina foi… purificada. Imaginou-a sorrindo.

Mary subiu as escadas para sua casa confortável e aconchegante. Tirou a xícara de café já pronto há muito tempo e sentou-se na varanda, bebericando-o. Começava a chover. Mary com um sorriso congelado e psicopata.

Aquele realmente tinha sido um dia fantástico.

No porão do Mary Anne, um menino levantava-se da maca. Não se sabe se estava morto ou vivo, nem se estava com os olhos abertos. Mas sabia-se que iria matar Mary. Ninguém via a imagem de Dylan Marcheline levantando-se da maca com uma ferida aberta de horrível aspecto. Por sorte. A imagem era perturbadora.

O menino pegou um machado de ferro enferrujado e subiu as escadas com ele. O machado era tão pesado que uma criança de seis anos não seria capaz de carregá-lo. Ainda mais subir uma escada com ele.

Dylan Marcheline andou pela casa de cabeça abaixada, arrastando a machado no chão, arranhando-o. Um barulho perturbador o machado fazia. Mary estava sentada na varanda da casa, balançando-se em uma cadeira de balanço, bebericando seu café.

Olhava as nuvens cinzentas choverem como se estivessem descarregando todas as suas mágoas e tristezas. Gostaria de poder fazer isso. Iria impedir muitas mortes.

Dylan aproximou-se de Mary por trás. Era covardia atacar uma pessoa por trás. Era covardia maior ainda agarrar uma criança de seis anos quando você tem trinta anos a mais que ela e ainda dar-lhe uma injeção de tranquilizantes. Dane-se a maldita covardia.

O barulho do machado ainda irradiava. Mary Anne virou-se para ver que estranho barulho era aquele. No mesmo instante, Dylan Marcheline meteu o machado em seu pescoço, decepando sua cabeça.

A cabeça decapitada de Mary caiu ao lado de seu corpo. Estranhamente, não havia sangue. Mary Anne já estava morta há muito tempo. Dylan também caiu, deixando o machado estatelar-se contra o piso de madeira.

Ao longe, muito longe dali, Grace sorriu e disse “obrigada” a Dylan Marcheline.

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