Mary
1 Mary
Notas iniciais
MARY
Você acredita no sobrenatural? Acredita que, entre nós, caminham espíritos malignos, fantasmas, criaturas sombrias e tantas outras coisas vindas da escuridão? Não lhe culpo se você acha que tudo isso é bobagem, mas devo alertar para que você nunca brinque com esses seres. Eles não costumam levar na brincadeira quando humanos os perturbam, e costumam voltar para atormentar essas pessoas.
Certa vez, assisti a uma gravação feita por uma garota. Seus amigos e ela foram passar alguns dias no rancho de sua família, e acabaram brincando com o que não deviam. Nenhum deles acreditava que havia criaturas malignas nesse mundo. Eles pensavam que tudo isso não passava de lendas urbanas.
Até agora.
30 de novembro, em algum lugar no interior de São Paulo
É comum que, após o término do ano letivo na faculdade, ou até mesmo do ensino médio, os jovens queiram aproveitar ao máximo cada segundo de suas férias, que passam mais rápido do que deveriam. Às vezes, suas férias acabam antes mesmo que você possa soletrar FÉRIAS.
Sempre há aquele grupo de amigos inseparáveis. Por mais que a distância ou a falta de tempo tente atrapalhar, eles estão sempre juntos, de uma forma ou de outra, aproveitando cada instante que a vida lhes proporciona. E não era diferente com Lorena e seus amigos. Eles se conheceram no ensino médio e, desde então, estavam sempre juntos. Baladas, lanchonetes, sorveterias, cinema e etc. Agora que estavam na faculdade, eles se viam cada vez menos, mas isso não os impedia de se juntarem e ir à uma festa ou fazer um churrasco. A cada ano, nas férias, eles viajavam para um lugar diferente. Balneário Camboriú, Rio de Janeiro, Cataratas do Iguaçu. Porém, naquele ano, eles decidiram algo mais simples. Os pais de Lorena disseram que os garotos podiam passar alguns dias no rancho da família, desde que não colocassem fogo no lugar.
O rancho era localizado numa cidade no interior do Estado de São Paulo. Era tido como um lugar calmo, rodeado de árvores e bem amplo, e isso permitia que ali fossem realizadas festas, churrascos, partidas de futebol e até mesmo dormir ao ar livre, se você gostar de dormir olhando para as estrelas no céu.
— Hugo, me dá uma mãozinha aqui? – disse Jeferson, enquanto retirava alguns sacos grandes do porta-malas de sua picape preta.
Jeferson era magricela, e não conseguiria pegar todo aquele peso sozinho. Por isso pediu a ajuda de Hugo, seu melhor amigo e o musculoso da turma. O primeiro era alto, franzino e possuía cabelos tão cacheados quanto macarrão do tipo parafuso. Usava óculos e, por isso, costumava ser chamado de nerd por seus amigos. Já Hugo era alto e musculoso. Além de malhar diariamente, também era praticante de MMA e, como se não fosse o bastante, possuía um belo cabelo preto, o qual estava sempre penteado. Claro que ele usava isso para atrair garotas e, até agora, tinha funcionado perfeitamente bem.
O rapaz dos braços musculosos colocou o colchão próximo à porta da casa, e caminhou por alguns metros para ajudar seu amigo magricela.
— Valeu, cara – Jeferson disse, enquanto o amigo o ajudava a pegar os sacos restantes e levá-los para dentro do casarão.
— Sem problemas – Hugo falou. — Onde estão as garotas?
— Provavelmente lá dentro, limpando o local.
Hugo assentiu e, após colocar os sacos no chão, ambos ficaram olhando para o céu, observando o local maravilhoso onde eles estavam.
O fim de tarde era agradável. O vento não era tão forte, e a lua começava a surgir no horizonte. Ali, vendo o pôr-do-sol por entre as árvores, fazia com que aquele momento se tornasse único. Nada no mundo pagaria o preço de ver algo tão belo como aquela cena.
Mas a noite podia ficar ainda melhor. Aqueles amigos tinham vários planos para aquele fim de semana, e começariam a festar naquela mesma noite.
— Garotos, por que vocês estão aí parados, olhando para o céu? – perguntou Lisa, aproximando-se da porta. A garota loira estava usando um short jeans curto e uma camiseta regata rosa. Seus belos cabelos longos estavam presos num belo rabo de cavalo.
— Esperando para ver quem é o primeiro idiota que pergunta – murmurou Hugo, olhando para seu amigo magricela, e ambos começaram a gargalhar. Percebendo que Elisangela não havia gostado da brincadeira, o rapaz prosseguiu. – Estamos apenas observando a natureza. É tudo tão belo, né? Como será possível que haja um ser humano tão cruel a ponto de destruir tudo isso?
— Acredite em mim, há vários humanos assim, e nenhum deles se importa – a garota respondeu, ceticamente. – Por que vocês não entram e guardam nossas coisas? Depois que limparmos os quartos, limparemos a cozinha, para podermos cozinhar o jantar. Não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome.
— Mas Lisa, se está tudo sujo, vamos arrumar o que? – indagou Jeferson. – Sabe que isso não faz sentido, né?
— Então vocês podem limpar a cozinha – ela falou, antes de dar meia volta e caminhar para dentro do casarão.
— Você tinha que falar – comentou Hugo, dando uma palmada na cabeça de seu amigo e levantando-se. O rapaz magricela também se levantou, e ambos foram até a cozinha, para limpar o local que, para surpresa deles, não estava tão sujo assim. Eles não sabiam, mas a família de Lorena devia pagar alguém para cuidar do local enquanto eles não estivessem ali. O chão estava praticamente brilhando, e você podia ver seu próprio reflexo no piso. Os armários estavam um pouco empoeirados, talvez pelo fato de que não era sempre que alguém cozinhava ali.
Jeferson pegou uma vassoura e entregou outra a seu amigo. Mesmo que a cozinha estivesse praticamente limpa, eles deviam fingir que estavam limpando algo, ou as garotas surtariam ao vê-los parados.
Hugo deixou seu celular sobre a mesa e deixou tocando uma playlist feita apenas de música eletrônica. Pegou sua vassoura e, ao invés de limpar, usou o objeto como parceiro de dança, e seu amigo acabou fazendo o mesmo com sua vassoura.
— Mas o que diabos vocês estão fazendo? – perguntou Paola, chegando à cozinha cerca de vinte minutos depois. Os rapazes se assustaram e gritaram, assustados. Hugo correu até seu celular e pausou a música. Seu coração estava acelerado como se ele tivesse visto o mesmo fantasma que viu quando tinha oito anos, no espelho do banheiro da escola onde ele estudava.
— A gente, bom..., a gente estava... limpando a cozinha – gaguejou o rapaz, por causa do susto. Seu coração estava batendo rapidamente, e ele mal conseguia respirar.
— Tudo bem, não precisa ter um ataque cardíaco. Só queria ver se vocês já haviam limpado aqui, pois as meninas já querem começar a cozinhar o jantar. Meu estômago está roncando. Tô cheia de fome.
Cada um dos rapazes pegou uma lata de cerveja no refrigerador e, em seguida, caminharam até o quarto onde dormiriam, pois ainda precisavam desfazer as malas e brigar para ver quem ficaria com a cama de cima do beliche.
Na cozinha, as garotas conversavam enquanto preparavam o jantar. Sem querer, Lorena acabou cortando sua mão com a faca, e sangue começou a escorrer por seu braço. O local começou a formigar, e a garota se desesperou.
— Ai, droga! Me cortei! – Ela falou, e começou a correr de um lado para o outro, procurando uma maneira de estancar o sangue. Suas amigas começaram a gritar, enquanto ela caminhava apressadamente para o banheiro. Ela acendeu a luz e rapidamente abriu a torneira, deixando que a água gelada tocasse sua pele. Quando o líquido transparente entrou em contato com o corte em sua mão, Lorena gritou, por causa da dor, que cessou-se após alguns instantes, mas o machucado não parava de sangrar. Aparentemente, tinha sido um corte mais fundo. Talvez precisasse de alguns pontos.
A garota juntou as mãos em formato de concha e pegou um pouco d’água, para poder lavar seu rosto. Com a face molhada, ela encarou o espelho que estava à sua frente. Era um belo objeto, provavelmente comprado numa dessas lojas de móveis antigos. Ele não era muito grande, e tinha uma bela moldura de madeira, a qual parecia ter sido envernizada recentemente, pois estava brilhando.
Lorena fechou a torneira, e secou seu rosto com uma pequena toalha branca que estava pendurada atrás da porta. Em seguida, apagou a luz e voltou para a cozinha.
— Está tudo bem, amiga? – Lisa perguntou, correndo até sua amiga com um pedaço de pano em suas mãos. – Amarre isso, vai ajudar a estancar o sangue.
— Vou ficar bem, Lisa – sua amiga respondeu, pegando o pano e amarrando em sua mão machucada.
— O que aconteceu aqui? – perguntou Jeferson, chegando ao local. – Por que vocês estavam gritando?
— Machuquei a mão – Lorena respondeu, mostrando a mão enfaixada. – Talvez eu precise de alguns pontos, mas vou sobreviver.
— Podemos ir ao hospital mais próximo, se quiser. Mas, se você disse que está tudo bem, então está tudo bem. Hugo e eu estamos indo lá fora limpar a piscina. Estávamos pensando em dar um mergulho antes de ir dormir. O que vocês acham?
— Parece ótimo para mim – Paola respondeu, sorrindo. – Eu adoraria. Mas só após o jantar, o.k.?
Jeferson assentiu, e começou a caminhar lá para fora, onde seu amigo Hugo já estava esperando por ele.
— O que aconteceu? – Hugo perguntou, enquanto retirava algumas folhas de dentro da piscina, localizada atrás do casarão. Mesmo que houvesse alguém que cuidasse do lugar, havia várias árvores ali, e era quase impossível manter a piscina limpa.
— Lorena cortou a mão, mas acho que ficará tudo bem. E elas aceitaram vir nadar, mas só após o jantar.
— Justo.
Eles começaram a limpar o local, e nem perceberam que já havia anoitecido. Mesmo com a luz do luar, era quase impossível enxergar as árvores ao redor. Ventava forte naquela noite, e o piar das corujas deixavam aquela chácara ainda mais aterrorizante. Se eles estivessem num filme de terror, aquele seria o local perfeito para um serial killer se esconder, só para poder acabar com suas vítimas. Uma por uma.
— Está meio escuro aqui, você não acha? – Disse Hugo, tentando quebrar o gelo da conversa.
— Meio? – Falou Jeferson. – Eu não estou enxergando nada. Talvez seja melhor nós voltarmos para dentro de casa, antes um de nós acabe se machucando. Depois podemos perguntar para Lorena se há alguma iluminação aqui fora. É bem provável que sim. Eu duvido que a família dela venha para cá e não nade durante a noite.
Hugo assentiu, e eles começaram a caminhar de volta para o casarão. Chegando lá, as meninas ainda estavam preparando o jantar, então Jeferson disse iria tomar um banho.
Enquanto a água percorria seu corpo esguio, o rapaz pensava em algo para que seus amigos e ele pudessem fazer, antes de dormir. Alguma brincadeira, ou algo do tipo. Foi então que ele se lembrou que havia levado alguns jogos de tabuleiro.
Enquanto secava seu corpo, o rapaz viu o espelho na parede do banheiro, e teve uma ideia incrível. Ele ficou tão feliz que poderia aplaudir a si mesmo. Após se vestir e pentear seu cabelo, Jeferson parou em frente ao espelho e ficou observando o objeto por alguns instantes. Então, ele disse, pausadamente:
— Bloody Mary. Bloody Mary.
Ele não arriscou pronunciar aquele nome por uma terceira vez. Não por ter medo do que podia acontecer, já que ele não acreditava em lendas urbanas. O problema era que ele sabia que não tinha graça fazer esse tipo de brincadeira sem alguém por perto. Segundo ele, e várias outras pessoas, não se deve brincar com espíritos. Ao menos, não sozinho.
Enquanto Jeferson deixava o banheiro, ele sentiu um vento forte percorrer o local, como se ele estivesse no meio de uma forte tempestade. Ele olhou para trás, assustado, e viu que, de alguma forma, a pequena janela do banheiro havia sido aberta, e isso era bem estranho, pois ele se lembrava que ela estava totalmente fechada quando ele entrou ali para tomar seu banho.
Após fechar a janela, ele saiu do banheiro e acabou dando de cara com uma mulher de cabelos loiros, e isso fez com que ele levasse um tremendo susto. Era Lisa, que estava esperando que ele saísse para que ela pudesse tomar banho.
- Desculpe, cara – Lisa falou, tentando acalmar o amigo. — Não quis te assustar você. Já posso tomar banho?
- Não se preocupe, está tudo bem – ele respondeu, passando seus dedos em seus cabelos cacheados, enquanto tentava voltar a respirar normalmente. – Pode sim, eu já terminei.
- Obrigada – ela disse. Antes de entrar no banheiro e fechar a porta atrás de si, ela continuou. – Ah, o jantar já está pronto. Pode comer, se quiser. Depois eu como.
Ele assentiu, e caminhou até a cozinha, onde seus amigos estavam se servindo. Ao ver a cara de assustado do amigo, Lorena perguntou o que estava acontecendo, e Jeferson lhe contou o que ocorreu na porta do banheiro. Não só ela, mas Paola e Hugo também riram da situação.
- Cara, me diz uma coisa – Hugo disse, enquanto caminhava até a mesa. – Se vamos nadar, por que você foi tomar banho?
- Ah, eu precisava de um banho, cara – ele respondeu. – Eu estava sujo e suado. Não me sinto bem assim. Aliás, você deveria tomar banho também, Sr. Sujeira.
- Parece até o Cascão – comentou Paola, e eles começaram a rir.
Enquanto eles jantavam, começaram a conversar sobre as férias antigas. Sobre cada viagem, sobre cada momento único e inesquecível em que eles estiveram juntos. Talvez eles voltassem em cada um dos lugares, um dia, mas nunca seria como da primeira vez.
Os jovens não perceberam, mas começou a chover. Gotas de chuva tocavam os vidros das janelas, e escorriam até os batentes de madeira. Só quando Lisa juntou-se à eles foi que Lorena percebeu que estava chovendo.
- Galera, olhe ali – disse ela, apontando para a janela, pensando que todos iriam se negar a nadar enquanto estivesse chovendo. Mas ela se decepcionou, pois todo mundo adorou a ideia de nadar durante a chuva.
- Mas é claro que vamos nadar! – Protestou Hugo. – Por que não nadaríamos?
- E se um trovão atingir a água, e nós formos eletrocutados? – perguntou Lorena, insatisfeita com a decisão de seus amigos.
- Ah, pare com isso. Não vamos ser eletrocutados. E a chuva nem está tão forte assim. Está apenas garoando. Não seja medrosa.
Após dizer isso, Hugo e Jeferson se levantaram e correram rapidamente lá para fora.
Lorena ligou a luz lá do fundo e, em seguida, suas amigas e ela começaram a correr lá para fora. Quando chegaram à piscina, viram que os rapazes já estavam nadando, sem nem mesmo tirar a camiseta.
Paola parou por alguns instantes, e deixou que a chuva tocasse seu corpo. A garota olhou para cima e viu as gotas d’água cortando o céu e atingindo a grama verde, e também a si mesma.
— Que se dane – ela disse, correndo em direção à piscina e se jogando na água fria, ato o qual ela se arrependeu, pois a água estava extremamente gelada. Ela reclamou do frio por alguns segundos, mas permaneceu nadando. Suas amigas viram que ela e os garotos estavam se divertindo, então ambas pularam.
— Droga, essa merda está gelada demais! – Gritou Lisa, deslizando seus dedos por seus cabelos molhados. – Como vocês aguentam?
— Por que você não aproveita o momento, Lisa? – perguntou Jeferson. – Esse é um daqueles momentos únicos em nossa vida. Talvez nunca repetiremos isso. Então, por que não aproveita o momento? Mas pode retirar-se da piscina, se quiser.
Lisa encarou seu amigo por alguns segundos, mas não parecia que ela iria sair da piscina. Não parecia que nenhum deles sairia, pois todos estavam se divertindo bastante entre si, principalmente jogando água uns nos outros.
As corujas ainda piavam. A chuva permanecia incessante, e o vento estava cada vez mais forte. O tempo foi passando, e a chuva também se intensificou. Agora, raios e trovões cortavam o céu escuro. O que era divertido começava a se tornar perigoso.
— Talvez a gente devesse entrar – disse Paola, com um olhar assustado. Ela estava amedrontada, e não parecia ser a única. Todos na piscina estavam aterrorizados com aquele cenário assustador. Era como se algo terrível estivesse prestes a acontecer.
Os jovens saíram da água, e começaram a correr para dentro de casa, com os braços cruzados. Eles estavam tremendo de frio, e poderiam acabar ficando doentes.
Um a um eles foram tomar um banho quente, enquanto os outros ficaram enrolados em suas toalhas, para não piorar a situação. Lorena foi a última deles a tomar banho, pois ela estava preparando chá para os demais.
Agasalhados, eles sentaram-se no sofá, e começaram a conversar. Eles ainda achavam que tudo aquilo era muito estranho, pois eles não imaginavam que pudesse chover tanto, pois o dia havia sido consideravelmente quente.
— Bom, ainda está cedo – Lisa disse, tentando quebrar o gelo. O que podemos fazer, antes de dormir? Jeferson, você trouxe jogos de tabuleiro, não trouxe?
— Sim, eu trouxe Banco Imobiliário e xadrez – o garoto respondeu, após dar um gole em seu chá. – Porém, me recuso a sair lá enquanto estiver chovendo. Se algum de vocês quiser ir, fiquem à vontade. A chave do carro está sob a mesa da cozinha.
O silêncio reinou por alguns segundos, até que Hugo resolveu se pronunciar, com um olhar malicioso estampando sua face.
— Que tal contarmos lendas urbanas? São bem interessantes, e virão bem a calhar nesse momento.
— Lenda urbana, Hugo? – indagou Lisa. – Que coisa mais chata.
— Você acha chato porque você é uma medrosa – retrucou Lorena. – Bom, serei a primeira. Vocês já ouviram, não ouviram? A lenda de Bloody Mary. Quando eu era mais jovem, minha mãe costumava me contar histórias sobre ela. Ela viveu há muito tempo atrás, no tempo da inquisição, quando bruxas eram perseguidas para serem queimadas vivas, e dessa forma ocorreu sua morte. Também dizem que ela era uma mulher muito bonita, mas que ficou com o rosto desconfigurado após um acidente de carro, sendo algo de gozações. Então, ela fez um pacto, amaldiçoando a todos que pronunciassem seu nome por três vezes, em frente ao espelho.
— Aposto que essa história é mentira – Paola falou, tentando demonstrar que não acreditou na história. Mas ela acreditou, e estava com medo de tentar, ainda mais porque tinha a leve impressão de que seus amigos pediriam para que ela fosse até o espelho do banheiro pronunciar por três vezes o nome da mulher.
— Eu sei que você acha que isso é mentira – Jeferson disse -, e é por isso que todos nós aqui desafiamos você a ir ao banheiro e dizer Bloody Mary três vezes na frente do espelho.
Todos tomavam seus chás, tranquilamente, enquanto Paola os observava. O medo dentro de si aumentava a cada segundo que se passava. Mesmo assim, ela tentava parecer confiante e, por fim, respondeu:
— Nesse caso, eu vou! Não acredito nisso mesmo! Não importa se eu diga o nome dela três vezes ou não. Mary não existe.
A garota se levantou e começou a caminhar em direção ao banheiro, após ter deixado sua xícara de chá em cima da mesinha de centro. Seus amigos se entreolharam, e começaram a seguir a garota, que entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si.
Ali estava ela, encarando o espelho naquele lugar que mais parecia cena de filme de terror. A chuva já não parecia chuva. Parecia que um oceano estava caindo do céu. O vento estava forte, e parecia que levaria a casa e as árvores consigo.
— Paola, você pode fazer isso – a garota sussurrou para si mesma, tentando se controlar. – Você é mais forte do que isso. Você é real. É mais forte do que essa lenda.
— Vamos logo com isso, Paola! – ela ouviu Lorena gritar, e isso fez com que ela ficasse mais nervosa mas, ao mesmo tempo, mais confiante. Então, após um grande suspiro, ela encarou o espelho à sua frente e pronunciou, lentamente:
— Bloody Mary. Bloody Mary. Bloody Mary.
Seu coração já não estava tão acelerado. Ela tinha uma sensação de missão cumprida. Mesmo que ela tivesse certo receio de que tudo aquilo podia ser real, ela chamou por três vezes aquela que não deve ser chamada.
A garota saiu do banheiro, aliviada. Seus amigos a parabenizaram, e depois começaram rir. Todos eles foram para a sala, e Lisa sugeriu que talvez eles devessem começar a beber. Todos concordaram, e foram até a geladeira pegar sua lata de cerveja.
Eles voltaram para a sala, e sentaram-se no sofá novamente. Talvez aquela ideia de contar lendas urbanas não fosse em si tão ruim.
Uma após a outra, as lendas urbanas foram contadas. Algumas eram até engraçadas, mas outras eram aterrorizantes o bastante para deixar todo mundo com um pé atrás da orelha.
Eles estavam se divertindo tanto, e nem perceberam que a chuva havia cessado. Podia ter passado alguns minutos, ou algumas horas desde que eles haviam começado a contar histórias uns para os outros.
— Gente, a chuva parou – Jeferson disse, colocando a lata de cerveja sobre a mesa, que já estava cheia de latinhas vazias. – Agora já podemos ir até o carro buscar o Banco Imobiliário.
— Deixa que eu vou – Hugo respondeu, levantando-se. – Onde está a chave do seu carro, cara?
— Em cima da mesa da cozinha, lembra?
O rapaz musculoso assentiu, sorrindo, e começou a andar lentamente até a cozinha. Ele estava levemente bêbado, e estava tropeçando em seus próprios passos. Um passo em falso, e ele acabaria beijando o chão.
Assim que pegou o molho de chaves, ele abriu a porta e começou a caminhar. O ar estava gelado, e a grama estava molhada e escorregadia. Hugo estava bêbado, e acabou se esquecendo disso. Então, acabou caindo no chão. Levantou-se logo em seguida, rindo de si mesmo, e continuou caminhando até o carro de seu amigo.
Ele abriu a porta do carro e pegou os jogos. Quando estava voltando para dentro de casa, ouviu um barulho estranho atrás de si, e parou de caminhar. Ele olhou para trás, e não viu nada. Quando voltou a olhar para frente, uma coruja passou voando próximo à ele. Ele se assustou, e acabou caindo no chão novamente.
— Coruja filha da puta – Hugo xingou, enquanto se levantava. Bateu as mãos em suas pernas para tirar a sujeira, e abaixou-se para pegar os jogos que estavam no chão. Todas as peças, de ambas as caixas, haviam caído no chão, e ele demorou mais do que pensou que demoraria para reunir todas novamente.
— Por que você está sujo desse jeito, Hugo? – Lorena perguntou. – Resolveu tomar banho de lama?
Todos começaram a gargalhar, mas pararam após a resposta do amigo.
— Muito engraçado, Lô – ele respondeu, sarcasticamente. – Uma maldita coruja me assustou, e eu acabei caindo no chão.
— Droga, você sujou todas as peças e notas do meu Banco Imobiliário, cara! – Jeferson xingou, após abrir a caixa do jogo. Em seguida, levantou-se com a caixa em mãos e começou a caminhar em direção à cozinha. – Agora terei que limpar tudo isso, para que não estrague.
— Eu vou contigo – Paola disse, levantando-se do sofá e seguindo seu amigo.
— Não se preocupe, não foi sua culpa – Lorena disse, tentando acalmar o amigo. – Fique aqui, vou buscar mais cervejas para nós três.
Apenas Hugo e Lisa ficaram ali na sala. Eles ficaram olhando para as latas em cima da mesa, em silêncio, até que Hugo pensou ter visto um vulto passando pelo corredor. Primeiramente, ele sentou-se corretamente no sofá, assustado. Em seguida, perguntou para sua amiga se ela também tinha visto o vulto. Para sua surpresa, ela disse que não.
— Há algo errado? – Lorena perguntou, assim que voltou com as latas de cerveja.
— Pensei ter visto um vulto ali no corredor, mas deve ser efeito do álcool – o rapaz respondeu, rindo da situação.
— Já está bêbado, Hugo? – a garota indagou, e começou a rir, em seguida. – Você costumava ser mais durão.
O rapaz sorriu, e ambos começaram a reunir as latas vazias, pois todas elas estavam espalhadas sob a mesa. Enquanto eles faziam isso, Lorena voltou com as cervejas e Jeferson e Paola voltaram com os jogos. Jeferson estava sorridente, então provavelmente já havia se esquecido de que estava zangado com o amigo.
Eles sentaram-se em círculo, no tapete, e Paola começou a distribuir igualmente as notas do Banco Imobiliário para seus amigos. Jogada após jogada, eles estavam mais bêbados e se divertindo cada vez mais, chegando à um ponto em que nenhum deles tinha noção do que estavam fazendo. Os pagamentos não eram efetuados corretamente e cerveja era derramada sobre o tapete, mas nenhum deles se importava, pois estavam se divertindo demais para se preocupar com qualquer problema.
Começou a chover novamente, mas eles não perceberam. O vento batia na janela, como se quisesse abri-la.
— Gente, acho que está chovendo de novo – murmurou Lisa, rindo de si mesma.
— E daí? – disse Jeferson. – Não vamos dormir lá fora mesmo.
De uma hora para outra, o local ficou escuro. A chuva estava tão forte que acabou cortando a energia da casa inteira.
Eles pararam de sorrir e ficaram apavorados. Todos ficaram de pé e cada um pegou seu celular e usou o mesmo para iluminar o local, que mais parecia cena de terror. Enxergar no escuro não algo muito fácil de se fazer, principalmente quando se está embriagado.
— Gente, o que está acontecendo? – Lorena perguntou, assustada. – Acendam a luz, isso não tem graça.
— Creio que não foi nenhum de nós que tenha feito isso – Hugo respondeu, tentando tranquilizar a amiga, sabendo que ele mesmo também estava com medo da situação.
— Vamos aguardar por alguns instantes – sugeriu Lisa. – Talvez não demore muito até que a energia volte.
Jeferson caiu para trás, como se algo o tivesse empurrado. O rapaz acabou caindo em cima da mesa, quebrando o vidro. Isso ocasionou um grande barulho, fazendo com que ele recebesse vários cortes, devido aos cacos de vidro. Ele não podia ver nada, mas pôde sentir seu sangue se espalhando embaixo de si.
Todos ali gritaram, tentando saber o que estava acontecendo. Mesmo que eles estivessem usando o celular para iluminar o local, nenhum deles conseguiu ver como ou por quê Jeferson caiu. Era como se alguém tivesse empurrado ele de propósito. Como se aquilo fosse uma brincadeira.
O garoto de cabelo cacheado começou a gemer de dor. Tentou se mexer, mas não conseguia. Os cortes não foram tão profundos, mas talvez por estar bêbado e com dor, ele não conseguiu forças o suficiente para se levantar.
A luz se acendeu novamente, e todos viram aquela cena horrível. Seu amigo estava ali no chão, todo ensanguentado, e ninguém fazia a mínima ideia de como aquilo havia acontecido. Ninguém havia tocado nele! Era como se ele tivesse se jogado para trás.
— Cara, você está bem? – Apavorado, Hugo perguntou, abaixando-se para ajudar seu amigo a se levantar. – O que diabos aconteceu aqui?
— Se eu soubesse, já não estaria mais deitado, seu idiota – Jeferson disse, aceitando a ajuda do amigo. Sua camiseta estava toda rasgada e ensopada de sangue. Seu corpo estava todo cortado e ensanguentado. Ele mal conseguia se mover.
— Sente-se aqui – Hugo disse, ajudando o amigo a se levantar. As garotas começaram a correr desesperadamente, procurando por algum pano limpo para limpar as feridas do amigo.
— Não se mova, cara. Ficará tudo bem. Você é mais forte do que isso.
Jeferson apenas assentiu, tentando não se mover, nem mesmo falar. Todo seu corpo doía, e ele não sabia com o quê comparar a dor que ele estava sentindo, pois nunca havia sentido uma dor tão forte e tão intensa daquela maneira.
As garotas voltaram após alguns minutos, com um pedaço de pano branco e uma garrafa média de álcool
— Nem vem, você não vai dar um banho de álcool nele – Hugo protestou, tentando defender o amigo ferido. – É mais fácil jogar ele numa piscina de absinto.
— Não dá ideia, cara – Jeferson respondeu, gemendo de dor.
O local ficou escuro novamente, e os jovens começaram a dizer todos os palavrões possíveis. A situação já estava ruim o bastante, mas parecia que iria piorar a cada segundo que se passasse.
Um barulho estranho foi ouvido. Era como se alguém tivesse caído no chão novamente. Em seguida, parecia que algo estava sendo rasgado. Todos estavam amedrontados, mas ninguém podia fazer nada, porque o escuro não permitia.
Lisa estava prestes a usar seu celular para iluminar o local, mas a energia havia voltado. Eles deviam ficar felizes por isso, mas a cena que viram não sairia nunca mais de suas lembranças, por mais que eles tentassem se esquecer. Paola estava deitada no chão, de braços abertos. No lugar onde deveriam estar seus olhos, haviam dois buracos negros. Seu rosto estava rasgado, como se uma fera a tivesse atacado brutalmente.
Os rapazes colocaram as mãos sobre suas bocas. As garotas ficaram sem conseguir falar nada por alguns segundos, por causa do choque do momento, mas logo começaram a gritar, desesperadamente. Elas não conseguiam acreditar que aquilo era verdade. Nenhum deles podia acreditar que uma de suas melhores amigas, a garota que sempre esteve ao lado deles, havia sido morta de uma forma brutal.
Sangue escorria do local onde deveriam estar os olhos da garota, como se fosse lágrimas. Ao lado de sua cabeça, duas bolas brancas: seus olhos.
Talvez todos estivessem bêbados demais, e tudo aquilo não passasse de um sonho ruim. Mas aquilo era real, e estava longe de acabar. Na verdade, o verdadeiro pesadelo estava apenas começando.
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