Marvel Universe: All Different World
47 Capítulo XLVII: Comitiva.
Notas iniciais
Data Terrestre: 10 de Outubro
Tália queria dizer que não tinha problemas em ficar perto de Alexis quando a Festa do Limbo acontecia, mas seu relacionamento com a Rasputin e Nate não funcionou tão bem por tanto tempo por mentiras da sua parte.
A teleportadora sabia que muito do desprezo irracional de seu pai era por causa do sangue de demônio que pulsava em suas veias, muito mais poderoso que o de Kurt, ainda que sua mãe fosse humana até onde sabia. Então era seguro afirmar que sair da mansão naquele dia não era apenas uma questão de segurança para sua sanidade, como para do seu relacionamento com Cassandra, embora ela não tivesse certeza que encontrar sua pseudo-namorada fosse algo muito mais inteligente de se fazer.
Quando se teleportou para a Shield, ainda preocupada com os dois amigos, Tália decidiu que era mais seguro passar na sala do comando, nem que fosse para Hill usar de tortura psicológica sobre quão inapta ela parecia para lidar com uma garota dois anos e meio mais nova. Entrou na sala assim que recebeu a autorização e encontrou a Comandante conversando com Scott, Hope e Cassie, o que fez o inevitável pensamento de que Deus ou o diabo (talvez ambos) estivessem usando sua vida em uma comédia para seres sobrenaturais.
—Bom dia. –Os quatro acenaram. –Só para avisar que vou passar o dia aqui. Alexis está no meio de uma Festa forte e nada divertida, então meu lado demônio precisa de distância ou as coisas vão ficar ruins.
—Quão ruins? –Cassandra não tinha certeza se queria ouvir a resposta, muito menos não ter uma.
—Instabilidade sexual e ampliação dos instintos demoníacos, para começar. –Scott pareceu surpreso e Tália suspirou. –Vocês sabem que sou mais demônio que meu pai, colabora. –Os três adultos concordaram, então ela notou o olhar da loira. –O que foi?
—Preciso saber mais sobre essas coisas de demônio.
Tália não diria ali, mas odiava saber que a curiosidade e preocupação de Cassie era sobre tudo nela. “Talvez seja assim que Alexis se sinta sobre Nate”, pensou desanimada, mesmo que agora não tivesse para onde escapar.
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—Então, pelo que eu entendi, todos vocês que tem sangue de demônio tem essas quatro necessidades básicas?
Tália não diria em voz alta, porém a facilidade com que Cassie estava levando aquelas informações não era, nem de longe, o que esperava quando contou sobre suas necessidades de fome, sede, morte e sexo.
—Pelo menos para mim, Alexis e Nikolai sempre foi desse jeito. –A mutante deu de ombros. –Até onde sei, meu pai nunca passou por isso e a Illyana não é bem uma pessoa acessível para os próprios filhos, por isso não sei dizer. –A morena se espreguiçou e olhou ao redor do refeitório, não vendo sinais da equipe de reportagem ou de Claire e Laura. –Em todo o caso, às vezes, quando esses surtos demoníacos acontecem com um de nós isso pode afetar os outros e causando os mesmos efeitos ou despertando necessidades diferentes em cada um, o que não é bem uma coisa divertida de ter que enfrentar.
—E você tem um doador? –Tália olhou para Cassie surpresa. –Sabe, Alexis bebe o sangue do Nathan e o Nikolai deve recorrer a pessoas como o Logan e o McCoy, mas e você?
—Eu sofro menos com isso que os Rasputin, então eu meio que uso o Logan, o McCoy, o James, a Cara e a Rose. Uma vez quando estávamos viajando usei a Claire, se bem que ela é absurdamente tranquila com isso, então não foi um problema. Até porque ela não liga para os detalhes contanto que as pessoas estejam bem e seguras em ambos os lados.
—E tem mais alguma coisa que eu deva saber sobre isso tudo?
Tália hesitou, não gostava de falar daquilo mais do que Alexis e era uma das poucas coisas que as duas concordavam sobre sua herança demoníaca. Deixou uma risada sem humor escapar, o que chamou a atenção de Cassandra.
A mutante observou a loira com calma e se perguntou porque falar daquilo era tão difícil, mesmo que ela entendesse bem os motivos. Lembrava claramente de como Alexis se sentiu humilhada e horrorizada quando Nathan presenciou aquele evento pela primeira vez, talvez por isso tenha se empenhado em nunca deixar Jocelyn em vê-la naquela situação.
Só que Cassie não era Jocelyn.
A garota não a julgava por ser parte demônio e não havia soltado sua mão ou recuado ao ouvir sobre como sua parte demoníaca não era apenas uma herança esquecida, mas algo muito presente em sua vida.
—Tem uma coisa, algo que nós entendemos menos do que o resto, só sabemos como funciona porque quando acontece é dolorosamente intenso, embora nada comparado com o que Nate disse que a Alexis tá sentindo. –Cassandra assentiu e Tália tomou toda a coragem que pode para conseguir dizer aquilo em voz alta. –Às vezes, quando nossos demônios ficam muito... Agitados? Seja lá o que for, eles... –A morena precisou respirar fundo algumas vezes para conseguir organizar sua mente, o que era difícil. –Acho que a fome e a morte podem virar uma coisa só, eu até acho que quando isso acontece a sede também está envolvida, mas tentamos não pensar nisso.
—TJ? –E o chamado de Cassie a fez encarar a garota que a observava séria. –Só me conta o que é, não precisa se preocupar.
Tália assentiu e respirou fundo novamente, recomeçando a explicação.
—Nesses momentos nós passamos por um impulso nada divertido, algo que nos leva a desejar comer órgãos humanos frescos. –Ela viu a loira parecer levemente surpresa. –Em geral são corações e não podem ser quaisquer corações, eles precisam vir de pessoas ruins. Assassinos, estupradores e torturadores, podemos burlar um pouco as regras com certos tipos que cometem determinados crimes contra animais, só que no geral os crimes têm que ser contra humanos. –Tália sentiu um leve aperto na mão e viu que Cassie a incentivava a continuar. –Posso burlar as regras um pouco mais que a Alexis e enquanto ela come os corações eu fico com os fígados e rins, mas não é sempre que funciona.
—E como vocês fazem? –E por um momento a mutante sentiu medo do que aquela resposta poderia causar.
—Hill e Fury usam o sistema carcerário para encontrar os piores, se bem que nesses casos eles nem precisam. Essas presas são o tipo que nem entram no sistema.
—Como é que um criminoso não entra no sistema? –Tália viu que Cassandra estava confusa com aquilo.
—Resumindo? –A loira assentiu. –Existem crimes e criminosos ruins o suficiente para que o sistema seja ignorado e eles sejam apenas jogados lá. O julgamento até acontece e as provas são coletadas, mas nada é publicado e a sentença é considerada como confidencial. Depois eles são jogados na cela de uma prisão tão escondida quanto se pode imaginar e esquecidos, fazem isso no mundo todo com esse tipo de caso. Também tem o desvio, que é quando eles são oficialmente executados, enquanto na verdade viram ração para nossos demônios.
—E esses que não entravam oficialmente no sistema tinham outra função antes de vocês surgirem? –E para a surpresa de Tália, Cassie não parecia nem um pouco assustada.
—Não, apenas ficavam lá até morrerem por execução. Agora de tempos em tempos eles viram comida de demônio e vão para o inferno, literalmente.
—Mesmo?
—É outra coisa na parte que a gente não entende, mas quando comemos seus corações é quase como se abríssemos uma porta para eles direto para o inferno buscar suas almas. Até onde eu sei isso não é bom para eles, apenas divertido para os demônios, não que seja algo bonito de se fazer ou agradável.
—Pode até ser, mesmo assim eu aprendi algo interessante sobre você. –Cassie sorriu para Tália que corou. –E sabe o que mais? –A morena negou. –Eu fiquei realmente curiosa sobre aproveitar um pouco mais sobre as qualidades das suas necessidades demoníacas.
A mutante sentiu o seu rosto queimar como nunca antes e abaixou a cabeça envergonhada.
—Não fala uma coisa dessas.
Porém o sorriso de Cassandra dizia mais sobre suas expectativas do que Tália gostaria de entender e ela sentia que isso apenas confirmava que seu dia ainda seria absurdamente longo.
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Pepper nem havia começado a tomar seu café da manhã com Tony e ambos já tinham uma tonelada de trabalho em seus celulares e tablet’s, mesmo assim eles ignoraram um pouco as mensagens e recados quando encontraram a mesa cheia de agregados.
Peter e Mary Jane estavam com May usando os óculos de observação para ver algo que os deixava mais tensos do que poderiam imaginar. Ainda tinha James e Maria brincando ao lado de Tristan enquanto Wolf e Alexa pareciam não ligar para o fato de que a mesa estava lotada para seus flertes e brincadeiras. Robert observava tudo meio preocupado e a ausência de Jason era claramente sentida pelos anfitriões, embora todos pudessem concordar que a presença de Ur foi o ponto mais incomum.
—Achei que vocês dormiriam na Shield. –Pepper apontou para os gêmeos Romanoff e Wolf.
—Papai queria muito, mas mamãe pediu para virmos para cá depois que a tia Sharon voltou. –Robert deu de ombros. –Fiquei no quarto de sempre, a Alexa foi com o lobinho aí. –Ele brincou com a irmã e o cunhado, que nem ligaram. –Desculpa a invasão.
—E alguém sabe o que houve com o nosso ilustre semideus asgardiano que não começou as piadas do dia na nossa mesa? –Já Tony estava tentando amenizar o clima de possíveis problemas.
—Dormiu na casa do garoto Strange, eu suponho. –Não que Ur fosse muito animada. –Não creio que o Mago Supremo seja do tipo que surta porque os possíveis namorados dos filhos dormiram em casa sem avisar, especialmente com a situação da Helena, embora não posso afirmar que o Doutor Strange não vai ligar cobrando algum tipo de resposta. –Apesar da preocupação da garota, Tony apenas gargalhou alto.
—Dos problemas o menor até agora. –Ele observou o filho que deu de ombros e então os Parker. –O que tanto assistem aí nesses óculos?
Peter respirou fundo e tirou o acessório encarando o amigo de longa data.
—Lembra que a Sarah ativou o protocolo Aranha Fantasma? –Tony indicou que ele pulasse a parte que Hill já havia falado. –Eles repassaram a gravação do incidente na reunião para nós assistirmos e... Não foi tão ruim quanto poderia ter sido, só acho que acabamos de pisar em um território meio perigoso.
—Tipo ameaças? –Pepper parecia entender melhor o que Peter falava, porém negou em seguida. –Pode não ser o ideal, mesmo assim vamos concordar com uma coisa? –O Homem Aranha assentiu. –Passamos tanto tempo ensinando e garantindo que nossos filhos e sobrinhos sejam boas pessoas, que agora, quando eles são os alvos desses preconceitos e ataques, não temos outras medidas a não ser começar a colocar nossas armas a mostra. –Todos olharam para a mulher um tanto surpresos, menos Tony. –Não achem que eu gosto disso. Só que infelizmente é verdade.
—O que a minha Pimentinha está querendo dizer é que ensinamos bem demais as crianças e em muitos momentos eles são incapazes de se defender, seja pela força ou com palavras, porque sabem que são mais fortes e inteligentes que metade do planeta. –O Stark negou por um momento. –Acertamos demais com eles, só acho que ainda erramos com o mundo. Não quisemos expor as crianças para que tivessem vidas normais e agora uma parte do mundo fica negando eles.
—Fizemos o certo Tony. –Todos encaram Mary Jane. –Não podíamos expor nossos filhos e sobrinhos para os inimigos de todos, como presas fáceis, então fizemos aquilo que podíamos. Não podemos nos responsabilizar pelo resto do mundo e como eles decidem viver, apenas tentar ajudar a mudar a percepção deles o mínimo que seja através de ações e exemplos, como sempre fizemos.
—Tia MJ tem razão. –Todos olharam para Alexa. –A Stark Inc. passou os últimos vinte anos ajudando na integração entre mutantes, humanos, inumanos e aperfeiçoados, são um exemplo quando se trata de todos esses grupos convivendo em harmonia no dia a dia. Não vamos nem falar da Shield, que tem mais de dez por cento de mutantes ativos no quadro e mais uns cinco de aperfeiçoados nas mais diferentes funções.
—Verdade. –Tristan pegou o próprio celular. –Da última vez que verifiquei eles tinham desde um esquadrão tático até um chefe da equipe de limpeza que se enquadrava nesses números. Isso sem falar dos membros não oficiais, os Vingadores e os Guerreiros Secretos, que não entram nessa conta; ou a tia Daisy, que é uma das chefes.
O grupo acabou concordando sob o olhar atento dos dois deuses asgardianos, que não ousavam interferir.
—Mais alguma novidade sobre o assunto em Londres? –Pepper se arriscou, mesmo com medo da resposta.
—Sarah está voltando para casa e, essa vocês vão amar, Valéria Richards está no mesmo avião. –E a afirmação de May fez todos engasgarem.
—Como é que é? –Metade da mesa parecia prestes a ter um ataque cardíaco.
—Puta merda Von Doom! –Tony era o irritado da rodada. –Tanta hora pra deixar a garota se rebelar e você faz isso agora seu maldito demente!
—É uma coisa que ia acontecer cedo ou tarde, embora o momento realmente não seja o melhor, especialmente se considerarmos como o Reed costuma ficar irritado quando não consegue controlar a filha. –Pepper estava desanimada depois de tudo.
—Ele é um cretino hipócrita. –Tony esbravejou. –Deixa o Frank dormir com a Rachel na casa dele e no Instituto, isso sem falar que tenho certeza que não questiona quando eles viajam sozinhos ou se dormem em quartos separados nessas ocasiões, mas controla a filha como se ela devesse agir como uma freira. –O homem tentou se acalmar. –Eu posso ser um pouco exagerado, como quando descobri sobre a Claire e o namorado dela ou quando fiquei meio receoso sobre o Wolf e a Alexa. –Os dois jovens o olharam surpresos, porém ele os ignorou. –Mesmo assim eu posso apenas ficar preocupado ou ter uma crise, não impedi-las de viver suas vidas porque sou um idiota.
—Nesse ponto você tem razão. –Todos olharam para Peter surpreso. –Não é como se nossas filhas, afilhadas e sobrinhas fossem realmente ligar para o que a gente diz sobre isso.
—O senhor não acha que tem muita certeza disso? Nada garante que seja verdade. –May parecia não acreditar no pai.
O Homem Aranha até tentou não dizer aquilo, mas foi mais forte que ele.
—Sejamos sinceros Annie May Parker. –A garota estremeceu ao ouvir seu nome quase completo ser pronunciado pelo pai. –Duvido muito que você vá me ouvir caso eu diga para não transar com o garoto Rasputin por qualquer que seja o argumento. –E enquanto a maior parte da mesa controlava as gargalhadas, May estava tossindo engasgada.
—Como é que é? –Olhou para o pai incrédula.
—Nem precisa fingir que eu te conheço muito bem e essa sua paixão por ele desde que tinha, sei lá, uns dez anos não é nem a maior novidade do dia, que dirá do ano. –Peter suspirou vencido. –O pior é que vendo todos vocês, um bando de adolescentes mais pervertidos do que eu devo ter sido, sei muito bem que tipo de pensamento passa pela cabeça daquele garoto toda vez que te vê, até porque ele não é exatamente uma pessoa discreta quanto ao que sente. –E quando todos na mesa explodiram em gargalhadas a garota afundou o rosto nas mãos morrendo de vergonha do que tinha ouvido.
—E só para saber, que horas o grupo de Londres deve chegar aqui? –Pepper parecia mais cansada do que poderia pensar e o trabalho nem havia começado.
—Com a diferença de fuso acho que devem pousar em pouco tempo. –Peter comentou distraído. –A reunião era as dez horas lá, cinco da manhã por aqui, e pelo que vimos durou menos de uma hora, então eles devem ter embarcado no quinjet umas onze, e se a viajem durar umas duas horas com os motores na velocidade rápida... –Ele olhou o relógio. –São sete e quinze, o que significa que devem pousar na Shield em uma hora, no máximo.
—Relatório para a Hill e depois cada um para o seu canto? –Pepper arriscou.
—Provavelmente, a Comandante não vai querer aguentar a crise dos Richards dentro do seu prédio a menos que isso seja estritamente necessário. –Todos concordaram com Tony, mesmo Wolf e Ur que não conheciam a história toda, assim como Maria e James que fingiam não ter entendido muito bem metade dos assuntos.
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Hill olhou atentamente para o relógio a sua frente e suspirou cansada.
Os ponteiros não haviam batido nem oito e quinze e ela já estava atolada de serviço e problemas.
Ainda que Tália e Cassie fossem a parte mais simples do seu dia, assim como a conversa com Scott e Hope, o que fazia a Comandante pedir que todos os seus problemas fossem simples como aquele, claro que não seria assim tão simples. Não quando antes das sete e meia o pedido do advogado de Maggie Burdick já estava sobre a sua mesa com um aviso de que iria com a assistente social e a psicóloga de Cassie acompanhado do juiz Morgan com mais dois psicólogos independentes, duas assistentes sociais de outras cidades e um outro juiz veterano para uma visita supervisionada.
Hill não tinha o habito de colocar civis na sua lista de pessoas que queria ver no inferno com tanta facilidade, no entanto Maggie Burdick estava se superando para entrar nessa lista em questão de dois dias. Infelizmente a Comandante não podia fazer nada a respeito da visita e dos questionamentos que seriam feitos e mesmo que a lógica dissesse que deveria pedir para Tália e Cassie nem mesmo ficarem perto uma da outra, sabia que isso não ajudaria em nada.
A mulher respirou fundo e encarou o recado em sua tela holográfica desanimada. As batidas na porta da sala não a assustaram, apenas aumentaram sua vontade de tirar férias, porém manteve esse pensamento bem quieto por hora.
—Podem entrar. –E na mesma hora um grupo grande passou pela porta, liderados por Sue Storm e Sarah Parker. –Imagino que como todos estão inteiros e bem o plano que me mandaram ontem à noite foi um sucesso, certo?
—Perfeitamente, mas se quiser confirmar mandamos o vídeo com o registro para você e os Parker. –Sue comentou sentando com Sarah nas duas cadeiras a frente de Hill. –Fora isso, acho que já viu que Valéria está conosco e ela talvez passe a frequentar a Shield, ainda precisamos conversar melhor com o Reed para confirmar.
Maria Hill encarou a garota que não parecia muito animada com a ideia de frequentar a agência, embora parecesse menos animada ainda com a perspectiva de falar com o pai e se perguntou por que as pessoas agiam como idiotas com seus filhos, especialmente pessoas inteligentes e visionárias como Reed Richards. Aquele pensamento a fez suspirar mais cansada do que antes do grupo entrar.
—Apenas me prometa uma coisa Sue... –A Comandante hesitou e a Mulher Invisível acenou para que ela continuasse. –Não deixe seu marido piorar ainda mais a situação com o senso controlador dele e, principalmente, vir fazer o caos na minha agência se não gostar de algo. Sua filha já é crescida o suficiente para conseguir decidir o que quer ou não fazer no que diz respeito a estudos e talvez até para outras coisas.
Sue Storm pareceu mais desanimada do que gostaria de admitir para em seguida deixar um muxoxo escapar.
—Vou fazer meu melhor para isso Hill, mas você conhece o Reed muito bem.
—E é justamente por isso que estou pedindo. –A Comandante reiterou. –Mudando de assunto... –Ela olhou para Sarah que sorriu. –O que vai fazer agora que ativou seu nome? E, já adianto, dependendo, vai precisar de uma revisão do traje para as novas normas de segurança.
A garota riu e respirou fundo com calma.
—Antes de mais nada quero me matricular em aulas de reciclagem com a Natasha e, sim, quero a revisão do traje porque pretendo começar a fazer patrulhas pela cidade, como meu pai ainda faz. –Sarah notou o olhar de Hill. –Se achar que não é a melhor ideia sobre as patrulhas agora vou entender e posso esperar, só é algo que quero experimentar antes de tomar novos rumos na minha vida.
A Comandante sorriu diante das palavras da garota.
—Vamos começar com a reciclagem com a Natasha na primeira semana e depois vamos estudando sua entrada nas patrulhas, tudo bem? –A garota assentiu e Maria se voltou para os demais membros da equipe. –Fittz e Greg estão dispensados por hoje. Se quiserem revisar algum projeto fique à vontade, mas também podem tirar o dia livre se preferirem. Simmons deve ser liberada a qualquer momento e as meninas já estão de folga. –Os dois assentiram e saíram da sala. –Seu irmão está a meu serviço hoje Atlante, então estou te designando para o Fury. Amanhã os dois estarão de folga, por hoje é melhor prevenir. –Alison Mackenzie concordou e se retirou para ir até seu posto. –Conner, preciso que fique de aviso, não precisa desempenhar nenhuma função hoje; permaneça no seu quarto e caso não tenhamos nada até o final do dia pode se considerar dispensado depois das dezenove horas. –O garoto concordou e saiu da sala. –Dani, pode ficar aqui hoje de aviso? –A garota confirmou e a comandante se sentiu aliviada. –Pode ficar com o dormitório de sempre. –E sem dizer mais nada a jovem Cage saiu da sala deixando Sue, Valéria e Sarah. –Por hora eu vou te pedir para passar por alguns exames de rotina e quando eles terminarem pode ir para a Torre Stark falar com seus pais, tudo bem Sarah?
—Por mim não tem problema Comandante. Alguma outra recomendação?
—Nenhuma que eu ache que vai ter resultado. –As duas riram.
—Então se me dá licença. –E depois de agradecer a Sue e se despedir de Valéria, Sarah saiu da sala sem hesitar.
O olhar de Hill se fixou na garota que parecia mais rebelde do que esperava, porém a Comandante sabia que não era porque Reed desejava ter uma filha perfeita e que não lhe causasse dor de cabeça que isso aconteceria. Não, aquele homem era um idiota, porém não pensaria naquela questão ali, deixaria isso para o momento em que o Senhor Fantástico visse com seus próprios olhos que não adiantava nada tentar controlar a filha, aquela garota era mais livre do que ela se quer poderia tentar imaginar.
Maria Hill não comentou isso com Sue também, sabia bem demais que mesmo sendo tão inteligente e até mais respeitada que o marido, a Mulher Invisível era incapaz de se opor ao marido durante, pelo menos, noventa por cento do tempo, inclusive sobre o futuro e bem-estar dos filhos. Então ela precisava da boa vontade da garota e não dos pais.
—Vou precisar me preocupar com você mocinha?
Valéria riu daquela pergunta e sentou no lugar que antes era ocupado por Sarah.
—Espero que não Comandante, afinal não vim para Nova York para causar nenhum problema para ninguém. Só quero agir um pouco como alguém da minha idade e sair um pouco, comer besteira de vez em quando e quem sabe um namorado ou alguma paquera. –Hill se conteve para não dizer que esse era justamente o tipo de problema que não queria na sua agência, o problema é que ela já tinha muito disso ali, então nada feito. –Até porque depois de terminar meu último doutorado, eu não estou muito a fim de grandes compromissos ou projetos por alguns meses. Embora eu ainda vá continuar a estudar algumas coisas e possa começar a desenvolver alguns projetos, só não estou pretendendo tirar nada do papel esse ano.
—Por mim você pode acessar os laboratórios assim que passar pelas avaliações de segurança com o Supervisor Fittz e a Supervisora Simmons. Fora isso, prometo não deixar a agencia interferir nos seus planos pessoais, seja dentro ou fora do nosso espaço de trabalho, só peço que use de um mínimo de bom senso e não me cause nenhum desconforto dentro das instalações, embora eu ache que pedir essa última parte é perda de tempo. –A risada divertida de Valéria acabou fazendo Hill sorrir antes de encarar Sue. –Avise Reed que não vou ficar tratando a filha dele como uma prisioneira ou compactuar com as paranoias dele, entendidas?
Sue concordou e algo naquela cena fez a Comandante pensar que talvez alguma coisa estivesse diferente no quadro geral, ela só não iria se arriscar por essa suposição ou criar falsas esperanças sobre a família Richards.
Era sempre bom manter um pé atrás com eles.
Especialmente Reed e Sue.
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Quando o advogado de Maggie Burdick chegou com a tal comitiva, as nove e quinze da manhã, uma veia já pulsava irritada na testa de Maria Hill, o que não ficou melhor quando Otto Vrenderburg a cumprimentou com um sorriso pretensioso de quem já se sentia pronto para humilhá-la.
—Ora, vejo que a própria Maria Hill veio nos recepcionar, pensei que mandaria um dos seus subalternos nos recepcionar e enrolar durante o dia inteiro a fim de atrasar nossa visita. –E Hill já odiava Otto o suficiente para pensar se poderia pedir para Tália o mandar para o inferno, literalmente.
Afastou a ideia se recriminando por pensar em colocar qualquer uma das crianças demônio em tal situação; ao invés disso deu seu melhor sorriso falso e usou sua voz mais gentil.
—Infelizmente o trabalho requer muita atenção de nossos agentes e como eu não gosto de enrolação prefiro perder algumas horas do meu serviço logo de manhã com esse circo do que protelar essa palhaçada por mais tempo do que o estritamente necessário. –Ela pode ver o advogado ficar roxo antes de apontar para as duas pessoas que se aproximavam do grupo. –Quero que conheçam o senhor Murdock, advogado de Scott Lang que fez o favor de levantar correndo para nos encontrar, já que não foi informado sobre a nossa reunião previamente, tal como eu. E tem o senhor Radwan, um dos vários consultores jurídicos da Shield, em especial para casos que tem como principal foco a Vara de Família e o bem estar das crianças que tem relação direta com a nossa agencia.
—Creio que eu conheça alguns dos presentes, mas uma apresentação ajudaria no meu senso de adivinhação. –Murdock brincou.
—Não se preocupe rapaz, além da assistente social e psicóloga que mencionou conhecer ontem temos apenas o juiz McCobb, um magistrado muito respeitado e conhecido nos casos sobre guarda e bem estar dos menores, e o juiz Morgan, que conheceu ontem. Depois é a senhorita Gleen, assistente social, e o senhor Mourton, também assistente social. –O consultor da Shield observou os dois psicólogos e sorriu. –Também temos a senhora Koichi, psicóloga infantojuvenil reconhecida em todo o país, e o senhor Heiss, psicólogo comportamental especializado em adolescentes e jovens adultos. –Todos os membros da comitiva olhavam para o homem de cabelos grisalhos e olhos escuros que não parecia ter mais do que cinquenta anos com surpresa. –Eu aproveitei o tempo entre entregarem a documentação na minha sala e fiz uma pesquisa detalhada sobre cada um com a ajuda dos meus assistentes, acho que os pobres nunca trabalharam tanto em apenas uma hora e meia. –Radwan olhou no relógio e sorriu para Hill. –Creio que agora que estamos todos aqui é só começar a nossa volta.
—Verdade. Até porque eu esperava que os senhores tivessem chego quinze minutos antes do que aconteceu. –Otto notou a lâmina afiada nas palavras da Comandante na sua direção e engoliu em seco. –Alguma preferência de pôr onde começar? –Hill se dirigiu para o grupo como um todo.
—Acho que podemos começar pelas acomodações que Cassie vai usar como moradia enquanto está sob a tutela da Shield, tudo bem? –Emily Sawyer, psicóloga que estava no tribunal no dia anterior, tomou a frente. –Afinal seu ambiente doméstico é algo que realmente vai nos dizer muito sobre o tipo de suporte que ela vai ter aqui. Ou podemos apenas seguir andar por andar de onde ela vai ter acesso a tudo, desde atendimento médico até moradia.
Hill achou graça na forma como a psicóloga e a assistente social de Cassie faziam um esforço sem fim para soarem amigáveis com o restante do grupo. A Comandante ativou as informações sobre os horários de Cassie e confirmou que a garota estava na primeira aula.
—Ótimas ideias, doutora Sawyer. Vamos por aqui.
E sem hesitar a Comandante Hill arrastou o grupo na direção dos laboratórios médicos, deixaria o apartamento de Scott e Hope, agora também de Cassie, por último.
Passaram primeiro pelos laboratórios de Jemma Simmons que, mesmo estando de saída, se prontificou a explicar vários pontos sobre a saúde física e mental da adolescente, além de explicar, superficialmente, sobre o relógio de localização que Cassie usava desde o dia anterior. Nesse ponto Hill disse que o supervisor em questão estava de folga, por isso mais detalhes estariam indisponíveis, o que fez a médica comentar que ela estava indo ver o marido (o tal supervisor) para o dia livre deles.
Todos, com exceção de Otto Vrenderburg, ficaram satisfeitos com aquela explicação.
Eles seguiram para o refeitório, onde todos puderam inclusive provar da comida e conversar com o responsável pela cozinha por alguns minutos. Novamente quase todos, com exceção do advogado de Maggie, estavam satisfeitos com o que viam e ouviam. A reação se repetiu quando eles conversaram com os Orientadores de Serviço que ministravam os cursos que a garota acompanharia durante a semana, atividades que iam do mais básico ao avançado com base nas preferências dela e as exigências da agência, o que não alteraria em nada a rotina agitada que Cassie já tinha antes da mudança de guarda.
Enquanto a comitiva ainda estava no refeitório, Maria Hill pode ver Christine Frost andando ao lado de Andrew de forma calma e até animada, algo que poderia ser um problema dependendo do que a garota estivesse pensando em fazer. Decidiu ignorar aquilo e recebeu um aviso de Morrison que a entrevista de Claire e Laura estava indo bem, apesar de estar no começo, o que a animou um pouco.
A Comandante confirmou que passava um pouco do meio dia quando o grupo se aproximou de uma das muitas salas de conferência que poderiam ser usadas para as visitas supervisionadas de Maggie Burdick ou para qualquer visita de assistentes sociais designadas para o caso de Cassie, mas parou na porta da primeira sala ao notar o aviso no acesso, o que a fez suspirar.
—Algum problema Comandante Hill? –O juiz Morgan parecia cansado da visita, ainda que soasse educado.
—Dois adolescentes usando a minha sala de reuniões como motel, para variar. –Ninguém comentou nada, Maria ativou a comunicação com o interior da sala. –Johnson! Frost! Me digam que não vou encontrar os dois sem roupas se abrir essa porta.
Uma gargalhada ecoou do comunicador.
—Não completamente senhora. –Nenhuma novidade que resposta de Christine seria naquele tom.
—Por que vocês não vão usar o alojamento como eu sempre peço? Custa muito? –E Hill tinha que tentar, mesmo que fosse em vão.
—Pensa assim Comandante, melhor a sala de reunião vazia que o elevador.
Maria desligou a comunicação desanimada e, ignorando o resto do grupo, andou até a sala seguinte, xingando ao parar na porta.
—Porra Cassandra, não fode. –Aquilo chamou a atenção dos demais e a mulher se xingou mentalmente.
—Ela tá aí dentro? –Kayla Jones parecia não estar surpresa com aquela possibilidade.
—E eu aposto que ela tá com a Tália, porque as duas saíram de manhã cedo da minha sala, juntas. –Hill suspirou. –Pelo menos eu sei que ela esteve nas aulas, o que é menos preocupante, ainda que não muito.
—Tem alguma forma de sabermos o que elas estão fazendo aí sem abrir a porta ou usar a comunicação? –Emily Sawyer não queria interferir diretamente no que poderiam ver, porém tinha interesse em acompanhar a interação das duas garotas sem ser notada.
Hill pareceu pensar e logo concordou digitando algo no painel de controle de acesso que passou a mostrar outra imagem na porta.
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Cassie largou a caneta levantando da cadeira e se jogando ao lado de Tália no sofá sem ligar para o fato da mutante quase ter dado um pulo com o susto.
—Eu acho que a Hill quer me matar com tantas tarefas.
A risada mais velha fez a loira sorrir.
—Isso não é nada demais. Lembro que quando tinha dezesseis anos, além da minha função permanente de carona e todas as aulas normais do Instituto e da Shield, eu ainda tinha que aguentar as visitas inoportunas do meu pai em período de provas gerais. –Tália passou o braço sobre os ombros de Cassie e a puxou um pouco mais para perto. –Você vai dar conta, só vai ser um pouco mais puxado no começo, qualquer coisa te dou uma ajuda.
Cassandra riu daquilo virando o corpo na direção da morena.
—Você sabe muito bem que não é esse tipo de ajuda que quero de você ou o que eu se quer quero ouvir você dizer, não é? –A garota loira agora estava ajoelhada, se inclinando sobre a mais velha que engolia em seco.
—Você disse que me daria pelo menos até amanhã. –Tentou argumentar.
—Não, eu disse que vou esperar até amanhã para arrancar a sua roupa, não que esperaria a sua resposta até amanhã. –Cassie apoiou um joelho de cada lado do corpo de Tália, sentando sobre as pernas da mais velha que não sabia qual a opção menos perigosa. –Sou apaixonada por você a oito anos, tenho o direito de exigir agilidade da sua parte e até um pouco mais, não acha? –Cassandra então beijou o pescoço de Tália e subiu os beijos até encontrar a boca da outra garota com um sorriso satisfeito. –Não se preocupe, ainda vou esperar até amanhã.
O beijo seguinte foi coberto de uma vontade quase incontrolável por parte das duas, principalmente por ser a primeira vez naquele dia que Tália correspondia de verdade ao contato com a loira, enterrando as mãos nos cabelos claros e segurando a cintura da mais nova. Não que Cassie estivesse mais tímida, já que ela ainda empurrava seu corpo contra o da mais velha e parecia comandar o ritmo do beijo mais do que a outra, como se estivesse mais confortável com tudo.
O momento foi interrompido quando Tália sentiu a onda de energia demoníaca emergir de dentro do seu corpo e afastou Cassandra, ambas ofegantes. A mais nova não notou nada de diferente, então apenas tentou iniciar outro beijo, que foi parado pela mão da mais velha sobre a sua boca, só que Cassie apenas mordiscou um dos dedos da azulada que se assustou.
—Me dê um excelente motivo para suas tentativas de me afastar. –Aquela exigência não era muito normal, mas para o alívio da mutante ela tinha um motivo dessa vez.
—Juro que não é nada idiota, só que meu lado demoníaco resolveu dar sinal de vida. –Tália respirou fundo e encarou Cassandra. –Preciso mesmo que saia de cima de mim, agora. –A loira fez o que foi pedido e a mutante levantou andando em volta da sala, enquanto tentava normalizar a própria respiração.
—Devo chamar a Hill ou ligar para alguém no Instituto? –Cassie se preocupou, porém a outra negou.
—Não vai adiantar nada agora. –Ela respirou fundo novamente. –Alexis teve uma explosão de energia demoníaca e eu fui pega no contraponto, agora tenho que tentar, ao menos um pouco, controlar isso e manter qualquer instinto sobre controle.
—Qual instinto?
—Além do te agarrar e ir contra as recomendações da Hill? –A mais nova confirmou. –Estou ficando com sede. –A mutante engoliu em seco e murmurou. –Será que o pai da Claire aceita servir de doador?
E sem aviso a porta abriu com a Comandante passando pela porta acompanhada de uma comitiva.
—Juiz Morgan? –A mutante se assustou e precisou recuar dois passos.
—Vá ver o Capitão. –Maria Hill ordenou e no mesmo instante a garota desapareceu, o que fez a mulher encara Cassie. –Ao contrário da Alexis, Tália tem um bom controle sobre a própria luxuria, ou, pelo menos, mais do que as pessoas pensam, mas a sede não é tão simples. Então, sempre que isso acontecer faça como eu fiz, entendeu? –A garota assentiu e Hill suspirou. –E mesmo sabendo que é inútil, pare de provocá-la tanto assim, isso já está até ficando cruel com as duas.
—Não estou mentindo quando digo que quero mesmo transar com ela, então qual é o grande problema? –Cassandra cruzou os braços um tanto birrenta.
—Não é um problema, só que você sabe que para ela as coisas não são tão simples. Estar com você é assustador para a Tália e o pai dela é... Complicado.
—Ele é igual à desnaturada da minha mãe. –Hill não concordou com a garota, Cassandra sabia que era verdade, por isso levantou pegando o caderno e a mochila. –Eu tenho que ir, tia Natasha prometeu me dar uma surra se me atrasar para as aulas dela.
Uma gargalhada se espalhou pela sala e todos olharam pra Otto Vrenderburg.
—É sobre isso que a minha petição a respeito dos erros da audiência de ontem fala. A menor está sendo induzida a odiar a mãe nesse lugar, além de ser colocada em situações perigosas com aquela garota e outras pessoas que vão agredi-la. Isso faz os atos da minha cliente apenas uma preocupação justificável com a segurança...
—Você é um idiota, o que responde toda e qualquer pergunta que eu pudesse ter a respeito do que diabos está acontecendo aqui. –Todos olharam para a porta e deram de cara com uma garota loira em uma cadeira de rodas com uma grande equipe de reportagem as costas. –Tália trombou com Conner no meio do caminho e ele será o doador, tomei a liberdade de dispensá-lo pelo resto do dia, tudo bem? –Ao que Hill apenas concordou. –Então esse é o advogado da bruxa da sua mãe, Cassie?
—Bom, considerando a minha mãe, até que o advogado cretino combina. –Otto ficou vermelho de raiva com aquilo, porém não podia fazer nada. –E como você está hoje, Claire?
—Exausta e querendo comer, ainda que tenha acabado de almoçar, é que senti o cheiro da Chris pelo corredor vim procurar. –Claire farejou o ar e gargalhou. –Só que eu não vou mesmo atrapalhar a transa de alguém, até porque odiaria que fizessem isso comigo.
—Você é a garota que parou o ataque no centro da cidade ontem. –Todos olharam surpresos para o juiz McCobb. –As imagens não ajudaram muito, mas vendo agora, é você.
—Sim, sou eu, não posso falar disso sem autorização da... –Claire foi interrompida pelo sorriso do velho juiz.
—Seu pai vive me falando de você e nunca me mostra uma foto, segundo ele para resguardar a sua imagem. –O homem riu. –E pensar que encontraria a filha do velho Steve aqui hoje. –O juiz atravessou a sala e estendeu a mão para Claire que ainda estava surpresa. –Brandon McCobb, eu fui o juiz de paz que casou seus pais.
Um sorriso largo surgiu no rosto da garota que segurou a mão do juiz com firmeza.
—Meu pai vive falando que mantêm contato como senhor e que eu preciso ir em um dos encontros com os velhos amigos dele, o problema é estou sempre tão ocupada quando ele marca esses encontros que nunca consigo ir. –Claire brincou.
—Ele conta. –McCobb se virou olhando para Morgan e Heiss. –Essa é a filha do Steve, amigo do seu pai Elijah. –O homem mais novo pareceu assustado ao olhar a garota e logo correu cumprimentá-la. –O Steve que seu pai é amigo por causa do seu avô, Joseph. –E o psicólogo, apesar de ser mais velho que Morgan, correu se apresentar para a garota na cadeira de rodas como se realizasse um sonho de criança.
—Tudo bem gente, eu sei que vocês na verdade gostariam de ver meu pai. –Os três negaram e a garota riu. –Em todo o caso, se a Hill não achar uma ideia ruim, depois que a equipe de reportagem tiver desligado as câmeras, podem se encontrar com ele.
Claire não diria a ninguém que perguntasse ainda que fosse claro, mas quando via esse tipo de reação nas pessoas, o orgulho que sentia de seu pai aumentava muito mais do que poderia explicar. Internamente ela sempre se perguntava se um dia teria ao menos a metade da imagem que Steve possuía entre as pessoas do mundo todo.
Ainda assim a garota voltou a sua atenção para Otto sem nem mesmo hesitar.
—Se você pensa que apanhar dos seus pais apenas por ser como é como justo, então que tal ir falar isso para alguns jovens que apanharam até quase morrerem dos pais? Acho que alguns deles vão te dar uma explicação bem clara de como isso é uma percepção errada. –A garota adiantou a cadeira pela sala e encarou o homem com desprezo. –E a despeito do que você pense sobre a Tália, o pai dela é um cretino de bosta, como a sua cliente, que fazia a filha deitar em cima de carvão em brasa para expiar os pecados dela por ser parte demônio, algo que ela herdou dele. Alguma outra dúvida ou eu posso imaginar que seu cérebro primitivo voltou a funcionar?
O advogado de Maggie Burdick ainda estava vermelho de raiva, mesmo assim não respondeu nada, apenas permaneceu quieto onde estava.
—Tudo bem Claire, acho que você pode ir. –Hill tentou acalmar as coisas
A Claire assentiu e encarou Cassie.
—Você não tem aula com a Natasha agora? –A garota assentiu assustada. –Certo, vamos, eu te acompanho para explicar o que aconteceu, só que ela ainda vai arrancar seu couro no treino, tenha certeza disso.
E as duas saíram da sala sendo seguidas por Laura e a equipe de filmagens pelo corredor enquanto Hill ficou com a comitiva da Vara de Família.
—Só uma dúvida. –Kayla Jones se adiantou. –Essa Natasha é uma professora de artes marciais?
—Não, ela é uma assassina altamente treinada que ensina lutas e técnicas de assassinato para nossos cadetes. –O grupo inteiro ficou assustado. –Na verdade, ela é exigente com todos os alunos e costuma ser mais rigorosa ainda com os filhos dos nossos agentes como a Claire e a Cassandra. –Hill acabou rindo daquela afirmação. –Todos eles costumam reclamar que a Natasha é a melhor tia e a pior treinadora, porque não tem pena de chutá-los com toda a força.
—E é seguro eles conviverem com uma pessoa assim? –O assistente social Mourton estava preocupado.
—Não é um problema, Natasha tem dois filhos que ela também treinou e nossas crianças recebem esse treinamento porque ajuda que eles tenham a habilidade para se proteger e aos mais fracos que eles, além de ajudar no controle de suas habilidades especiais. –A Comandante indicou que deveriam sair da sala. –Cada um deles tem um poder diferente com origens diferentes, controlar essas habilidades é o mínimo que pedimos de todos.
—Podemos acompanhar esse treino? –A doutora Koichi perguntou curiosa.
—Vou precisar confirmar com a Natasha, embora creia que não seja impossível. Claro que a instrutora não vai aceitar interferências de qualquer nível, então estejam avisados. –O grupo assentiu e seguiu para o ginásio.
O único cada vez mais irritado e insatisfeito era o próprio Otto Vrenderburg.
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A comitiva não voltou a encontrar com Cassie depois do treino com Natasha pelo resto do dia e, devido a alguns pedidos específicos do grupo, a visita demorou um pouco mais do que Hill esperava, embora tenha terminado exatamente onde ela esperava: a apartamento funcional de Scott e Hope.
Hill ignorou o advogado de Maggie, que estava cada vez mais rabugento e insuportável, especialmente depois da mensagem que Nathan Summers mandou no final da tarde quando seguiam para o apartamento. A Comandante encarregou Sharon e Daisy de cuidar daquilo enquanto ela guiava o grupo pela visita. Ela sabia que as duas poderiam cuidar de tudo com perfeição e isso a tranquilizava.
E quando o grupo finalmente entrou no apartamento, Maria Hill notou os olhares curiosos e surpresos de todos na comitiva sobre a decoração que Scott e Hope mantinham a vista de todos.
Não era como se eles tivessem precisado preparar algo, afinal haviam mais fotos de Cassandra com o pai e a madrasta espalhadas pelo apartamento funcional do que Hill julgava necessário, já que tanto Scott como Hope faziam questão de mostrar, desde muito antes da decisão do juiz Morgan, que aquela casa também era da garota e que ela sempre seria mais do que bem-vinda ali ou no apartamento civil deles.
Cinco minutos depois de passarem pela porta do apartamento foi a vez de Hope e Scott entrarem trazendo dois sacos pretos e duas malas pequenas nas mãos.
—Ah, vocês ainda estão aqui. –Scott pareceu decepcionado. –Achei que já haviam terminado a visita. –Explicou para a Comandante.
—Ainda não, o que trazem aí? Pensei que Cassie já tinha pego tudo da casa da mãe. –Não que Hill não imaginasse o que podia ser.
Os dois adultos acabaram rindo e tiraram meia dúzia de bichos de pelúcia de dentro dos sacos pretos (um deles grande o suficiente para ser o único item em uma das sacolas), além de mostrar várias roupas nas duas malas.
—Cassie pediu algumas roupas que estavam no nosso apartamento civil e aproveitamos para trazer suas pelúcias favoritas. –Hope confessou um tanto envergonhada. –Podemos ou não ter exagerado com isso, bem, não é como se a gente não fizesse isso sempre.
—É só impressão minha ou a relação dos pais é inversamente proporcional? –O juiz Morgan olhava a cena confuso.
—Hope é a mistura completa que explicamos no tribunal de figura materna saudável, melhor amiga e irmã mais velha. Já Scott é uma mistura de pai preocupado e tranquilo. –Emily Sawyer comentou.
Aquilo fez o Homem-Formiga rir.
—Não é como se ela não me deixasse de cabelos brancos, mas a Cassie parece feliz com a Tália, então... Não vou criar caso porque minha filha está com alguém que gosta, ainda que nos primeiros anos tenha sido um pouco difícil até para mim. Só que eu amo minha filha, então não tem motivos para tornar isso um problema.
—E eu sempre soube isso desde que a conheci, Cassandra sempre foi muito direta e aberta sobre essa questão, não que seja um problema na minha opinião. –Hope acabou rindo. –Sendo sincera, ela realmente não parece se dar bem o suficiente com Maggie para conversas típicas de mãe e filha. –Ela virou para o noivo. –Lembra quando você me ligou meio desesperado por que ela te perguntou como usar um absorvente?
Scott pareceu desanimado.
—A noite mais longa da minha vida até ela ter aulas de educação sexual e me perguntar como duas garotas poderiam fazer aquilo juntas. –Ele suspirou. –Eu agradeço todos os dias pela existência da Alexis e da Emma nesses momentos.
—Nem me fale. Graças a deus aquela mulher tem uma tonelada de filhos postiços e biológicos e cuida de todos com a mesma preocupação ou metade de nós estaria ferrado. –Hope comentou e Hill concordou com a afirmação de Scott. –Mudando de assunto, podemos ajudar em alguma coisa com a visita ou estamos livres para colocar as coisas da Cassie no quarto dela e depois fazer de conta que nem temos ideia de como as pelúcias apareceram lá?
Hill estava prestes a dispensar os dois quando Otto Vrenderburg tomou a frente.
—Sabia que a tal de Tália é parte demônio? –Não que a Comandante não esperasse aquele tipo de questão ser colocada à prova, mesmo assim a irritava.
—Sim, desde que entrei na agência. Se quer saber, além da Tália também conheço os irmãos Rasputin e até poderia citar a mãe dos dois, mas Illyana é uma pessoa que não se vê com grande frequência a muitos anos. O Kurt Wagner, pai da Tália, também é parte demônio, se bem que acho que ela só tem sangue de demônio por causa do pai ser filho de um, ainda que o Azulzinho não parece ter herdado os poderes e habilidades que a filha tem.
—A mãe dela não é humana? –Hope encarou Hill que assentiu. –Então deve ser algum tipo de gene recessivo, o tipo de coisa que poderia ter despertado até nos filhos da Tália. –Hope começou a fazer anotações no celular. –Será que ela me deixa fazer testes no sangue dela para isolar o gene demoníaco? –Scott negou, achando a ideia maluca e a Comandante acabou rindo.
—Eu até deixo, mesmo assim não acha que tem coisas mais interessantes do que me estudar? –E todos viraram assustados para a porta, dando de cara com Tália e Cassandra, embora a atenção da mais velha estivesse nos bichos de pelúcia sobre o sofá. –Eu tinha reparado que você gosta disso, só não tinha percebido o quanto. –A loira ficou vermelha de vergonha e correu pegar as coisas e levar para o quarto apressada, enquanto a mais velha encarou Hill. –Tia Sharon me avisou sobre o pedido, se realmente precisar eu levo, vai ser mais rápido.
—E se isso te afetar de alguma forma como já aconteceu hoje? –A Comandante não gostava daquela opção.
—Então eu vou COMER. –A mutante sentou no sofá e encarou Scott. –Você realmente não vê problema nessa história, não é?
—Fala sobre vocês duas e a forma quase providencial como as coisas começaram a dar certo para ambas nessa última semana? –Tália concordou e o Homem-Formiga riu. –Não ligo, só não quero que a Cass se machuque com isso, afinal minha garotinha esperou bastante tempo até você perceber que ela realmente existia como pessoa e não a filha de alguém que você já ouviu falar.
A mutante ficou envergonhada e depois assentiu.
—Não se preocupe, só estou hesitando porque não quero fazer nada errado. –Ela acabou rindo. –Não é como se eu fosse conhecida pela minha grande paciência ou não tivesse um comportamento parecido com o da Claire no que diz respeito a sexo, só estou me esforçando. –Uma careta surgiu no rosto da garota. –Embora sua filha esteja me testando mais do que eu gostaria de admitir.
—Bom, Cassandra sempre soube o que queria e quando, então não posso te ajudar com isso. –A garota concordou e Scott olhou para a filha que voltava para a sala encarando todos os presentes.
—Pensei que essa visita idiota já tinha acabado e todos tinham desaparecido daqui. –Cassie encarou Hill. –Já posso mandar esse povo embora ou ainda tenho que aguentar as ideias ridículas da minha mãe e desse pau mandado de merda do advogado fodido dela?
Metade da sala engasgou, especialmente com a cara do Vrenderburg, que parecia prestes a matar a garota; mesmo assim o advogado sorriu de forma forçada.
—Não seja apressada Cassandra, estamos apenas confirmando que a corte tomou mesmo as melhores decisões sobre a sua guarda, afinal sua mãe te ama e se preocupa com o seu bem estar. –A voz falsa e suave do homem apenas irritou todos os presentes.
—Manda a minha mãe ir para o inferno com a preocupação dela, sei muito bem que a única coisa que ela não quer é ter que ver os olhares das pessoas quando descobrirem que eu sou mesmo lésbica, afinal ela sempre contou histórias fantasiosas aos amigos sobre a minha vida amorosa hétero. E eu sei muito bem que você só tá nessa porque tem algum interesse nada limpo nessa história, como a herança do seu tio, que está muito bem trancada até que as partes concordem com o processo. Vai dizer que minha mãe não se gabou da minha habilidade com mudança de tamanho e você não tem planos que me façam usar para te ajudar? –Todos encaravam a garota surpresos. –Apenas vá embora. Você e minha mãe nunca estariam nessa pelo meu bem estar, só pelos seus próprios interesses pessoais.
Otto avançou na direção da garota, ele foi parado por Tália que o interceptou e prensou contra a parede.
—Não toque nela, ou vai descobrir que quando eu fico irritada de verdade meu demônio gosta de tomar as rédeas, com a minha plena autorização dessa vez. –O brilho amarelado dos olhos da mutante mudou levemente para laranja e ela se afastou deixando o homem cair no chão assustado. –Você tem mais quantas aulas agora? –Se virou para Cassie que sorriu aliviada.
—Hill me colocou em aulas das sete da manhã as sete da noite, então tenho mais umas duas horas de atividades. –A loira olhou para o relógio. –A próxima é parte das aulas normais, biologia ou algo que seja o mesmo nome só que mais avançado.
—Então vamos.
E sem dizer mais nada Tália se teleportou com Cassandra, deixando a comitiva de avaliação com Hill, Scott e Hope.
—Querem ver algo mais? –A Comandante esperava uma negativa.
—Não creio que seja realmente necessário, se possível quero ver a rotina de atividades dela antes de terminarmos e então vamos embora. –O juiz McCobb tomou a frente. –Acredito que tomamos todo o seu dia com um assunto que, ao meu ver, não tinha a mínima necessidade de ser posto em avaliação. –Todo o grupo assentiu concordando com o homem mais velho. –Em todo o caso, vou apenas concordar com a boa decisão do meu colega e agradecer o serviço exemplar da doutora Sawyer e da assistente social Jones no cuidado dos melhores interesses para a segurança da menor. Sei que talvez uma agencia de espionagem não pareça o melhor lugar para uma adolescente viver, ainda assim, considerando tudo que li no processo e o que levou Elijah a tomar a decisão que tomou, acredito mesmo que Cassandra se encontra mais segura e com um suporte emocional apropriado enquanto estiver sob a tutela da Shield, especialmente se considerarmos o contato constante com o pai e a futura madrasta.
—Agradecemos pela confiança juiz McCobb. –Hill soou humilde e contida, mesmo que internamente quisesse comemorar socando a cara de Otto Vrenderburg. –Por que não vamos até o refeitório enquanto meu assistente providencia cópias para todos verem a rotina programada de Cassie?
E com exceção de Otto, todos concordaram, e não era como se uma única pessoa fosse impedir os demais. Hill sabia que ainda teria muito mais coisas a fazer naquele dia, porém deixaria aquilo para mais tarde.
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Continua...
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No próximo capítulo: Turtleman.
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