Marvel Universe: All Different World
40 Capítulo XL: Harrelson – As Impressões de Um Repórter: Parte 2.
Notas iniciais
Data Terrestre: 09 de Outubro
Elas decidiram ir até a entrada da Shield depois de mais duas voltas completas pelo prédio e outra passagem pelo refeitório.
O relógio marcava oito da noite e eu me perguntava se era uma boa ideia elas saírem tão tarde, então os poucos manifestantes que estavam ali não se atreviam a chegar perto delas ou de nós. O frio também ajudava a fazer com que o número de pessoas fosse pequeno e eu sabia que isso era uma coisa boa.
As duas pareciam ficar cansadas com facilidade e eu me perguntava o que realmente acontecia com elas, mas nem Nik Hill ou Fóton pareciam dispostos a mais detalhes do que já haviam passado.
Estávamos em um caminho relativamente curto na frente do prédio quando Claire parou e foi para uma área mais afastada olhando para trás de uma árvore com curiosidade. Ela se abaixou, ajoelhando no chão e começou a falar baixinho, como se estivesse chamando um animalzinho ferido e assustado para perto.
Laura ficou a alguns metros e a equipe ficou atrás dela, eu até evitava respirar mais fundo do que o necessário para não levar bronca da morena que parecia agir como uma sombra para segurar qualquer ameaça a namorada.
Demorou algum tempo, mas logo eu vi uma criança de uns oito anos sair engatinhando lentamente de trás da árvore e se aproximar muito desconfiada de Claire, cheirando a mão da mutante e lambendo os dedos como se aquilo pudesse lhe dizer algo. A pequena criatura parecia ferida, desnutrida e mais assustada do que qualquer outro ser que já tinha visto na vida, e eu já vi muitas pessoas em situações ruins. A loira delicadamente moveu a mão em um carinho nos cabelos e atrás da orelha da criança que pareceu relaxar por um instante, até uma garrafa ser arremessada e acertar as costas da criança que gritou.
O grito foi alto e violento, seguido de uma cena assustadora: das costas da criança saíram apêndices parecidos com tentáculos que perfuraram o corpo de Claire e sei que perfuraram por que podia ver a ponta que atravessava o peito dela se movendo nas costas, mas diante daquilo a loira apenas acenou para Laura não se mover e voltou a acariciar os cabelos da criança enquanto Fóton começou a irradiar luz na direção dos manifestantes que tinham jogado a garrafa.
Era tanta coisa que me foquei no que achei relevante para a minha reportagem, coloquei o fone de ouvido que me dava aceso direto ao microfone de Claire e pude ouvir sua voz calma e serena mesmo ferida.
—Eu sei, não precisa explicar, medo é uma coisa compreensível e natural, mas eu já te falei, não precisa ter medo de mim ou das pessoas que quero te apresentar. Nós podemos te ajudar e, se você quiser, acolher entre os nossos, nem todos os humanos são maus com mutantes e nem todos os mutantes precisam temer ou odiar os humanos. E se nós pudermos criar a ponte para o amanhã, no futuro ninguém vai precisar temer, odiar ou ser mal com ninguém por conta das diferenças não é mesmo?—Notei a criança se movendo lentamente na direção de Claire, como se buscasse proteção. —Não é algo rápido e muitos podem nem mesmo chegar a ver o resultado dessa longa e desgastante construção, só que não é porque começamos a construir algo que vamos poder usar ou mesmo ver em uso. Na verdade, alguns de nós não precisam nem mesmo trabalhar diretamente na construção, podem apenas dar apoio a quem faz o trabalho, não é legal saber que você pode ser parte de algo que nunca sonhou?
É, eu tinha que admitir que carisma essa garota tem de sobra.
A criança se aninhou entre as pernas de Claire e logo os tentáculos começaram a recuar até estarem novamente dentro do corpo dela que parecia tremer, não sei se de frio ou de medo. Nik Hill começou a se mover lentamente e de forma calma até as duas, ficando mais de dez minutos apenas falando baixo com a menina que inclinou a cabeça na direção dela, levou cinco minutos para a agente conseguir tocar na criança e mais cinco para a criança concordar em ser carregada para dentro abraçada a jovem.
A criança não se assustou quando uma mulher, a mesma médica que havia tratado de Claire, lhe cobriu com um cobertor e passou a andar calmamente ao lado de Nik Hill. Havia algo naquela médica que me dizia que as pessoas se sentiam compelidas a pelo menos tentar confiar nela.
Enquanto a criança era levada para dentro vi Laura se aproximar de Claire e segurar sua mão, não demorou muito e a uma poça de sangue se formou sob a morena, mas ela não recuou, apenas esperou.
Uma segunda equipe, com a assistente da médica que vi com Claire no quarto e outra moça idêntica a ela apareceu em seguida, colocando as duas em cadeiras de rodas e cobrindo com lençóis que logo se tingiram de vermelho vivo.
Segui para dentro até a ala médica com a minha equipe, até sermos mandados para uma sala de monitoramento por vídeo, onde o agente Maines nos esperava com Fóton.
—Quando chegou aqui sendo que ainda estava lá fora quando entramos? –Aquilo me deixou confuso.
—Usei meus poderes. –Decidi não discutir aquilo.
Maines indicou que os cameramens ficassem com uma tela especifica, grande, com imagens termais. Em outra, bem menor e com imagens em preto e branco, quase escondida de todos, Maines permitiu que eu e Gareth acompanhássemos uma parte do que era feito na emergência.
Pude ver a equipe retira a blusa das duas e observar atentamente os ferimentos que curavam em velocidade impressionante. O agente ativou o áudio para termos uma ideia melhor do que acontecia.
—Não está curando tão rápido quanto de costume. –Uma das gêmeas comentou. –Você disse que mamãe deu para ela o HCM, certo?
—Foi Leonora. –A que devia ser a assistente de mais cedo olhou para longe e depois encarou novamente os ferimentos de Claire. –Faz umas dez horas que mamãe injetou, então os efeitos colaterais devem estar no auge agora.
—E como a Claire está Eliza? –A garota de nome Leonora tentava diminuir a quantidade de sangue no chão, o que não parecia poder fazer muita coisa.
—Mamãe aplicou “aquilo” nela a dez horas, então os poderes estão em semi-supressão, o que vai retardar o processo de cura. Sendo sincera, não faço ideia do que fazer nesses casos, nem temos autorização para nada além de monitoramento até um dos chefes chegar. –A tal de Eliza, que eu podia jurar chamar Elizabeth, me deixou preocupado com aquelas palavras.
Não sei de onde ou como, só que por um minuto o vídeo ficou colorido mostrando uma mulher ruiva passando pela porta com uma garota alva que pulava alto e rápido até estar entre as duas camas. Em seguida a imagem voltou ao preto e branco e me perguntei se Maines fez aquilo de propósito.
—Olá meninas, Tália acabou de me trazer. Posso assumir?
—Por favor Jean. –As gêmeas concordaram.
Não sei o que houve, mas um segundo depois a mulher encarou tudo e sorriu.
—Jemma e Hank confirmaram que não é o ideal, mesmo assim a ordem é para usar metade da medida mínima do HCM na Laura e metade da medida mínima “daquela coisa” na Claire. –As gêmeas pareceram surpresas e, por fim, deram um passo para trás enquanto a garota alva fazia o que a ruiva instruirá.
O efeito foi imediato e pude ver tanto Laura como Claire reagirem como se tivessem tomado uma injeção de adrenalina direto no coração. As duas começaram a convulsionar e depois a se encolher em posição fetal até seus corpos relaxarem, deixando suas respirações lentas e pesadas como o único indicativo de que ainda estavam vivas.
Maines suspirou parecendo irritado e, mesmo não querendo piorar a situação, tinha que saber como ficaríamos.
—O que vem agora agente Maines?
—Sinceramente, não tenho certeza, só posso imaginar. –Indiquei para que ele continuasse. –A doutora Simmons, a doutora Jean e a prodígio médica ali. –Ele indicou a jovem alva. –Elas devem colocar as duas no alojamento pessoal da Claire, que tem vigilância especial, e ativar o monitoramento de saúde pelas pulseiras. As duas vão ser alimentadas e colocadas para dormir até amanhã de manhã, proibidas de qualquer tipo de atividades que possam gerar o mínimo de esforço ou estresse.
—Nossa entrevista seria adiada ou cancelada?
—Normalmente seria cancelada, no entanto, como o Diretor Fury e a Comandante Hill não devem aprovar a ideia, a ordem será de adiamento até elas serem avaliadas pela manhã.
—E nós podemos ficar aqui durante a noite?
—Acho que isso pode ser conversado. –Maines não parecia tão incomodado quanto eu imaginava. –Em todo caso, por hoje, sua visita deve terminar quando elas forem deixadas sozinhas naquele quarto.
—E será que eu poderia entrevistar alguém sobre a questão do monitoramento?
—Isso é com o Diretor e a Comandante Hill.
—Isso é brincadeira não é mesmo? –Encarei Gareth que estava vermelho de raiva. –Eu não concordo com isso, passei a porra do meu dia todo aqui por essa entrevista e não vou esperar mais por isso.
Porém tudo que Maines fez foi levantar até ficar cara a cara com Gareth Grimm que era bons quinze centímetros mais baixo.
—Se não gostou vai lá brigar com o Diretor da Shield, sua Comandante número um e a número dois, além dos Vingadores, apesar que se fosse você lembraria que a entrevista estava prevista para acontecer até amanhã de manhã. Se não quer esperar é só dar o fora ou chamar outro para o seu lugar, para mim não faz diferença alguma, entendeu?
E como sempre, Gareth ficou furioso, só que não agiu, porque ele não era idiota de tentar algo contra um agente da Shield que parecia poder matá-lo com uma mão. Tudo que meu colega de profissão fez foi sair da sala furioso, mandando o cameraman não perder um segundo de filmagem enquanto ele ligava para o chefe.
Ignorei Gareth e encarei Maines.
—Sobre meus pedidos e duvidas que tem que passar pelo seu Diretor e a Comandante Hill...
O agente sorriu, mais educado que animado.
—Vou avisá-los e já te informo.
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Os momentos finais de filmagem das duas foram pela sala de monitoramento que mostrou exatamente o que Maines imaginou: as duas sendo alimentadas e colocadas para dormir. Elas se abraçaram parecendo sentir muito frio e logo a imagem entrou em visão térmica, mais nenhuma interação ocorreu. Claire e Laura dormiam profundamente.
Eu havia recebido autorização para entrevistar o próprio Maines sobre o monitoramento, com a presença de uma das Comandantes da Shield, Daisy Johnson, a mesma mulher que treinava como apoio da Viúva Negra mais cedo, porém ainda esperávamos que Gareth Grimm voltasse.
Demorou quase uma hora até que a porta abrisse e eu tivesse a surpresa de encontrar não Gareth, mas Rose Brant, a jovem e promissora repórter que trabalhava como substituta nas matérias que Grimm se recusava a fazer por ser “bom demais”.
—Quem é você? –Era impressão ou Maines parecia conhecê-la apesar da pergunta bem-humorada.
—Engraçadinho. –Ela respirou fundo. –Gareth Grimm arrumou confusão com o chefe e me mandaram ficar no lugar dele, mesmo eu dizendo que isso ia acontecer no momento em que a matéria chegou e decidiram que ele deveria vir e não eu. –Ela suspirou cansada. –Acho que nem os gritos do J.J. Jameson eram tão irritantes quanto a teimosia deles de manter um repórter falido como o Grimm na emissora pelo “nome” dele.
—Vou ter que perguntar de onde vocês se conhecem? –Eu e a Comandante dissemos juntos.
—Ela é minha noiva. –E Maines nem hesitou. –Não se preocupem, não costumamos conversar sobre o trabalho quando estamos juntos e o pouco que falo não uso os nomes das crianças.
—E eu não espero tratamento especial dele, na verdade queria pedir para você uma atualização sobre o que tivemos hoje, porque as anotações do Grimm me parecem um monte de inutilidade pública. –E me surpreendi quando Brant me encarou séria e determinada, como se pudesse argumentar comigo os motivos de aquela ser uma boa ideia, eu apenas ri.
—Tudo bem, mas só porque vejo que você tem futuro e o caráter que falta ao Grimm.
Ela concordou.
Sentamos de frente para o agente Maines, com a Comandante Johnson as nossas costas e as duas câmeras bem posicionadas para aquela sala simples, mas prática.
—Agente Maines, agradeço a sua disponibilidade em nome meu e da minha colega, Rose Brant, bem como das nossas emissoras. –Ele assentiu. –Bom, a primeira pergunta pode parecer estranha, então nas suas palavras quem é a jovem chamada Claire Rogers que apareceu nos noticiários do fim de semana como uma ameaça nacional?
Maines riu.
—Ela é uma garota de ouro. –Um sorriso gentil curvou os lábios do agente. –Se eu tiver filhos e eles forem um décimo do que aquela garota é, eu vou ter ótimos filhos.
—Essa é uma descrição um tanto vaga senhor Maines e não ajuda o público em casa. –Rose foi direta.
—Tem razão senhorita Brant, é que com o tempo de convívio eu parei de ver os aspectos menores da Claire como ser mutante ou os poderes que ela herdou do pai. –Ele respirou fundo. –A Claire cresceu dentro desse prédio, como eu. Somos ambos filhos da Shield, nossos pais trabalharam ou trabalham aqui desde antes de nascermos e é uma coisa de família, já que a tia-avó dela foi uma das fundadoras dessa agência. –Ele pareceu nostálgico. –Eu lembro quando era adolescente, talvez com uns quinze anos, de ver a Claire correndo pelos corredores desse prédio ao lado do filho do Stark e dos gêmeos da Viúva Negra e me perguntar como a mais nova das quatro crianças parecia ser a mais responsável. Lembro dela concluir o treinamento de agente de campo com menos de oito anos enquanto eu só terminei aos quinze e de como a Viúva Negra olhava orgulhosa para ela e a Caçadora, porque as duas estavam aprendendo tudo que ela tinha para ensinar e poderiam ser suas sucessoras. –Ele parecia mais emocionado do que eu esperava. –Então quando me perguntam quem é a Claire de verdade é uma coisa difícil, porque eu poderia usar a versão preguiçosa e dizer que ela é uma versão feminina do Capitão América, como muitos agentes falam, mas ela é mais do que isso. –Ele pareceu se acalmar e sorriu. –A Claire é uma menina doce e gentil, que sempre pensa nos outros antes de si mesma, você pode xingar e agredi-la o quanto quiser que ela não vai ligar, só que se atacar as pessoas que ela ama... Se fizer isso ela vai te dar uma surra. A Claire tem um senso de humor torto e até inapropriado ou pervertido, porém é amiga, companheira e fiel as pessoas ao seu redor. Ela não se mete nos problemas dos amigos mesmo quando os percebe, fica ali, esperando o pedido de ajuda para então pular de cabeça sem se importar com os danos que vai sofrer. E eu vou te contar uma coisa, vi algumas dessas supostas reportagens por ai falando de como ela era um perigo por poder causar doenças devido a sua vida sexual supostamente desregrada, só que ninguém fala de como ela tentou manter cada relacionamento dela mesmo quando era claro que a coisa não daria certo. Então a Claire é sim uma menina de ouro.
—Essa é uma descrição bem pessoal agente Maines, e muito interessante também. –Tentei não me sentir afetado por ele, o que é uma coisa difícil. –Você disse que conhece a Claire desde sempre, qual a diferença de idade entre vocês?
—Doze anos. Eu nasci na Shield, literalmente, e vivi aqui a minha vida inteira.
—Sua família também trabalha por aqui? –Rose sabia aquela resposta, mas me poupou a pergunta.
—Meu pai morreu em campo nos eventos de vinte anos atrás, minha mãe se aposentou a alguns anos e agora é consultora de ameaças e professora. O meu irmão mais velho é agente em outra instalação, na verdade ele só continua sendo agente porque a Claire salvou a vida dele, ainda que isso seja algo que não posso comentar.
Notei que a Comandante havia ficado um pouco tensa com o comentário dele.
—Bom, isso me deixa um pouco curioso agente Maines, uma vez que pelo que entendi Claire e outros desses jovens que o senhor afirma conhecer desde sempre são monitorados vinte e quatro horas por dia. O que acontece? A Shield não confia nos filhos dos seus agentes?
Ele me sorriu satisfeito.
—Realmente é a primeira impressão que passa, não é? –Assenti. –Mas não. Eu mesmo era monitorado quando criança, só não tão de perto quanto esses jovens. –Ele se mostrou sério. –O que acontece é que monitoramos filhos de agentes do alto escalão com acesso a arquivos sigilosos, ou de certos agentes de infiltração que executam missões também sigilosas, além dos filhos dos Vingadores, do Quarteto, dos X-Men e mais alguns que estejam na nossa lista de alvos de inimigos. Vocês tem que entender que, por serem filhos de quem são, essas crianças já são alvos de pessoas perigosas e nós temos a obrigação de mantê-los seguros mesmo quando seus pais não estiverem por perto, mesmo que seus pais morram em missão e é por isso que colocamos todos em monitoramento de vídeo vinte e quatro horas por dia.
—Mas os pais podem recusar essa vigilância ou ela é obrigatória? Porque é meio estranho que uma agência como a Shield simplesmente comece a filmar os filhos dos seus agentes assim, não concorda? –Realmente a Brant era muito boa.
—Todo o agente tem o direito de recusar a vigilância em vídeo, mas, pelo menos, as pulseiras de rastreamento são obrigatórias já que a ideia é ter como saber se o jovem está ou não bem. Alguns casos como o da Claire e dos filhos da Viúva Negra os próprios pais requisitaram as câmeras e chips de localização que foram injetados no corpo das crianças quando elas eram menores e não tinham treinamento de defesa.
—Isso não te parece exagerado agente Maines? Afinal, por que crianças deveriam passar por isso? –Vi o agente assentir diante da minha pergunta.
—Sabe, quando eu era mais novo pensava isso também. Então quando eu tinha treze anos pedi para acompanhar um caso com a minha mãe, era algo que não acontecia com tanta frequência, mas eu fiquei intrigado com a movimentação e torno da investigação já que tinha diversos agentes a ponto de matar alguém. Como eu já estava em treinamento acabei tendo a oportunidade de ver o serviço de perto. O caso era sobre um agente que recusou todas as vigilâncias, até as pulseiras por achar exagero e continuou trabalhando, mesmo com o aviso que que deveria reconsiderar. Acontece que esse agente era de uma equipe que desmantelava focos mafiosos pelo mundo e ele fez muitos inimigos, o problema é que só podíamos usar a vigilância da rua e, um dia, uma das pessoas que ele irritou achou a casa dele. Levaram os dois filhos dele, o menino de cinco e a menina de sete. –Notei que Maines parecia prestes a chorar coçando a barba por fazer de forma angustiada. –Eu ajudei nas buscas porque já estava na academia de operações naquele verão. –Ele engoliu em seco. –Achamos os corpos dos dois duas semanas depois com um aviso e... –Ele precisou parar, mas fez sinal para não o interrompermos. –E ninguém imagina como é emocionalmente esmagador recolher os corpos de duas crianças com uma pá. –Notei que ele fazia força para conter a lágrimas. –Então, respondendo a sua pergunta senhor Harrelson, não, eu não acho um exagero fazer uma criança passar por esse nível de vigilância e espero que possa ter o mesmo para os meus filhos no futuro.
Depois daquilo eu me senti incapaz de fazer uma pergunta, o que me fez ser surpreendido com a forma como Brant se recompôs e avançou no terreno a sua frente.
—Ainda que não considere a vigilância um exagero, e consigo compreender que tem bons motivos para isso, não pode negar os perigos que essa vigilância traz para as próprias crianças. Afinal, como garantir que um dos agentes de monitoramento não seja um tarado ou que não vai veicular as gravações em sites com centenas, milhares de pedófilos? A Shield tem como garantir esse nível de segurança para as famílias ou aqui é apenas uma meia segurança? Como garantir que mesmo vocês não fariam coisas inapropriadas enquanto assistem as crianças?
Nossa.
Ela é boa.
Será que ela aceita trocar de emissora e virar minha pupila para que eu possa me aposentar em alguns anos?
—Sabe senhorita Brant, a Shield teve esses problemas no começo, afinal a ideia era garantir o máximo de segurança para as crianças e não arrumar novos perigos. Então no começo, quase trinta anos atrás eles arriscaram um pouco e tiveram que lidar com as consequências de maçãs podres na agência, ainda que isso pudesse acontecer no resto da agência. Mesmo assim eles não estavam satisfeitos, como você mesma disse, é um serviço delicado e requer pessoal de confiança, por isso começaram a desenvolver métodos de controle e avaliação mais rigorosos. –Ele sorriu satisfeito. –Entrar para a equipe de monitoramento é, provavelmente, uma das coisas mais difíceis de se fazer na Shield uma vez que exige que a pessoa seja formada em, pelo menos, duas das academias, sendo a de Comunicações essencial, também é solicitado pleno acesso as suas contas digitais, computadores e celulares pessoais, cartões de crédito, contas em banco. Isso sem falar das dezenas de exames psicológicos e psiquiátricos prévios para o ingresso na equipe, mais os acompanhamentos mensais, quinzenais ou semanais obrigatórios que temos que fazer. Essa não é uma área que todos podem entrar ou que é fácil de continuar, a vida dos agentes de monitoramento é mais vigiada do que a dos jovens de que tomamos conta e são poucos que aceitam que a agência saiba até quantas camisinhas ele ou ela compra por mês. –E mesmo com todas aquelas informações eu podia ver que Maines sentia um orgulho desgraçado de fazer parte daquele grupo. –Eu posso dizer, com satisfação, que já faz pelo menos quinze anos desde que encontramos uma maçã podre no quadro da equipe de monitoramento.
—Você disse que para fazer parte da equipe de monitoramento é preciso ter formação em duas academias, mas o que é isso? –E Brant não parava, não que pudesse culpá-la.
—São as áreas de formação básica que a Shield oferece para os agentes, existem três e Comunicação é uma delas. Claro que um agente pode cursar uma segunda depois de concluir a primeira, embora normalmente um agente escolha se especializar em uma área e deixar as outras para serem feitas por setores de apoio ou colegas de equipe.
—E já que você é do monitoramento tem duas, certo? –Ponto garota.
—Na verdade, eu terminei as três academias.
—Desculpe perguntar, mas como conseguiu isso agente Maines? –Ele me olhou confuso. –Você deu a entender que os agentes não fazem nem duas porque isso tiraria o foco deles da outra área, então como conseguiu fazer os três cursos e, desculpe a sinceridade, parecer não ser um pobre faz tudo e não faz nada?
—Bom, eu meio que fui privilegiado nesse sentido. Tendo nascido e crescido dentro da Shield me permitiu estudar aqui desde sempre. Crianças de oito anos estavam indo para os escoteiros e eu estava aprendendo a passar na prova de obstáculos dos agentes para campo e ações táticas. Crianças de dez anos estavam aprendendo a trocar a lâmpada de casa e eu já estava aprendendo hackear servidores da deep web. Aos doze, quando os mais prodígios começam a escolher acampamentos científicos, eu já estava aprendendo a mexer com materiais radioativos. Terminei o ensino médio aos treze, tinha duas faculdades aos dezesseis e conclui minha primeira academia aos quinze.
—E não acha que poderia ter sido outra coisa que não um agente da Shield? –Ele me olhou realmente confuso. –Você podia ter escolhido outra coisa se tivesse crescido longe daqui.
—Esse lugar é a casa da minha família senhor Harrelson, não foram só meus pais, mas meus avôs pelos dois lados estiveram aqui e o pai do meu avô paterno era da Reserva Cientifica Estratégica que ajudou os Comandos Selvagens na Segunda Guerra Mundial. –Ele respirou fundo e notei que estava emocionado de uma forma boa. –Servir aqui é como servir ao lado de todas essas pessoas que fizeram o seu melhor para permitir que vivêssemos em um mundo melhor e para mim isso é mais do que uma “coisa”, é tudo.
—Pelo que posso ver você entende bem a Claire nesse sentido de ser algo quase hereditário estar na Shield e trabalhar para eles. –Brant não parecia ofendida.
—Não é “para eles”, é com eles e é verdade. De certa forma nós seguirmos esse caminho; eu e ela tivemos a opção apesar de a nossa criação militar. Meus pais e os dela sempre nos disseram que não precisávamos fazer isso, que tudo que eles querem de nós é que sejamos felizes com o que fizermos desde que não façamos mal a ninguém. –Ele riu. –E eu sei que é um pouco irônico quando analisamos que agentes da Shield podem matar alguém durante o serviço como missão ou consequência, mas minha mãe uma vez me disse: não é sobre matar ou morrer para se salvar ou proteger alguém, é sobre respeitar e fazer as escolhas difíceis pelos motivos certos, ainda que mais ninguém vá te apoiar.
—E por que aceitou ser um monitor, especialmente de alguém como a Claire? –Sei que ele não se ofende e as perguntas estão terminando.
—Escolhi ser um monitor pelo desafio de estar sempre atento a tudo. Sabe, quando dizemos que ficamos de olho em câmeras de vídeo parece que estamos espiando, mas as câmeras de cômodos como quartos e banheiros normalmente fica ativa na função imagem térmica ou visão noturna, raramente em preto e branco se precisarmos ver algo com mais detalhes. Existem vidas em jogo e você é responsável por elas, é a sua atenção e cuidado aos detalhes, sua agilidade ao notar algo fora de lugar que pode ser a diferença entre recolher corpos com uma pá ou prender um desgraçado antes que ele possa ferir uma criança. Agora sobre ter escolhido a Claire, ela não foi a única. –Aquilo parecia novo. –Cada um de nós cuida de duas a três crianças durante um período que pode oscilar de seis a oito horas em escalas normais.
—Você cuida da Claire normalmente? –Brant parecia bem curiosa agora.
—Dela e do irmão, a alguns meses passei a monitorar a Laura também, mas como a vida do irmão da Claire cruza bastante com a da família Stark, eu e o monitor deles e da filha dos Parker temos o habito de ajudar um ao outro a ficar de olho em tudo.
—E como é quando os jovens começam a transar? –Admito que a pergunta foi para descontrair.
—Imagem térmica na hora. –Ele riu. –Não apenas eu, acho que todos mudam o sistema para visão térmica e só ficam atentos a aparição de novas fontes de calor estranhas. Adoramos eles, só que não rola ficar vendo o que outras pessoas fazem na cama sem motivo ou necessidade. Filme pornô existe para isso e, vamos concordar, seria muito estranho ver uma garota que vi crescer transando.
Concordei.
—Para terminar, o que você espera dessa confusão toda? –Aquela era pesada, mas a Brant não evitou.
—Eu não espero nada, só que as pessoas parem de culpar umas às outras pelas suas fraquezas e medos. Não falo isso como um agente da Shield altamente treinado, e sim como um cara que perdeu o pai cedo, que demorou anos para conseguir encontrar um relacionamento minimamente estável e que ainda tem medo quando pensa em ter filhos por que esse mundo é maluco demais e crianças são muito puras, mesmo assim, sempre que olho para minha noiva eu só penso em como seria maravilhoso segurar um filho nosso. –Ele estava emocionado mais uma vez. –Sei que não adianta ter medo de problemas pela forma como meu pai morreu ou decidir não ter filhos pelas coisas horríveis que eu já vi, não vai fazer bem a ninguém e vai me fazer viver com raiva dos que conseguem superar isso. Acho que se eu fosse pedir algo seria mais respeito a vida e mais amor no coração das pessoas, se bem que acho isso é meio utópico.
—É uma boa utopia. –Brant se manteve firme no final e eu gostei do que vi.
—Bom, eu agradeço pelo seu tempo e pela disponibilidade da Shield em conceder essa entrevista que não estava no acordo. Foi uma boa conversa. –Fiz meu encerramento.
Maines assentiu.
—E obrigada pela disposição de lidar com as perguntas, sabemos que podemos pegar pesado às vezes. –É Brant tem muito potencial e talento para essa profissão, com o incentivo certo ela ganharia um Pulitzer em cinco anos ou menos.
O agente riu e todos levantamos.
Ele cordialmente apertou as mãos minha e de Brant como se realmente não a conhecesse, aquilo encerrou a entrevista em definitivo e eu encarei a Comandante Johnson.
—Disseram que teríamos um lugar para dormir, está correto?
—Sim, tem duas beliches lá, mas se a senhorita Brant quiser eu liberei o alojamento pessoal do Maines para ela. –Rose concordou. –Pode ir com o seu noivo assim que o turno dele terminar, o que vai acontecer assim que eu tocar naquela maçaneta. –Ela encarou o agente. –Marshal, está de folga amanhã e agradeço o turno triplo.
Fiquei surpreso com aquilo.
—Não foi nada cuidar da Claire e da Laura, acrescentar o Eric e a Amanda não foi nada demais. –Não que Maines parecesse preocupado.
—Sim, mas seu turno mais longo não costuma passar de oito horas e você já superou as doze sem apoio, sem falar no pedido especial da Hill de vigiar Cassie e Tália que você podia ter recusado. Então pegue a sua folga, durma bem e depois vá até a oftalmologia para um exame de exaustão visual.
—Sim senhora. –Ele encarou a noiva. –Sei que vai precisar levantar cedo para trabalhar, então...
—Não tem problema, parece que vou trabalhar cedo para compensar o que não consegui fazer hoje. –Maines pareceu se sentir culpado por não acompanhá-la no dia seguinte, mas Brant parecia realmente feliz em apenas ter um tempo com o noivo antes do trabalho.
—Nesse caso, vamos todos descansar um pouco para o dia de amanhã. –Eu não questionei as palavras da Comandante Johnson, estava exausto demais para pensar ou brigar por algo sem pelo menos seis horas de sono.
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Continua...
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No próximo Capítulo: As Pequenas Peculiaridades de Alguns Relacionamentos.
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