Marvel Universe: All Different World

77 Capítulo LXXVII: Dias de Um Passado Distante. - Parte 1.


Notas iniciais
E ai, tudo bem? Sim, é um capítulo de flashback. Eu preparei alguns para explicar coisas para vocês que... bom, vamos dizer que me poupa repetições em excesso e muda um pouco a dinamica dos jovens de hoje (os filhos dos heróis) para os jovens adultos de ontem (nossos heróis classicos). Eu sei que já falei isso antes, mas como podem ver, essa é a minha visão dos acontecimentos e dos heróis, então muita coisa desse universo é diferente do canone das HQ's, filmes e séries. Com isso novamente esclarecido... BOA LEITURA!

(na imagem: Scott Summers)

21 Anos Atrás

30 de Agosto

A mulher loira não se importou com as pessoas a encarando ou a reprovação de alguns outros, nem mesmo a clara interrogação de Logan sobre ela não se aproximar do grupo principal. A chuva não ajudava o ambiente perto dela ou dos outros, mas não havia muito que pudesse ser feito e Ororo não estava de bom humor para deixar o clima menos deprimente do que já seria normal.

Mesmo assim, a Rainha Branca não fingiria ser a amiga sofredora ou ignorar aquilo.

Querendo ou não, para ela Jean Grey era uma companheira de equipe e, mesmo que tivessem problemas pessoais o suficiente para não serem amigas, conhecia a ruiva bem o bastante para sentir a perda.

O grupo ao redor da sepultura começou a se dispersar e Logan se aproximou, chamando a atenção da mulher.

—Tu veio de branco, todo mundo comentou. –Ele estava calmo, o que a fez rir.

—Eu sempre uso branco e, se for analisar, no Japão essa é a cor do luto. –Logan fez uma careta que chamou a atenção. –Falou com a Alison ou ainda está enrolando?

—Ela não quer falar comigo.

—Vocês têm um filho, isso não é o tipo de coisa que se ignora e ela está tendo problemas.

Antes que ele pudesse responder ou justificar algo, Ororo se aproximou, o que fez Emma notar que todos já haviam ido embora, mas foi a cara de poucos amigos da mutante do clima que chamou a atenção da loira.

—Aproveitando? –E a alva estava com raiva.

Não que a Rainha Branca fosse se sentir intimidada.

—A chuva? Não muito.

Os olhos de Tempestade ficaram brancos e Logan colocou a mão no ombro dela.

—‘Ro, não. Emma tem a forma dela de lidar com assuntos como esse.

—Ela odiava a Jean, com certeza está feliz com a morte da nossa amiga. –A loira riu. –Qual a graça?

—Eu não odiava Jean, só a achava chata e irritante. É um pouco diferente.

—Quão diferente? –Ororo estava irritada.

—Que apesar de tudo isso, também acho a morte dela uma grande infelicidade, especialmente pelo Nate. –Emma suspirou parecendo realmente triste. –Sinto que ele vá crescer sem uma mãe; mesmo achando que ela era chata, Jean era uma boa mãe e amava aquele garoto. –Ela encarou a sepultura. –Se me dão licença.

A loira começou a andar na direção do túmulo ainda aberto e parou na beira encarando o caixão vazio no fundo.

—Você não podia ter feito isso ruiva, foi até egoísta da sua parte com todos, principalmente com o Scott e o Nathan. –Emma se irritou ao pensar naquilo. –Droga! Você pisou na bola Jean, seu marido e seu filho precisavam de você. –A raiva subiu mais rápido do que a mulher esperava e ela gritou. –Eu precisava de você aqui sua idiota!

Um tremor de raiva percorreu seu corpo e o sentimento desapareceu após alguns segundos.

A Rainha Branca estava cansada daquela última semana desde que Jean desapareceu em uma explosão de fogo cósmico causado pela insanidade que a Força Fênix causou em sua mente. Passaram os três primeiros dias depois daquilo tratando dos feridos e procurando, em vão, pelo corpo em meio a destroços para encontrarem nada.

A loira pensava que talvez fosse melhor assim, melhor do que encontrar um corpo despedaçado ou carbonizado largado em qualquer canto.

Pensar daquela forma a ajudava a dormir desde aquele dia e ignorar o fato de que a Força Fênix estava desesperada para arrastar Jean para onde precisava ou o significado por trás daquilo.

Emma desatou o nó do sobretudo e pegou duas rosas do apoio interno enquanto encarava o caixão.

—Não é curioso que a Rainha Branca não combine com a pureza da rosa branca, mas você combina? –Suspirou. –Sempre combinou. –Ela riu. –Por outro lado você nunca combinou com o sentimento de volúpia associado a rosa vermelha tão bem quanto eu. –A loira encarou a terra ao lado da sepultura, de onde muitos haviam pego um punhado para jogar sobre o caixão. –Foi mal ruiva, não vou sujar as mãos, mas espero que não se importe com as rosas no lugar. –Ela jogou as flores no fundo do buraco e encarou o céu. –Prometo que vou cuidar do Nate com a minha própria vida ou ao custo dela. Também vou ajudar a Ororo a ficar de olho no Scott, até porque não parece que ele vai conseguir cuidar do Instituto tão cedo. –Emma voltou a encarar o caixão. –É o que posso fazer, então espero que aceite.

Ela fechou os botões do sobretudo e se afastou na direção em que Ororo e Logan estavam. A mulher negra ainda parecia irritada, já Logan parecia satisfeito, mesmo que a chuva não o tivesse deixado ouvir nada do que foi falado pela loira.

—Você não derramou uma lágrima por ela. –Ororo reclamou.

Emma riu.

—Desculpe decepcionar Tempestade, mas a única pessoa por quem eu choro é o meu irmão Christian. Ninguém além dele me desperta um sentimento tão forte assim a muito tempo.

Ororo olhou para Logan incrédula depois da resposta da Rainha Branca, porém como o Carcaju não deu importância a alva saiu andando irritada.

—Ela ainda vai acabar te eletrocutando. –Havia um leve tom de sarcasmo na voz dele que fez a mulher sorrir.

—E dá para eletrocutar um diamante?

Logan gargalhou e ambos seguiram para o último carro que ainda estava ali.

Ororo estava sentada na parte de trás, então Emma tomou o assento do passageiro e o Howlett assumiu a direção. A viagem de volta ao Instituto foi silenciosa e longa, especialmente enquanto a Frost ignorava os pensamentos afiados que Tempestade lhe direcionava. A Monroe tinha uma viagem para Wakanda agendada para o dia seguinte, então não valia a pena comprar uma briga inútil.

Levou uma hora para chegarem e logo Ororo sumiu das vistas de Emma, que entendia: Tempestade tinha esperança, assim como os outros, de ter enterrado aquele caixão vazio em vão; de certo modo a loira também gostaria que fosse verdade.

A Frost ignorou aquilo e foi para seu quarto, tomou um banho rápido e colocou uma roupa mais confortável que o normal, incluindo uma blusa de frio. Ela deu de cara com Logan quando saiu do quarto e ele parecia ter feito exatamente as mesmas coisas que a loira.

—Posso ajudar? –Emma tentou iniciar a conversa o mais rápido possível.

—Você não acha que ela sobreviveu. –Não foi uma pergunta. –Ou pelo menos não está disposta a apostar tudo nessa possibilidade, então quero saber, o que vai fazer agora?

Emma sorriu.

—Vou cuidar do Nate.

Ele pareceu surpreso.

—É brincadeira?

—Não.

—Tudo bem, me explica isso direito.

—Nate tem um potencial infinitamente maior do que a Jean em termos de poder e se a Fênix voltar, porque eu não acho que uma entidade cósmica com aquele nível de poder morra de verdade junto com o eu hospedeiro, quero que ele esteja preparado para que quando isso acontecer o garoto não enlouqueça ou seja subjugado. –Emma encarou Logan. –Não pude ajudar a Jean com aquela coisa, mas juro que vou dar a minha vida para proteger o Nate de um destino igual.

E para a surpresa da Rainha Branca o Howlett sorriu parecendo mais feliz do que o normal.

—Sabe Emma, para uma pessoa que tenta ser fria e racional o tempo todo, você é absolutamente passional sobre as pessoas com quem consegue se conectar.

A loira ficou surpresa, então se resignou a aceitar aquilo, pois havia um fundo de verdade.

—Vou ver o Nate.

—Vou com você, preciso conversar sobre a Alison.

Emma concordou, até porque aquele era um assunto que vinha a incomodando há algum tempo. Abriram a porta do quarto de Nate e encontraram Sharon Carter ali.

—Ah, vocês voltaram. –Ela se aproximou com o bebê dormindo em seus braços. –Ele não parava de chorar se não estivesse nos braços de alguém, então achei melhor fazê-lo dormir assim. –Sharon não parecia cansada. –Posso deixá-lo com você?

—Por favor.

Emma pegou Nate e Sharon se afastou pegando sua blusa e sua bolsa ao lado da poltrona onde estava sentada antes.

—Eu realmente queria ficar, porque ele é um fofo e poderíamos conversar mais, só que o Fury já me mandou mensagens e o Steve quer conversar, tudo isso antes do meu turno. –Sharon disse a última parte com ironia.

A Rainha Branca riu.

—Boa sorte com o Steve, você parece meio frustrada. –Não que a provocação fosse passar batida.

—Eu ficaria mais tranquila se ele e o Tony parassem com a paranoia sobre a reforma da casa da tia Peggy para transformar o lugar em algum tipo de bunker de sobrevivência nuclear.

Dessa vez foi Logan quem riu alto, o que causou o riso nas duas mulheres.

Sharon suspirou um pouco triste.

—Agora eu realmente preciso ir. Mandem notícias.

Ela acenou um adeus para os dois mutantes e saiu apressada.

Emma andou até a poltrona e sentou com Nathan ainda dormindo em seus braços. Ela sorriu para o bebê de cabelos castanhos de uma forma que deixou Logan desconcertado com como a mulher a sua frente, chamada por alguns mutantes de “demônio desalmado”, podia ser tão amável e dedicada a um ser tão pequeno e indefeso que só gerava gastos.

—Seus pensamentos estão muito altos Logan, não estou nem precisando me esforçar para lê-los. –A voz de Emma o assustou.

—Desculpe, mas não deixa de ser estranho.

—Posso imaginar, mas você disse que queria falar sobre Alison e imagino que essa conversa seja sobre o James também, certo?

Ele fez uma careta.

Odiava quando Emma simplesmente falava o que pensava e queria, normalmente a verdade óbvia que ele tentava ignorar. Felizmente, isso fazia parte das regras da estranha amizade entre os dois, uma regra que valia para ambos.

—Sim. –Ele parecia mais tenso do que o normal. –Não consegui falar com ela nos últimos meses e sei que em parte a culpa é minha. –O assunto o incomodava. –Desde que ela engravidou, eu me afastei por pura covardia e nos últimos meses Alison parou de responder às minhas chamadas, mensagens e e-mails. Estou preocupado com o que pode ter acontecido.

—Então vá para o Japão e converse com ela, se necessário traga os dois para cá. Não é porque tiveram um caso de alguns dias que precisam casar e viverem juntos, mas os dois têm a obrigação de se preocupar com o bem-estar de James e isso inclui se preocuparem um com o outro.

Logan sentiu a culpa diante daquelas palavras, já que mesmo calma Emma foi firme, o que o fazia se sentir o mais miserável dos homens, porque não podia ter se afastado dos dois, mas quando soube da gestação de Alison... Ele se assustou com aquilo mais do que qualquer outro problema que já havia enfrentado.

Ele sentou na outra poltrona e encarou a Frost se sentindo um lixo.

—Posso contar com a sua ajuda?

Ela sorriu.

—Claro que pode. Se for necessário te acompanho até o Japão e, se for preciso, ajudo a colocar juízo na cabeça dela também.

Os dois riram e o Howlett agradeceu por ter uma amiga como Emma.

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17 de Setembro

Ororo havia voltado há poucos dias e ainda não sabia se podia confiar em Emma cuidando de Nathan, mas era difícil fazer o garoto desgrudar da loira, já que ele amava a presença e a atenção da Rainha Branca e ela também amava o menino de quase um ano.

Mesmo assim Tempestade ficava de olho na Frost e quando podia tomava o lugar da loira cuidando de Nate, especialmente enquanto Scott ficava trancado no próprio quarto, largado em um canto, gritando com todos que tentavam se aproximar dele. Parecia que o Summers acreditava que apenas ele tinha perdido alguém com que se importava, uma amiga, uma pessoa que amava como família, alguém que era quase uma parte de si mesmo, e era nessas horas que a mutante do clima tinha que se controlar para não eletrocutar o amigo, lembrando que Scott tinha perdido a mulher que ainda amava e estava devastado.

Naquele dia em particular, Emma havia chamado Ororo até sua sala dizendo que tinha um pedido especial, mas a mulher alva em geral não gostava dos pedidos da Rainha Branca.

Ela abriu a porta do escritório e viu a Frost sentada em sua mesa, lendo três relatórios diferentes, enquanto Nate dormia profundamente no carrinho ao lado da mulher loira.

Emma sorriu ao ver Ororo, acenando para que ela entrasse e sentasse na cadeira à frente da mesa.

Assim que sentou a mulher alva encarou a outra que havia parado um segundo para observar a criança ao seu lado. O problema foi que quando a Frost voltou a olhá-la, ainda sorrindo, a Monroe não soube se poderia continuar irritada.

—Desculpe te chamar assim, não é um assunto que eu gostaria de tratar onde qualquer um possa simplesmente entrar.

—É algum problema com o Instituto?

Emma suspirou cansada.

—Ainda não, o que me lembra de outra coisa que quero te pedir. –A Rainha Branca fez uma careta. –Droga. Tem muitas coisas que preciso te pedir.

Ororo tentou não se sentir feliz em saber que a poderosa Emma Frost precisava da sua ajuda, embora seu sorriso de satisfação a denunciasse.

—Vamos começar pelo mais urgente.

E dessa vez a cara de desânimo de Emma foi mais do que óbvia.

—Bom, é sobre Alison e Logan. Creio que saiba sobre o ocorrido e minha principal preocupação é a criança. –Ororo concordou. –Depois do nosso amigo dar uma de idiota e não tentar falar com Alison por um longo tempo ela resolveu ficar em silêncio absoluto, o que não seria um problema de verdade se ela não tivesse cortado contato até com o agente dela desde que o menino fez nove meses.

Tempestade fez uma careta e um grunhido de agonia escapou de seus lábios.

—Que droga.

—É, eu pensei coisas parecidas, só que menos educadas.

—Imagino. –Emma riu. –O que Logan pretende fazer?

—Você quer saber o que eu decidi que ele deve fazer em vez de continuar enrolando.

—Também.

Emma suspirou vencida.

—Vou deixar Hank no comando da escola com Kitty, Vampira e Gambit de apoio enquanto eu, você e Logan vamos para o Japão buscar Alison e James.

Ororo tentou em vão conter a sua decepção.

—Por que vou com você de apoio ao invés de ficar no seu lugar?

—Porque preciso de outra pessoa além de mim que o Logan ouça, uma pessoa que me ajude a parar os dois em caso de uma briga e alguém, além de mim, capaz de cuidar do Nate enquanto estamos lá. Resumindo, preciso de uma segunda eu, tão competente e poderosa que pode fazer o mesmo que eu faria sem precisar de instruções.

—Vai levar o Nate? –A Monroe ainda estava um pouco chocada com as palavras da Frost.

—Deixar ele com esse bando de avoados e o Scott é que não vou. Já falei para o Hank que quero ele fora daquele laboratório uma hora antes de partirmos e que só pode voltar depois que eu entrar na minha sala.

Ororo riu.

—Espero que isso dê certo.

A risada de Emma estava cansada.

—Acredite, eu também. –Ela respirou fundo e encarou a mulher alva novamente. –Quando voltarmos quero que me ajude na direção da escola, porque entre o Nate, meu trabalho normal e o que em geral era trabalho de Scott... Sei que já estou mais do que sobrecarregada, mas não vou deixar de cuidar dele. –Ela indicou o menino que ainda dormia.

Tempestade sorriu.

—Posso te ajudar com a papelada, embora eu vá precisar aprender sobre a maior parte do serviço.

—Se você não se importar, posso te ensinar por telepatia, começando durante a viagem.

—Tudo bem. –Ela encarou Nate no carrinho. –Também posso e quero te ajudar com ele e não me diga que não precisa, porque sei que vai se responsabilizar por James, especialmente se ele ficar aqui, enquanto analisamos a situação da Alison.

Emma ergueu as mãos em sinal de rendição.

—Tudo bem, essa você ganhou. –As duas riram. –Meu último pedido é que me apoie sobre colocarmos um prazo até o final do ano para que o Scott reaja e se até lá ele continuar como está... Nesse caso, vamos fazer tudo que pudermos para trazê-lo de volta, nem que seja a força. –A mulher alva estava confusa. –Podemos fazer nosso melhor pelo Nate, mas ele precisa do pai.

Ororo suspirou vencida.

—Tem razão.

—Infelizmente. –Tempestade ficou um pouco surpresa com o que Emma falou, porém a loira não pareceu disposta a continuar com aquilo. –Vamos voltar ao mais urgente, Alison. Partimos em vinte a quatro horas, tudo bem?

A mutante do clima decidiu não discutir sobre Scott naquele momento, teriam tempo depois.

—Estarei pronta. –Foi a sua resposta.

—Qualquer coisa me avise ou nos encontramos no hangar.

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19 de Setembro

Hokkaido — Japão

A viagem foi longa e cansativa mesmo com a velocidade especial do Pássaro Negro.

Mais cansativo que a viagem foi localizar Alison Blaire; depois de horas de contatos por telefone com o agente dela tudo que conseguiram foi uma vaga ideia de sua localização atual: no extremo norte de Hokkaido, a ilha mais ao norte do país, em pleno começo da temporada de chuvas antes do inverno.

Logan tentava a todo o custo não pensar no que algumas das pessoas que tinham falado contaram: Alison desenvolveu uma grave depressão pós-parto e começou um isolamento progressivo até que apenas uma senhora conseguia ter o mínimo de contato pelo menos três vezes por semana.

Assim que o Pássaro Negro pousou perto da casa daquela senhora o Howlett foi na frente e pegou o endereço exato de onde Alison estava, enquanto Emma, com Nate nos braços, e Ororo esperaram no jato. Quando Logan voltou eles tentaram deixar seu transporte o mais próximo que o clima e o terreno permitiam, para depois seguirem o resto do caminho a pé, o que foi difícil mesmo com a mutante do clima tentando amenizar os efeitos da forte chuva que caía sobre eles.

Foram quase dez minutos de caminhadas até chegar a casa indicada.

Logan bateu à porta três vezes em menos de cinco minutos, mas ninguém atendeu. Ororo olhou para Emma que assentiu e fez uma sondagem psíquica do lugar.

A Rainha Branca sentiu Alison em um estado de torpor, estava drogada por remédios para a depressão, e sentiu James, para a sua surpresa, uma criança capaz de ter sentimentos de preocupação com a mulher semiconsciente no sofá, ainda que estivesse calmo por saber que ela respirava e que podia ouvir seu coração batendo. A telepata logo notou que a criança tinha uma mutação ativa, como Nathan, e isso a preocupou um pouco.

Logan esperava que Emma dissesse o que fazer e ela logo acenou para a entrada, foi o suficiente para ele, literalmente, meter o pé na porta, abrindo caminho para entrarem na casa.

Notaram que a porta de entrada não dava acesso a sala, então correram até o cômodo, se deparando com Alison largada no sofá e James tentando subir no outro. Ororo foi até o menino que a olhava curioso e desconfiado, mas assim que Emma se aproximou com Nate nos braços o pequeno deixou a desconfiança de lado. A outra criança era algo que o interessava muito mais do que os adultos.

James deixou que Ororo o pegasse no colo e fosse, com Emma e Nathan, para os outros cômodos enquanto Logan sentou na sala observando Alison e vendo a quantidade de remédios que ela vinha tomando. Sentado ele observou tudo: como a casa estava suja e Alison parecia miserável em seu estado, não apenas absurdamente magra, sua expressão era a de alguém desesperada. O Carcaju sabia que parte da culpa era sua.

O Howlett se sentiu tão envergonhado quando soube que Alison estava grávida, especialmente porque sabia que para os dois o que tiveram não passou de uma atração temporária; o pior foi que esse sentimento tinha feito com que ignorasse a mulher e o filho que tiveram. Não que fosse realmente difícil, sempre tinha uma crise mutante ameaçando o tênue equilíbrio entre eles e o resto dos seres humanos, o que simplificou deixar aquele assunto esquecido, mesmo com as constantes ligações de Alison nos primeiros meses.

Agora não podia fazer nada, apenas esperar e tomar a responsabilidade por tudo que tinha acontecido e ignorando.

Logan levantou e foi até onde Emma e Ororo estavam, as encontrou no banheiro dando banho em Nate e James. Imaginou que em partes pelo frio que fazia, embora no caso de seu filho era porque o menino estava sujo, como Alison. Ele observou a criança de cabelo castanho e olhos levemente estreitos brincando na água, o pequeno sorria e ria ao lado do outro garotinho enquanto as duas mulheres riam da alegria deles.

O homem sorriu, ainda se sentindo mal por tudo que tinha feito de errado, mas não mais por ter tido James; podia lidar com um filho, só precisava conversar com Alison e ajudá-la o máximo possível. Sabia que Emma tinha razão quando dizia que podiam não ser um casal, mesmo assim tinham um filho e eram amigos, ou quase isso, o que já era motivo mais do que suficiente para tentarem conversar.

Ele deixou Emma e Ororo com as crianças e voltou para a sala, limpou um pouco da bagunça sob o olhar torpe de Alison e sentou para esperar as duas mulheres com as crianças.

Acabou adormecendo.

==========X==========

Emma e Ororo se recusaram a falar com Logan depois de ver o estado real de Alison e James. Não queriam brigar com o amigo na frente de duas crianças e da mulher drogada, pelo menos não de imediato e sem estarem armadas dos seus melhores argumentos e comentários ácidos, ainda que muito educados, nas palavras da Rainha Branca.

Vamos fazer o tratamento de silêncio até Alison estar completamente consciente?” Ororo parecia um pouco mais incomodada com tudo aquilo.

Eu simplesmente me recuso a dar a chance para qualquer um dos dois se safar de tudo que vou falar para eles, especialmente as partes que servem para ambos.” E apesar do rosto impassível de Emma, seus pensamentos estavam espumando de uma raiva intensa.

Ororo suspirou vencida enquanto as duas davam banho nos meninos, até porque se havia uma coisa que a mulher alva sabia sobre Emma era que a loira com raiva era um verdadeiro perigo.

Elas deram um banho longo e demorado nas crianças, que brincaram e espalharam água para todos os lados, os vestiram com roupas limpas, trocaram a roupa de cama do quarto de Alison e deixaram os dois em um ninho de travesseiros sobre a cama. Depois Emma foi tomar um banho enquanto Ororo vigiava os meninos e em seguida trocaram de lugar.

Assim que as duas ficaram prontas pegaram os pequenos e foram para a cozinha, que estava tão suja quanto o resto da casa. Elas suspiraram e procuraram o leite que, por alguns dias, estava na validade; precisaram lavar alguns utensílios para conseguir fazer o leite e a comida para as crianças. Demoraram mais do que o normal para fazer tudo, não apenas pela imundice que boa parte da casa estava, como porque não tinham tanta pressa em adiantar o embate que teriam com Alison e Logan; além de terem tempo de, se possível, fazerem os meninos dormirem antes de tudo isso.

Foram três horas até as crianças adormecerem e elas os deixarem no quarto, em meio ao ninho de travesseiros, só então elas voltaram para a sala, onde encontraram Logan dormindo e Alison, muito mais lúcida, o encarando. Ela olhou para as duas mulheres paradas quase no meio do cômodo e suspirou, um misto de culpa e alívio.

—Chegaram a muito tempo? –Sua pergunta fez Logan acordar, no entanto ele não se mexeu ou falou nada.

—Pouco mais de três horas. –Emma estava tão rígida quanto se estivesse na sua forma de diamante, o que a deixava mais assustadora que o normal.

—Eu sinto muito. –Todos olharam surpresos para Alison. –Eu realmente sinto muito.

Emma respirou fundo tentando não se irritar com a mulher antes do momento.

—Posso ver?

E mesmo com medo, Alison permitiu que a Frost vasculhasse cada canto da sua mente desde o dia que se envolveu com Logan até aquele momento. Não saberia dizer ao certo quanto tempo se passou com a Rainha Branca vendo suas memórias e pensamentos, apenas imaginou que não seria mais do que vinte minutos.

Quando Emma terminou Alison sentiu a lateral do rosto arder. A telepata havia lhe dado um tapa.

—Você pede desculpas, mas só tentou falar com Logan e esqueceu que poderia ligar para mim, para Ororo ou simplesmente pedir socorro que mesmo no meio de uma crise daríamos um jeito de vir te buscar. O que passou pela sua cabeça? –E Alison não conseguiu responder, ela nem ao menos olhou para Emma. –Nada? Nenhuma palavra?

Na mesma hora Ororo segurou o ombro da Rainha Branca, que grunhiu irritada, como se sua vontade real fosse dar outro tapa em Alison.

A Monroe se aproximou de Dazzler sem se importar com o que Emma diria, Tempestade puxou Alison para fora do sofá, colocando-a de pé e a fazendo finalmente encarar a mulher alva.

—Você vai voltar conosco, vai se tratar e só depois vamos discutir a situação do James. Enquanto isso ele vai ficar comigo e com a Emma no Instituto.

—Me tratar?

—Sim. –Alison olhou para Emma que ainda parecia furiosa. –Em uma clínica especializada, com um médico registrado e pelo tempo que for necessário.

—Eu... –Dazzler não conseguia formar uma resposta.

—Vamos falar com o seu agente, ele arruma uma história para o seu sumiço. –Ororo também não parecia muito amigável, embora comparado com a Frost... Era quase como ver um anjo.

Por fim Alison só pode concordar com tudo, o que deixou Logan visivelmente surpreso, só não mais do que quando Emma acertou um tapa na cara dele, especialmente porque ela teve o cuidado de se transformar em diamante antes de acertá-lo. O que não melhorou muito quando Ororo deu um choque forte nele.

—Tá bom, já entendi. Eu sou um idiota e deveria ter falado com vocês logo se não queria ter que fazer isso sozinho.

Tanto Emma como Ororo cruzaram os braços fazendo Logan suspirar, vencido.

—Que isso não se repita ou eu frito você. –Ele não duvidou que Tempestade falasse sério ou...

—Torça para ela te fritar e matar primeiro, porque você não vai gostar do que vou fazer com a sua mente se você sobreviver. –Claro que a Frost podia ser pior que a alva, afinal ela foi a Rainha Branca do Clube do Inferno e, de certo modo, nunca deixou de ser aquela pessoa.

Ororo virou para Alison.

—Arrume as suas coisas, saímos assim que a chuva diminuir ou em cinco horas.

Logan foi incumbido de arrumar as coisas de James e ajudar Alison com as dela; Emma ficou responsável por cuidar dos meninos, que haviam acordado, e Ororo saiu para trazer o Pássaro Negro até uma clareira mais próxima a casa.

Não foi uma tarefa fácil, mas em cinco horas eles estavam de partida.

Foi preciso adormecer Alison para a viagem, coisa que Emma preferiu fazer telepaticamente do que com remédios; também não havia muito que pudessem fazer por Dazzler naquele momento.

Em algumas horas estariam de volta ao Instituto e isso nem de longe significava o fim dos problemas de todos eles.

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28 de Setembro

A semana seguinte desde a volta ao Instituto com Alison e James se provou um desafio para Emma e Ororo.

A Frost pensou que poderia tentar ajudar em algo na recuperação de Dazzler, mas não precisou de mais do que um dia para chegar à conclusão que sua interferência causaria mais danos que reparos, especialmente se a mutante cantora estava disposta a receber o tratamento necessário.

Então, depois de uma longa conversa e uma pesquisa detalhada Emma e McCoy conseguiram encontrar uma clínica especializada que poderia ajudar Alison de uma forma saudável. Os dois a visitariam uma vez por semana ou mandariam alguém (provavelmente Ororo), enquanto o agente de Dazzler havia espalhado que a cantora havia se perdido em uma montanha no Japão durante suas férias para conhecer mais de suas raízes familiares após a última turnê e desenvolvido algum tipo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático com depressão e dependência aos remédios para dor de uma lesão desse evento, por isso estava se tratando.

Todos concordaram que era melhor não mencionar James, então a história do TEPT era, na opinião de todos, a melhor opção.

Ororo também não viu nenhuma outra saída, estava se desdobrando para ajudar Emma com o Instituto, algo que se mostrou muito mais trabalhoso do que esperava. Conciliar a crise recente em seu casamento, a administração do Instituto e suas aulas com os cuidados com James e Nathan tornava tudo ainda mais cansativo, o que fazia a mutante do clima se perguntar como a Rainha Branca tinha conseguido fazer aquilo tudo sozinha por duas semanas sem reclamar ou enlouquecer.

No final daquela primeira semana de trabalho Ororo estava cuidando de Nate e James, que dormiam nos berços, sentada na poltrona do quarto das duas crianças quando Emma passou pela porta, impecavelmente arrumada, com uma caneca de chá na mão e várias pastas de trabalho debaixo dos braços na outra mão.

—Bom dia, pronta para começar? –A loira tinha um sorriso gentil.

—Começar o quê?

—O dia de trabalho.

Ororo desviou o olhar para o calendário, onde confirmou o dia da semana.

—Você lembra que dia é hoje?

—Sábado, mas para a administração do Instituto é um dia de segunda.

A careta de Ororo fez Emma rir.

—Estou realmente começando a me arrepender de concordar em te ajudar.

—Não se preocupe, logo você pega o jeito, ainda que isso não ajude sobre o cansaço ou a repetição do serviço. –E apesar do que falava, o sorriso de Emma não desaparecia enquanto admirava os pequenos.

—Como você consegue? –A pergunta escapou antes que Ororo percebesse.

A loira suspirou e sentou na outra poltrona, próxima a outra mulher.

—Alguém, não importa quem, precisa garantir que essa escola funcione, que os X-Men estejam preparados e, principalmente, que essas crianças tenham um refúgio sempre que precisarem.

A mutante do clima encarou a outra mulher surpresa, mas Emma fingiu não ver e apenas abriu a primeira das pastas, começando o trabalho que tinha que ser feito. Como a loira preferiu não tecer comentários, Ororo pegou outra pasta e começou o trabalho.

Ainda era difícil para a mulher alva admitir, só que, no fundo, Emma Frost era, antes de tudo, uma mulher que se preocupava muito mais com o bem-estar daquelas crianças do que a maior parte dos professores que já tinham passado pelo Instituto ao longo dos anos.

Também era frustrante para as duas mulheres admitirem que tinham mais em comum do que gostariam de lembrar. Mesmo assim ambas sorriam enquanto trabalhavam juntas, cuidando daquelas duas crianças e pensando que, talvez, pudessem se tornar boas amigas no futuro.

Continua...

No próximo capítulo: Dias de Um Passado Distante. — Parte 2.

Notas finais
Próximo capítulo sai por volta do dia 18 de novembro.