Marvel Knights: Demolidor
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Demolidor. Matthew nunca foi fã desse apelido. Era uma provocação dos tempos de colégio, ainda quando ele enxergava, que seus colegas baderneiros faziam. Eles sabiam que Matt desgostava do nome, mesmo assim continuavam. Também não ajudou quando seu pai, Jack Murdock, mudou seu título de lutador para ‘Demolidor’ — ‘Batalhador’ combinava bem mais com ele e sua luta diária para cuidar do filho cego e mantê-lo em segurança. Infelizmente durou uma luta, a luta que custou sua vida.
E naquela noite Matt Murdock teria que adotar o nome novamente. Acima de um prédio de depósito de carnes, Murdock seguiu o rastro de um sedan preto por várias ruas de Hell’s Kitchen, seu bairro natal. Poderia ser só um carro voltando para casa após um longo e cansativo dia de trabalho, porém os sentidos aguçados do advogado identificaram odores estranhos: Um motorista, dois passageiros no banco de trás e uma pessoa amarrada e amordaçada no bagageiro. “Sequestro”. Quis saber do que se tratava, por isso os seguiu até o depósito de carne, onde o sedan estacionou.
Murdock vestia uma roupa peculiar para a ocasião: máscara vermelha com chifres de demônio no topo cobrindo parcialmente seu rosto e deixando apenas a boca livre; a peculiaridade se seguia pelo restante do corpo, uma fantasia com malha protetora totalmente escarlate, quase um vermelho-sangue. Na cintura e na perna direita, estavam dois pares de bastonetes, tão vermelhos quanto seu uniforme. No peito, o infame símbolo “DD” estava estampado. Ele detestava o apelido, mas desejava compartilhar esse desgosto com seus inimigos.
Pousou silenciosamente na área externa e entrou cautelosamente pela porta da frente. Matt sentiu bem rápido o clima frio que dominava o lugar. Os cheiros de carne congelada e de sangue de abatedouro impregnavam o nariz do mascarado. “Concentre-se”. Matt utilizava a audição para ‘enxergar’, mesmo sendo cego — era o que ele chama de sentido de radar, o barulho do refrigerador era um guia tão bom para ele quanto um cão treinado para guiar deficientes visuais.
Dois dos sequestradores estavam no segundo andar do depósito, eles conversavam sobre coisas como bebidas, mulheres e dinheiro. Matt ainda não encontrou o terceiro capanga e nem a vítima de sequestro, mas a conversa começou a chamar sua atenção.
—Lenny, acha que ela contaria algo sobre o Rei para a polícia? — Perguntou um deles.
—Sei lá, ela teve coragem de dizer ao Larks que contaria à polícia, então ela tem coragem para tudo. Mas o Rei tem a polícia na mão, então…
—Então o quê?
—Cê sabe, Carl, o Rei é intocável. Qualquer um que ousar prendê-lo vai morrer. E Larks é assustador.
—Sei. Dizem que ele matou uma velhinha com um pedaço de amendoim.
—Sério? Lembro que ele matou um cara ao atirar um daqueles dardos no olho dele. E estava com uma venda cobrindo a visão.
—Sinistro.
“Larks”. Matt recordava-se desse nome, recordava-se com raiva e incômodo de um dos homens contratados para matar Jack Murdock. “Ele está envolvido com esse sequestro”. Matt cerrou os punhos, mas precisava se concentrar. Subiu cautelosamente a escada de ferro e se escondeu atrás de algumas caixas. A conversa parou e Matthew sentiu o odor da nicotina se misturando com o cheiro de carne. Eles pausaram para fumar. Puxando um par de bastonetes, ele se ergueu e apareceu na frente da dupla de criminosos. Lenny, barbudo de cabelo castanho, se assustou e quase queimou o dedo com o isqueiro. Já Carl, o negro, também barbudo, xingou e puxou um revólver.
—Quem é você? Quem é esse cara? — gritou Carl, nervoso. Sua mão tremia tanto de nervosismo quanto de frio.
—Sei lá, atira logo, Carl! — gritou Lenny de volta. — Vou avisar o Larks!
Matt arremessou o bastonete da mão direita e acertou a mão de Carl, que perdeu o controle e atirou acidentalmente no joelho de Lenny. Murdock saltou sobre a mesa que os separava e chutou o corpo de Carl, em seguida virou-se e deu um soco na cara de Lenny. Voltou-se para Carl, deu uma cambalhota e atingiu as costas do capanga, finalizando-o com um chute na face.
Lenny ainda estava acordado e gritava por ajuda. O mascarado se aproximou do capanga e o pegou pela gola da camisa, em seguida deu dois socos fortes na cabeça e um na barriga.
—Cadê o Larks? — disse ele com uma voz rouca e intimidadora.
—Vai pro inferno, demônio! — respondeu Lenny, cuspindo sangue no pé do vigilante.
Matt ficou irritado e o jogou no chão, pisando em sua mão com força. Lenny berrava com a dor.
—Onde está ele? — Matt deu um soco para cada palavra proferida. E mais um. — Onde?
Lenny expelia sangue pela boca e negava com a cabeça. De repente, a audição aprimorada de Matthew ouviu um disparo. A bala voou e atingiu a cabeça de Lenny, que ficou morto no chão. Murdock virou-se assustado. Havia um homem de óculos segurando uma mulher pelo pescoço, aparentemente dopada, e uma arma apontada para o Demolidor. A silhueta era de um loiro alto, trajando roupa preta para combinar com os óculos, impregnado pelo odor de nicotina.
—Queria me ver, demônio. Estou aqui.
Matt rapidamente deduziu que aquele era Larks, o capanga número 1 do Rei do Crime. Um dos homens que assassinaram Jack Murdock anos atrás. Um assassino que acabou de fazer mais uma vítima e estava prestes a matar a mulher — se Matt não intervisse.
—Deixe ela ir, Larks.
—Por que eu devo te obedecer? Tu é só um maluco fantasiado de demônio, você se sairia muito bem em festas de católicos.
—É um acerto de contas. Você e eu.
Larks olhou confuso para o Demolidor. Ele sabia que reconhecia vagamente aquela boca barbada e o símbolo duplo no peito, mas não se lembrava de onde. Olhou para Carl, que parecia estar acordando, e sorriu. Demolidor também virou o rosto para o capanga, ouvindo ruídos dele. Matthew ainda mantinha um bastonete em mãos, podia arremessar em Larks, salvar a mulher e partir para cima do assassino.
—Qual seu nome? Digo, seu nome de verdade. Me lembra alguém por algum motivo, mas não sei quem é.
—Lembra alguém? — Murdock pressionou com força o bastonete. — Era só um alguém para você?
Larks sorriu, estava extremamente calmo e achando que controlava a situação. Estava tão acostumado a ficar nessa situação que acabava sendo normal.
—Olha, cara, tô neste trabalho há décadas. Sinceramente, já matei tanta gente que em algum momento a memória falha. Seja lá quem você vai vingar, saiba que não era pessoal. Eram apenas ordens.
—De quem eram as ordens para matar Jack Murdock? — Esbravejou Matt, caindo na armadilha de Larks. “Agora ele pode saber quem eu sou”.
—Jack Murdock? — Seu batimento cardíaco não variou muito, Larks não se lembrava de Jack. Matt não sabia se isso o irritava ou se era um alívio momentâneo.
“Chega de papo”. Demolidor girou o bastonete com velocidade e arremessou na mão armada de Larks, que ainda conseguiu tempo e atirou. O vigilante foi atingido de raspão no ombro, sentindo a latente dor dobrada graças ao tato aprimorado. A arma saltou da mão de Larks e a mulher foi largada no chão. Matthew aproveitou e avançou contra Larks, agarrando-o e rolando escada abaixo.
O Demolidor se ergueu com pressa após a queda, Larks fez o mesmo e puxou uma faca. O bandido atacou primeiro, mirando o pescoço do adversário, mas Murdock desviou. A faca passou novamente perto do pescoço do vigilante, que desta vez segurou o braço do assassino e lhe desferiu uma cabeçada na testa. Em seguida, avançou e deu dois socos potentes no estômago de Larks. Mais socos, encurralando-o contra o degrau da escada de ferro como se estivesse em um ringue de boxe. Cada movimento de Matthew era pensando em Jack, em todas as lutas que o ‘Batalhador’ perdeu honrosamente, em todas as lutas que ganhou por mérito próprio — inclusive a fatídica batalha que selou seu destino, aquela que deveria ter perdido, mas teimosamente ganhou.
Larks beijou a lona — ou o piso frio do frigorífico — após o último, raivoso e potente soco de Matthew. Seu rosto estava ensanguentado, os óculos foram destruídos. O vencedor da luta estava ofegante, ouvindo, na cabeça, um badalar de sino confirmando sua vitória. Agachou-se, puxou Larks pela cabeça e tirou a própria máscara, revelando o rosto do órfão cego que teve o desejo de justiça pelo pai sendo cumprido depois de tanta espera.
—Jack 'Batalhador' Murdock era meu pai. Você o matou há 15 anos, após uma luta de boxe contra Romita. Ele devia entregar a luta, mas não fez isso. Ele venceu e isso custou sua vida. Agora se lembra, Larks?
Larks gargalhou, exibindo os dentes sujos de sangue. Matt recolocou a máscara, estava pouco se importando com sua identidade secreta naquele momento.
—Agora sim. Murdock! — gritou, satisfeito. — O Rei vai atrás de você, Murdock.
—Acha que eu me importo? Mostrei meu rosto, disse quem sou, pus um alvo em mim, e não vou te matar. Sabe por quê? Porque só os covardes cometem assassinatos. Eu não sou covarde, Larks, eu sou um homem sem medo das consequências. Eu sou o Demolidor! — Matt deu mais um soco em Larks. — O Rei do Crime não precisa vir até mim, pois eu vou até ele. E vou derrubá-lo, não me importa o custo. A justiça irá até ele.
O Demolidor atacou Larks com um último golpe. Ele subiu as escadas e carregou a mulher nos braços. Estava totalmente sonolenta e com o corpo tão frio que ele pensou que estaria morta, mas o coração ainda batia.
Voltou a notar o corpo de Larks ali, desmaiado, banhado de sangue, um pugilista derrotado. Sorriu de canto de boca, pensando que o velho Jack Murdock teve uma pequena justiça naquela noite.
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