Martírio.

2 "Podia ser você".


Nas ruas da cidade, o acúmulo dos sem-teto é notável, preenchendo grande parte da área urbana com mutirões que tentam se organizarem e se adequarem de alguma forma. A maioria deles não simplesmente jogou a vida no lixo, só não nasceram com a benção de estar entre a elite que serve o partido comunista – e agora, mesmo que tenham dinheiro, terão que aguardar pacientemente se quiserem de fato ter uma casa.

Passando entre eles, o jovem Aaron que viram há um capítulo já não é mais tão jovem assim. Ele veste um casaco de pele, tentando atravessar as multidões sem ser arrastado por elas. É um caminho árduo e cansativo que tem que passar todos os dias, mas é melhor do que arriscar pôr seu carro nas ruas.

É de fato um homem formado. Alto, os músculos são visíveis mesmo por baixo do casaco, beirando os um e noventa de altura. O rosto não mudou muito, ganhou uma ou duas linhas de expressão e duas bolsas carregadas de um tom roxo abaixo dos olhos. Parece estar sempre cansado; fruto do desgaste físico e mental que tem passado nos últimos anos.

É importante informar que, mesmo com condições inigualavelmente superiores àquela multidão, Aaron Adamik não é lá um dos mais privilegiados. Para sua infelicidade, a devoção obrigatória na Segunda Guerra (quando ainda era um pobre adolescente) se transformou num dever quando viu que aquela era uma chance que não podia largar caso quisesse água potável em suas torneiras no futuro.

Ah, o emprego dos sonhos...

Depois de quase ser atropelado pelas multidões, Aaron Adamik pôde chegar nas áreas mais ricas dentre o cenário urbano. Sua passagem foi rápida, com passos céleres que rumaram um único ponto, um grandioso edifício erguido na capital, em nome da "Associação de Pesquisa Soviética". Não que esteja errado, de fato, também é um centro científico; todavia, seu objetivo é pesquisar e exterminar as criaturas vampirescas que, apesar de uma parcela da população ter desconfiança sobre, ainda não é tão explicito assim aos civis.

Aaron abriu a porta e imediatamente foi até o atendente do hall principal.

— Ele está em uma reunião. Espere ali, por favor. — respondeu o atendente, sem dar muita atenção. Aaron respirou fundo e resmungou alguma coisa inaudível, tentando não perder a paciência. Se tornou um homem amargurado.

Como o recomendado, se sentou e só pôde aguardar enquanto os minutos aparentemente não passam. O grande laboratório tem tantos corredores, escadas e elevadores que é muito fácil para qualquer um se perder, mas Aaron está acostumado. Isso porque trabalha com a associação, arriscando a própria cabeça para exterminar seres sobrenaturais. Passa muito longe da vida dos sonhos, mas não é como se tivesse lá muitas opções.

Os olhos castanhos se moveram ligeiramente para o lado quando, da sala do necrotério (estranhamente próxima a sala coordenador, aonde Aaron aguarda), uma garota saiu de lá. Seu nome é Weiss Vanguarstein, uma perita em necropsias e amiga de longa data de Aaron. É uma mulher baixa, com um jaleco maior que seu corpo e cabelo curto, na altura do pescoço. Compartilha das mesmas bolsas de olheira que o amigo, com olhos carregados de um tom verde.

Ao vê-la, Adamik a cumprimentou com um sutil movimento da cabeça. Weiss estranhou, arqueando uma única sobrancelha. Aaron normalmente só está presente em dias de operação de extermínio, o que causou a ela grande curiosidade.

Com passos largos, ela se sentou pouco ao lado dele, com a boa e velha expressão de tédio. Junto com ele, também pôs as mãos nos bolsos, fitando os longos corredores em silêncio.

Aaron é do tipo que não puxa uma conversa, e Weiss também. Como diabos eles se tornaram amigos?

— Te chamaram aqui? — Mas dessa vez a mulher quem começou a conversa, sobrepondo a própria curiosidade acima do silêncio habitual. Aproveitando os poucos minutos longe dos cadáveres que vive analisando, ela tirou de um dos bolsos uma caixa de cigarro.

— Sim. Você tem alguma ideia do que seja? — Aaron respirou fundo, numa pausa dramática. Os olhos sutilmente voltaram a se dirigir até Weiss, analisando com cuidado aquela caixa de cigarro que tanto o chama atenção.

— Algo preocupante, eu suponho. Tome cuidado Aaron, muitos de nós estão sumindo misteriosamente. — A garota alertou, pegando um dos cigarros e encaixando entre os lábios. O pescoço se curvou brevemente quando ligou o isqueiro, acendendo a ponta do cigarro e deixando a fumaça escapar da boca, num suspiro aliviante. Ela imediatamente notou que Aaron a encara, então ergueu a caixa de cigarros e ofereceu: — Quer?

Aaron se curvou para pegar a caixa, analisando com cuidado a embalagem. Um sorriso de canto emergiu no seu rosto, e um olhar de reprovação que fez Weiss reter os ombros.

— Um cigarro americano. Você tá usando cigarro americano numa base soviética? — Ele indagou, desacreditado. Com toda burocracia e custo para conseguir alimentos e itens, mesmo os mais básicos, o mercado alternativo tem reinado na URSS, conseguindo produtos capitalistas por um preço justo.

— Alguém realmente se importa com isso? — Weiss finalizou, erguendo os dois ombros. Ela tem um bom ponto.

Aaron mal teve tempo para uma das suas reclamações, a porta do escritório do coordenador se abriu e soube ali que é sua hora de entrar. Entre-olhou brevemente para Weiss tragando seu cigarro, é quase como se pedisse um "boa sorte". Imediatamente se levantou, devolveu sorrateiramente a caixa de cigarros e caminhou para o interior do escritório do coordenador.

— Aaron Adamik. Há quanto tempo. — Um homem loiro de olhos azuis o acolheu, com um vasto sorriso que ia de orelha a orelha. Ele tem um cabelo raso, mas exibe uma barba volumosa. Cada respiração daquele homem faz Aaron pedir por socorro mentalmente, tentando não revirar os olhos de irritação. — Sente-se.

Aaron obedeceu, se sentando de frente a mesa do seu superior. Um tipo de cartão exibe formalmente o nome daquele homem: Oleg Glushkov. Há inúmeros artigos de luxo pelo escritório, muitas vezes inúteis e decorativos. Não é de se estranhar, afinal, Oleg está numa das últimas posições da hierarquia; ele é coordenador da Associação de Pesquisa e também chefe da Divisão de Extermínio, consequentemente, chefe de Aaron, com muitas posições de folga.

Um silêncio constrangedor se fez no local. Adamik não abriu a boca, sentado enquanto fita Oleg, que detém de um sorriso debochado no rosto.

— Não precisa ficar com medo, Aaron. Eu vim te promover! — Ele disse com entusiasmo. Aaron o conhece bem demais para acreditar naquela balela. — Precisamos de voluntários para o novo projeto. A remodelação do Heulen deu certo na fronteira, e com a racionalidade dos vampiros, conquistamos muito! Logo estaremos prontos para usá-los numa guerra de verdade. Será nosso trunfo, mas antes precisamos unir o útil ao-

— Chega dessa palhaçada, Oleg! — Aaron exclamou, num tom raivoso. Oleg ficou em silêncio, com uma única sobrancelha erguida. Adamik passou dos limites, reconheceu isso. Faltar com respeito com um superior como Oleg é quase como assinar o próprio atestado de óbito. Ele respirou fundo, e gradualmente, retomou um tom mais formal — Eu pensei ter deixado claro minha opinião quanto a isso. Eu não vou colocar um vampiro no meu esquadrão. Acha mesmo que vão simplesmente caçar seus semelhantes de cabeça baixa? Você só os viu atrás das grades, nunca vai saber do que eles são realmente capazes.

Aquela conversa deixou Aaron com os nervos a flor da pele. O motivo é mais do que claro, ganhou inúmeras cicatrizes para os vampiros, já esteve de frente com tantos deles que sabe de sua real natureza. Aaron foi um dos únicos sobreviventes do fatídico dia em que o último dos Heulen fugiu, e justamente por ter ficado cara a cara com um dos ambiciosos projetos biológicos da humanidade, hesita.

— Eu entendo seu medo, Aaron. Mas isso não é uma decisão que cabe a você. Eu já decidi, o governo já decidiu. O décimo quinto esquadrão abrigará uma cobaia vampirica, assim como o décimo segundo e o sétimo. — Oleg relaxou os ombros, recostando as costas na cadeira. O sorriso debochado não saiu do rosto. No fundo, se diverte com a indignação de Aaron Adamik, e talvez tenha o feito de propósito.

A Guerra Fria está se intensificando, as disputas estão mais fortes, e o medo de uma Terceira Guerra Mundial ascendendo. Os soviéticos sabem do risco iminente de desafiar os Estados Unidos da América, e por isso a corrida vem com a motivação da ambição humana de se mostrar superior. Viram em primeira mão os nazistas dizimando cidades e tomando países inteiros em tempo recorde com o Projeto Heulen, e agora está mais que claro que um projeto similar está saindo da gaveta.

— Temos o Ulrich no esquadrão. Isso não vai dar certo. — Aaron pareceu ter desistido de insistir, tentando jogar mais uma informação na mesa. Ulrich, um novato da Alemanha Oriental, é explosivo demais, e trata vampiros tão bem quanto trata um rato. É um prodígio, de fato, mas o risco de uma tragédia acontecer com Ulrich e um vampiro dividindo o mesmo esquadrão é grande.

— Ele que se adeque, ou morra. — Oleg refutou, deixando explícita a decisão do governo. Ulrich é um prodígio e trouxe muitos benefícios para Associação, mas o projeto aberto pela União Soviética é muito mais importante. "Até onde eles pretendem ir com isso?", Adamik se perguntou, vendo Oleg se flexionar para ficar cara a cara com ele. — Aaron, Aaron... o que você fez com sua vida? Podia ser você aqui, no meu lugar. Mas aonde foi se meter?

Aquilo ficou pessoal demais de repente, e Aaron reconheceu isso quase que instantaneamente. Ele se levantou de maneira abrupta, com o peito inflado, postura ereta e sem contato visual com o superior.

— Permissão para retirada, "senhor"? — indagou, tentando não ter uma explosão de raiva ali mesmo.

Oleg abriu um largo sorriso, foi como se tivesse obtido vitória em provocar Aaron. Com o sinalizar de mãos, permitiu que seu "inferior" fosse embora.

Weiss continuou sentada na cadeira, tragando um cigarro com as pernas cruzadas e o corpo inclinado, fitando a porta do escritório. Quando Aaron saiu dali com um semblante cabisbaixo e uma expressão de raiva, soube imediatamente do que ele precisa; ergueu a caixinha de cigarros e balançou.

Aaron apanhou uma bituca sem reclamar de ser americano ou não. No fundo, só precisa aliviar o peso nos ombros e tentar aceitar que o destino tá tirando uma com sua cara. Weiss compartilha do mesmo sentimento, e talvez por isso ambos se entendem tão bem.