Marshall Cole E Os Olimpianos: O Filho Da Lua
10 Cap. 10: Lutando com o passado
Notas iniciais
Algumas horas depois do pequeno show no teatro, nós já estávamos longe daquele lugar terrível. Infelizmente descobrimos que quase todo nosso dinheiro havia sido arruinado no combate e tivemos que seguir a pé pela estrada.
Seguir andando por metade do país não erra a ideia mais agradável mas era tudo que tínhamos.
–A gente nunca vai chegar tempo assim -disse um já muito cansado Drake.
–Talvez você possa dar uma carona pra gente Marshall -sugeriu Sara.
Eu já havia considerado a ideia algumas vezes mas eu não sabia como eu tinha me transformado da primeira vez e não sabia como fazer acontecer outra vez. Por outro lado, Drake estava fascinado com as luzes que saiam de suas mãos, a representação luminosa de seus poderes curativos. Aparentemente ele não gastava suas forças fazendo aquilo, a não ser que estivesse de fato curando alguém, e passava o tempo conduzindo um pequeno show de lasers a sua frente.
Eu decidi conferir o mapa que compramos na última cidade.
–Aqui diz que nós podemos chegar a uma pequena cidade se seguirmos pela praia. Não deve ser grande coisa já que não tem nenhum caminho regular pra lá seguindo pela estrada. Mas pelo menos nós podemos parar e planejar algo melhor do que seguir andando.
Nós andamos mais alguns minutos até encontrar uma pequena abertura na vegetação à nossa direita para alcançarmos a praia.
Foi muito bom poder trocar o asfalto duro pela a areia fofa, um dos poucos confortos que tivemos em horas de caminhada. O mar estava tranquilo e trazia uma leve brisa.
Após algum tempo nós percebemos que não iríamos alcançar a cidade antes de que ficasse escuro demais para andar por ali. Eu não me importava, já que não era capaz de me perder, mas meus amigos não iriam apreciar muito a viagem e um descanso seria bom para todos nós.
Montamos nosso acampamento usando as provisões que tínhamos trago do Acampamento Meio-sangue e uma pequena fogueira com alguns galhos secos que encontramos por perto.
O sol já havia se posto. Estávamos sentados na areia, próximos a fogueira. A noite estava bastante fria, por isso sentávamos bem próximos ao fogo. Drake ainda continua com o show de luzes mas agora ele havia adicionado um beatbox com se movia como se fosse o novo grande DJ do momento. Eu preciso admitir, pra alguém que quase morreu algumas horas antes, ele conseguia voltar a ficar alegre rápido. Em momentos assim que eu me lembro o motivo dele ser meu melhor amigo.
–Como foi que nós ficamos sem dinheiro mesmo? -eu perguntei para Sara, já que Drake parecia bem distraído.
–Aquelas sombras cortaram a minha mochila e acertaram a minha carteira. O dinheiro ficou coberto com uma gosma preta e tava todo destruído. -ela disse parecendo meio triste. Imaginei que ela se sentia culpada por isso ter acontecido.
– Não se preocupa. Assim que a gente chegar na cidade amanhã, a gente vai dar um jeito de seguir viagem. — eu disse, me levantando e apertando a mão dela pra passar um pouco de confiança.
Ela ficou um pouco corada mas acenou com a cabeça e sorriu. Ver ela sorrir sempre me fazia feliz e nós ficamos nos olhando por um tempo.
–Vocês precisam de um tempo sozinhos ou algo assim? Sei lá. -disse Drake, um tanto constrangido.
Sara e eu percebemos que tínhamos ficados parados olhando um para o outro por muito tempo e nós afastamos, ambos com os rostos completamente vermelhos
Sara se levantou e foi dar uma volta.
Eu abri uma latinha de refrigerante que eu tinha na mochila e tomei um gole.
–Você nunca vai dizer o que você sente pra ela? -disse Drake.
Eu me engasguei com o refrigerante e quase tive um infarto.
–Do que você tá falando? — eu tentei disfarçar o melhor que pude, olhando em volta como se não houvesse nada de errado.
–Você gosta dela desde de que vocês se conheceram e você é péssimo em esconder isso. Sem chance que ela não notou. Mas não tem problema, porque ela também gosta de você, tá na cara.
Era verdade que eu tive uma queda pela Sara desde o dia em que nós nos conhecemos mas sem chance que ela gostava dele. Ela era praticamente uma deusa da beleza, um ser totalmente inalcançável para ele (ou assim dizia sua jovem mente de apenas 13 anos).
–Vai lá falar com ela, cara. -disse o Drake -pode ser que você se saia bem -disse ele mexendo as sobrancelhas. Os conselhos de um galã falido.
Mas ele estava certo. Nada ia acontecer se eu continuasse quieto. Então eu levantei e caminhei na direção em que Sara havia ido, com Drake torcendo por mim da fogueira.
Levei uns 5 minutos pra encontrar a Sara. Ela estava parada olhando para a escuridão do horizonte. A luz das estrelas faziam ela parecer infinitamente mais bonita do que o normal, o que me assustava bastante. Eu me aproximei silenciosamente e toquei o ombro dela.
Ela deu um leve pulo de susto mas se acalmou ao ver quem era.
Nós nos olhamos por alguns momentos enquanto eu criava coragem. Mas eu nunca tive chance de dizer nada. Apenas alguns metros dali, eu vi uma fogueira acender do nada e uma barraca apareceu próxima a ela como se estivesse lá o tempo todo no escuro.
– Aquela barraca estava ali antes? -eu perguntei para Sara.
–Eu acho que não. A praia estava vazia a um segundo atrás. Talvez seja melhor a gente voltar.
–Talvez. Mas eu quero ver o que tem lá, se for perigoso é melhor saber agora do que voltar e ficarmos esperando um ataque surpresa.
Nós nos aproximamos com muito cuidado, sem fazer qualquer som. Parecia muito natural para mim me mover dessa forma sorrateira do que para Sara, que tentava não tropeçar no escuro.
A barraca era bem simples, uma lona branca presa na areia por algumas estacas. A lareira era um pouco mais impressionante, a chama queimando sem nenhum tipo de lenha, apenas fogo ardendo na areia. Nos aproximamos da entrada da barraca mas antes que pudéssemos espiar o interior, uma voz nos chamou de dentro da barraca.
–Entrem logo. Deve estar bem frio ai fora. -disse uma voz infantil.
Nós nos olhamos por um segundo, em uma espécie de conversa silenciosa se deveríamos obedecer a voz ou não. Por fim, não avia muito o que fazer, quem quer que estivesse lá dentro já sabia da presença deles e dar as costas ao perigo podia ser pior.
Nós entramos com muita cautela na barraca. O interior era quase tão simples quanto o exterior, mas haviam diversos moveis espalhados pelo lugar. Do outro lado da barraca, uma menina que deveria ser um pouco mais nova do que eles estava sentada em uma almofada. Ela usava um vestido branco simples e seu cabelo ruivo possuía uma tiara prateada.
–Quem é você? -eu achei que era a melhor pergunta a se fazer no momento.
Ela não pareceu prestar atenção em mim.
–Por favor, sentem-se -ela disse apontando para algumas almofadas a sua frente. Não parecia haver razão para ficar de pé. Então aceitamos o convite. Apenas uma mesinha baixa nos separava.
–Eu devo dizer que fiquei impressionada de terem aceitado a missão. Seguir o rastro da deusa da lua, caçar a grande caçadora. Não é algo que qualquer um estaria disposto a fazer. Então eu pergunto: Por quê?
Estranhamente ela falava olhando diretamente para Sara, como se só houvesse elas duas ali.
–Nós precisamos encontrar Ártemis o mais rápido possível. A profecia parece falar dela e nós precisamos encontra-la antes de Orion .
Aquele nome parece ter incomodado a garotinha. Ela não parecia muito contente em ouvir as notícias.
–Por Zeus, será que nada vai ficar no lugar que devia, ao menos uma vez -disse a garota irritada — colocar ela lá já foi um enorme esforço, ele não ficou nada feliz em morrer da primeira vez. E eu ainda tenho que caçar todas aquelas outra constelações que insistem em tentar dar um passeio.
–Espera um momento. -eu disse confuso -Você caça as constelações? Eu pensei que fosse Ártemis.
Novamente ela me ignorou. Isso já estava começando a me irritar profundamente.
–É verdade. Nós pensamos que fosse Ártemis caçando as constelações quando elas fogem.
A garotinha dez uma expressão um pouco confusa, algo entre humor e ofendida.
–Eu imaginei que vocês já tivessem adivinhado a essa altura.
O instante que nós compreendemos aquelas palavras foi algo simplesmente estranho, foi como ver um ovo chocando de a verdade óbvia saísse de dentro.
–Você é ela? Você é Ártemis? Você é minha mãe?
Eu pude sentir meu coração batendo muito rápido no meu peito. Senti uma dor muito forte mas de certa forma bem-vinda de encontrar alguém que você procurou sua vida toda e agora finalmente estava bem ali. E queria dizer tanta coisa, ouvir tanta coisa, mas não sabia como começar.
Novamente a deusa me ignorou completamente. Ela estava deliberadamente recusando admitir minha presença no local.
Sara também estava muito confusa com a situação. Ela também queria fazer várias perguntas mas olhando para mim por um instante ela percebeu um enorme perigo. Ela percebeu que eu estava a um segundo de tentar atacar a deusa da caça, o que basicamente significava me matar.
–Marshall calma, por favor -ela pediu, movendo as mãos indicando para que eu continuasse sentado.
–Eu quis encontrar você a minha vida toda — eu disse com a voz extremamente carregada de emoção -Eu quis conhecer você, quis saber onde você esteve todos esses anos, saber porquê você abandonou meu pai e eu. E agora que nós nos encontramos você nem sequer me olha na cara.
Eu me levantei, atirando a mesa a nossa frente forte contra a lateral da barraca. A mesinha se espatifou como se tivesse atingido uma parede de concreto. Eu respirava rápido e podia sentir o lobo dentro de mim querendo sair, implorando para ser libertado.
Pela primeira vez em toda minha vida, que eu pudesse me lembrar, minha mão olhou para mim. Ela deu um pequeno sorriso e fez uma expressão de desafio.
–Pode vir, lobinho.
Eu saltei em direção a deusa e pude sentir a transformação acontecer em pleno ar. A chama branca cobriu meu corpo por uma fração de segundo e eu era o lobo de novo. Eu pude ouvir Sara gritando para que eu parasse mas já era tarde para voltar atrás. Eu não queria voltar atrás.
Eu colidi com força em cima da garota ruiva e nós voamos através da lona da barraca, que dessa vez cedeu como se fosse tecido comum. Eu sentir o corpo da garota mudar próximo de mim e alguns momentos depois eu fui jogado para o lado por uma loba tão grande quanto eu.
Ela também tinha o pelo branco mas era coberta de desenhos diversos espalhados por todo o corpo, parecendo pinturas de diferentes criaturas. Provavelmente troféus de grandes caçadas. Seus olhos agora possuíam um vermelho sangue maníaco e faminto.
Nós começamos a rugir e correr para cima um do outro. Nós colidimos de novo e foi como se dois caminhões batessem de frente em alta velocidade. Eu tentava morder o pescoço dela mas não era fácil, ela claramente tinha mais experiência nisso do que eu. Ela me arremessou para o lado sem grande esforço mas eu estava longe de desistir.
Eu corri novamente e, dessa vez, ela não conseguiu segurar meu peso e foi atirada contra o chão. Ela claramente ficou surpresa com isso já que hesitou por alguns momentos antes de tentar se defender mas foi o bastante para que eu conseguir atingir meu alvo e mordi seu pescoço. Eu consegui manter ela desse jeito por algum tempo, mas eu comei a sentir algo inesperado.
Eu senti uma vibração muito estranha vindo do fundo da minha garganta, ou talvez do fundo do meu corpo eu pude sentir tanto eu quanto Ártemis mudando de forma e quando percebi eu não estava mais mordendo ela. eu estava abraçado ao pescoço de uma mulher bem mais velha do que a jovem garotinha de antes e eu havia começado a chorar e não conseguia parar.
Ela simplesmente me abraçou de volta e começou a passar a mão pelo meu cabelo.
–Está tudo bem, pode chorar. Meu filho.
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