Marsden Academy

2 Bem-vindos à Academia Marsden (parte 2)


Maddy acordou, mais frustrada do que quando fora dormir, há apenas duas horas. Olhou em volta só pra checar, e estava mesmo na Academia Marsden. Não, não fora apenas um pesadelo. Ela havia sido, de fato, largada à própria sorte naquele depósito de órfãos e riquinhos mimados, para deixar de fazer parte da vida de sua família.

Todas as meninas do dormitório já estavam de pé, se arrumando para o primeiro dia de aula. E desde o momento em que levantou da cama, até por os pés para fora do prédio e encarar o pátio principal do colégio, ela se via cercada de garotas irritantes, balbuciando coisas indistintas, todas ao mesmo tempo; e garotas que tentavam encontrar um pouco de solidão naquele lugar lotado, e se jogavam em qualquer canto para se fingir de invisíveis (e dramáticas).

Quando encarou toda a extensão da Academia, porém, encontrou o contrário: garotos. Balbuciando coisas indistintas e se fingindo de invisíveis. Maddy então compreendeu, que mesmo que as semelhanças fossem muitas e bem sólidas, a Academia Marsden e qualquer outro colégio normal eram lugares bem diferentes. Não fisicamente, e nem tinham pessoas diferentes, mas pareciam diferentes. Na Academia, não se podia planejar o que fazer depois das aulas, ou buscar refúgio com os pais, ou faltar à aula sem motivo. Motivo... Todos estavam ali por algum motivo. Ninguém deixa sua casa, na cidade, e vai se trancar com um bando de gente desconhecida (e potencialmente problemática) no meio do nada, e deixar sua vida girar em torno de uma das coisas mais execráveis do mundo moderno: o sistema educacional. Não sem um bom motivo.

Maddy tinha um.

Jamais conhecera seu pai. Sua mãe era jovem demais, e ela foi criada por seus avós. Eles se foram há alguns anos, e Madison voltara a viver com sua mãe, que mal reconhecia seu rosto. Esta não suportou a situação por muito tempo. Graças à uma herança razoável, não pensou duas vezes antes de mandar a filha para um colégio interno. E daí se elas não se conhecessem direito quando o ensino médio terminasse? O importante era fugir da maternidade. "Não pense que sou um monstro," a mãe de Maddy dizia, "ela é forte. Vai se virar muito bem." É uma explicação simples para um caso complexo, mas era assim que Maddy gostava de contar. Evitando os detalhes dolorosos, como as várias vezes em que sua mãe esquecera de lhe buscar na escola.

Ela definitivamente não iria mais buscar Maddy na escola. Ninguém iria.

"Chega de melancolia, pelo amor de Deus", a garota disse para si mesma, respirou fundo e iniciou a longa caminhada até o edifício leste, onde assistiria uma aula de história muito (des)interessante.

E assim foi o primeiro dia letivo de Madison na renomada e recém-reinaugurada Academia Marsden: uma aula chata aqui, um pouco de autolamentação ali... Ao final das aulas, cansada de tudo, Maddy só queria saber de deitar em sua cama, talvez ouvir um pouco de música, e dormir, tentando asfixiar os pensamentos dramáticos que insistiam em lhe ocupar a mente. Mais uma vez, então, ela atravessava o pátio da Academia, contando os passos para chegar ao prédio dos dormitórios femininos. Pensou ter ouvido alguém lhe chamar quando passou pela entrada dos dormitórios masculinos. Torceu para estar errada, mas logo ouviu seu nome novamente, vindo de trás de uma árvore há alguns metros, e numa voz muito familiar. Reconhecendo a voz, e muito surpresa por ouvi-la, Maddy correu para a fonte dos chamados. E lá estava ele, com aquela mesma barba por fazer, o mesmo blazer bege muito gasto e os mesmos cabelos castanho-claros bagunçados.

–Ben... — ela deixou escapar num suspiro de surpresa.

Ele sorriu. Tinha um sorriso pálido, sem vida. Sem vida alguma. De fato, tanto lhe faltava vitalidade, que sua imagem sequer estava completa. Maddy podia ver perfeitamente através dele.

–Por que você sumiu? — perguntou a menina, ficando mais triste a cada segundo.

–Eu te perdi de vista. Me desculpe.- disse Ben, e nunca soara tão paterno quanto naquele momento. Apesar de seus 40 e tantos anos, sempre fora um amigo de infância para Madison. — Fiquei até tarde no parque naquela manhã, e quando fui te procurar, você já tinha partido.

Tentando ficar furiosa com ele, Maddy continuou o questionamento.

–Como ficou sabendo que eu vinha pra cá?

Ben deu um passo em sua direção.

–Vi um folheto da escola no seu quarto. Levei horas pra descobri-lo, mas quando compreendi a mensagem, vim o mais rápido que pude.

–Não foi rápido o suficiente. — ela disse entredentes.

Eles se olharam por alguns instantes.

–E como foi o primeiro dia de aula? — perguntou ele, e Maddy se virou com uma risadinha debochada. — Eu sei bem como foi. Te olhei pela janela o dia todo.

–E por que não veio falar comigo? — ela trovejou, triste e zangada.

Mas Ben não tinha como responder. Apenas deu de ombros.

Maddy sentiu um impulso de abraçá-lo, mas sabia que não podia fazer isso, então apenas ficou parada. Conhecia Ben desde a infância, e há muitos anos não sentia esse impulso com tanta intensidade. Ele sentia o mesmo.

–Já fez novos colegas, ou ainda precisa de um amigo fantasma pra conversar? Por que eu ando meio desocupado... — disse ele, e Maddy riu. Pela primeira vez em uma semana.

–Eu nunca trocaria você por uma pessoa viva, Ben, você sabe. Elas me assustam.

Ben se adiantou para ficar mais perto de Maddy. Ele olhou em volta, e ela sabia bem qual era sua preocupação. Se vissem os dois conversando, apenas enxergando uma garota falando sozinha, pensariam que era louca. Ela continuou seu caminho até os dormitórios e fez sinal para que o fantasma a seguisse, mas ele continuou parado. Estava observando algo. Ela olhou na mesma direção que ele, e viu um garoto, esguio, pensativo, que andava confiante, mas parecia carregar uma esfera de energia à sua volta, isolando-o do resto do mundo.

–Ben. — ela chamou, usando ao máximo suas habilidades de ventríloquo, e ele logo atendeu.

Antes de acompanhar Maddy até o dormitório, porém, Ben deu mais uma boa olhada no garoto para gravar sua imagem na memória e descobrir para onde ele ia. Madison fez o mesmo.

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A porta de um dos quartos do dormitório masculino se abriu com um estrondo, e o garoto que jogava videogame lá dentro deu um pulinho de susto. Alex entrou a passos pesados e jogou a mochila ao lado de sua cama, uma das cinco do quarto horrivelmente pintado de verde escuro.

–Ei, cara, você quase me matou de susto. — disse Pete, cujas mãos tremiam, dando trabalho para pausar o videogame.

–Foi mal... — disse Alex, sem olhar para Pete. Sua mente estava a quilômetros de distância, mas estava consciente o bastante para ir até a entrada e fechar a porta gentilmente.

Ele se largou na cama, e ficou olhando para o teto, enquanto seu colega de quarto voltava a matar zumbis na televisão. Este estava sentado no chão, perto o suficiente da TV para que sua mãe se irritasse, e dissesse que ele ficaria cego, se ela estivesse lá.

–Quer jogar? — perguntou Pete.

–Hm, matar gente pra extravasar? Tô dentro.

–Um pouco de violência pra esquecer essa maldita escola. Vai ser um longo ano, parceiro.

–Com certeza. E se todos os dias forem como esse primeiro, a gente vai ter que arranjar umas armas de verdade. — disse Alex enquanto levantava da cama, e ria.

Esse não é o tipo de coisa que se diz para um colega de quarto que você mal conhece, numa escola cheia de gente problemática. Mas Pete também estava rindo, então talvez ele tenha levado a piada numa boa. E ainda rindo ele se levantou, foi até a porta e, saindo do quarto disse:

–Eu vou ao banheiro. Termina essa fase pra mim.

Alex se abaixou para apanhar o joystick, e sentiu o vento soprar forte pela janela. Estava ficando absurdamente frio. Ele se adiantou, pôs as mãos nas laterais da janela para fechá-la, e foi quando um estranho arrepio lhe percorreu os braços. Não era culpa do frio, porém. O garoto ficou alerta. Ele se inclinou para fora e olhou para todos os lados. Sentiu mais um arrepio, do tipo que lhe era bem familiar. Havia uma presença ali, ele sabia. Alex fechou os olhos e viu, num lampejo, um homem de terno surrado espreitando do outro lado da janela. Mas é claro que não havia ninguém ali. "Será que os meus sentidos estão falhando?", pensou ele. "É melhor eu começar a dormir direito."

Naquela noite, Alex jogou videogame, fez seus exercícios de matemática, atualizou seu blog — que não possuía absolutamente nenhum leitor -, e pensou muitas coisas antes de conseguir dormir, algumas horas madrugada adentro. E em nenhum momento ele deixou de sentir aquela estranha presença do lado de fora do quarto.

Notas finais
Esta parte conclui o primeiro episódio de Marsden Academy. Muito mistério e suspense o aguarda nos capítulos seguintes, então espero que você fique para acompanhar a história.
Há muito mais nesta escola do que encontram os olhos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.