Marsden Academy

1 Bem-vindos à Academia Marsden (parte 1)


O Lincoln preto parou imponente naquela estrada no meio do nada. Grama e floresta para todos os lados, e à frente uma gigantesca propriedade. Orgulhoso como sempre, mas receoso de sujar seus sapatos italianos, o sr. Snyder desceu do carro, e olhou para a épica mansão que um dia fora a Academia Marsden, o melhor colégio interno da América do Norte. Hoje, não passava de um prédio vazio e pateticamente sujo pelo tempo e esquecimento. Mas o sr. Snyder estava satisfeito em ver o bom trabalho que seus homens faziam para recuperar a glória da Academia, e a tempo de ser reaberta para matrículas no final do ano.

Enquanto ele andava até os pesados portões da propriedade, seu assistente corria para alcançá-lo ainda falando ao telefone. Uma dupla de empreiteiros que trabalhavam ali abriram os portões para o novo dono da Academia e seu capacho. Assim que pôs os pés (bem calçados em couro italiano) dentro das terras que adquirira à preço de banana num leilão, o sr. Snyder foi rodeado de mais pessoas que trabalhavam para ele, de terno e gravata e capacetes de construção. Falavam todos ao mesmo tempo. O mais confiante deles levantou a voz, e todos pararam para ouvi-lo. Era o responsável por toda a obra de restauração da Academia.

–A reforma nos dormitórios foi concluída, sr. Snyder. Pode-se dizer que estamos adiantados. Acho que o senhor poderá até mesmo abrir a Academia para visitas durante a época de matrículas. — disse o chefe, tentando transmitir todo o otimismo que conseguia fingir.

–Ótimo. — começou o sr. Snyder. — Isso vai trazer muitos alunos, com certeza. Mas eu tenho ouvido coisas um pouco mais preocupantes lá no escritório.

Ele soava severo, mas sua expressão era de total satisfação para/com a situação de seu empreendimento.

–O que o senhor tem ouvido...? — perguntou o chefe da obra, tremendo nas bases.

–Dizem por aí que há um problema na ala sudeste do prédio principal. Nos corredores do subsolo, me parece.

Todos os engravatados de capacete engoliram em seco. Eles sabiam que a obra não estava adiantada coisa alguma. Estava atrasada, na verdade. Esperavam que o sr. Snyder não soubesse o quanto.

Depois de um segundo ou dois de silêncio, o chefe da obra tentou se manifestar, mas antes que pudesse formar alguma frase com sentido em sua mente, foi interrompido.

–Não se preocupe, meu caro. A obra está adiantada... mas eu vou adiantá-la ainda mais. Esqueça o subsolo! Lacre aquela área, e nos preocuparemos com ela depois. Afinal de contas, ali só havia escritórios da administração. Mas a administração não vai mais ficar aqui, se lembra?

O chefe da obra olhava para seu patrão, sem ainda saber que expressão por na cara. Ele ganhou um tapinha nas costas, e viu o sr. Snyder continuar seu tour pela propriedade. Este mal deu alguns passos e foi parado mais uma vez, por seu assistente que havia se retirado sorrateiramente, e agora voltara acompanhado de um homem muito velho, que vestia um uniforme antiguíssimo com a inscrição "Academia Marsden" no peito. Ele parecia não ver a luz do sol em anos.

–Sr. Snyder, este é o homem de quem eu lhe falei.

–Ah, claro. Stevenson, certo?

–Auttenberg — corrigiu o homem.

–Exatamente. Me explique a situação mais uma vez Nigel. — disse o sr. Snyder para seu assistente.

Ele limpou a garganta, ajeitou o paletó, e começou a falar, apontando para o homem ao seu lado.

–O sr. Auttenberg gostaria que seu emprego fosse mantido após a reabertura da Academia. Ele foi o caseiro da propriedade desde a inauguração original, e cuidou do que pode durante estes anos em que o colégio esteve desativado, tendo o salário pago por um fundo de proteção aos funcionários.

O sr. Snyder pensou. Reparou no chapéu de jardineiro que o velho segurava nervosamente. Por fim, cruzou os braços o mais alto que pode e falou:

–Pois bem, sr. Autten...berg. Vejo realmente que cuidou muito bem da propriedade. A obra de restauração não tem custado um centavo sequer. — quase engasgou com o sarcasmo, mas continuou — Mas esta é uma nova Academia. Temo não haver lugar para qualquer coisa, ou pessoa, da antiga administração.

Ele realmente esperou que o velho aceitasse a demissão, fosse correndo reclamar sua aposentadoria e passasse o resto da vida em um apartamento solitário na capital mais próxima. Mas o sr. Auttenberg ficou ali parado. Girou o chapéu de jardineiro na mão, endireitando as abas, e falou com calma:

–Eu creio que não é necessário dizer o quanto este colégio representa para a minha vida, e que eu não tenho para onde ir. Mas a verdade é que eu estou disposto a continuar prestando serviços para a Academia Marsden não importa quem seja seu dono. Enquanto eu tiver meu quartinho e trabalho a fazer, estarei feliz.

E assim que terminou de falar, o sr. Snyder se sentiu tocado. Como não pensara nisso antes?! Mantê-lo provavelmente seria muito mais barato do que contratar um caseiro novo, mesmo que o sr. Auttenberg tivesse apenas mais alguns anos de vida.

Ele descruzou os braços, enfiou as mãos nos bolsos do paletó, esticou-se para o assistente e perguntou baixinho:

–Quanto ele ganha?

A reposta foi inaudível para os outros que estavam por perto, mas a reação do sr. Snyder foi bem clara.

–Muito bem, sr. Auttenberg. Você pode continuar trabalhando aqui por tempo indeterminado, uma vez que suas condições de serviço e salário continuem exatamente os mesmos. Espero que não tenha feito as malas. Agora o Nigel vai acompanhá-lo, e você vai assinar um contrato definindo claramente este acordo. Estamos entendidos?

–Com certeza. E muito obrigado, sr. Snyder. — disse o velho, se despedindo com um aceno de cabeça.

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Alex virou mais uma página do livro, há muito querendo parar de ler. Não conseguia, porém; ele queria muito saber o que aconteceria na história. Era um ótimo livro que tinha em mãos. Na verdade, carregava mais de dez ótimos livros na mochila. Ele os usava para esquecer do mundo e de seus problemas, pois eram a distração perfeita. Já nem se lembrava que seus pais o haviam jogado num ônibus deprimente, à caminho de um colégio interno ainda mais deprimente, onde encontraria outros adolescentes deprimidos e muita dificuldade nas aulas de cálculos. Quando finalmente fechou o livro e o guardou de volta na mala, olhou em volta e reparou que podia contar nos dedos, de uma única mão, os passageiros que tinham um sorriso no rosto. E ainda poderia contar mesmo que tivesse apenas dois dedos na mão.

Frustrado, Alex olhou pela janela do ônibus, reparou na paisagem fria, tomada por árvores de cores mortas e o céu mais nublado que alguém já vira, e pensou que seria um bom lugar para passar uns dias, não fosse pela situação em que se encontrava. Por pior que estivessem as coisas em casa, Alex tinha (poucos) amigos, e preferia continuar vivendo num lugar conhecido. "Preciso dar um jeito de aproveitar isso de alguma forma", pensou ele com otimismo quando recebeu a notícia de que iria para a Academia Marsden. Mas como aproveitar a estada num lugar que representa seu próprio abandono? Simples! Esquecimento. Alex correu para o quarto, pegou todos os livros que tinha e os jogou numa mochila. Leria até que seus olhos caíssem.

Já estava quase abrindo a mochila para pegar o livro novamente, quando avistou uma mudança na paisagem. Ao longe, onde as árvores estavam em menor número e a neblina se espalhava e esfriava solo, uma bela e antiga edificação se erguia com imponência. Era um prédio cinza azulado, maciço, cheio de braços e alas adjacentes, além de outros prédios menores que completavam a propriedade. Ele sabia que era sua futura morada, e quando viu aquilo, Alex não pode evitar o pensamento, "os quartos devem ser enormes".

Num lampejo, ele sentiu um súbito impulso de fechar os olhos. E em um mero segundo ele viu uma imagem que muito lhe agradou. Agora ele sabia, os quartos eram magníficos!