Marry Me
3 Capítulo 2
Adam Howlett
Eu já estava no altar, esperando a hora em que acabariam com a minha vida. Não só a minha, mas a de mais três pessoas; afinal, duvido muito que só eu esteja sendo forçado a me casar.
Do outro lado do altar estava o outro coitado, esperando a sentença final, assim como eu. Ao que parecia, ele tentava não demonstrar emoções, embora passasse as mãos pelos cabelos frequentemente, fazendo com que Afrodite o olhasse feio. E ele retribuía, como se perguntasse o que tinha de mal naquilo.
Tal coisa continuou até que ouvíssemos a marcha nupcial, quando nós dois nos endireitamos para vermos as noivas entrarem no salão.
As grandes portas se abriram e meus olhos se prenderam a garota loira que entrava por lá, segurando um buquê de lírios rosa, olhando para frente, totalmente confiante. Como se tivesse orgulho do que estava fazendo e ninguém pudesse tirar isso dela.
Seus olhos eram verdes, e parecia que cabia um oceano dentro deles. Os cabelos loiros caíam por seus ombros e costas e ela usava um vestido que marcava sua cintura, e eu senti uma corrente elétrica passar pelo meu corpo, e faíscas saltaram de meus dedos.
Hera me olhou feio, como se eu tivesse acertado ela com esse descuido, e eu somente revirei os olhos. Já Afrodite me olhava satisfeita, como se soubesse de coisas que eu não sei, coisa que não duvido nada. Balancei a cabeça e estralei os dedos, para aliviar a tensão e impedir que acontecesse novamente.
Num piscar de olhos a loira já estava na minha frente, juntamente com Poseidon, que havia entrado no salão a acompanhando. A garota sorria para mim, o que estranhei de início e decidi apenas retribuir o sorriso. Seu pai murmurou uma ameaça para mim antes de me passar a sua filha.
Em minha mente, ouvi meu pai dizer “seja convincente”, e o fitei. O rei dos deuses somente me lançou um olhar severo de onde estava e logo me voltei para minha noiva, abrindo um sorriso que pensei que serviria para convencer todas aquelas pessoas no salão.
Ela retribuiu o sorriso, que pareceria verdadeiro se eu não estivesse perto o bastante para conseguir estudar seus olhos e ver que ali havia confusão e estranhamento. Não deixei que isso abalasse minha atuação e segurei uma de suas mãos, beijando as costas.
Pela visão periférica, notei que Zeus assentiu minimamente, e depois disso eu já estava olhando para minha madrasta, e minha noiva e o outro casal faziam a mesma coisa. Ajeitei minha postura, mesmo que ela não estivesse ruim, e inspirei fundo, pensando que não seria ruim eu prender a respiração até o fim da cerimônia. Talvez eu desmaiasse e assim tudo teria que ser cancelado.
Como uma boa deusa do casamento, Hera começou seu discurso, o qual eu ouvia pacientemente, porém, não escutava uma só palavra, pelo simples fato de eu estar viajando para muito longe dali em meus pensamentos. Realmente espero que as pessoas vejam esse casamento com bons olhos, pois é por amor às pessoas que vivem sob as leis do panteão grego, leis do meu pai, que estou sacrificando a minha vida para que tudo fique bem para eles. Mesmo que seja casando com alguém que eu não amo.
Deixei os pensamentos de príncipe da Idade Média de lado na hora de pegar as alianças que havia guardado em meu bolso assim que as crianças trouxeram. Tratava-se de uma garotinha loira de cabelos cacheados e um garotinho de terno, que agora estavam sentados nos bancos da frente do salão, cochichando entre si.
Assim que o casal ao nosso lado terminou com os votos, segurei a mão de minha noiva, respirando fundo brevemente e a olhando nos olhos. Tais olhos verdes acinzentados que haviam chamado a minha atenção no momento em que ela entrou ali.
— Eu, Adam Howlett, te recebo, – parei por um momento, me dando conta de que não sabia qual era o nome de minha noiva, quando ouvi um sussurro suave em minha cabeça, e logo já pronunciava tais palavras. – Eleanor Santiago, como minha esposa e te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de nossa vida.
Esse voto, essa mentira, que deveria surtir efeitos de simples palavras ditas da boca pra fora, me atingiram como um tapa na cara e um soco no estômago, pois eram uma mentira maior do que talvez eu pudesse suportar. Por um momento minha única vontade era a de jogar tudo para o alto e abandonar aquela garota no altar e não olhar para trás.
Porém resolvi engolir os problemas, afinal, não era o peso do céu que eu tinha em meus ombros. Ao olhar mais uma vez para o rosto da loira a minha frente, vi que aquilo poderia ser uma mentira agradável de sustentar.
Meu olhar caiu para sua boca quando Eleanor começou a falar, e permaneceu ali até que eu chegasse à conclusão de que, para o bem de minha sanidade, deveria olhar para seus olhos.
— Eu, Eleanor Santiago, te recebo, Adam Howlett, como meu esposo e te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida. – vi seus olhos vacilarem e seu lábio inferior tremer brevemente, e deixei que um sorriso de canto tomasse conta de meu rosto.
Logo ouvimos Hera continuar com seu discurso.
— Que os deuses confirmem este compromisso aqui selado e lhes deem suas bênçãos. Ninguém separa o que os deuses uniram. – ela sorriu e eu respirei fundo.
Eu segurava uma pequena aliança, que caberia perfeitamente no dedo delicado que eu agora segurava.
— Eleanor Santiago, receba esta aliança em sinal do meu amor e da minha fidelidade. – coloquei o anel em seu dedo e depois levei sua mão até meus lábios, beijando-a levemente.
A garota olhou primeiramente para nossas mãos e depois para meus olhos, começando a falar logo em seguida.
— Adam Howlett, receba esta aliança em sinal do meu amor e da minha fidelidade. – ela colocou o anel em meu dedo, e em seguida ouvimos o tão famoso “Você pode beijar a noiva”.
Aproximei-me da loira e segurei sua cintura. Meu nariz roçou no dela e logo pressionei meus lábios contra os da garota de vestido branco e olhos verdes. O beijo durou o suficiente somente para convencer todas aquelas pessoas que nos encaravam de seus lugares, e quando julguei o suficiente, me afastei, ainda sentindo o gosto de baunilha que os lábios de Eleanor possuíam.
Ri baixo quando me dei conta de qual era o sabor que eu estava sentindo, e a garota me olhou com uma sobrancelha arqueada. Respondi sua pergunta silenciosa apenas negando com a cabeça.
Depois de todas as bênçãos de todos os deuses, em especial Hera, Afrodite e os pais dos noivos, era a hora de nos retirarmos para uma maçante sessão de fotos.
— Vamos lá, docinho. – abri um sorriso torto e lhe ofereci o braço. A garota me olhou, estreitando os olhos, mas aceitou o meu braço no fim, e seguimos os recém-casados que saíam na nossa frente. Assim que passamos pela porta do salão, flashes me cegaram brevemente e eu tentei bloquear meus olhos. Perguntei-me de onde vinham as câmeras, e lembrei-me da TV Hefesto, e que provavelmente logo aquelas fotos estariam na televisão e nos sites em todo o Olimpo.
Tratei logo de colocar um sorriso forjado em meu rosto, para que conseguisse atravessar aquela multidão sem causar maiores danos. Passei meu braço pela cintura de Eleanor e a puxei para perto, dando um beijo em seu rosto e pegando a garota de surpresa. Talvez aquela foto ficasse bonita, de qualquer forma, descobriria amanhã de manhã, isso porque estou dando um prazo grande para os fofoqueiros divinos.
O primeiro casal entrou em um carro preto, que logo saiu dali, dando espaço para que outro viesse nos buscar. Iríamos para a festa de casamento, que eu não fazia a mínima ideia de onde seria. Eleanor entrou primeiro, e eu a ajudei com o vestido, mesmo que várias ninfas tivessem vindo correndo para ter o prazer de ajudar. Lancei-lhes um sorriso e entrei logo depois que minha esposa se ajeitou.
Esposa. Essa palavra martelava insistentemente em minha cabeça, fazendo com que toda a minha mente se enevoasse com a confusão que aquilo causaria. Meu pai já havia me falado “Dê adeus a sua antiga vida, Adam. Você não é mais um moleque e agora assuma as suas responsabilidades”, e só agora que a ficha havia realmente caído.
— Achei que seus olhos eram azuis. – ouvi a voz de Eleanor dar forma às palavras.
— E eles são. – a encarei.
— Não. Seus olhos são de um tom de cinza tão escuro que se aproximam do preto. – parecia que a loira queria ver a minha alma através de meus olhos, de tanta intensidade que ela colocava no ato de um simples olhar. – Cinzas como um céu antes de uma tempestade. – murmurou.
— Porque é um céu antes da tempestade. – sorri fraco. – Eles meio que mudam de cor junto com meu humor. – dei de ombros. – Não sei o motivo e muito menos controlar, mas é assim desde que eu era bebê.
Ela sorriu, enquanto me olhava com a cabeça levemente inclinada para a esquerda.
— É bem legal. – disse e eu ri baixo, murmurando um “obrigado” em seguida.
— Por que você riu? – indagou e eu a encarei com o cenho franzido. – Quando me beijou. Por que riu?
A simples pergunta já me fez sorrir torto e a garota cruzou os braços.
— Porque você tem gosto de baunilha. – alarguei o sorriso e observei a loirinha ficar vermelha como uma pimenta malagueta. Mas logo ela voltou a sua cor normal e me encarou com um olhar de desafio.
— E você tem gosto de menta. – me encarou com um olhar superior, como se houvesse ganhado a discussão.
— Touché, docinho. – provoquei somente para ver as bochechas da garota ficarem rosa.
Depois de alguns segundos, um longo e alto suspiro pode ser ouvido dentro do carro, e ele partia de nós dois. E ao desviar o olhar do teto do carro para frente dele, quase agradeci aos deuses pela divisória que nos separava do motorista que estava ali, ou seria capaz de ele descobrir que nosso casamento é uma farsa só ao ouvir essa nossa primeira conversa.
Deixei minha mente se perder em linhas de pensamentos aleatórios enquanto eu jogava a cabeça para trás e fechava os olhos pelos poucos minutos que me restavam sozinho em um lugar com uma pessoa para quem eu não precisava mentir.
Quem sabe esse casamento não dá certo? Não vamos precisar mentir. Ela sabe que eu não queria me casar, porque ela também não queria. Ela sabe que sou um semideus, porque ela também é. Então, pelo menos em casa eu não vou ter que viver uma farsa.
Se ignorarmos os vizinhos, parentes, paparazzi e conhecidos. Ah, e essa aliança no meu dedo que parece pesar uma tonelada. Espero que com o tempo eu me acostume, e essa não seja uma mentira que nos contam como “Com o tempo você acostuma a acordar cedo”. Essa foi a pior que já ouvi.
Senti o carro parar e abri os olhos, e olhei em volta. Pela janela já dava para ver várias pessoas andando pra lá e pra cá. Respirei fundo e quando fui abrir a porta, já haviam feito isso para mim. Quando saí, estendi a mão para ajudar Eleanor, que aceitou de bom grado.
Vi duas garotinhas virem correndo graciosamente, e elas usavam vestidos delicados, tão delicados que pareciam muito com as flores que cresciam nos jardins espalhados pelo Olimpo. Quando chegaram mais perto, constatei que os vestidos eram de fato como flores, pois eram feitos das pétalas das mesmas. A menininha de cabelos castanhos e encaracolados usava um vestido lilás, e a ruivinha um rosa. Pareciam irmãs, e ao longe estava sua mãe, as observando. Uma ninfa que se parecia muito com as meninas.
As garotinhas olharam para Eleanor, totalmente ansiosas e com os olhos cheios de expectativa, para então perguntarem se podiam ajudá-la com a cauda do vestido. Acho que ela não conseguiu negar, tampouco queria, creio eu. E assim caminhamos para dentro do salão da festa, com as duas menininhas nos acompanhando.
Passamos pela porta do salão de festa e me deparei com mais pessoas do que havia visto do lado de fora. Todos se deslocaram para lá em uma velocidade impressionante, e outros ainda chegavam. Afrodite veio em nossa direção e nos puxou para onde estavam tirando as fotos. Quando as garotinhas acharam que era a hora de irem embora, Eleanor as impediu, pois fez questão de tirar várias fotos com as crianças. Eu não pude negar, então fomos para a sessão de fotos infinita, com vários olhares nos seguindo.
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