Marrow
1 My Fires burn within Breanna's Marrow
Notas iniciais
Breanna Ashworth não aguentava mais posar para aquele retrato estúpido.
“Que merda de pensamento para se ter, é o retrato do meu casamento.”
Uma mera formalidade para selar uma relação cheia de conveniências desprezíveis. Breanna revirou os olhos. Estava se enganando novamente. Era uma transação, não um casamento.
Os olhos da pintora desviaram da tela para ela por um rápido instante, logo voltando ao trabalho. Seu noivo tinha dinheiro suficiente para pagar um quadro do próprio Anton Sokolov, mas o grande gênio nem respondeu sua tentativa de contato. Não foram ignorados por completo; a aprendiz de Sokolov, Delilah Copperspoon, estava na entrada da mansão àquela manhã, com todos os seus materiais à mão e uma disponibilidade inquisitiva. Ela não parecia que aceitaria um não como resposta. De qualquer forma, a preferência por Sokolov era puro capricho, nenhum deles dava valor algum ao retrato que simbolizava a união, então o artista não era uma questão de muita importância.
As duas famílias que estavam para se unir eram bastante tradicionais, e tudo ligado ao casamento evidenciava isso. Ninguém tinha perguntado nada a Breanna antes de anunciarem aquele noivado. Ela era uma vantagem para uma boa família. Devia ser bonita e educada, e se prender pelo resto da vida ao noivo escolhido por seus pais. Pelo resto da vida dele, no caso, pois ao menos uma coisa boa vinha do fato de seu noivo ter três vezes a sua idade. Pela primeira vez nas horas em que estavam posando, Breanna sorriu com o pensamento, mas logo voltou a realidade, sabendo que mesmo que o banqueiro fosse velho, ainda teria tempo suficiente para ir em seu quarto no meio da noite e tatear seu corpo com aquelas mãos que Breanna já fazia esforço para segurar publicamente.
A ideia lhe encheu de asco e o sorriso rapidamente desapareceu. Lamentou que a pintora provavelmente não tinha lhe visto sorrir, embora não soubesse porque se importava com isso. Gostaria mesmo que sua imagem no quadro não expressasse nada além de luto, pois se pudesse, subiria ao altar trajando preto. Mas quando levantou o rosto, o olhar de Delilah estava sobre ela, com um ar satisfeito como se o tempo inteiro estivesse esperando vê-la sorrir. E também malicioso, como se conhecesse seus devaneios mórbidos.
Breanna demorou sua atenção na mulher. Seu noivo era o centro do retrato, como normalmente acontecia, e ela estava apenas a seu lado, uma nova aquisição para a família do senhor banqueiro. Por que então Delilah a observava com tanta atenção, tanto interesse? Breanna era a noiva, mas não era, de fato, importante assim. O retrato ficaria bom o bastante mesmo que ela só tivesse lhe visto uma vez. Não tinha nada de memorável ou digno de se olhar mais do que isso. Mas Delilah mal tinha dado atenção ao banqueiro mesmo quando a receberam em casa. Breanna tinha bebido uma ou duas taças de vinho de Tyvia no começo da manhã, para aguentar a provação tortuosa do retrato com o braço entrelaçado com aquele homem que era menos que um conhecido para ela, mas não tinha bebido o bastante para imaginar coisas assim.
Aquela mulher estava ali por ela. Poucas vezes pôde dizer o mesmo de qualquer um.
Breanna não devia ter pensado no vinho. O que ela não daria pelo resto da garrafa… Sentiu as pontas dos dedos acumularem gotículas de suor pela ansiedade. Estava sendo controlada, mas à noite seria a festa celebrando o acordo do noivado, e não poderiam impedi-la. Que os vinhos fossem bons, pois a companhia não seria. A festa era mesmo aquela noite ou seria na noite seguinte? A dúvida lhe causou um arrepiou discreto, mas isso, também, não passou despercebido para a pintora, que pôs de lado o pincel com um ar atencioso.
— Não parece muito bem, Lady Ashworth. Seria bom uma pausa, para que os senhores possam descansar um pouco.
— Ela está bem. Por favor, continue.
— Lady Ashworth – Delilah começou, sem prestar atenção à ordem do noivo – parece um pouco pálida. Estamos aqui há horas, façam uma pausa para comer alguma coisa e logo continuamos.
O banqueiro inspirou profundamente. Era desconcertante como aquela ninguém agia como se estivesse no controle.
— Deve ser seu primeiro trabalho para agir com tanta irreverência. Espero que ao menos sua técnica agrade mais que sua conduta, senhorita Copperspoon. Deveria ser Sokolov aqui.
Delilah disfarçou um sorriso afiado, fechando suas tintas e limpando os pincéis.
— Alguém como Sokolov certamente conhece formas melhores de desperdiçar seu tempo. Serviços como esse apenas desperdiçam o tempo de pessoas como eu.
Apesar do tom tranquilo, a resposta quase provocou uma discussão. O banqueiro a olhou com ar ofendido, aquela mulher vinda de lugar nenhum ousava zombar da oportunidade de trabalhar para uma boa família pertencente à nata de Dunwall. Antes que ele dissesse algo, porém, Breanna apoiou-se na poltrona com um ar cansado.
— Eu gostaria de uma pausa. Não comi nada desde que acordei.
Ele suspirou, contrariado.
— Voltamos em 15 minutos.
— 30 minutos – corrigiu Delilah, antes que ele saísse e as deixasse sozinhas.
Breanna achou graça na forma como ele fugiu sem responder. Poucas vezes o viu sem a última palavra. Apesar de não estar mentindo ao dizer que não tinha comido, Breanna não deixou a sala. Vagou sem rumo pelo lugar, com as mãos nos bolsos da calça branca, porque se saísse poderia encontrá-lo ou a alguém de suas famílias, e não estava com disposição para isso agora.
— Acho que não os parabenizei pelo casamento…
— Poupe suas felicitações.
— Eu estava pensando mais em condolências.
Breanna deixou um riso escapar. Novamente, Delilah pareceu satisfeita com aquela pequena expressão descontraída.
— Gostaria de ver o que estou pintando, Lady Ashworth?
— Breanna – corrigiu um pouco rápido demais. Foi a vez dela sentir o coração acelerar com o sorriso que Delilah abriu.
— Breanna. Acho que vai gostar.
Ela duvidava, mas depois de ouvi-la dizer seu nome daquela forma, preferiria vagar eternamente pelo Vazio do que apressar o fim daquela conversa. Aproximou-se com hesitação, mas mesmo de relance percebeu que o quadro mostrava uma cena muito diferente da que acontecia na sala minutos antes.
Na pintura, Breanna estava sozinha. Em vez das roupas delicadas e da aparência subserviente, sua postura era firme, confiante. A arte era exuberante, tons fortes se misturavam no fundo como se um fogo sobrenatural a cercasse, sem tocá-la. Breanna estendeu a mão para a tela, mas não chegou a tocar. Apenas admirou. Era lindo e forte, e com certeza não era ela.
— Você gosta do que vê?
— Eu nem sei o que estou vendo, mas com certeza não sou eu… – murmurou, afastando-se. Não estava decepcionada pelo que o quadro mostrava, mas por não ser daquela forma.
— Por que tanta pressa em destruir o que você pode ser? Posso lhe contar um segredo, Breanna? Eu tenho um talento para enxergar o melhor em cada coisa. Posso ver cada detalhe, cada força e cada ponto fraco. E eu só precisei pôr os olhos em você para saber do que você é capaz. – O tom de sua voz, a mão tocando seu braço. Breanna sentia que não poderia deixar de ouvi-la nem se quisesse. Delilah a segurou pelos ombros, virando-a novamente de frente para a tela. Sua voz era quase um sussurro, e agora Breanna tinha certeza que Delilah sabia cada pensamento que passara em sua mente durante as últimas horas. – Eu sei o que você faria se tivesse a oportunidade.
Breanna engoliu em seco.
— Quem é você, de verdade? – perguntou, mas não estava com medo. Na verdade, ainda olhava para o quadro. Delilah lhe parecia misteriosa e enigmática, e também algo mais. E então, Delilah dizia que a enxergava daquela forma. Como alguém firme, alguém capaz de provocar medo em vez de apenas sentir. Alguém que poderia andar pelas chamas de um incêndio sem nunca ser vitimada por elas, ou melhor, alguém que era parte das chamas.
Delilah riu atrás dela, e Breanna ouviu sua voz próxima dizer:
— Você pode vir comigo e descobrir.
Breanna não tinha a menor ideia do que sairia caso tentasse respondê-la, então manteve os lábios bem fechados. Ouviram o som de passos no corredor, do banqueiro que retornava.
— Não está pronta para olhar para ele de novo? – Delilah perguntou, fazendo Breanna se perguntar novamente se suas emoções eram assim tão transparentes. Delilah fez um gesto lento no ar, como se apresentasse uma grande obra, e diante de seus olhos o mundo se acinzentou, estático, o próprio ar parecia congelado. – Permita-me fazer uma gentileza. Esse nosso momento pode durar um pouco mais.
— Isso é… – Várias palavras passaram pela mente de Breanna, enquanto encarava com assombro a pintora que agora lhe parecia uma criatura de outro mundo. Magia. Poder. Força. Mas uma palavra acima das outras a fez ter vontade de rir.
Herético.
Uma mansão de família cercada pela vigilância dos Supervisores, e uma bruxa marcada pelos favores do Estranho conseguia entrar pela porta da frente. Os bons fiéis eram cegos demais para enxergar poder quando o encaravam de frente, e isso se aplicava a ela também, ela reconhecia. Sua família sempre seguiu bem as Estrituras, mas seu sangue esquentou e correu mais rápido ao perceber que a heresia do Vazio a observava com olhar desejoso tanto quanto ela havia desejado seu poder.
Delilah sabia que já tinha lhe conquistado, Breanna pôde ver. Mesmo assim, a pintora – a bruxa – lhe deu tempo para responder. Conforme o tempo voltava a escorrer pelas paredes e Delilah abria novamente suas tintas, ela lhe falou:
— Somos parecidas, Breanna. – Então Breanna percebeu que todas as vezes em que ela lhe chamou de Lady Ashworth não passaram de brincadeiras, o título era vazio de significado e respeito na língua de Delilah, pois nunca Breanna Ashworth esteve acima dela. A verdade era o oposto, Breanna quem deveria olhar para cima ao falar. – As chamas que eu alimento queimam dentro de você, eu vejo isso. E eu desconfio que você provocaria o mais belo dos incêndios se deixasse o fogo se alastrar.
— Vamos logo com isso – disse o banqueiro, entrando novamente no recinto.
O resto da sessão correu sem interrupções, mas o semblante de Breanna estava muito mais suave, e o sorriso, mais natural, conforme permitia entreter sua imaginação com a tentação de Delilah.
Sequer olhou para a pintura no final, tudo em que conseguia prender sua atenção era no fato de que ela estava indo embora, levando consigo a escolha que lhe dera. E quando Delilah não estava mais presente, quando seu noivo já tinha partido para afazeres mais interessantes, quando sua família jantava com a dele, ansiosos pelo que o casamento proporcionaria aos dois lados, Breanna desejou que as chamas fossem literais, desejou que aquela mansão inteira sucumbisse às cinzas, pois era melhor do que o frio daquele abandono velado.
Só uma coisa a faria se sentir quente como os vivos novamente. Breanna já estava bêbada ao chegar na sua festa de noivado, lutava com as próprias palavras e se apoiava nas paredes, e pareceu achar graça de como mesmo sendo a noiva, ninguém se atentou a ela mais do que o cordial ou se aproximou o bastante para sentir o cheiro do álcool em seu hálito ou o que havia derramado em suas roupas.
Ninguém olhou para ela como Delilah tinha olhado. Como se ela fosse capaz de algo grande, como se cada um de seus ossos e cada gota de sangue, sua própria essência fosse um inferno contido sob uma camada de delicadeza servil.
Talvez não fosse engraçado. Talvez só tivesse rido em sua própria mente, pois sentiu lágrimas no rosto. Emoção de noiva, justificou aos poucos que perguntaram, e que não perceberam a acidez em sua resposta. Mas ao menos escapar para o jardim foi algo fácil, sendo tão sem importância, e logo ela tinha escapado para mais além. Breanna observava o Wrenhaven River abaixo da ponte, o assovio do vento em seus ouvidos abafando os sons da festa que preenchia todo o Estate District.
Breanna não gostava do rio. Ela sabia que um dia acabaria no fundo dele por vontade própria, quando deixasse de ser uma covarde que só reunia coragem o bastante para encarar seu futuro refletido nas águas escuras quando tinha mais álcool do que sangue em suas veias. Mas pela primeira vez, não viu seu reflexo lamentável afogado naquela grande serpente, desafiando-a a pular. Talvez não abreviasse seu infortúnio. As Estrituras eram claras sobre o que a aguardaria no Vazio, e aqueles pensamentos, diziam os Supervisores, eram mentiras do Estranho testando suas fraquezas.
Dessa vez, ela riu audivelmente, apesar de não ter ninguém na ponte para ouvi-la. Que ironia, a primeira vez que as forças do Estranho se manifestavam de forma inconfundível para ela, era também a primeira vez que ela enxergava algum futuro para si mesma além de uma morte adiantada em um leito gelado e sombrio. Delilah lhe mostrou um futuro construído pelo fogo em vez de erodido pela água. Ela tinha visto a magia parar o tempo, aquilo era poder real, algo que dinheiro algum poderia comprar, e Delilah estava disposta a tê-la ao seu lado e compartilhar o que sabia.
Breanna soube que não tinha uma escolha. Desde a primeira palavra de Delilah, ela já tinha aceitado sua proposta. Nem que fosse para experimentar aquela força por um único dia, ela passaria o resto da vida dedicada a agradecê-la.
Mas não naquela noite.
Naquela noite, Breanna olhou para o rio uma última vez e retornou para a festa, sentindo que o vento levava embora os pensamentos nublados pelo álcool, e a determinação lhe deixava mais atenta e mais precisa enquanto agia escondida.
As chamas que tragicamente consumiram a mansão àquela noite não se alimentavam de magia.
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