Marrom como deve ser
1 Marrom como deve ser
Notas iniciais
Eu havia me esquecido do quanto o caminho era longo. Por um segundo, era como se nosso lugar nunca tivesse existido. Eu desconhecia o caminho estreito de terra, a ausência de asfalto que sujava meu carro recém-limpo. A placa indicando o nome da chácara ainda viva, como se nada tivesse acontecido. Queria muito ser como essa placa, que vai continuar achar, para o resto de sua existência, que nós não morremos.
Sim, é assim que eu me sinto. Ainda mais depois de cruzar os portões de madeira ao som de Wish You Were Here, do Pink Floyd. A música perfeita para se lembrar dela – e dilacerar meu coração. Para negar meus sentimentos atuais, mentir cruelmente para mim mesma, só porque desejo ter a mesma força que ela parece ter. Aquela força que a leva para bem longe. E aquela força que não se aplica em mim. O máximo que acontece, quando não recuo, é a inércia.
Seu Gerônimo, o caseiro, me vê antes mesmo de eu descer do carro. Ele acena sorridente, como se este fosse um dia comum. Ajeita seu chapéu, e vem até mim a passos demorados. A vinda dele parece uma eternidade, e chega até a me irritar.
― Dona Flávia, boa tarde! – aperta minha mão animadamente. Faz três semanas que eu não apareço.
― Boa tarde, seu Gerônimo. – cumprimento-o de volta, mas faço questão de que o momento seja curto. Sendo assim, me dirijo até a entrada da grande casa.
Ao subir os três degraus da pequena varanda, faço uma anotação mental para lembrar Gerônimo de chamar alguém para consertá-los. Um deles quase se engancha no meu pé. Giro a chave com certa dificuldade; não sei se é porque fico nervosa com o fato de estar num lugar tão Alexia, ou se é porque sinto que Gerônimo está bem atrás de mim, certamente com uma cara de “o-que-aconteceu-?”. Definitivamente não quero explicar nada. Não quero nem ouvir minha voz.
Deixo as chaves na comprida mesa ao lado esquerdo da porta, onde ficam vários porta-retratos. O lado restrito, que apenas posso olhar quando estiver emocionalmente e fisicamente bem. A maioria deles abrigam fotos minhas com Alexia. Sigo reto, e paro na cozinha. Abro o armário e franzo o cenho em surpresa. Ela esteve aqui. Está abastecido de comida. Muita. Não tem problema. Estou sozinha, ou quase, e pelo menos posso aproveitar para comer algo – o que eu queria mesmo fazer quando cheguei ao cômodo.
Acho uma caixa de chá de hortelã, e é exatamente isso que vou tomar. Com rosquinhas. Não é exatamente a melhor marca, o que é horrível. Isso lembra-me que eu sempre tive problemas em convencer Alexia a comprar do melhor, porque ela sempre foi acostumada com o mais simples. Fora criada assim, ainda que o pai tivesse tanto dinheiro que poderia encher um poço com notas de cinquenta reais. Talvez ele só queria se assegurar de que a filha não fosse arrogante demais. Coisa que ela nunca foi, nem por um segundo. Diferente de mim.
Gerônimo para na porta da cozinha, apoiado no vão, com braços cruzados. Me olha de forma inquisitiva; sinto sua árdua batalha interna, ele quer me perguntar. Quer saber de tudo. Mas eu digo não com a cabeça, o suficiente para que ele faça uma cara de frustração e saia do cômodo. Um alívio percorre meu peito, um frescor me permite respirar despreocupadamente.
Meu biscoito perde o gosto, porque o chá é mais forte. Que droga. Saio pela porta dos fundos, ao lado da geladeira. Desemboco na horta, que está cheia, pronta para a colheita. Mas continuo caminhando, até encontrar o lago. Entretanto não é como se ele fosse me trazer paz.
― Ei, cuidado! – gritei quando quase caí na água, enquanto estava me equilibrando nas pedras que cercavam o lago que Alexia sabiamente projetou.
― ‘Tá com medo de cair, é? – Alexia segurou meus braços, paralisando-me. Carregava um sorriso travesso que, juntamente com sua voz rouca, eram-me um veneno. Veneno que eu sucumbi.
― É só que... – fui interrompida com um beijo.
Vida real. Vida real, chamando.
Ouço o movimento ocasional da água, e são alguns peixes vivendo. Diferente de mim. Até os peixes vivem melhor do que eu. Numa boa.
Continuo seguindo, e paro no meio do caminho para sentar. Pausa curta, porque a vontade de ir até aquele lugar é maior. Sádica como sou, quero testar uma coisa. Sou trouxa mesmo, sempre fui, e sei que isso é absurdamente inevitável. Ainda mais quando vejo o que eu quero ver. Uma pequena área cercada, onde costumava-se treinar alguns cavalos. E foi exatamente aqui em que eu a vi pela primeira vez. Imponente, montada em Midas, aquele cavalo que ela nutria um amor sem medidas, pois acompanhara o crescimento dele.
Ela me percebeu logo minha presença, e encarou-me por longos minutos. O cavalo continuava a rodear, percurso aprendido com poucas dificuldades, pois era sempre um animal disciplinado. Os olhos dela acompanhavam minha fixidez. Até seu pai a chamar:
― Alexia! Traga o Midas ‘pra cá! O veterinário chegou.
Ela saiu de seu possível transe e do cavalo, conduzindo-o por terra, apenas com um toque delicado no rosto do animal. Beijou-o e o entregou para o pai. Me preparei para fazer o caminho de volta, e encontrar meu pai dentro da casa. Comentaria com ele minha fascinação pela disciplina de Midas, e por ter visto, pela primeira vez, um cavalo de perto.
― Fica tranquila, eu não mordo. – senti meu corpo em pane. Alexia andava a meu lado, sorrindo. Reparei melhor nela. Chapéu social branco com uma fita azul marinho, polo vermelha por dentro de jeans preto e botas de bico fino mostarda.
― Jura? – meu inconsciente falou primeiro, divertidamente, antes que eu pudesse analisar minha resposta.
― Juro. Você é filha do Homero, não é?
― Sim, eu sou.
― Nossos pais são amigos. Acho que você percebeu que sou filha do Ulysses. Meu pai é um bobão, deve ter falado muito de mim para o seu. E você deve saber algo sobre mim.
Pior que eu não sabia. Sabia apenas que o Ulysses, colega de jardim de infância do meu pai, tinha uma filha, a única. E que ele comprara um potro para ela, alguns muitos anos atrás.
― Sim, eu percebi. Mas nunca ouvi mais do que ele tem uma filha. Que é você, claro.
― Obviamente. – ela concordou sorridente mais uma vez. Sorridente não. Talvez essa palavra fosse banal demais para a situação. Acho que “iluminada” seria mais apropriado. – Então, para desencargo de consciência, meu nome é Alexia. – ela estendeu o braço, pedindo meu cumprimento. – Economiza tempo, sabe. Você não vai ficar uma eternidade tentando adivinhar meu nome.
― Eu já sabia. Seu pai gritou. – sorri, quer dizer, iluminei-me.
― Mas eu não sei o seu. – ela meteu-se na minha frente, passando a andar de costas. Arqueou a sobrancelha, com um sorriso claramente pretensioso.
― É Flávia.
― É bonito.
Bonito é o cacete.
― Bonito é o cacete. – experimento falar. Ouvir minha voz não parece tão ruim. Ouvi-la dizer “bonito é o cacete” é reconfortante. Por isso, repito: ― Bonito é o cacete.
Continuo a repetir, e quando me dou conta, estou possessa, batendo uma enxada na terra. Uma nuvem de poeira se forma, e irrita meu nariz. Mas continuo a bater, a espancar. Desculpe, Mãe Natureza. Bato, bato e bato. Meu jeans claro fica marrom com rapidez.
Ah, não. Marrom.
Alexia cuidava da horta. E eu apenas a observava, como sempre fiz. É que meter a mão na terra nunca foi meu forte, e eu era desajeitada demais para cuidar de coisas tão frágeis e delicadas como plantas.
― Por que você só fica me olhando? – ela se virou, me encarando, ainda agachada. – Você nunca demonstra muito interesse. – sua expressão carregava um pingo de frustração.
― Porque eu não sou tão boa quanto você. Sério, sou meio bruta.
Alexia se levantou, e com as mãos sujas de terra, agarrou meus dois braços. Sua mania: garantir que sua ouvinte não fugisse enquanto ela não falasse o que tinha para falar.
― Eu te ensino. – e puxou-me para agachar junto com ela. Assim o fiz, de livre e espontânea vontade, o que foi bem estranho.
Ela se instalou atrás de mim, e senti que apoiou seus joelhos no chão, para me dar mais segurança. Pegou minhas mãos, e comandou meus movimentos. Tornei-me uma pessoa delicada, e consegui fincar uma muda no chão.
― Parabéns, você conseguiu. – ouvi. – Nem foi tão difícil.
― Foi não.
Ela me forçou a olhá-la. Passou seu dedo na terra, e traçou duas linhas em cada uma das minhas bochechas. Depois na testa, e no queixo. Nos meus braços, na minha baby look branca. Tudo ficou marrom. Firme. Consistente. Senti sua felicidade com meu silêncio. Não reclamei, e isso foi bastante positivo. Era como se não reclamar da sujeira, da terra, do lugar onde ela passava boa parte dos finais de semana, fosse um pré-requisito para estar com ela.
Era minha vez. Fiz a mesma coisa. Meti a mão na terra, e a passei por toda a sua camiseta de mangas dobradas. Controlei a quantidade de terra em seu rosto, mas nada delicado como as listras que ela fez no meu. E passei mais em sua roupa, até ficar completamente imunda. Ela riu alto, e me derrubou, ficando por cima de mim.
― Ganhei. – e disse.
Beijou-me, invadindo minha boca com voracidade e paixão. Sem pedir licença, sem selinho antes de tudo. Apenas implorou pelos meus lábios. Parou com os movimentos, gradativamente, e mendigou ar quando desvencilhou da minha boca. Olhou-me nos olhos, e sorriu.
― Quer namorar comigo?
Sim. Eu namorei com ela.
Me dou conta de que parei de cavoucar a terra. Largo a enxada, que cai, e retomo o caminho de volta. Passo, dessa vez, por outro lado, cujo tem uma pequena ponte que atravessa o lago. Entro na casa, pela porta dos fundos ainda aberta. Guardo as rosquinhas abandonadas num pote, e coloco em cima do balcão. Alexia saberá que eu estive aqui. Devolvo a caixa do chá ao armário. Lavo minha xícara.
Vou para a sala de estar. Mais uma vez, visualizo o passado. Alexia bem ali, perto da estante, pegando um vaso decorativo para atirar na parede mais próxima de mim. O desejo em me acertar formigava em suas mãos, tenho certeza.
― Olha a merda que você fez, Flávia! Eu não acredito! – ela tampou a boca com as costas da mão, andando de um lado para outro. Até que parou. Me olhou. – O QUE VOCÊ FEZ COM NÓS? – vociferou, com rosto vermelho, e olhos molhados e inchados. Não parou de chorar nem por um instante. Assim como meu arrependimento não parou.
Fui a uma festa. Fiquei bêbada, ainda que eu tivesse tentado controlar minhas doses. Os três xotes de tequila foram demais para mim. O controle sob meu corpo foi embora, e minha fidelidade também.
― Eu errei, eu sei. – respondi calmamente. Se ela era ventania, eu era brisa. Alguém precisava encontrar equilíbrio.
― Errar é pouco! Errar são meus cálculos em matemática! O que você fez foi desrespeito! Você cuspiu em tudo que representávamos! – e jogou um bibelô dessa vez. Passou muito perto.
Sou um poço de nostalgia. Uma imensidão de lembranças. Um barril de choro. Um mar aberto de questionamentos sobre a suposta sanidade e respeito que eu tinha pela minha (ex) namorada. Não me conformo. Não acredito. Não suporto.
Volto para horta, e fito mais uma vez o marrom dela. Como era possível, eu, uma mulher cheia de frescuras, ter gostado tanto de rolar na terra? E agora odiar as lembranças do fato? Pior ainda é perceber que esse ódio não é oriundo da minha frescura. É do meu amor, sufocado dentro do meu peito, num ato quase que homicida.
O afeto que faz meu coração descompassar finalmente caminha para a garganta; eu deveria gritar, mas de alguma forma isso não é possível. Apenas rosno, e sinto o sentimento vir chão abaixo. Eu também vou, caio de joelhos. Cravo meus dedos na terra, na cor que eu odeio. O marrom que deveria nos representar, e que não mais representa; esta cor é sobre conforto e calma, ao passo que traz a sensação de estabilidade, qualidade e seriedade. Ser séria e realista enquanto se conforta na calmaria.
O sangue sobe, e tenho nada que me acalme. Nada que me impeça de socar a terra. Soco. Soco por tudo que ela me representa. Representa a simplicidade que eu não tenho; a segurança que eu tanto desejo ter de volta; a calmaria que não habita mais em mim. O conforto que não sinto, nem mesmo quando me jogo na minha cama king size. Me canso, e sento, derrotada. Abro a torneira ao meu lado, e tento limpar toda a sujeira.
Saio pela porta da frente, e retorno para o lago. Fico um bom tempo fitando-o. O barulho da água me traz paz, e consigo respirar direito. Aquela sala possui más lembranças. De toda a chácara, é o lugar que eu menos gosto. Odeio, na verdade. Odeio mesmo.
Meu olhar despreocupado vai até a ponte. Meu olhar despreocupado a encontra. Sem saída, eu vou de encontro a ela, calmamente. Reviro minha mente, buscando as sentenças que guardei para dizer num momento como este. Ou simplesmente na próxima vez que eu a visse. Mas nada achei. Então, desarmada, munida de nada, cheguei.
― Gerônimo disse que você não ‘tava bem. – ela brinca com zíper do meu casaco.
Olha-me de cima à baixo, notando cada detalhe que diz: não ‘tô bem mesmo. Minha derrota é clara e estampada. No entanto, não é com pena que ela me direciona suas atenções. É com... preocupação genuína. Como se me amasse.
― Vai passar. – engulo a seco.
― Claro que vai, um dia vai. Eu quero conversar com você. Porque não quero que nós passemos. – ela começa a andar, e eu recuo. Ficamos assim até pararmos na horta, do outro lado da casa, logo depois da cozinha. – Acontece é que eu te amo. E que não importa o que aconteceu. Não mais. – sinto sua mão no meu rosto. – É preciso superar isso, já que não vou superar você. Eu quero seguir em frente.
Fico atordoada. Não sei o que dizer, pensar. Três semanas em silêncio, digerindo a situação, e ela vem e fala isso ‘pra mim. Nunca pensei que ela fosse ter esse tipo de atitude. Nunca considerei retomar nosso relacionamento. Para mim, tudo estava perdido.
Eu deveria ficar feliz. Não sei o que dizer; nada será como antes, e não vai ser tão simples reconstruir o nosso frágil castelo de barro. Estou disposta; mas me podo ao encontrar os olhares dela. Podo minhas esperanças, e suspiro.
Agacho, e passo a mão na terra. Faço duas linhas em cada uma de suas bochechas, e sinto seu rosto se abrir em um sorriso. Sorrio de volta. Tomo seu rosto com as minhas duas mãos. Fito-a do modo mais profundo e exigente possível. Exijo ver sua alma. Exijo chegar perto. Exijo ser dela. Ser sempre dela, e nada mais.
Alexia não resiste à nossa aproximação, e me beija desse jeito urgente dela. Invade minha boca, agarra minha cintura. Peço ar, e nossas bocas se separam. Volto a me agachar, e a puxo junto. Nós caímos. E rolamos. Fico por cima dessa vez, e volto com os beijos. E é ela que pede arrego. Concedo uma pausa, com o cenho franzido. Ela volta a sorrir. E eu também. Na esperança de que as coisas terminem marrom, como devem ser.
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