Maroto
2 Parte 2: Remy
remy
Continuou anotando o que o professor Binns falava no silêncio mórbido da sala de aula.
O costumeiro lugar de Jamie ao seu lado estava vazio, assim como o de Liam a sua frente também estada, e era assim que Remy sabia que ambos estavam em algum lugar brigando, diferente dos outros casais, que provavelmente estavam se pegando. Jamie tinha um projeto de Poções para entregar pouco antes dos N.I.E.M’s e seria a garantia de sua entrada no curso de Medicina Bruxa, mas Liam Evans era o melhor em Poções e ambos definitivamente estavam se desentendendo no tratado de ajuda.
Mas aquelas coisas já não importavam para Remy.
Notou que se distraíra e tentou entender o que o professor dizia, mas acabou pegando duas garotas a olhando e cochichando. Passou a mão na ferida de seu rosto, o abaixando, colocando um pouco de cabelo na frente. O furo em sua camisa também não ajudava muito.
Só mais um pouco, só mais alguns meses, pensou, suspirando, voltando à suas anotações.
Após longas duas horas, a aula acabara. Juntou seu material, colocando sem sua bolsa surrada, chutando a cadeira de Pietra na mesa a frente para que acordasse. A garota loura ergueu a cabeça, confusa e sonolenta, também juntando seu material. As duas saíram da sala em silêncio, rumo Salão Principal para o almoço. Depois Remy teria Trato de Criaturas Mágicas e teria que suportar as garotas com medo dela passar sua “doença” para algum filhotinho de unicórnio.
— Serena ainda está na Central? – perguntou Pietra, amarrando suas madeixas. – Vai fazer uma semana, McGonagall tentou me parar no corredor, sorte que eu corri. Agora Jamie também foi para lá...
— Novidade. – ironizou Remy, sentando-se na ponta do banco da mesa da Grifinória. – Serena e Jamie fazem algo juntas e nós duas assistimos. Inédito.
Serviu-se, sorrindo ao ver uma torta de berinjela, sabendo que grande parte do cardápio com legumes e verduras em vez de carnes e frangos partira da conversa que tivera com alguns Elfos em uma noite de insônia, na Sala Comunal. Cortou sua carne de soja, e pegou os olhos azuis de Dorcas focados nela. Desviou rapidamente, olhando Pietra, fingindo ouvir o que dizia.
A câmera nova de Remy era fruto de quatro verões inteiros de trabalho duro, e as fotos que tem tirado como estagiária do Profeta Diário garantiriam alguns meses de sua vida pós Hogwarts, já que ela não tinha muitas esperanças de conseguir se colocar de forma fixa no Profeta, por conta de seu “probleminha peludo”. Enquanto as meninas tinham menstruações dolorosas, Remy tinha transformações dolorosas, por longos quatro ou três dias.
Pelo menos ela tinha uma boa desculpa (endometriose crônica especialmente em período menstrual) para usar a seu favor, o que não fazia ninguém (que fosse do sexo feminino) desconfiar.
— Eu não vou mais fazer isso. – disse após jogar um saco de comida doado pelos elfos na cozinha. – E se me perguntarem onde vocês estão, eu vou falar.
Serena rolou os olhos, mas Jamie manteve seu olha intacto entre os livros e o corpo estirado da Black na Central. O lugar estava mais inóspito do que antes graças Serena Black, conhecida por seu “apego” a limpeza. A garota de olhos cinzas apoiou-se no chão com os cotovelos:
— Que bicho te mordeu, monitora? – debochou.
— Vai se-
— Ei, eu já vou sair. Só precisava de um tempo pra pensar no que fazer com o time. – Jamie levantou-se antes que Remy pudesse mandar Serena para onde ela realmente merecia ir. Ignorou os olhos cinzentos afundados em olheiras e focou-se na Potter pegando a sacola lentamente. – Ele perguntou de mim?
Os olhos negros de Jamie subiram lentamente para Remy.
— Eu não vi Liam. O baile é hoje à noite, então-
— Baile do que? – Serena jogou-se no chão novamente, caçando um cigarro na imundice de papéis sujos e discos ao redor dela.
— Eu não acredito que já chegou! — Jamie passou a mão no rosto, chocada. – Eu nem tenho o que vestir! Liam sequer me convidou!
— Enfim, eu vou indo. Vou ser a fotografa da noite, então se ainda souberem o que é apoio moral com outras pessoas que não sejam vocês duas, eu vou estar lá. – Remy não se deu o trabalho de fechar o feitiço após sair da Central, muito menos preocupada com a possibilidade de alguém vê-la saindo do armário de vassouras. Estava tão exausta de Jamie e Serena que realmente, por um momento, desejou que alguém pegasse as duas lá dentro e a Central fosse definitivamente desativada.
No banho, obviamente, mudou de ideia, ela sempre se estressava daquela forma quando as duas se conectavam tão fortemente que se tornavam uma. O sentimento de ciúme e estresse viravam uma bomba relógio dentro de Remy e ela ficava daquela forma, insustentável. No dia seguinte, e apenas no dia seguinte, tentaria arrumar os nervos, reparar os estragos de tanto maltratar suas amigas, tudo para o dia seguinte, onde ela novamente adiaria tudo que tinha para fazer, e de novo, e de novo...
Penteou o cabelo castanho em silêncio no dormitório vazio, já que Pietra agora passava tempo demais com suas colegas de trabalho de DCAT com a Sonserina, e Serena e Jamie haviam se tornado uma só como de costume. Observou as paredes, o piso danificado pela convivência coletiva daquele grupo durante sete longos anos e tentou recuperar algo... A ausência de suas amigas dizia muito sobre o que sempre pensara: elas histórias, velhas fotografias. As roupas de Remy carregavam memórias de noites de Lua Cheia confusos e divertidos, suas unhas curtas coloridas traziam fabricação proibida de esmaltes, quase um contrabando em que elas foram pegas só no quinto ano, após anos burlando as leis do colégio.
Continuou sentada na cama, fitando o nada.
Colocou o vestido, já quase sorrindo ao notar que não se incomodaria quando outros apontassem, se perguntando se ela não tinha outra coisa para vestir. Aquelas coisas já não incomodavam mais.
Desceu as escadas da Hogwarts alaranjada, já ouvindo o barulho do Salão Principal. Tirou fotos de casais conversando entre as escadas, fascinada em como aquele lugar era perfeito. O clima festivo do castelo a deixava ansiosa, mas esconder-se atrás das lentes iria acalmá-la. Tirar fotografia é ser um presente invisível, um desconhecido, um observador sem história, sem função que não seja registrar o breve momento e eternizá-lo.
— Finalmente, meu par. – Liam deu um sorriso breve, esperando Remy terminar de descer os últimos degraus. A garota o olhou de testa vincada, mas aceitou o convite que o braço do garoto fazia. Ele era tão alto que ela ficava nervosa quando ficavam muito perto um do outro, o que era o caso das rondas divertidas e cansativas que davam durante a monitoria do 5º ano. – Estou bonito?
— Liam.— disse Remy, não entrando na brincadeira. O ruivo fitou o nada com um sorriso vago e os dois entraram no Salão Principal barulhento e divinamente decorado. Aquele seria o último Baile de Halloween, e não porque Remy estava se formando, mas porque ela e suas amigas fizeram o favor de proibir o baile após Serena ser encontrada fazendo coisas indevidas nos corredores durante a festança. Mais de cinco vezes.
O diretor esclareceu que o Baile se transformaria em um jantar para que se evitassem certas excitações por parte dos alunos, mas grande parte sabia que não só Serena como outros grifinórios eram os culpados do fim da tradição. E fora no último baile que Liam e Jamie finalmente trocaram o primeiro beijo.
— Por que ainda não batizaram? – indagou Liam, fazendo uma careta ao tomar um gole do ponche de suco de abóbora. – Deus, esse pessoal do 5º está devagar.
— Ausência de Serena é atestado de Baile sóbrio. – comentou, ajustando a câmera para tirar uma foto da decoração no teto.
— Por que isso tá com gosto de suco ainda? — comentou alguém não muito longe. Liam sorriu ao se virar.
— McKinnon!— chamou. – Onde estão os contatos?
O garoto louro quase no extremo da mesa sorriu com a boca cheia de suco, tirando um cantil do bolso interno de seu terno. Remy suspirou, com pouca vontade de ficar perto de Marlon, mas ele aproximou-se da mesma forma, trazendo Emmet Vance. Liam não economizou ao bebericar o cantil de Marlon, passando para Emmet. A música trocou no momento em que o garoto ofereceu o cantil para Remy, receoso, sempre em uma mistura acentuada de timidez e arrogância ao olhá-la.
— Não, obrigada. – levantou a câmera um pouco, com um sorriso sem graça.
— Ah. – Emmet matou o cantil, virando-se e acabando com a tortura que o pouco contato causou.
— Então, onde elas estão? – perguntou McKinnon.
Liam deu de ombros, então os olhos foram para Remy.
— Acho que Jamie vai aparece em breve.
Marlon sorriu debochadamente.
— Você sabe de quem estou falando. – antes que Remy pudesse responder, uma garota de cachos enfiou-se entre os garotos, com um vestido azul simples coberto pelo casaco do time.
— E aí, como estão os ponches? – sorriu Jamie, como se não tivesse brigado com todos da roda em menos de uma semana.
— Salvos.— Marlon mostrou o cantil.
— Acho que um reforço é necessário. – ela sacou uma garrafa de vodka do bolso interno do casaco, fazendo o sorriso de Marlon sumir enquanto Emmet gargalhava, animado. A Lupin não conseguiu reprimir a animação, quase transportada para os velhos tempos. Pietra apareceu após alguns goles coletivos no ponche batizado e a garota se despediu do grupo, já focando suas lentes nas pessoas dançando animadas, conversando nas mesas ou grudadas nos ponches.
BADBADNOTGOOD — Time Moves Slow
Remy virou a câmera para as aboboras decoradas, sentindo seu coração parar ao ver os olhos azuis aparecerem entre a decoração laranja. Os olhos de Dorcas pareciam globos de tão grandes e vibrantes, o que a destacava na iluminação fraca, alaranjada, quente... Não resistiu e continuou com os olhos escondidos atrás das lentes, ajustando o foco para o rosto da garota de madeixas castanhas.
Apertou o botão, abaixando a câmera sem seguida, quase sem ar.
Não pediu licença ao passar pelos corredores apertados de alunos falantes, tentando chegar ao jardim para tomar ar. Seu corpo parecia fora de controle, vibrante, suas mãos estavam dormentes quando finalmente saiu do Salão Principal.
— Lupin! – a garota apertou o passo para os corredores vazios, nervosa. – Para!
— Dorcas, o que você quer? – virou-se, irritada. – Você precisa parar de me seguir!
— Eu nã- – ela segurou o sorriso, colocando uma madeixa castanha atrás da orelha, dócil. A estrutura magra e simples da Meadowes deixava Remy nervosa, irritada, por motivos que não conseguia explicar muito bem. – Não estou te seguindo.
Ficaram em silêncio ouvindo a música do outro corredor, vinda do Salão Principal.
— Eu só queria conversar com você.
Remy respirou fundo, largando a câmera, pendurada em seu pescoço. Passou a mão em seu cabelo seco, comum, olhou Dorcas, tão presente. Não conseguia entender a tranquilidade da garota, a disponibilidade. Queria saber como ela conseguia dormir a noite sem ser perseguida pela sensação de estar cometendo um crime hediondo.
Meadowes apenas tocou o braço desnudo de Remy, com sua inocência frágil, sem desviar os olhos, firme. Como se seu coração quisesse economizar energia para eternizar aquilo, parou quando Remy grudou suas mãos nos braços de Dorcas, a beijando. As mãos pequenas de Remy apertando os braços brancos de Dorcas enquanto as mãos das garotas mexiam em seu cabelo no envolvimento beijo ansioso entre as duas mostrava nervosismo embebedado em desejo. Remy estranhava os lábios macios demais, acostumada com bocas masculinas, mas tentou se utilizar da curiosidade latente para justificar seus pensamentos contínuos na boca de Dorcas desde o fatídico dia em que os lábios das duas se encontraram pela primeira vez.
Encostaram-se na parede, ainda envolvidas no beijo.
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