Mark Hoffman: Reestruturado
1 Morte e Renascimento
O final da década de 1990 foi difícil para o experiente detetive Mark Hoffman. Foi nesse período que, durante um dia de serviço, ele recebeu o telefonema que mudaria sua vida para sempre.
“Detetive Hoffman, aqui é David Tapp. Eu não sei como dizer isso, mas é a sua irmã, Angelina. Venha para o apartamento dela por favor, é urgente.”
Hoffman parou tudo o que estava fazendo, entrou em seu carro e seguiu para o apartamento de sua amada irmã. Conforme se aproximava do apartamento, e via os carros da polícia parados ali perto, seu coração saltava pela boca. O detetive sequer preocupou-se em trancar seu carro quando estacionou, foi correndo em euforia pelas escadas do velho prédio. Ofegante, ao entrar pela porta de número 78, Hoffman vê a imagem que ficaria marcada em sua mente por toda sua vida. A de sua irmã deitada na cama com a garganta cortada.
Hoffman era conhecido no departamento de polícia como sendo um homem contido e imponente, mas naquela hora, todo o ar de ordem e disciplina que o detetive transparecia foi soprado pelos pulmões da desgraça. O homem caiu em prantos e começou a soluçar como uma criança indefesa, ajoelhado ao lado do corpo da irmã.
— Baxter, aquele filho da puta! Maldito, desgraçado! – gritava o detetive, que esboçava uma mistura de imensa tristeza com um ódio infernal.
Hoffman estava a ponto de desmaiar, seu corpo todo estava trêmulo e ele suava como um porco. Não demorou para que os policiais presentes na cena do crime levassem Hoffman até o departamento. Na delegacia, o capitão fez questão de ficar ao lado de Hoffman o tempo todo, conversando , consolando e aconselhando. Após longas horas, o capitão levou Hoffman até sua casa e lhe deu algumas semanas de dispensa. O detetive havia chorado tanto que estava exausto, esgotara todas suas energias, mal conseguira manter os olhos abertos, deitou-se na cama e dormiu profundamente por 12 longas horas.
Ao levantar-se de sua cama após uma longa noite de sono profundo, Hoffman estava desnorteado. Seria tudo aquilo um pesadelo? Estaria sua irmã viva? Ele caminhou até o banheiro, lavou o rosto e quando se olhou no espelho, seu mundo voltou a cair. No reflexo ele viu que sua camisa estava manchada de sangue, o sangue, agora seco, de sua irmã. O capitão havia lhe dado semanas de folga, mas Hoffman sabia que não ia conseguir ficar longe desse, que era o caso mais impactante de sua vida. Ele queria ir direto para a delegacia, mas sentiu que não tinha forças. Decidiu tomar um banho gelado com o intuito de se sentir revigorado, mas não adiantou muito. Quando já havia trocado de roupa, lembrou-se de uma garrafa de vinho que Angelina lhe dera de presente de aniversário, ele não tinha o costume de beber, então a garrafa ficou guardada num armário por um bom tempo. Ele não pensou duas vezes. Pegou um copo, revirou os armários atrás do vinho, e com a garrafa em mãos, sentou no sofá e começou a encher o copo e beber, dose após dose. Cada gole representava uma fração do detetive que morreu junto com sua irmã.
Quando viu que a bebida já havia lhe corroído internamente, Hoffman decidiu parar. Levantou-se cambaleando, pegou a chave do carro e partiu rumo à delegacia. Durante o trajeto, o detetive dirigiu de forma imprudente, uma vez que a bebida havia lhe prejudicado os reflexos, mas no fundo ele não se preocupava muito com aquilo, porque, de certa forma, ele queria morrer, ele precisava morrer, para então poder renascer. A chegada no estacionamento da delegacia foi dramática, o detetive acabou acertando a lanterna traseira de uma das viaturas paradas ali no pátio. Ele desligou o carro e seguiu como um leão determinado a alcançar sua presa. Abriu as portas da delegacia e soltou uma única pergunta:
— Quem assumiu o caso? – o detetive olhava para o rosto de cada um dos oficiais ali presentes. Todos eles olharam de volta de uma forma extremamente melancólica.
— Tapp – respondeu um colega.
Hoffman caminhou direto até a sala do detetive Tapp. Ao chegar em frente à porta, tomou um ar e começou a dar batidas nela.
— Quem é?
— Hoffman.
— Por Deus, entre, por favor!
Ele entrou e Tapp apontou para que sentasse na cadeira a sua frente. A sala de Tapp era bem modesta, com uma mesa próxima à uma janela, com duas cadeiras nela, a do próprio detetive, e uma na outra extremidade.
— O que deseja, detetive Hoffman? Eu pensei que o capitão tivesse lhe dado algumas semanas de folga.
— Sim, ele deu. Seja sincero comigo, Tapp. Se acontecesse com você, conseguiria ficar quieto com a bunda deitada numa cama enquanto o assassino da sua irmã está solto? Eu quero esse caso.
O detetive Tapp inspirou profundamente.
— Hoffman, você sabe qual é o protocolo, e as ordens do capitão foram bem claras. Você não está em condições para assumir esse caso. Olha só pra você, olhos inchados de tanto chorar, seu bafo fede a pinga, o que está acontecendo com você? – Hoffman adquiriu uma expressão de raiva ao ouvir isso.
— E como você queria que eu ficasse? – respondeu, levantando da cadeira e falando em um tom alto, mantendo a expressão furiosa em seu rosto. – Ela era a única pessoa que eu tinha na vida! Aí ela aparece morta e o desgraçado do marido dela some, e o que eu vejo vocês fazerem? Nada! – Ao dizer isso, o detetive dá um tapa violento na mesa.
— Detetive Hoffman! – Tapp levanta-se rapidamente de sua cadeira, dá a volta em sua mesa e fica cara a cara com Hoffman. – Quem assumiu essa caso fui eu! Acha que eu não sou capaz de cuidar dele? – disse, em tom alto e com a fala rápida. — Eu sei o quanto sua irmã significava pra você, e sei que quer ver aquele homem atrás das grades, mas para que isso aconteça, você terá que confiar em mim. Eu sei que nada do que eu disser agora vai aliviar a dor que você está sentindo, mas eu prometo fazer de tudo para que a justiça seja feita. – Tapp viu que os olhos de Hoffman começaram a lacrimejar. – Temos um acordo?
Ao dizer isso, Tapp estendeu a mão à Hoffman, que a apertou num ato de reconforto.
— Agora vá pra casa, afaste-se da bebida e preocupe-se apenas com os preparativos para o funeral. Quanto ao resto, você tem a minha palavra de que Seth Baxter vai pagar pelo que fez e pela dor que lhe causou.
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