— É bloqueio de escrita. Todo grande escritor tem um desses.

Dina deixou a cabeça pender para trás, acompanhando com o olhar um emaranhado de nuvens escuras que deslizavam serenamente pelo céu, como se não anunciassem uma tempestade. Fingia não ver a folha em branco que a encarava sem piedade, mas sentia sua presença impositiva. Sua vontade era atirar o caderno inteiro para longe e ir fazer qualquer outra coisa, mas era justamente para resistir a esse impulso que ela tinha chamado o amigo.

— Você terá uma grande ideia mais cedo ou mais tarde, se não desistir de tentar — Tom insistiu, como sua interlocutora não tinha respondido. Ela suspirou.

— Eu tenho uma ideia. Eu sei exatamente o que quero escrever. É só que quando imagino as palavras tomando forma no papel, tudo o que pensei parece absolutamente banal — ela apontou para o emaranhado de nuvens — Está vendo aquelas nuvens? Elas te dizem que está prestes a cair um temporal, são a iminência de um desastre — fez uma pausa e encarou o amigo dramaticamente — Eu segurando esta caneta sou a mesma coisa. A iminência de um desastre.

Ele repeliu-a com um movimento de mão, rindo tanto que se curvou sobre si mesmo. Dina continuou a encará-lo como se não entendesse a graça.

— Você é absolutamente maluca, Dina — ele disse — Mas tem ótimas ideias para escrever. Escreva seu desastre. A tempestade sempre agrada algumas pessoas estranhas espalhadas por aí.

— Acha que na minha escrita devo me contentar com ser admirada por algumas pessoas estranhas espalhadas por aí?

— E você por acaso escreve para ser admirada?

Ela não respondeu. Ele tinha um ponto. Ela colocou a ponta da caneta sobre o papel e deixou que deslizasse livremente, acompanhando as linhas com o olhar. Não conseguia se concentrar, por que não conseguia se concentrar? Uma brisa fria lhe beijou suavemente o rosto. Não perguntei nada, Dinorá Papillon. Talvez pergunte.

— Tenho uma pergunta estranha, Tom.

Ele, que estava enfiando a cabeça no buraco errado do suéter, grunhiu indicando que ela poderia perguntar o que quisesse. Ela hesitou.

— Deixa para lá.

— Agora me deixou curioso — ele se virou de lado no banco de madeira, questionando-a com o olhar. Ela desviou o olhar, fez uma careta.

— É. Não é nada. É bobagem — coçou o próprio cabelo e tampou a caneta — O que... O que você diria se perguntassem coisas sobre mim?

Ele ergueu uma sobrancelha, sem entender.

— Eu... Eu não sei, depende da pergunta? E que tipo de pergunta e essa de qualquer jeito?

— Eu disse que era bobagem — ela desviou o olhar.

— Não! Me perdoe. Eu só não entendi a pergunta.

— Como... Uma opinião geral. Se te perguntassem sua opinião geral sobre mim, o que responderia?

Ele voltou a sentar-se ereto na cadeira.

— Diria que é uma pessoa incrível. Eu não sei responder assim... Por que está preocupada com isso?

Dina olhou para as próprias mãos. Deslizou o indicador da mão direita sobre os calos da esquerda, cuidadosa. Não respondeu. Conseguia sentir as escápulas pressionadas contra a madeira do banco, e imaginou qual seria a sensação de suspender por ali o peso de duas asas. Qual seria a relação de peso entre as asas e o resto do corpo de uma borboleta? E de uma mariposa? Sentindo a brisa sobre o rosto mais uma vez, imaginou que fosse o vento, o vento gerado pelo bater de asas.

— Se pudesse ser um animal, qual seria?

— Dina — a voz de Tom assumiu um tom mais sério e preocupado.

— Eu gostaria de ser uma borboleta, mas acho que seria uma mariposa.

— Dina.

Ela se voltou, comprimindo os lábios.

— Você está bem? Parece meio distante.

— Não tenho dormido muito bem — admitiu. Ele assentiu lentamente.

— Insônia? Pesadelos?

— Um pesadelo — voltou-se para o amigo — Eu acho que já tinha sonhado com ele quando era mais nova. Na noite em que conheci a Anja eu o tive mais uma vez, e desde então tenho deixado de dormir quase todas as noites por causa dele. Ele sempre volta.

— A Anja? Ela tem alguma coisa a ver com o pesadelo? —Tom balançou a cabeça — Eu achei que tivesse gostado da ideia de ela se juntar a nós como amiga, mas se eu não percebi alguma coisa e for melhor, eu posso conversar com...

— Ela não tem nada de errado — Dina interrompeu — Eu a acho bem legal, na verdade. Acho que nunca tinha conseguido imaginar alguém se somando à nossa amizade, mas por algum motivo não sinto essa rejeição imediata por ela. É só que...

Ela pensou no que diria. Nem sabia ao certo como continuar a frase. Até então nem havia feito a relação entre o pesadelo e a garota, e não sabia ao certo explica-la. Na verdade quanto mais ela pensava naquilo, menos parecia fazer sentido. Não sabia nada sobre Anja, e ela própria não parecia das mais dispostas a compartilhar grandes fatos sobre si mesma. Não que Dina quisesse ficar sabendo tudo sobre ela, mas parecia haver uma aura de mistério tão grande... Mais que ouvir a história da vida dela, a garota sentia alguma vontade inexplicável de contar tudo. Narrar cada detalhe do pesadelo que a perseguia, contar sobre as mariposas e bruxas, não deixar nada de fora. Aquele impulso a deixava assustada. Nem para Tom, que era seu melhor amigo desde sempre, ela se sentia à vontade o bastante para contar esse tipo de coisa.

— É só que?

— Eu não sei, Tom — ela suspirou. Riu de si mesma — Quer saber, estou bem. Você tem razão, eu sou muito dramática. Eu vou saber o que escrever quando chegar em casa. Vamos, que a própria Anja deve estar nos esperando na lanchonete lá de trás.

Ela se levantou e começou a andar. Tom segurou-a suavemente pelo ombro.

— Você tem certeza de que está bem?

— Eu me sinto esplêndida — ela respondeu, e sentiu que era verdade.