Marioneta - Control Me!
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Deitada no telhado da escola, a olhar para o céu com fones nos ouvidos eu sorri de orelha a orelha. A minha mãe avisou-me que este tipo de sorriso pode parecer quase maléfico, mas eu não o faço em frente a ninguém, por isso não vejo problema em sorrir assim.
Olhei para o relógio, suspirei e levantei-me. Espreguicei-me, bocejei e comecei a arrumar as minhas coisas. Peguei nalguns elásticos, separei o meu cabelo a meio e fiz duas tranças em menos de cinco minutos. Tinha sido o meu pai a ensinar-me a fazê-las.
Peguei na minha mochila, gasta pelo tempo e por vários abusos, sentei-me com as costas encostadas à rede e pousei a mochila à minha beira. Quando ouvi alguém a subir as escadas, tirei o sorriso da cara e coloquei a expressão triste que tinha praticado durante horas, em frente ao meu espelho.
Quando ele entrou de rompante, eu encolhi-me, como se estivesse com medo dele. Claro que não estava. Enquanto o meu pai estava vivo, eu pratiquei judo enquanto ele estava em casa a ser mimado pelos pais.
— Eu mandei-te dizer àquela rapariga que eu já não estava interessado nela! – gritou o rapaz, para me tentar intimidar.
Eu levantei-me, peguei na minha mochila e abracei-a com força.
— Mas eu tenho medo que ela me agrida como as outras. – disse eu, com a voz tremula.
Ele não respondeu durante algum tempo. Depois levou uma mão ao bolso e tirou um par de notas.
— Isto chega? – perguntou ele, mas eu não respondi, fazendo com que ele tirasse mais duas notas do bolso – Já estás habituada a isto. Se não o fizeres, eu digo ao meu pai.
Com calma e precaução, eu aproximei-me e tirei as notas da mão dele. Depois esperei que ele saísse do telhado e fechasse a porta para sorrir outra vez e contar as notas.
Aquele pequeno jogo pagava tudo o que eu precisava. Contente, peguei no telefone e marquei o único número que sabia de cor. O único número que importava.
— Tem uma marcação para ir à cabeleireira amanhã. – disse ela, continuando depois de um pequeno silêncio – Não se preocupe. Sou eu que pago, mãe.
…
Devo começar do inicio para perceberem o que me leva a fazer isso.
Eu nasci, há 15 anos atrás, numa família normal. O meu pai trabalhava e a minha mãe ficava em casa comigo. Não tínhamos nada de extravagante, mas tínhamos o que precisávamos e eramos felizes assim.
Claro que, como num manga lamechas, tinha de ocorrer uma coisa horrível a uma família tão feliz quanto nós eramos. Enquanto estava a voltar do trabalho, no meu quinto aniversário (claro), o meu pai sofreu um acidente de carro e morreu no local.
Os médicos avisaram a minha mãe que era melhor não o ver, uma vez que ele estava em condições horríveis.
Eu chorei durante dias e recusei-me a celebrar o meu aniversário desde esse dia porque pensei que o acidente tinha acontecido porque eu tinha nascido naquele dia. Pensamentos de criança que ainda me assombram, 10 anos depois.
A nossa família (agora reduzida a mim e à minha mãe) não tinha dividas. Mas a minha mãe não tinha trabalho e não parecia conseguir nenhum tão cedo. Estava tudo a desmoronar-se até que, quase como que por “milagre”, segundo a minha mãe, a amiga dela tinha-a contactado depois de saber sobre o acidente.
A amiga da minha mãe, dos seus tempos de estudante, tinha-se casado com um gajo qualquer que era podre de rico e tinha um filho da minha idade, bastante antissocial…porque pensava que era melhor do que toda a gente.
E assim, a amiga da minha mãe teve pena de nós e convidou-nos a ficarmos na casa dela. Fizemos as malas no dia seguinte e dirigimo-nos para a casa da amiga da minha mãe que, para uma criança, parecia um castelo.
Ela ficou mais do que contente por nos ter lá, o que não era o caso do marido e do filho dela. Informou-nos que tinham três quartos livres, por isso podíamos dormir individualmente.
No entanto, uma vez que tinha pesadelos todas as noites, esse plano acabou por não funcionar. Dormi no mesmo quarto que a minha mãe durante cinco anos. Mais do que me posso orgulhar. Mas a minha mãe não protestou nem uma vez.
Quando chegou a altura de eu entrar na escola, a amiga da minha mãe insistiu em pagar todas as minhas necessidades. Claro que a minha mãe não aceitou e, apesar de pagar as propinas das escolas privadas onde me inscrevia (para acompanhar o filho dela) a minha mãe insistiu em pagar por o restante (uniforme, mala, etc).
O “eu” que sou agora rir-se-ia da pequena menina tímida e inocente que era antes. Mesmo quando o Aoi (filho da amiga da minha mãe) gozava comigo por não ter onde viver, ou por ser pobre, ou por usar sempre a mesma roupa, eu limitava-me a chorar em segredo.
Essa menina morreu quando, um dia, ele decidiu que precisava de saber beijar porque estava a tornar-se popular na escola e roubou-me o meu primeiro beijo, no meu 15º aniversário. “O meu presente”, insinuou ele. No dia seguinte, deu-me um par de notas para se desculpar por o que tinha feito.
Eu limitei-me a olhar para as notas e a chorar. Mas comecei a notar um padrão no comportamento dele. Pedir “desculpa” para aquela criança mimada era o mesmo que pagar por alguma coisa.
E então, ele tornou-se a minha marionete humana. A cada dia que passava, eu tornava-me mais manipuladora e menos inocente. Acabar com as namoradas de Aoi quando ele já não estava interessado ou ser vitimizada por outras raparigas por andar sempre com ele…não fazia diferença.
Já se tinha passado quase um ano desde que começara. Ela não tinha amigos e nunca tinha tido um namorado. Mas a única coisa que importava era a sua mãe e ela. Um dia ia tirá-las daquela casa que se tinha tornado uma prisão para ela.
— Ah, amanhã faço anos. – murmurei eu depois de levar um estalo da ex-namorada de Aoi.
Claro que a minha mãe não me ia perguntar que tipo de bolo é que eu queria ou se queria alguma coisa como prenda de aniversário. Ela sabe que eu não celebro o meu aniversário há dez anos. Não vou começar agora.
Agora só queria concentrar-me no meu próximo grande objetivo. Aoi iria querer que ela fosse para a mesma faculdade que ele, ela tinha a certeza…e isso ia custar-lhe caro.
Depois das aulas acabarem, dirigi-me para casa sozinha e fui diretamente para o meu quarto para concluir os trabalhos para o dia seguinte. Mal posso esperar para ver o corte de cabelo que a mãe fazer amanhã.
Com esse pensamento, eu fui para a cama e adormeci a sorrir.
…
Os raios de sol trespassaram as cortinas e bateram nos olhos de Akane que se abriram poucos minutos depois. Com a melhor disposição de sempre, ela levantou-se, tomou um duche, vestiu o uniforme, prendeu o cabelo em duas tranças, pegou na mochila e saiu.
À exceção da luz que entrava pelas janelas, a casa estava engolida na escuridão e só havia silêncio há sua volta, o que era um bocado estranho. Talvez estivesse atrasada, pensou Akane, enquanto descia as escadas em caracol a correr. Quando chegou ao hall da entrada, olhou para o relógio, mas foi ofuscada, quando a amiga da sua mãe ligou todas as luzes de repente.
— Parabéns Akane!
Akane ouviu as vozes, mas teve de piscar os olhos algumas vezes para se habituar à luz para ver o casal que os tinha acolhido e o filho mimado deles.
— Não sabia que era o teu aniversário hoje, Akane. – disse a amiga da mãe, com uma voz meiga – Vives aqui há onze anos e não acredito que só descobri esta semana.
— A culpa é da mãe dela. – resmungou o marido – Não diz uma única palavra e ainda se recusa a participar na festa.
— Não faz mal. Logo, quando ela chegar, vamos ter um bolo muito maior. Mas sopra as velas, por agora. – disse a mulher, apontando para o pequeno bolo com duas velas – Foi o Aoi-kun que nos disse que fazias 16 anos hoje.
Akane passou os olhos do bolo coberto com chantilly para o pirralho mimado que nem sequer olhava para ela, como se tivesse feito uma boa-ação e não queria créditos por isso.
A expressão de Akane passou de choque para ódio, espantando os presentes, que só estavam habituados à expressão inocente de Akane.
Quando ela deu um passo em frente e atirou o bolo ao chão, Aoi olhou para ela, chocado. Mas não havia rastos de infelicidade na cara de Akane. Só ódio e ressentimento.
Sem dizer mais nada, virou costas e saiu porta fora.
— O que é que se passou? – perguntou a mulher, a olhar para o bolo no chão.
— Pirralha mal-agradecida. – murmurou o homem, antes de virar costas para ir trabalhar.
— Aoi, tu sabes de alguma coisa? – perguntou a mãe, olhando para o filho, que abanou a cabeça – Vai rápido atrás da Akane-chan.
Era o que ele tencionava fazer, mas ainda tinha de vestir o uniforme e, quando chegou à escola, ela ignorou-o e evitou-o de uma maneira excelente. Quando chegou a casa, ela já tinha chegado e estava trancada no quarto.
A mãe falou com a mãe de Akane quando esta chegou a casa do emprego que tinha arranjado há um par de anos, mas esta só disse que a filha recusava-se a festejar o aniversário desde pequena. O motivo? Teria de perguntar-lhe.
No dia seguinte, Akane faltou à escola por isso, quando chegou a casa, Aoi estava à espera dela, sentado nas escadas.
— O que é que se passa contigo? – perguntou Aoi, levantando-se – Nestes dois dias…
— Já não chega de te meteres na minha vida? – perguntou Akane, passando por ele – Pirralho.
Nas semanas seguintes, a imagem que Aoi tinha de Akane mudou drasticamente. Ela continuava a fazer o que ele pedia, mas de uma maneira mais “violenta”. As outras raparigas já não a agrediam. Ela já não amarrava o cabelo e, quando ia ao telhado, já não se incomodava de se levantar quando ele chegava.
Ele tinha posto o dedo no único sitio onde ela não permitia que pusessem e por isso ela já não se dava ao trabalho de manter a imagem que agradava a Aoi. Uma menina inocente e fraca que ele precisava de proteger.
Em vez disso, quando ele lhe pedia alguma coisa, ela esticava a mão, à espera que ele lhe pagasse.
Aoi foi falar com a mãe dela, se quisesse admitir, porque estava a ficar preocupado com Akane, e contou-lhe como é que ela se comportava na escola.
A mãe de Akane disse-lhe que provavelmente a mãe dele sabia que o pai de Akane tinha morrido quando ela tinha cinco anos. Mas não devia saber que tinha sido exatamente no aniversário da filha, enquanto elas esperavam por ele, para comemorarem.
— Na verdade. – disse ela – O meu marido devia ficar até mais tarde naquele dia, mas pediu ao chefe para sair mais cedo porque a Akane fazia anos. Eu sempre achei que ela ia superar disso, mais cedo ou mais tarde. Mas já se passou tanto tempo, e ela ainda se recusa a celebrar o aniversário. Há alguns anos atrás, ela trancou-se no quarto durante a semana do aniversário dela. Ela provavelmente pensa que…foi ela que matou o pai. E que esse dia não deve ser celebrado de qualquer maneira.
Aoi achava que ela ainda era mais estúpida do que ele pensava se pensava que tinha sido culpa dela. Na altura, Aoi limitou-se a encolher os ombros. Não tinha nada a ver com ele.
No entanto, as expressões de ódio que Akane lhe direcionava sempre que ele falava com ela começavam a incomodá-lo. Ignorar. Tinha de ignorar isso tudo.
Tinha outra coisa para ela fazer, por isso pôs a história de lado e subiu as escadas até ao telhado. Mas parou quando ouviu alguém a chorar do outro lado da porta.
Não era alguém a chorar suavemente nem sequer de uma maneira “moderada”. A pessoa estava a chorar desesperadamente, como se quisesse deitar alguma coisa para fora. A soluçar e a gritar, enquanto as lágrimas escorriam pela face, quentes, sem parar.
Quando Aoi disse isso à mãe de Akane e esta disse que a filha chorava assim, de vez em quando, Aoi perdeu a paciência.
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