Marion Blanchard.
24 Estratégia
Notas iniciais

A casa no descampado da colina encontrava-se imersa em profundo silêncio. Sasuke estava deitado em sua cama, o quarto parcialmente inundado pela escuridão, sendo apenas iluminado pelos resquícios de uma vela a trepidar erroneamente no criado-mudo ao lado. A cama próxima a janela era ocupada por Naruto, deitado de forma desleixada. Do outro lado, na cama encostada a parede, ao lado da porta, estava Marion apoiada de forma incomum enquanto dormia sentada.
Fazia um bom tempo que estava daquela forma, as costas firmemente pregadas ao colchão, braços cruzados de forma a apoiar a cabeça e os olhos fixos no teto. Sasuke travava uma batalha continua com seus pensamentos enquanto ponderava sobre os acontecimentos anteriores. Pouco depois do jantar, aproveitando a presença de todos, havia falado sobre o livro que Dorank o havia entregado, explicando assim aos demais o que lhe havia sido dito. Enquanto Naruto mal parecia compreender o que se passava, Jiraya demonstrou certo interesse no objeto.
– Bem, não me parece algo que irá ajudá-lo em algo – comentou de forma displicente, o grisalho. – Mas, vindo de Dorank... Não podemos simplesmente ignorar isto.
– 'Ttebayo – exclamou Naruto –, está em branco! – Resmungou enquanto folheava o livro a procura de algo.
– Dorank disse que a menos que sejam usadas as claves, ele não revelará nada. – Respondeu o moreno entediado.
– Ótimo! – Comemorou o loiro – E onde estão?
– Espalhadas em todas as dimensões – Foi cauteloso.
– Queime-o – Disse Marion, de forma simples e direta. Estava sentada em seu lugar de costume: a janela.
– Não irei queimá-lo. – Revirou os olhos ao falar.
– Não precisamos de mais uma jornada, já temos a nossa. – Impôs a rosada.
– Está sendo muito rígida, Marion-chan – Intercedeu Jiraya.
– Precisamos de respostas, um jogo onde mais perguntas aparecem é desnecessário.
– Dorank me entregou apenas uma clave – Recomeçou Sasuke depositando o pequeno objeto de bronze ao lado do livro – Disse que seu nome é Heres. Não faço ideia do que seja.
Um curto silêncio fora espalhado pelo ambiente antes da voz de Marion ser novamente ouvida:
– É latim. – Respondeu neutra, olhando para o lado de fora – Significa “herdeira”.
– Herdeira... – Repetiu para si mesmo Jiraya, tentando ligar os fatos.
– O que está esperando para usá-la? – Questionou Naruto.
– Não sei... Penso que Dorank apenas quis pregar-me uma peça. – Confessou tímido.
– Só saberá quando tentar. – Encorajou o grisalho.
Ainda receoso, Sasuke segurou a clave de bronze em suas mãos e se pôs a analisá-la. Era leve, não emanava nem mesmo uma única vibração mágica. Era uma chave completamente igual a qualquer outra que já tenha visto antes. Estava completamente descrente quando se apossou do livro e, com a outra mão, introduziu a clave no local adequado a girando. Não sentindo absolutamente nada, moveu os olhos entristecidos para os presentes no local. Respirou fundo e tornou a abrir o livro.
Em branco.
– Viu? – Perguntou tristonho – Nada.
– Talvez só não esteja na hora certa... – Encorajou Jiraya, olhando com interesse incomum para o objeto.
– Vamos encarar os fatos – disse Marion, descendo de onde estava e parando ao lado do moreno –, você foi enganado.
– Não desanime! – Animou-se Naruto – Talvez você só não tenha feito do jeito certo.
– Que outro jeito haveria? – Perguntou conformado, levantando-se – Vou dormir, estou cansado.
Bufou contrariado, tanto esforço desperdiçado sem a mínima piedade. Deveria desconfiar da credibilidade daquele velho com dupla personalidade, tanto tempo enfurnado naquela biblioteca o fez um verdadeiro cretino.
Olhou para o lado em que Marion estava, seus olhos captando cada pequeno movimento ritmado da respiração da garota. Embora estivesse disposto a conformar-se com a situação mais cedo, algo em seu interior o fazia ater-se a tudo. Sentia que a qualquer momento explodiria tamanha era sua ansiedade.
Respirou fundo, deitando-se de frente para a guerreira e agora encarando firmemente seu rosto. Lembrou-se de cada coisa dita enquanto estavam na cachoeira. Ainda tinha a sensação angustiante de traição – rondando seu corpo, o fazendo tremer – que o havia acometido quando encostou no ombro desnudo dela. Não saberia dizer de onde vinha aquele peso, mas conhecia alguém que o poderia fazer. Não estava completamente confiante quando fechou os olhos, decidido a entrar no subconsciente de Marion, porém não se permitiu desistir.
O mesmo cenário de escuridão o saldou, revelando suas esferas de luz rondando o ar de forma orgânica. Os vaga-lumes cintilavam vivos, permitindo breves vislumbres do ambiente ao redor, entretanto sua atenção era focada no caminho em linha reta até o descampado florido, onde sabia que a garota misteriosa ainda estaria. Com passos rápidos e precisos chegou até o final da trilha, tendo os olhos ofuscados pela claridade reconfortante.
Lá estava ela, ainda sentada próxima ao lago, rodeada pelas flores. Sasuke pode sentir o ar ficar ainda mais leve quando os olhos vazios da garota foram direcionados a ele. Respirou um pouco mais tranquilo antes de mover os pés – sem pressa –, parando somente quando estava à cerca de um metro da figura feminina.
– Você conseguiu. – Afirmou neutra – Marion rendeu-se a sua presença.
– Já faz um tempo desde que vim aqui pela última vez. – Refletiu dando-se conta do fato.
– Mas agora você precisa novamente de mim. – Foi direto ao assunto.
– Como consegue falar sobre isso sem esbanjar sentimentos? – Indagou surpreso.
– Sentimentos... – Direcionou os olhos novamente para o horizonte, a voz sempre no mesmo tom passivo – Eles me foram tomados há muito tempo.
– Isso não... Parece real. – Sussurrou confuso – O que aconteceu?
– Cada coisa em seu tempo. – Relembrou.
Um breve momento de silêncio fora iniciando antes de, novamente, Sasuke tomar a palavra:
– Mais cedo, enquanto conversava com Marion sobre nossa jornada... – Exitou – Acabei ativando o elo sem que tivesse noção.
– O que viu?
– Não vi. – Afirmou mais seguro – Mas, o que senti... Por Deus! O que foi aquela sensação desesperadora? Ainda posso sentir a agonia consumindo cada canto do meu corpo! E-eu...
– Você a leu. – Revelou acariciando a rosa em suas mãos – Sentiu aquilo que ela jamais demonstra.
– Como ela pode suportar algo tão torturante? Sei que o que senti foi apenas uma fração, mas...
– Diga, você sabe o que a Marion é? – Interrompeu.
– Hn? – Seus olhos caíram para a figura sentada na grama – Ela é um demônio, certo?
– Sim. – Inclinou a cabeça para o lado, indicando a Sasuke que ele deveria se sentar. Assim que o moreno o fez, prosseguiu – Mas, o que pergunto é sobre o antes disso.
– Antes? – Olhou para o lago a sua frente, agora que parava para pensar notou que Jiraya não o havia dito nada sobre isso.
– Preste atenção aos fatos, eles o dirão a verdade. – Finalizou o assunto olhando a rosa em suas mãos.
Sasuke embora estivesse um pouco insatisfeito por não ter uma resposta direta sobre o assunto não a questionou. Sabia que a garota revelava apenas o que lhe era sábio ao momento e isso, de certa forma, o confortava. E foi assim, enquanto ainda a analisava, que algo veio em sua mente. Lembrou-se da conversa passada, onde ela havia relevado não possuir mais nome e o fantasma de um sorriso brotou tímido em seus lábios.
– Flor. – Disse em voz alta, ganhando a atenção da garota.
A garota o olhou, um pedido mudo para continuar, enquanto encarava o sorriso agora evidente estampado na face do moreno.
– Seu nome. – Apoiou o corpo nas mãos e inclinou a cabeça para trás, observando o perfeito céu azul acima – Você é tão suave quanto a rosa em seu colo, combina com você.
– Flor... – Pareceu refletir enquanto sentia as vibrações que o nome deixava em sua boca ao ser pronunciado – Eu gostei.
– Então a chamarei assim. – Brincou movendo os olhos novamente para ela.
Era estranho. Apesar de ser a imagem e semelhança de Marion, a garota ao seu lado era completamente diferente da guerreira. Seus olhos, opacos, não revelavam nada, eram como perfeitos oceanos mortos. Sua voz sempre neutra apenas reforçava o que havia dito antes sobre ter tido os sentimentos arrancados de si, contudo, algo na leveza de seu tom a fazia delicada, estranhamente viva. Era como uma brisa suave no meio de tudo aquilo.
Pegou-se imaginando como seria se Marion fosse assim, sem dúvida seria imensamente mais fácil conviver com ela, porém algo dentro dele gritou, recusando-se a aceitar tal ideia. Balançou a cabeça antes que começasse a se questionar o porquê disso e soltou um bocejo cansado.
– Volte agora. – Disse calma.
– Obrigado por estar me ajudando. – Pode sentir o ar ao seu redor tremular e a paisagem ao redor embaçar. Entretanto, antes de sumir completamente, revelou – Confio em você.
❈ ✝ ❈
A noite estendia-se em seu auge quando Hinata pousou sobre o pináculo da catedral onde havia visto Sakura, seus olhos atentos observando ao redor. Olhou para baixo, na direção do vilarejo, apenas algumas poucas tochas jaziam acesas nas paredes de uma ou outra casa. O silêncio batia em seus ouvidos com força, o vento agitava seus cabelos, o movendo em todas as direções.
Sua missão havia tido inicio, não podia falhar. Fechou os olhos e concentrou-se, precisava localizar a direção que Sakura havia tomado. Seria uma tarefa trabalhosa. Podia não ser tão habilidosa quanto a ex-comandante, mas ainda sim era uma ótima rastreadora, bastava pegar qualquer resquício de energia astral e ela descobriria a localização.
O problema de verdade estava ai. Já fazia algum tempo que a tinha reencontrado, não seria complicado se fosse qualquer outro ser, porém Sakura era tão boa em ocultar-se quanto em rastrear. Com um salto preciso Hinata pousou no chão, a postura impecável. Moveu-se na direção da porta da igreja e a empurrou. Haviam duas possibilidades para a situação em que se encontrava: a primeira era que a rosada estava em algum lugar ao redor do vilarejo. A segunda possibilidade era um pouco mais pessimista, afinal, Sakura poderia apenas estar de passagem, uma mera coincidência.
Algo dentro dela alertou para o fato de não haver coincidências na situação vivida, algo como um extra sentido angelical. Faria da catedral seu posto avançado de vigilância, ficando atenta a qualquer alteração de energia. Havia decidido que uma abordagem as claras seria a melhor opção, uma vez que se esconder não resultaria em nada, sendo assim, esperar não se tornava um atraso, apenas a dava tempo para pensar em todos os detalhes de sua estratégia.
Enquanto seguia pelos corredores do local, sua mente vagava em um ritmo acelerado, focado, destemido. Sabia não ter força – tanto física quanto emocional – para um confronto direto com a rosada, isso estava fora de cogitação.
Deixou um sorriso orgulhoso, esnobe, brotar e crescer em sua face. Um fato que poucos sabiam era que, quando em uma missão, a doce e delicada Hinata desaparecia.
– Apenas espere por mim, Sakura-chan.
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