Margem do Formosa
24 Conta da Vitória
A conta depois da vitória
Quando voltaram à Fazenda Formosa, o sol já descia atrás do pomar, lançando sobre a varanda uma luz amarela e cansada. Ana carregou a caixa com o que restara da feira enquanto Seu Cícero entrou com a toalha dobrada debaixo do braço e a última bandeja de ovos equilibrada na mão.
Os dois haviam passado a viagem comentando as vendas. Seu Cícero lembrava de cada pessoa que parara diante da banca, principalmente das que tinham conhecido Augusto. Ana lembrava dos produtos, dos preços e das combinações que haviam funcionado.
Na cozinha, ela colocou a caixa sobre a mesa, guardou o último vidro de geleia perto da janela e despejou o dinheiro recebido em espécie sobre a madeira.
Notas de vinte, dez, cinco e dois reais se espalharam entre algumas moedas. Ao lado, ela deixou o celular com o total das vendas feitas no cartão.
A quantia pareceu maior fora da gaveta improvisada.
Seu Cícero puxou uma cadeira e se sentou diante do dinheiro.
— Olha só isso.
Ana alisou uma nota dobrada.
— Ainda preciso conferir.
— Nós já conferimos na praça.
— Conferimos com barulho, gente pedindo troco e Bia comendo nossas amostras.
— Ela comprou dois potes.
— Comeu o equivalente a um terceiro.
Seu Cícero sorriu enquanto Ana separava as notas por valor. Ela contou uma vez, anotou, contou novamente e acrescentou as vendas no cartão. O total bruto apareceu em uma célula do notebook:
R$ 386,00.
Seu Cícero inclinou-se para enxergar.
— Duzentos e oitenta e seis reais.
Havia orgulho na voz dele. Não muito, porque Seu Cícero parecia desconfiar de alegrias grandes demais, mas o suficiente para deixar o rosto mais leve.
— Seu Augusto voltava de feira com menos em dia bom.
Ana olhou para o valor.
Por alguns segundos, permitiu-se sentir o mesmo.
Aquela manhã começara com uma banca que ninguém via. Terminara com caixas vazias, pessoas perguntando se ela voltaria e dona Alzira levando a geleia como quem carregava uma parte antiga da cidade.
Duzentos e oitenta e seis reais não salvavam a Formosa, mas eram dinheiro que a fazenda havia produzido. Não vinha de empréstimo, contrato ou favor de Gabriel. Tinha saído do pomar, da horta, do galinheiro e da cozinha.
Era deles.
Ana abriu uma nova planilha.
Seu Cícero soltou um suspiro.
— Não pode só ficar contente um pouquinho?
— Estou contente.
— Não parece.
— A minha felicidade tem controle financeiro.
Ela escreveu no alto da página:
Resultado — primeira feira.
Na coluna da esquerda, registrou a receita. Na direita, começou a listar os custos.
O açúcar havia custado mais do que ela lembrava. O milho, mesmo vindo da fazenda, precisava entrar no cálculo; caso contrário, pareceria gratuito até chegar o momento de replantar. Os ovos também exigiam ração, cuidado e reposição. Havia o gás usado na cozinha, os sacos de papel, o barbante, os guardanapos, as bandejas, a taxa da banca e a pequena porcentagem descontada nas vendas por cartão.
Seu Cícero acompanhou a lista.
— As goiabas eram nossas.
— Eram da fazenda.
— Então não custaram nada.
Ana manteve os olhos na tela.
— Custaram tempo para colher, perda de fruta, cuidado com o pomar e o espaço que podia estar produzindo outra coisa.
— Mas não tiramos dinheiro do bolso pra comprar.
— Isso não torna gratuito. Só esconde o custo.
Seu Cícero cruzou os braços, pouco convencido.
Ana continuou.
Incluiu o combustível usado para ir até a cidade. Acrescentou o valor necessário para substituir os potes vendidos, já que os vidros reaproveitados não reapareceriam sozinhos na despensa. Calculou as tampas, o tecido que cobria cada uma e a cartolina das etiquetas.
Depois chegou ao lote de geleia queimado.
A panela havia ficado tempo demais no fogo durante o primeiro teste. O conteúdo fora jogado fora, mas o açúcar, a fruta e o gás tinham sido consumidos da mesma forma.
Ana acrescentou a perda.
Seu Cícero aproximou a cadeira.
— Aquilo nem foi pra feira.
— Exatamente.
— Então por que entrou na conta da feira?
— Porque foi necessário errar para chegar ao lote que vendemos.
A célula que mostrava o resultado diminuiu.
Dos duzentos e oitenta e seis reais, sobravam pouco mais de cem.
Ana conferiu as fórmulas.
Depois conferiu de novo.
— Ainda sobrou — disse Seu Cícero, apontando para a tela. — E tem o dinheiro na mesa.
— O dinheiro existe. Isso não significa que seja lucro.
— Tá aqui, pinguinha.
Ele tocou uma das notas, como se a presença física dela encerrasse a discussão.
Ana olhou para o dinheiro e, em seguida, para o notebook.
— Parte disso precisa voltar para a produção. Açúcar, potes, tampas, sementes, ração. Se gastarmos tudo, não existe segunda feira.
Seu Cícero retirou a mão da nota.
— Então a gente guarda uma parte.
— Ainda falta uma coisa.
Ana criou uma nova linha.
Tempo de trabalho.
Seu Cícero fez uma careta.
— Lá vem você cobrar pelo tempo de novo.
— Colhemos, lavamos, selecionamos, cozinhamos, esperamos esfriar, esterilizamos os vidros, embalamos, etiquetamos, carregamos as caixas, montamos a banca, vendemos e desmontamos tudo.
— E voltamos pra casa.
— Transporte.
Ela acrescentou.
— E tomamos café — lembrou Seu Cícero.
— O café foi da Bia.
— Então foi lucro.
Ana não sorriu. Estava contando as horas.
Somou o tempo que passara na cozinha, no pomar, na horta e separando os produtos. Depois acrescentou a manhã inteira na feira, a preparação da banca e a viagem de ida e volta.
Fizera quase tudo com Seu Cícero.
Mesmo usando um valor muito abaixo do que considerava justo por hora de trabalho, o resultado final ficou vermelho.
Seu Cícero se inclinou.
— O que significa isso?
Ana demorou um pouco para responder.
— Significa que, se a fazenda tivesse que pagar duas pessoas pelo trabalho que fizemos, nós teríamos prejuízo.
Ele olhou para as notas sobre a mesa, depois para a célula negativa.
— Mas nós vendemos quase tudo.
— Vendemos.
— E o povo gostou.
— Gostou.
— Então não entendi.
Ana passou as mãos pelo rosto. A satisfação da feira ainda existia, mas agora estava soterrada sob etapas demais.
— Nós produzimos pouco e gastamos muito tempo em cada unidade. Eu fiz a receita, pesei os ingredientes, controlei os lotes, lavei os potes, escrevi cada etiqueta, montei os preços, registrei as vendas e ainda fiquei cinco horas atrás da banca.
— Eu ajudei.
— Eu sei. Esse é o problema. O senhor também passou a semana fazendo isso enquanto a horta, o galinheiro, a bomba e o resto da fazenda continuavam precisando de cuidado.
Seu Cícero ficou em silêncio.
Ana olhou pela janela. O dia estava terminando e ainda havia caixas para guardar, louça para lavar e galinhas para alimentar. A feira tinha tomado quase todo o trabalho da semana para gerar dinheiro suficiente apenas para repetir o processo.
— Não falta só venda — disse Ana. — Falta estrutura para vender sem matar quem produz.
Seu Cícero apoiou os antebraços na mesa.
— Ninguém morreu.
— Ainda.
Ele sorriu, mas Ana continuou olhando para os números.
A venda não era o problema isolado. Também não era apenas a produção. O gargalo estava em tudo o que existia entre uma coisa e outra.
Produzir.
Calcular.
Embalar.
Divulgar.
Receber pedido.
Separar estoque.
Cobrar.
Entregar.
Registrar.
Prestar conta.
Voltar a produzir.
Ana criou uma página no arquivo, escreveu:
O que precisa funcionar junto.
Abaixo, criou seis blocos:
Custo. Estoque. Pedidos. Pagamentos. Entregas. Resultado.
Seu Cícero observou.
— Tá fazendo outra planilha?
— Estou tentando entender o que ninguém vê.
— O quê?
Ana apontou para as notas sobre a mesa.
— O dinheiro aparece no fim. Mas, antes dele, tem um monte de trabalho escondido. Se a pessoa não souber quanto gastou, pode vender tudo e ainda perder dinheiro. Se não controlar estoque, promete o que não tem. Se não registrar pedido, esquece entrega. Se não sabe quem comprou, perde o cliente.
Ela abriu as anotações da feira. Havia produtos, valores e formas de pagamento. Os nomes dos compradores só apareciam a partir da metade da manhã, depois do conselho de Gabriel.
Dona Alzira — geleia grande.
Marinalva — duas fatias.
Bia — dois potes.
Uma mulher cujo nome Ana não perguntara — ovos e alface.
Um homem que prometera retornar — cheiro-verde.
Informação incompleta. Espalhada entre planilha, caderno, memória e mensagens.
— O problema não é fazer doce — disse Ana, mais para si mesma do que para Seu Cícero. — É fazer doce, vender doce, cobrar doce, registrar doce, entregar doce e ainda lembrar onde deixei a própria alma.
Seu Cícero levou alguns segundos para responder.
— Você deixou na feira?
Ana finalmente sorriu.
— Provavelmente perto da barraca de pastel.
— Semana que vem a gente procura.
Ela salvou o arquivo com o nome Formosa — operação.
Não era uma solução. Era apenas uma lista de coisas que precisavam conversar entre si e que, naquele momento, não conversavam.
Ana dividiu o dinheiro em envelopes improvisados. Um para reposição de ingredientes. Outro para embalagens. Um terceiro para a agropecuária. O que restou para a fazenda pareceu pequeno demais depois de separado.
Seu Cícero pegou o envelope da dívida e pesou-o na mão.
— É pouco.
— É.
— Mas é nosso.
Ana fechou o notebook.
— É.
Dessa vez, a palavra não trouxe o mesmo entusiasmo da feira, mas trouxe alguma coisa mais resistente.
Eles haviam trabalhado demais para ganhar pouco.
Ainda assim, tinham descoberto por quê.
Quando Ana finalmente entrou no quarto, já passava das dez. Os braços doíam, os pés pareciam maiores dentro dos sapatos e o cheiro de goiaba continuava preso a seu cabelo, embora ela tivesse tomado banho.
Ela se deitou sem apagar a luz.
O celular estava sobre o criado-mudo. Ana pegou-o apenas para conferir o despertador, mas seus dedos abriram a conversa com o tio Augusto antes que ela decidisse fazer isso.
A última mensagem continuava ali:
Cheguei. Você podia ter avisado que a Formosa estava tentando se decompor em paz.
Ana releu a frase. Na época, parecera engraçada.
Agora parecia uma reclamação feita a alguém que estava demorando demais para responder.
Ela começou a digitar.
Hoje a gente foi à feira. Vendemos quase tudo. A geleia da dona Lurdes ainda funciona. O bolo também, apesar da sua receita precisar de ajustes.
Ana parou.
Apagou a última frase e escreveu outra.
Volta logo, tio. Eu tô cansada.
Enviou.
A mensagem apareceu abaixo da anterior.
Ana deixou o celular sobre o peito e fechou os olhos, como se a resposta pudesse chegar enquanto ela não estivesse olhando.
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