Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
45 Tramas no Sul
As coisas em Porto Real não estavam nada boas.
Uma reunião do Pequeno Conselho foi feita para discutir o estado atual da Campina; Lorde Jon Connington — o atual regente do reino, enquanto Lorde Willas era um convidado-refém na corte de Aegon VI — estava tendo de lidar com uma praga de escamagris. Na verdade, talvez ele mesmo fosse o maldito foco da doença.
Arianne tinha um lugar especial no conselho, sendo representante de Dorne, no lugar de seu pai, que voltara ao seu principado.
O Rei trajava um belo gibão vermelho, com renda preta e rubis. Estava sentado ao seu lado, e sua nova mão, Tyrion Lannister, encontrava-se num dos assentos do conselho, sentado em um banco de carvalho em forma de mão. O anão usava um belo gibão carmesim com renda de ouro, e envergava uma corrente de mãos ouro entrelaçadas entre si.
Atrás do Rei, estavam Sor Pato e Sor Strong, em pé. Ambos serviam como guarda reais, usando armaduras de escamas, esmaltadas de branco, envergando mantos igualmente brancos, segurando espadas pelo cabo, prontos para desembainhá-las, caso fosse necessário.
Para o desgosto de Arianne, Varys também continuava com seu assento como mestre dos sussurros. Não gostava daquilo. A Aranha era dita como um dos que forjaram o falso rei; ter ele ali, por perto, só piorava os boatos de que Aegon era um falso Rei!
— Ele nos ajudou na trama que prendeu Margaery — Aegon a lembrara, quando ela tentou falar contra Lorde Varys. — Temos de mantê-lo por perto.
Pelo menos Illyrio Mopatis (cujos boatos diziam ser o verdadeiro pai de Aegon) estava fora da corte, ficando em uma mansão nos arredores de Porto Real.
A outra irritação da rainha, era o Alto Pardal, que havia comparecido nessa reunião, infelizmente, dado a importância do momento.
Como Marwyn estava com Daenerys, a corte precisava de um novo Grande Meistre. Nenhum dos meistre da fortaleza foi escolhido, entretanto, nem foi enviado um pedido para a Cidadela. Querendo alguém de sua confiança, o Rei Targaryen preferiu dar o cargo para o Meio-Meistre Haldon — o que não foi bem visto por muitos, mas ninguém falaria contra o Rei.
O mestre dos navios era Aurane Velaryon, um galante bastardo do velho Lorde Derivamarca, legitimado após seu apoio marítimo para o Verdadeiro Rei. Ele tinha olhos azul-acinzentados, cabelo de prata, e um sorriso traiçoeiro nos lábios. Usava um chapéu de abas largas, um cachimbo, um gibão azul-acinzentado com filetes de prata, um manto azul-marinho preso por um pingente feito de turmalina com formato de um cavalo marinho.
Arianne sabia que o herdeiro de Derivamarca a queria. Ela poderia tê-lo tomado como amante, pois ele era bem mais bonito que Aegon, mas, infelizmente, tais dias haviam passado. Agora era uma esposa e rainha, e isso a impedia de fazer o que quisesse com quem quisesse.
O mestre das moedas era o velho lorde Ardrian Celtigar, Senhor da Ilha da Garra. Ele era mais velho que o pai de Arianne, com idade para ser avô dela. Sua casa era Valiriana, mas a idade havia retirado toda a beleza do sangue do dragão: seus cabelos estavam ralos e grisalhos, os olhos púrpura estavam baços, a cara cheia de vincos, queimada pelo vento e sal do mar, os ombros haviam-se esmorecido há muito tempo.
Era um homem velho, seco, sem nenhuma alegria na vida. Todavia, ainda era um Celtigar, dono de grande riqueza. Na época em que os Targaryen ainda não estavam destronados, era comum ter um membro da casa Celtigar como Mestre das Moedas da Corte. E Ardrian, apesar de acabado, ainda esbanjava riqueza: seu manto branco tinha caranguejos feitos de granadas vermelhas; em seus dedos enrugados haviam aneis de obsidiana, turmalina e granadas vermelhas.
Sim. Um lorde rico, perfeito para o cargo.
Finalmente, como mestre das Leis, Lorde Randyll Tarly. Um homem mais jovem do que o velhaco do Lorde Celtigar, mas nem por isso menos amargo.
— Soube que Euron caiu — o rei disse. Dirigiu o olhar para Varys.
— Tudo indica que sim, Vossa Graça — a Aranha respondeu. — Temo não ter provas, mas é o que tudo indica.
Aegon fechou a mão, formando um punho.
— É verdade que ele e a Donzela Louca? Que tinham Viserion? Daenerys realmente o matou?
Lorde Varys deu de ombros.
— Não tenho o corpo para atestar tal coisa, Majestade. Não posso confirmar nada além do que os meus passarinhos me dizem.
Randyll Tarly não pareceu acreditar naquilo.
— E como raios um louco como Olho de Corvo conseguiria um dragão? Tudo isto me parece história…
Varys o olhou de esguelha. Não deu nenhum de seus famosos risinhos, parecendo irritado com as palavras de Lorde Tarly.
— Meus passarinhos também me contaram que seu filho está com eles, Milorde — revelou a Aranha. Após isso, deu um sorriso — Por acaso também tem dúvidas disso?
Os olhos de Lorde Tarly se arregalaram, mostrando espanto, só para, logo em seguida, ser substituído por ódio.
— Ele é um proscrito — Grunhiu. — Após fazer votos para a patrulha, não é mais um Tarly. Tentei dar alguma dignidade a ele, fazendo-o entrar na patrulha, mas ele prefere os fracos que usam correntes.
Arianne olhou para Haldon. Este, apesar de olhar feio para Tarly, pareceu não se importar com o insulto.
— Não importa — interrompeu Aegon, batendo com o punho na mesa. — Daenerys não apenas uniu-se ao Norte, eles derrotaram Olho de Corvo, e detém Harrenhal. Precisamos nos preparar para um ataque.
— Caso Daenerys não tenha matado Viserion — Arianne lembrou a todos —, isso quer dizer que ela pode ter três dragões.
Ao ouvir aquilo, todos sabiam o que ela queria dizer: o Dragão de Aegon era menor do que o de Daenerys. Se ela tivesse outro dragão para lhe dar auxílio, não havia chance para Aegon ganhar aquela guerra.
— Temos que nos preparar para a Guerra — anunciou Randyll Tarly. — Tivemos um bom tempo, mas menos tempo do que imaginávamos. Precisamos reunir as tropas e…
— Primeiro — interrompeu o rei —, devemos lidar com a situação da Campina. — Virou-se para encarar Varys. — Que temos de novo sobre a região?
— Apenas que Lorde Jon está preso em seus aposentos, tomado pela doença. Parece que talvez esteja insano, visto que a doença afeta a mente.
— Para isso acontecer — apontou Haldon, com a perspicácia de um meistre, mas com piedade na voz —, ele teria de estar doente há muito tempo para chegar nesse estágio.
Arianne franziu o cenho.
— Está dizendo que ele estava infectado há muito tempo? Mas, se for verdade, como ninguém aqui pegou?
Haldon deu de ombros.
— Creio que ele possa ter tentado esconder e passado algum produto, azeite, por exemplo, para conter a doença. Isso funciona apenas por pouco tempo, porém, como podemos ver.
Aegon suspirou e abaixou o olhar. Arianne imaginou que devia ser difícil para ele; Jon Connington não era apenas seu Mão do Rei e principal aliado: ele era sua figura paterna. Era o homem que sacrificou anos de sua vida em prol do futuro de Aegon. Este, porém, apenas o mandou para a Campina, para livrar-se de suas objeções.
— Deixe-me comandar a região — pediu Randyll. — Ou, então, escolha Matthis Rowan.
Aegon chacoalhou a cabeça.
— Nós somos as casas que mais lhe deram apoio! — Lorde Tarly o lembrou.
— E por isso devem liderar meus exércitos da Campina. Não. Preciso de vocês por perto. — Finalizou: — Willas deve voltar para a Campina.
O rosto de Randyll ficou livido.
Arianne tocou no ombro de Aegon.
— Mas, majestade…
Aegon levantou uma palma aberta, indicando que tinha mais a falar e ela deveria se calar e ouvir.
— A avó permanecerá aqui. Assim como os outros parentes dele. Embora não ache que seja necessário, visto que Willas sabe o que está em jogo se ficar comtra nós, e que ele não tem aliados.
— E quem garante que isto tornará confiável?
— Precisamos do apoio da Campina, minha Rainha — pontificou ele. — E, apesar de Wyllas não ser um rosto tão amável, é mais amado do que Jon. E é inteligente o bastante para tomar conta da região durante a guerra.
Arianne assentiu, torcendo para que o rei estivesse certo.
Tyrion virou-se para Lorde Randyll.
— Acha que Daenerys irá enfrentar a Campina?
Randyl fez um dar de ombros.
— A Capital é mais próxima de Harrenhal. Muito mais. Estão praticamente do nosso lado.
Arianne fez a pergunta que ninguém tinha coragem:
— Acham que ela queimaria a Capital? — indagou aos membros do conselho.
Todos a fitaram, espantados com a sinceridade de suas palavras. Ela não tinha por que esconder nada; Daenerys queimou diversas pessoas. Era óbvio que ela poderia tentar o mesmo com o povo da Capital dos Sete Reinos.
A Fortaleza Vermelha era, agora, um grande alvo vermelho. Os dragões de Daenerys facilmente podiam queimar a fortaleza com todos dentro.
— A Fortaleza Vermelha é o símbolo dos Targaryen — lembrou-a Aegon. — Aqui é onde está o Trono de Ferro. Daenerys teria de estar insana se resolvesse queimar este local. As pessoas podiam aceitar a queima de um bando de estrangeiros, mas queimar seu próprio povo? — Abanou a cabeça. — Não. Eu vi o amor de Daenerys pela plebe. Sei de seu desespero por governar os sete reinos. Ela não queimará nada por aqui, acredite.
Arianne assentiu, mas não podia esconder a incerteza em seu rosto escuro. Daenerys realmente parecia amar o povo, mas amava aqueles que a trairam? O ódio falaria mais alto no fim? Eram perguntas cujas respostas poderiam ser sanguinárias.
Se ela queimasse tudo, pensou, poderá desistir de qualquer apoio. Talvez nem mesmo o Rei do Norte poderá lhe dar algum apoio após tal atrocidade.
— Meu rei — falou o anoso Lorde Celtigar, remexendo seus belos e ricos anéis —, ainda assim, devemos levar em conta a possível tomada da Capital.
O Rei esquadrinhou o rosto enrugado e acabado do velho lorde dos carangueijos, parecendo curioso.
— Prossiga.
Ardrian assentiu, lambeu os lábios, falou:
— Dinheiro não é problema para nós — lembrou a todos —, temos ouro, prata, joias raras, e especiarias que valem mais do que todo o ouro e prata westerosi. — Continuou: — Proponho dividir nosso dinheiro entre nossos principais aliados.
— E um desses aliados seria você, velho? — acusou Randyll.
Aegon ignorou as indagações de Randyll e acenou para o Mestre das Moedas, deixando-o falar:
— Highgarden já tem seu próprio tesouro, assim como os Hightower. Dado o fato de que o filho sobrevivente de Lorde Leyton encontrasse com problemas para reconstruir suas terras destruídas, mesmo com o tesouro de sua casa. Como a guerra entre Lys, Tyrosh e Myr continua, assim como a confusão nas outras cidades livres causada pela tirana, o comércio marítimo está parado. Proponho, então, ajudá-lo dando uma parte de nosso próprio tesouro.
— E deixá-lo gastar a vontade?
— Somente se ele o achar necessário. Vamos deixar claro que o uso da riqueza deve ser apenas para o caso dele achar que o próprio tesouro não é o bastante, e que deve nos avisar caso vá usá-lo. — Explicou: — Talvez o medo fale mais alto, e ele evite usá-lo, e, se o fizer, será apenas para o que precisa. Além do mais, ele terá apenas uma pequena parte. Um terço do que temos, talvez menos.
Desse modo, pensou Arianne, o lorde Hightower e seu povo poderiam estar mais adeptos ao Rei Aegon, vendo-o com bons olhos. Um rei benevolente.
Aegon anuiu a ideia do Mestre das Moedas, parecendo ter o mesmo racíocionio que sua esposa.
— Seria bom que este reino fosse para Septo Estrelado de Vilavelha — disse o Alto Septão. — Foi sede da Fé dos Sete por milênios, antes do Septo, e creio que seria seguro dividir parte deste ouro para o septão do local. Deste modo, garanto que o dinheiro estará em boas mãos.
Arianne duvidava muito disso. Aquele fanático realmente era tão cego a ponto de achar que figuras religiosas realmente não eram corruptas?
Mas, gostando ou não, aquele mendigo fedido era o chefe supremo da fé, e o Rei teve de sorrir e assentir. Era um jogo de poder, e, graças a antiga rainha regente, a fé agora era quem mandava.
Após aquiescer aos pedidos do Alto Septão, Aegon voltou a encarar Lorde Ardrian Celtigar:
— E os outros? — indagou ele.
— Pedra do Dragão seria um bom local, imagino. Apenas um lorde muito fiel tomará conta da ilha-fortaleza, e isso irá garantir a segurança de boa parte de nosso tesouro. — Continuou: — Não tenho confiança alguma no Oeste — compartilhou, sem medo do fato de que era o Reino da Mão do Rei —, de modo que não creio que seria seguro dar qualquer dinheiro para eles.
— Banco de Ferro? — sugeriu o Rei.
O acabado Lorde Celtigar anuiu.
— Seria bom. Essos está com a econômia quebrada, e eles não terão muita escolha. Dúvido que os aliados da Rai… — limpou a garganta. — De Daenerys tenham dinheiro o bastante. Se tudo der certo, logo poderemos convencê-los a largar o outro lado, e nos deixar pagar a divída deles… E a nossa, quando se aliarem a nós.
Aegon assentiu novamente.
— Este ouro seria útil para Dorne — Arianne comentou, aproveitando o momento. Quando os olhos cravaram nela, continuou: — Está nevando por lá. Isso não é normal. Nossas plantações e suprimentos estão morrendo, milordes. O reino de sua rainha.
Dorne estava a beira de um colapso: além do inverno cruel que matava todos os animais, pessoas e comida, o pai de Arianne parecia estar com a saúde ainda mais debilitada, o meistre do Jardim das águas escrevia que a gota dele havia piorado, e que o clima o deixara ainda mais doente, de modo que estava tomando muito leite de papoula, ficando com a mente anuviada; a maior parte do povo dornês deixou suas terras para ir até a corte na Capital ou unir-se a guerra, deixando as terras quase vazias, o que só piorava o estado deteriorado delas.
Saber de tudo aquilo fazia Arianne querer deixar a corte e ir ajudar seu reino. Seu verdadeiro reino. Afinal, seu irmão Trystane ainda faria 12 dias de seu nome. Ele não iria conseguir lidar com tudo aquilo sozinho.
Entretanto, não podia. Estava presa nessa maldita corte fria dos Targaryen e seus reinos devastados.
Aegon pegou a mão dela, com delicada firmeza.
— Tem razão, minha rainha. — Virou-se para os lordes. — Arianne faz bem em lembrar de quem eu devo proteger. Além do mais, Dorne tem sido meu principal aliado na guerra. — Concluiu: — Mais de um terço de nosso tesouro deve ser enviada para Lançassolar.
Randyll Tarly grunhuiu, entretanto, não falou nada contra. Que ele ficasse desgostoso; o próprio Randyll já detinha alguma regalia do rei, visto que conseguiu as Terras dos Florent, então, que ficasse de bico fechado.
— Teríamos algum outro lugar para enviar nosso tesouro? — indagou Aegon ao mestre da moeda, que respondeu que não com um meneio da cabeça. Vendo isso, Aegon virou-se para Tyrion. — Minha mão teria alguma ideia?
— Bem, visto que o nosso bom mestre da Moeda tem dúvidas não confia em meu reino — olhou com raiva para o velho —, creio que que não terei mais ideias. Exceto, talvez, Ponta Tempestade ou Poleiro do Grifo, visto que são nossas principais sedes e que ficam perto da Capital.
O Rei analisou a ideia por um tempo. Arianne, vendo sua chance, falou:
— Não seria uma má ideia, meu rei. Os apoiadores de Stannis estão longe, prontos para morrer com ele, e os que apoiaram Tommen já foram passados na espada. E o herdeiro escolhido para essas terras, Edric, é nosso refém — pontificou ela.
— E qual destes castelos minha rainha escolhe?
— Ponta Tempestade. É praticamente inexpugnável. Talvez devessemos levar o pequeno Edric Storm para lá, quem sabe.
— Livrar-nos de nosso refém? — indagou Tyrion, parecendo não gostar daquilo.
— Nenhum lorde que nos apoia vai se revelar — pontificou ela. — E, nesse caso, ele estará num castelo inexpugnável. Fora que ele deverá ter um regente para ele, alguém que o mostre como tomar conta de um castelo e terras. Além do mais, ele precisa ser visto como um lorde em algum momento, para que sua imagem seja respeitada.
Aegon e Tyrion se entreolharam, analisando as palavras da rainha. No fim, ambos assentiram.
Arianne sorriu. Ainda tinha algumas vantagens em ser rainha.
Terminado tal assunto, o rei passou para o próximo.
— Lorde Randyll — disse Aegon —, você e Lorde Matthis deverão liderar o exército da Campina, e prepará-lo contra Daenerys.
Randyll assentiu.
— Quem irá liderar a Companhia Dourada? — indagou ele. (Provavelmente estava com medo de que o patético Harry Strickland fosse o escolhido.)
Aegon, vendo o medo no olhar do homem e já sabendo o motivo por trás, deu um sorriso.
— Brendel Byrne o fará. Arrumarei outro para assunto para Harry, acredite. Um que o deixe longe da guerra, de preferência.
Lorde Tarly assentiu.
— Há algo mais? — indagou Aegon.
O Grande assentiu e pegou alguns papéis.
— Terras para a Companhia Dourada.
— Ainda temos mais pedido!? — O rei parecia irritado com aquilo.
Haldon assentiu.
— Neste caso — explicou ele —, existe uma petição para o bastardo de Darry que está com a Campina.
— Existem outro?
Haldon fez que sim com a cabeça.
— Terras para os outros membros também. Neste caso, seriam terras de nossos inimigos, que seriam dadas para os membros da companhia. Uma compensão por não dar-mos as terras reinvindicadas originais.
O Rei suspirou.
— Nesse caso, meus lordes, podemos acabar a sessão por hoje? Podem ir fazer suas tarefas.
Os lordes assentiram e se levantaram, saindo do local. Apenas Arianne se mantava ao lado do Rei, assim como Haldon.
Quando a maioria dos membros do conselho saiu do local, Aegon pegou o papel, assinou, passou cera quente por cima, selando o documento, botou o timbre real, oficializando o pedido. O mesmo gesto foi repetido, dessa vez, para passar as terras dos Mooton para os Tarly, assim como algumas terras para outros membros da Companhia. Quando terminou, poucas terras haviam sobrado para serem reinvindicadas nos outros reinos.
Quando terminou, seus dedos estavam cheios de tinta e disse que Haldon poderia deixar as outras petições para depois. O Grande Meistre assentiu, pegou os papéis, bateu eles na mesa, fazendo-os ficarem enfileirados, e deixou o cômodo.
Aegon virou-se para a Arianne, com um sorriso fraco.
— Minha Rainha quer algo?
Arianne olhou em volta. Não havia ninguém além dos guardas reais, mas, mesmo assim, ela não sentiu-se a vontade em arriscar falar algo por ali.
— Aqui não. Vamos para os seus aposentos.
Aegon sorriu.
— Como desejar.
Os aposentos do Rei eram bem opulentos, com ricas tapeçarias de Myr, Lys e Tyrosh, com taças de cristais de Myr. As cortinas eram da cama de penas eram de seda escarlate de Yi Ti, e as cortinas eram de veludo púrpura com franjas douradas. Havia espelhos de Myr espalhados pelo local, assim como velas perfumadas, assim como almofadas ricamente bordados.
Aegon deixou os guardas do lado de fora, fazendo guarda, para que ele e Arianne pudessem falar a sós.
O marido de Arianne sentou-se na beirada da cama, soltando o cinto que segurava a espada Blackfyre.
— Diga-me o que a aflige, esposa.
Arianne permaneceu em pé. Tinha que ser cuidadosa ao falar; Aegon era dado a explosões quando contrariado. Tinha de ser calma, falar suavemente, e tentar agradá-lo.
Era humilhante. Nunca, em toda a sua vida, imaginou-se rebaixada nesse ponto.
— Meu Rei — disse —, venho pedir-lhe que se livre de Lorde Varys.
O rei, que agora retirava seus sapatos, parou o que estava fazendo e olhou para ela, erguendo os olhos.
— Diga-me porquê devo fazê-lo. — Voltou a retirar o sapato.
Arianne tinha de ser cuidadosa. Os espiões podiam estar ouvindo-a. Entretanto, ainda tinha de se arriscar.
— Ter ele por perto atrai más línguas — respondeu, com medo de que falar sobre os boatos da paternidade de Aegon o irritassem.
Após retirar os sapatos, Aegon se ajeitou na beirada na beirada da cama, colocando as mãos do lado do corpo. Continuou a olhar para ela por um tempo, em silêncio. (Arianne estava torcendo para ele não peruntar quais eram essas “más línguas”.)
— E quem minha rainha tem em mente para substituir alguém tão formidável quanto Varys? — indagou ele. — Digo, imagino que, para tal pedido, você deva ter alguém em mente.
E ela realmente tinha alguém para oferecer.
— Lysono Maar — respondeu sem hesitar.
Aegin fez uma careta, parecendo enojado.
— Lysono? Aquele maquiado? Pelos deuses, Arianne, Varys já não parece feminino o bastante para você?
Arianne também não gostava da aparência do Lysene. Ele tinha lábios de mulher, nenhum músculo, muitas joias… Preferia homens viris perto dela, como Daemon e Aegon. Mas isso era apenas para seus companheiros de cama, e não era isso que ela queria de Lysono Maar.
(Além do mais, detestava que usassem a aparência feminina de Maar para desqualificá-lo. Os reinos ao norte de Dorne eram mesmo tão ignorantes?)
— Ele foi muito útil para a Companhia Dourada durante anos — ela o lembrou. — Seus espiões são efetivos. Ele pode ser tão bom quanto Varys, senão mais.
O Rei não compartilhava de suas expectativas.
— Lysono tem habilidade, não o nego — respondeu. — Entretanto, não vejo motivos para duvidar da lealdade de Lorde Varys.
Talvez essa lealdade seja mais uma prova de culpa, ela pensou. Não gostava disso. Não queria aceitar aquilo; se Aegon não fosse realmente filho de Rhaegar, tudo que ela e seu pai fizeram fora à toa.
Não importava. Real ou não, aquele rei ainda era um rei amado, diferente de Daenerys. Teria de servir.
— Mesmo assim, majestade — ela pediu, mantendo a voz suave, não querendo irritá-lo —, peço que considere meu pedido.
Aegon sorriu e estendeu a mão para sua esposa, que a pegou, deixando-o puxá-la com delicadeza para que sentasse ao seu lado. Quando ficaram próximos, ele a puxou para si e alisou sua bochecha.
— Diga-me, querida, não há mais nada para contar?
Arianne forçou um sorriso. Sabia que ele queria que ela lhe contasse que estava à espera de um filho.
— Temo que não, meu soberano. — Sabia que chamá-lo por títulos reais o acalmava, como se fosse uma criança.
— Ah. — O sorriso dele desapareceu, mas logo voltou. — Bem, imagino que podemos cuidar disso, não?
Foi difícil para Arianne manter o sorriso. Assentiu.
— Claro — ela respondeu, sentindo a mão dele levantar as suas saias.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
A mensagem que Elinor recebeu era bem clara. Precisava estar nos jardins do castelo, perto do bosque sagrado.
Não sabia se realmente iria funcionar. Afinal, sabia que facilmente aquilo tudo podia ser mais uma pantomima de Varys; um plano para matar Elinor.
Podia ter queimado o bilhete, claro, todavia, havia um motivo para repensar: o anel de Margaery. O anel de jade que Lady Alleria havia usado no passado.
Sim. Podia ser Margaery — e, mesmo que não fosse, tudo bem. Estava farta de ficar com medo.
Não estava de noite, mas já estava bem escuro. Tinha sido assim há um tempo: sempre havia escuridão cercando o mundo. Era impossível dizer com certeza que horas eram, pois sempre parecia ser a Hora do Lobo.
Sempre era escuridão e neve.
Elinor engarva um manto marrom simples, com o capuz levantado. Usava um vestido marrom também, mas com renda dourada e feito de veludo — era a única veste simples que dispunha.
Andar a esmo por essa terra gelada, de aparência açucarada, onde todas as plantas haviam morrido e sido cobertas pela neve e gelo (até mesmo as belas e perfumadas rosas de inverno haviam murchado em grande quantidade) dava arrepios em Elinor. Fazia-a lembrar-se de como ela e suas primas foram presas. Fora a última vez que vira Margaery.
Enquanto passava por um carvalho congelado, totalmente cristalizado pelo gelo, ela viu um vulto escuro mover-se na escuridão atrás da árvore.
Ao ver a estranha figura, ela se encheu de medo, tentou correr para longe dali, gritar, mas acabou por escorregar na relva gelada, caindo sentada no chão duro e enregelante.
— Calma, não tenha medo! — a misteriosa figura disse na escuridão. Seu sotaque era o de um dornês, falando bem rápido.
Sabia ter ouvido aquela voz antes.
— S-sor Daemon? — ela indagou.
O dornês saiu das sombras, abaixou o capuz, revelando-se para ela, estendeu uma palma aberta para que Elinor se agarrasse e levantasse, o que ela fez.
Ao sair do chão frio, bateu nas partes cobertas de neve do manto.
— Obrigada — ela agradeceu, sentindo-se uma tola.
— Não há de que — ele respondeu. Sim, aquele era Daemon Sand. Um bastardo nobre de Dorne, de olhos bonitos e, segundo ela ouvira nas fofocas de algumas pessoas na corte, antigo amante da atual rainha dornesa (e, talvez, do falecido tio dela).
— Então isso é mesmo uma armadilha? — indagou Elinor.
O homem franziu o cenho.
— Armadilha? — ele arqueou as sobrancelhas castanhas. — Aaaah, é por isso que acha que vim? — Ele abanou a cabeça. — Não. Vim pelo mesmo motivo que você, minha cara: ajudar na queda da Arianne e seu rei.
Elinor o olhou com desconfiança.
— Por qual motivo devo acreditar em você? — perguntou.
Sor Daemon fez uma expressão amarga, cerrou os punhos, cuspiu no chão, falou:
— Por que Arianne é uma puta e uma assassina de crianças — ele respondeu, no auge da cólera, formando nuvens enquanto falava. — E o rei dela é um falso Rei.
Elinor podia sentir o ódio carregado naquelas palavras. E tristeza. Podia estar errada, mas resolveu arriscar:
— Como vai ser? — indagou, sentindo o coração acelerar.
Ele meneou a cabeça.
— Não sei. Estamos às cegas. Nem sei se sequer estamos mesmo tendo contato com os inimigos de Aegon. Você pode ter certeza de que é Daenerys?
Então ele não sabe. Bom. Isso também estava na carta. Era melhor assim. Daemon podia não gostar de saber que estavam agindo contra ambos.
Elinor mostrou o anel para ele.
— Que é isso? — ele perguntou, sem entender o significado.
— É o anel de Margaery, sor — explicou ela. — Veio de Harrenhal.
Após um tempo esquadrinhando o anel e o rosto de Elinor, sem parecer se importar com a neve que caia, Daemon acenou com a cabeça.
— Certo. E quando vamos agir? — ele quis saber.
Elinor deu de ombros.
— Também não sei. Apenas me disseram para esperar.
O bastardo fez um muxoxo.
— O mesmo foi escrito para mim.
Se ele não tinha nenhuma prova de que era Daenerys, ou mesmo qualquer outra pessoa, isso queria dizer que ele havia vindo com menos garantias do que Elinor. Que ódio era esse que incendiava o coração de Daemon? Estava irritado por ter sido largado pela antiga amante?
— Que seja — ele disse. — Teremos de aguardar.
Elinor sentiu. Esticou o anel na direção dele. Sem entender, o bastardo franziu o cenho.
— O quê?
— Preciso que ponha isto no represeiro para mim.
— E por que não põem você? — questionou Daemon, olhando-a de soslaio, fazendo Elinor corar.
— Está… Muito frio.
Daemon fez um estalo com a língua.
— Certo. — Pegou o objeto dos pequenos dedos da donzela. — Agora vá. Não é seguro ficar aqui.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Arianne estava em seus aposentos, penteando seus cabelos. Queria que suas primas estivessem por perto, especialmente Tyene — infelizmente, ela andava muito próxima do Alto Septão. Isso impedia que elas se encontrassem.
Não queria estar com suas damas de companhia. A maioria não era de Dorne, o que significava que a maioria a queria ver morta. Passava o mínimo de tempo possível com elas.
Esperava que o rei logo a chamasse novamente. Sim, ele andava fazendo muito isso. Só podia torcer para que logo a semente dele vingasse, ou ele podia se irritar — e Arianne não era tola; sabia que boa parte da corte estaria louca para se livrar de uma rainha dornesa. Ainda mais uma infértil.
Já estavam há quase um ano casados, por qual motivo nada vingara em suas relações? O chá da lua que ela tomava após suas antigas relações haviam-na deixado infértil? Dificilmente. Sabia as doses seguras.
Seria Aegon infértil? Afinal, ele e Daenerys também não tiveram filhos… Pelo menos não de forma saudável. E, caso ele tivesse tido casos anteriores, não teve bastardos — pelo menos não conhecidos.
Entretanto, Arianne achava que era mais fácil que Daenerys fosse a culpada da infertilidade do casamento deles: ela já havia tido dois maridos e pelo menos um amante, e nunca havia tido filhos.
Seria algum tipo de problema dos Targaryen? Se assim fosse, o Rei do Norte logo veria que sua união com Daenerys não daria frutos.
O problema é que o mesmo valia para Arianne…
E se tivesse um amante? Aurane era bem parecido com um valiriano…
Abanou a cabeça, livrando-se de tal pensamento. Era arriscado demais. Talvez, se tivesse a aquiescência de Aegon, estaria disposta a tentar. Entretanto, sabia que ele nunca permitiria tal coisa. Era mais fácil que ele a matasse só por fazer tal sugestão.
Esses homens são uns frouxos, ralhou ela, irritada. Aegon era um cabeça dura, tanto quanto Randyll Tarly e tantos outros. Frágeis em seu próprio ego de homens orgulhosos e retrógrados.
Arianne deixou de olhar para o seu reflexo de prata — que estava dourado, graças ao brilho das velas — e olhou para a sua bela e rica coroa, pousada numa bela almofada de veludo. Aquilo devia ser seu símbolo de poder, mas parecia mais um símbolo de sua própria prisão.
O que ela havia feito? Que pacto cruel selara, condenando a si mesma? Ser rainha de Westeros era tudo, menos o que ela queria que fosse: as mulheres eram invejosas com ela, todos a detestavam e a queriam fora do poder, perdera a proximidade com suas primas, perdera Daemon, assim como perdera seu pai. Nem sequer podia desfrutar de algum prazer, pois isso lhe custaria a sua própria cabeça, enquanto suas damas facilmente podiam estar na cama de seu marido.
Por que alguém iria querer ser rainha? O título significava ser a maior das mulheres, mas, enquanto em Dorne, ser uma mulher era ser livre, para o restante da sociedade westerosi, ser mulher era ser submissa, casta, vivendo para agradar um homem que nunca iria retribuir tal afeto e devoção na mesma moeda.
Quando sentiu que as lágrimas viriam, um servo entrou, sem anúncio, trazendo um pouco de lenha. Isto a tirou de seus devaneios, acalmando-a.
— A rainha deve estar morrendo — ele indagou, jogando a lenha no fogo.
Arianne virou-se para encará-lo, franzindo o cenho. Reconhecia aquela voz.
— Olá, Lysono — ela disse.
O servo parou de jogar lenha por um instante. Então, jogou logo tudo no fogo, virou-se para Arianne, abaixando o capuz, sorrindo.
— Ah! Que rainha esperta nós temos!
O rosto feminino e cheio de tinta de Lysono estava exposto. Seus cabelos branco-dourados estavam trançados para cima.
— Que quer? — indagou Arianne, deixando a escova de cabelo de lado.
— Soube que a rainha falou de mim para o rei.
Arianne abriu um pouco os olhos. De fato, ele era bom.
— Sim. — Tentou esconder a surpresa. — E?
— Eu vim lhe agradecer, majestade.
Arianne levantou uma sobrancelha, achando aquilo difícil de acreditar.
— Seu apoio significa muito para mim — insistiu ele, com um sorriso zombeteiro nos lábios carnudos. — Afinal, é bom saber que minha devoção para a Companhia e o nosso Verdadeiro rei não passou despercebida.
Arianne não estava com paciência para rodeios.
— Existe algum outro motivo, eu imagino, para que você tenha invadido meus aposentos, mesmo sabendo dos riscos?
Lysono Maar alargou o sorriso.
— Nada escapa de vossa perspicácia, ó, mais bela das rainhas.
— Bem, desde que não tenha vindo tentar me seduzir — Arianne escarneceu, secamente —, falai logo.
Lysono deu um risinho.
— Temo não ser digno de dar-lhe prazer, majestade. Entretanto, creio que sei de um jeito de nós dois conseguir o que queremos.
Arianne o esquadrinhou com o olhar, curiosa e um tanto nervosa.
— E o que seria? — quis saber.
O Lyseno pegou um alforje do bolso, abriu-o, retirando um pequeno objeto dele. Ao erguê-lo, ele brilhou ao ser banhado pela fulgência das chamas da lareira, e Arianne percebeu que era um anel de ouro amarelo com uma pedra de jade esculpida no formato de uma rosa.
Ao ver aquilo, Arianne franziu o cenho.
— Que é isto?
O Lyseno aproximou o objeto para perto do próprio rosto, sorrindo, enquanto fitava-o com seus olhos púrpuras claros.
— Isto, minha cara rainha, é a queda de Varys.
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