Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
97 Septo Estrelado
O Septo Estrelado parecia cada vez menor.
Carellen ajudava como podia, mas haviam diversas pessoas necessitando de amparo e socorro naquele momento. Pessoas feridas e insanas. Elas eram colocadas em catres, colchões de palha ou simples padiolas, ou mesmo esteiras deixadas no chão. Era difícil andar pelo local, pois havia um amontoado de feridos e enfermos. Com cuidado, a jovem dama levantava a bainha de sua saia e as anáguas sobre eles, para tentar facilitar sua passagem. Era um caminho tormentoso. Alguns homens e mulheres – embora boa parte estivesse longe da idade para se considerar como tal – esticavam seus braços e mãos para tentar agarrá-la, implorando por ajuda. Alguns eram apenas safados a apalpando.
Suas vestes eram escuras, preto-acinzentadas, para representar o luto. Muitas septãs, septões, noviças e noviços adotaram tal cor por conta das perdas – fossem perdas familiares ou uma prestação de homenagem para os falecidos do reino – que não eram poucos. Carellen achava que o preto era um bom substituto para o branco; assim as marcas de sangue não ficariam expostas na vestes.
Os gritos de dor e sofrimento reverberavam no septo, atingindo até o teto abobadado e retornando. O choro, os gritos de agonia, as rezas enlouquecidas, os gritos de insanidade. Tudo isso era capaz de levar qualquer um à loucura. Apenas as fortes estátuas de mármore preto dos deuses não transpareciam agonia. Suas figuras eram como trevas solidificadas, olhando com indiferença para os que morriam. Principalmente a figura do Pai, sempre julgadora. A mais enervante, porém, era a do Estranho, que, mesmo tendo um rosto coberto por um capuz, erguia sua foice negra, ameaçando ceifar a vida de todos. Sua visão por diversas vezes fez os feridos enlouquecerem de medo.
Carellen segurava uma simples bandeja que levava algumas fitas de linho, leite de papoula e agulha e linha. Era para um meistre que fora trazido da cidadela para ajudar com os alanceados que se apinhavam em milhares no septo. Diversos meistres sobreviventes foram chamados – a situação estava cada vez pior.
Enquanto tomava seu caminho labutoso, virando aqui e ali, passando pelo que eram quase que difuntos achando que ainda estavam vivos, Carellen passou por diversas cenas agonizantes mas que estavam cada vez mais comuns no lugar protegido pelos deuses. Um septão terminava de murmurar rezes e cobria um morto com um cobertor simples (o cadáver, ainda quente, logo era retirado, para lugar para outro); um septã escrevia as palavras finais de um homem para sua amada família; um plebeu guinchava, esperneava e chutava enquanto um meistre passava uma linha de costura pela pele rasgada de seu braço, enquanto dois outros homens o agarravam pelos cotovelos, para que ele não atrapalhasse (provavelmente não lhe deram papoula pois o suprimento estava para acabar, de modo que não poderiam desperdiçar). Uma cena igual se repetia mais a frente, com um homem esfaimado tentando lutar enquanto outro meistre cortava sua perna com uma serra longa – o barulho da carne e osso sendo serrados, por sorte, eram ocultados por outras vozes desesperadas, tal qual o grito do magrelo que estava tendo um membro ocultado.
Havia tido bastante confusão nos últimos anos, isso em todos os reinos, mas a situação dos últimos meses estava cada vez pior. A começar que, quando tudo parecia estar ficando “tranquilo”, a outrora Rainha Regente, Cersei Lannister, decidira rearmar a fé, trazendo de volta os filhos do guerreiro. Isso foi o começo de mais uma dor de cabeça para os reinos. Simplesmente todos os fanáticos erguiam aço para defender os deuses – mesmo de ameaças fantasmas.
Vilavelha sempre foi um local para a Fé dos Sete, isso era um fato bem conhecido. O Septo Estrelado por eras foi a sede da fé; até Baelor I Targaryen criar o ostentoso septo de Baelor. (Carellen nunca o viu, mas sabia que era bonito.) Mas o porto do local também incluía templos de outras fés, como templos vermelhos, a cabra negra de Qohor, entre outros.
De qualquer forma, um fanático usava a coroa de cristal dos sete (pelo menos de forma metafórica; o Alto Septão vendera-a para ter dinheiro e lã), e seu fanatismo infectou todos ao redor. Após a volta dos filhos do guerreiro dos pobres companheiros, não era incomum brigas de cunho religioso. Sacerdotes vermelhos sendo agredidos, prostitutas sendo açoitada; até o simples rumor de pecado era o suficiente para fazer com que a armada religiosa partisse para briga.
Carellen, por sorte, não via muito desses ataques – desde que a Guerra dos Cincos Reis explodira no reino, seus pais foram rápidos para despachá-la para sua tia-avó Aelinor, parente de sua mãe, Lady Ravella. A abadia onde a tia idosa de Carellen ficava era conectada ao Septo Estrelado, de modo que não tinham porque sair muito.
Isso durou por um tempo, até as outras tragédias implodirem.
A Campina, apesar de lidar com pardaizinhos fanáticos, pelo menos não estava em grande crise. Isso até os Homens de Ferro deliram de vez e decidirem saquear a Campina. As Ilhas Escudo caíram primeiro, sendo atacadas de supetão pelo odioso Olho de Corvo. A frota redwyne, a única frota capaz de lutar contra a Frota de Ferro e impelir seus ataques, estava impossibilitada de lutar contra os invasores (ordens da Rainha Regente, de certo). Nisso, sobrou para meros camponeses pegarem suas pás e enxadas e tentarem apartar os invasores navais. Lorde Garlan conseguiu reunir um bom exército e bloquear o que podia, mas obviamente de nada valia contra uma contra uma grande esquadra. Sendo assim, Euro matou os lordes das ilhas escudo e subiu pelo rio Vago, acabando com tudo e todos que encontravam.
Lojas saqueadas, septos queimados, homens mortos, mulheres estupradas, sobreviventes levados como escravos. Tudo que se podia imaginar de ruim, os invasores foram e fizeram – até as filhas e a esposa de lorde Hewett, se o que Carellen ouvira estivesse certo, foram obrigadas a servir os invasores, nuas, enquanto o pai, amarrado em sua cadeira, ao lado de Euron (que assistia tudo com deleite). Por fim, antes de jogarem o lorde no mar, ainda vivo, amarrado a sua cadeira, os Homens das Ilhas de Ferro violentaram suas filhas e esposa na frente dele, enquanto estas ainda estavam servindo o jantar, enquanto o pai era obrigado a assistir e ouvir seus gritos. O que houve com as mulheres variava de acordo com o rumor, mas o mais provável é que todas tenham sido ou mortas ou levadas como esposas de sal dos invasores.
Carellen não sabia o que era verdade, mas aprendeu a não duvidar das barbaridades. Havia visto vários casos de estupro (não apenas dos Greyjoys) desde que a guerra se afincara. Diversas mulheres eram abusadas de forma coletiva, às vezes por mais de um homem ao mesmo tempo, enquanto outros assistiam e esperavam sua vez. Algumas estavam amarradas, apinhadas umas às outras, enquanto eram violadas. Não importava se eram mulheres adultas, crianças, velhas, septãs, viúvas, casadas ou mesmo que estivessem grávidas. Todas eram espólio. Na verdade, nem sempre era importante ser mulher: houve casos de jovens abusados. Ela ouvira um relato extenso e perturbador de um jovem que relatou que fora usado como “mocinha” por invasores. Eles mataram seu pai e sua mãe, abusaram de sua irmã pequena e, após cortarem a garganta dela, eles o obrigaram a garganta dela, o obrigaram a vestir as roupas empapadas de sangue dela. Cortaram o couro cabeludo da mãe, colocaram no topo da cabeça dele. (ele deu um relato bem perturbador da sensação morna de sangue empapando o cocuruto dele, de como era como um abraço materno).
O que se seguiu foi bem violento, com eles o chamando de nomes femininos carinhosos, forçando-o a falar coisas degradantes e sexuais. Tudo isso se seguiu com ele sendo usado por mais de um homem e mais de uma vez, bem ao lado dos cadáveres da família. A situação se seguiu por alguns dias, até que o deixaram para morrer. Ele dissera que queria ter morrido, mas os deuses foram cruéis e preferiram-no vivo. Ele também havia relatado como a mãe e a irmã foram abusadas na frente dele e do pai, e de como eles deixaram o pai morrer por último, após apenas terem usado o filho dele como amante.
— O único que não abusou de mim foi o que ficou apegado a minha mãe — revelou o rapaz. — Lembro-me de que como ele ficou obcecado com ela, mesmo quando o corpo pareceu feder. Foi por isso que botaram o cabelo dela em mim; para ele me usar. E… E-ele me usou… Eu falei que ia ser boa esposa e ele me usou… Oh, deuses, ele disse que eu era apertadinho, que chorava bonito, e que gostava de como eu san-sangrava… — Ele quebrou em lágrimas depois disso.
Não foi uma surpresa que o pobrezinho não viveu muito. Ele nem sequer queria estar vivo quando foi para o Septo; acordou lá, desesperado, desejando a morte. As septãs e septões tentaram falar que os deuses o queriam vivo pois era porque tinham um bom plano para ele.
Mas ele não ouvira. Logo, assim que ele pode, escapou, arrumou uma navalha enferrujada, rompeu a carne nos pulsos.
Carellen nunca vira o corpo, mas ouvira sobre a morte – acharam-no numa poça de sangue. De como ele estava magro. Alguns que o viram andando viam-no fazê-lo com as pernas afastadas, sem saber o motivo, mas que conhecia o seu caso sabia que era por conta dos abusos sofridos.
Mas, mesmo não tendo visto a cena do corpo do jovem homem morto, ela sabia que nunca o esqueceria. Para sempre se lembraria dele. Lembraria de como sua voz às vezes era vazia, às vezes era sofrida ao narrar as perdas que sofreu. Não sabia seu nome, assim como não sabia sua idade (embora o timbre indicasse certa juventude); face estava deformada demais para ser reconhecida – o lado esquerdo estava terrivelmente inchado, como uma ferida virulenta, parecendo acumulada de sangue e pus; o direito, olho roxo, inchado, impedindo as pálpebras de abrir, enquanto o queixo parecia ter cedido por esse lado. Alguns dentes estavam faltando. Conseguiram retirar o couro cabeludo mal costurado de sua cabeça, mas a pele podre ficara por tempo demais em contato com as feridas abertas, infeccionando-as. Haviam larvinhas vivendo entre a pele morta e o couro cabeludo do rapaz, reveladas quando a camada pútrida foi retirada. Infelizmente, Carellen teve de ajudar o meistre nesse caso – provavelmente ninguém imaginava que seu caso seria tão perturbador –, de modo que viu as larvas apinhadas em seu cocuruto, agora afundado por elas, expondo quase até o crânio. Vira também pústulas cruéis e entumecidas de pus. O fedor de morte ainda parecia vivo em suas narinas sempre que lembrava-se da cena.
O meistre, apesar de abalado, conseguiu reunir forças para não vomitar ou fraquejar. Retirou as larvas, uma à uma, cortou o restante do cabelo de seu paciente com cuidado, despejou um tanto de vinho quente na região, deu-lhe um banho (com a ajuda de Carellen e uma septã), enfaixou toda a cabeça ferida com linhos cheios de unguentos, deu bastante leite papoula e remédios para o sono para fazer com que o pobre rapaz descansasse (precisava garantir que ele não tivesse sonhos, pois era assim que a pobre vítima tinha mais ataques).
Apesar de todos os seus esforços, foi tudo bem inútil, afinal, o rapaz estava morto.
De alguma forma, ela achava que a morte era talvez a única paz que algumas daquelas vítimas poderiam ter. Paz na morte, pois era algo impossível de se conquistar tal coisa em vida. A vida nunca seria algo pacífico – para ninguém.
Foi em meio a tantos casos que Carellen logo percebeu que castração também não parecia ser funcional contra abusadores – muitos deles eram, também, eunucos. A perda do pênis apenas os parecia deixar mais sádicos do que já eram.
Lembrava-se de como um brutamontes bizarro começou a abusar das mulheres em meio o desespero dos Homens de Ferro. Ele não era um invasor, era um homem da Capina (talvez açougueiro ou guarda da cidade, pelo que diziam a respeito de sua persona). Ele fora capado há muito anos, mas isso não o impediu – ele usava cabos de vassoura quebrados e pontudos para enfiar nas partes íntimas das mulheres. Tanto fazia se fosse vagina ou ânus, ele usava enfiava o pontudo objeto em ambos. Certa vez, até usou num homem, mas isso talvez fosse boato.
Talvez esse tivesse sido o único ato de fanatismo que valia a pena lembrar: os pobres companheiros (nesse caso, eram três mulheres) levaram o abusador para praça pública, espancaram-no com varas curtas, arrancaram seu pau com pinças quentes, enfiaram-no em sua boca. Não era preciso dizer que a plateia da plebe foi a loucura – ainda mais quando abriram seu estômago com ferro em brasas, e as mulheres arrancaram as tripas de dentro.
Foi bem bruto e sujo, mas foi bem merecido. De toda a forma, a jovem Carellen ficou feliz em não ter de ver a cena.
Apesar disso, fanáticos ainda eram fanáticos; tudo para eles se resolvia com agressividade. Muitas prostitutas foram obrigadas a caminhar nuas e descalças pelas ruas e vielas de Vilavelha, com muitas sendo açoitadas enquanto isso. Como era de se esperar, a maioria sequer chegou viva até metade do caminho. Muitas das que caíam e não se erguiam acabavam por serem espancadas até a morte. (Algumas talvez também fossem abusadas, mas isso apenas se os Filhos do Guerreiro e Pobres Companheiros não estivessem mais de olho no corpo. Se os caminhantes flagelados ainda estavam vivos ou mortos quando eles o fizessem, porém, isso era outra questão – até porque os homens haviam provado para Carellen que eram depravados demais para se importar.)
Pessoas de bem não pareciam livres de cometer atos hediondos – uma série de abusos coletivos em série começou a ser feita contra prostitutas e prostitutos, como uma espécie de “correção” a vida cheia de pecados deles. Muitos deles, abusados ou não, tiveram suas partes íntimas escaldadas, queimadas por aço fervente, lavadas em soda cáustica, dentre tantas outras coisas cruelmente criativas.
Havia penas cruéis para crimes menores também: ladrões perdiam sete dedos; mulheres ditas como infiéis eram chicoteadas sete vezes; padeiros que colocavam serragem em seus pães eram assados no forno. Ninguém estava seguro, nem mesmo os septões e septãs – se alguém achasse que algum sacerdote era ímpio, ele era e ponto. Não tardava para ter de expiar seus pecados como vieram ao mundo ou serem espancados pelos pardais armados. Quando descobriram que um septão tinha um – suposto – filho bastardo, os fanáticos (armados pela fé ou não), logo queimaram a casa da amante, espancaram a criança até a morte, expulsaram a mãe da cidade após ela caminhar por toda a extensão da rua, nua. Quanto ao septão, culpado ou não, foi rechaçado pelos próprios seguidores e fugiu pela sua vida. Deu sorte, mais um pouco e a turba o teria achado, dilacerado-o.
Foi um período bem conturbado – enquanto todos se apavoraram com os Greyjoy invadindo, o lorde Hightower continuava em sua torre, isolado, apenas com a sua estranha filha donzela, Malora, onde as más línguas diziam que buscavam uma solução em feitiços. Seus outros filhos seguiram suas ordens para resolver a situação: Baelor, o mais velho deles, construiu navios do melhor jeito possível; Garth treinava os soldados para a defesa em terra, em caso de uma invasão, junto de Sor Guntor, seu irmão mais novo; o quarto filho de Lorde Hightower, o mais novo de todos eles, Humfrey Hightower, viajou para Lys para solicitar apoio de mercenários e apoio de um príncipe lyseno bem rico, cuja a irmã de Humfrey era a principal amante. (apoio este que nunca veio, mas não faria diferença, pois o pior aconteceu enquanto ele estava fora.)
O medo de uma iminente invasão fincou-se na mente de cada morador da Cidadela. O caos acontecia dentro e fora das muralhas – os guardas da cidadela começaram a ficar violentos e abusar do poder (alguns até diziam que davam recursos como proteção e comida para aqueles que lhe dessem dinheiro e/ou uma noite com a esposa ou filhas), pessoas faziam túneis para escapar ou se esconder em carroças, indo contra as ordens de Lorde Hightower de manter a cidadela fechada para entrada ou saída. Todos os que foram pegos foram mortos.
A paranoia tomara conta de todos. Era vizinho contra vizinho, amigo contra amigo. Todos deletavam o mais próximo com fofocas – isso quando estavam roubando –, atraindo a fúria da fé militante ou dos soldados enrijecidos. Todos eram traidores, ímpios, pecadores. Todos eram descartáveis.
A esperança retornou quando a frota Redwyne finalmente zarpou contra Euron Olho de Corvo, mas a situação logo teve a maior das reviravoltas – após a frota aliada derrotar a inimiga com facilidade, a maré mudou de forma literal para os Redwynes. O céu acinzentou-se, trovões ribombaram, raios desceram até o campo de batalha naval. Ondas imensas avultaram-se batendo contra os cascos de madeira dos navios com uma potência tão avassaladora que muitos juram que diversos barcos arrebentaram, jogando lascas para todos os lados. Navio bateu contra navio, empurrados pela fúria marítima. Muitos viraram de lado ou até de cabeça para baixo, tamanha a força das ondas.
Após isso, o verdadeiro massacre começou.
Lorde Redwyne morreu na batalha, assim como o herdeiro de Lorde Leyton Hightower e diversos outros lordes e herdeiros varões. Euron Greyjoy era o Rei dos mares e das tempestades. O Rei que detinha a maior frota de Westeros, praticamente a única ainda existente naquele momento. A frota real havia sido destruída por Stannis na Água Negra, os Redwynes e os navios do herdeiro Hightower foram afundados – ninguém poderia deter Euron Greyjoy.
Os acontecimentos após a derrocada dos defensores da Campina ainda eram confusos para Carellen, mas era inegável o caos que se prosseguiu: a invasão dos homens de ferro, cheia de mortes, saque, estupros dentre tantas outras coisas.
Malora Hightower, filha mais velha de Lorde Leyton, chamada de Donzela Louca por muitos, pareceu ter feito jus a sua alcunha: se o que diziam era, mesmo que apenas em parte, verdade, ela uniu-se a Olho de Corvo, ordenando que a corrente que bloqueava o porto fosse abaixada, enquanto dava ordens para que os portões da Cidadela fossem abertos. Uma loucura, que geral o que pareceu uma guerra civil entre os guardas, mas que acabou por ser feito. Talvez os soldados que a apoiaram em sua escolha acreditassem que a Lady fosse clamar por misericórdia, ou apenas queriam acelerar uma morte gloriosa em batalha. Fosse qual fosse o motivo, a morte era o único resultado plausível.
(Nunca se soube o que ocorrera ao pai de Malora, mas alguns dizem que ela o matara, ou mesmo Euron, enquanto alguns falavam que o Lorde Hightower estava morto há anos, por isso nunca mais retirou-se de sua torre, e que Malora era quem comandava Vilavelha e seus irmãos.)
Por meses, Vilavelha foi de Euron e sua corja se banquetearam com o terreno recém descoberto. A água estava repleta de navios destruídos, corpos frios e inchados, e muito, muito sangue. Dias de um mar rubicundo e debruado em branco. O Rei das Ilhas de Ferro instalou-se na Torralta, onde tomou Malora como amante. Lá, se existia mesmo alguma magia, ele encontrou para si. O fogo vivo que queimava no topo da torre, brilhando mesmo entre as densas brumas invernais, um farol de guerra dos Hightowers, continuou queimando mesmo após isso.
Abaixo da elação dos amantes, os bárbaros invasores faziam farra. Todos que ainda lutaram nas ruas e muralhas morreram, tombando de espada e escudo. Diversos foram jogados ao mar, ainda vivos, onde se afogaram ou morreram de hipotermia. Tantos outros foram levados como escravos para as ilhas de ferro, isso quando não serviram de escravos para os próprios homens de ferro que estavam em Vilavelha.
Diversas moradias queimaram, mas algumas, em especial as mansões, serviram como abrigo para os Greyjoy e seus aliados. Alguns bordeis também. Um amontoado de mulheres foi feito, deixando-as em jaulas apertadas em praça pública, enquanto os homens abusavam delas. Nem quando morriam elas eram retiradas, com muitas apodrecendo enquanto as vivas estavam tendo de suportar o cheiro delas.
Os navios de comerciantes foram confiscados por Euron. Diversos de seus donos foram mortos, enquanto alguns ainda conseguiram manter-se vivos e ter familiares além do Mar Estreito para pagar o resgate (isso quando o Rei era bonzinho em permiti-lo). Todos os vinhos, tapeçarias, peles exóticas, joias e qualquer tipo de espólio era dividido pelos comparsas de Olho de Corvo. O monarca parecia ser bem caridoso com seus comparsas.
Apesar de bom para com seus vassalos, o Rei não tinha esse mesmo amor com o povo de Vilavelha: todos os servos de Torralta foram jogados do alto da torre; ordenou que diversos bebês fossem jogados no mar ainda vivos, assim como os adoradores do Rei Merlin; queimou sacerdotes vermelhos vivos com o fogo-vivo de torralta; degolou os adoradores da cabra negra de Qohor e os fez virar pasta para ser distribuída para os animais comerem; vários membros da fé militante foram executados em praça pública, separados em sete parte, ainda vivos, a machadadas. Seus restos foram deixados para apodrecer ao ar livre.
Muitas pessoas morreram de hipotermia nas ruas, tendo de suportar um inverno frio enquanto os vilões tomavam sua casa. Mas alguns poderiam preferir isso do que ter um teto sendo escravo.
Nenhum templo escapou: o templo do deus vermelho, da Cabra de Qohor, do Rei Merlin; tudo foi destruído e serviu como base para os Greyjoy. Obviamente, septos tiveram o mesmo destino, mesmo o Septo Estrelado.
Apesar de não ter grande empatia pela Fé Militante, Carellen não pode negar que foram a grande defesa de Vilavelha após a queda da frota defensora. Filhos do Guerreiro e Pobres Companheiros, unidos, servindo de defesa para o Septo central da cidade, onde muitos correram em busca de abrigo.
Durou três dias. Três dias com os portões de ferro e pau ferro sendo sendo trancados, com septões, filhos do guerreiros, pobres companheiros, até mesmo septãs, agarrados às portas, tentando impedir que as abrissem. Os defensores lutaram nos degraus e no topo das torres e do telhado de sete lado, usando bestas, arcos e até óleo fervente para a defesa (este último quase sem eficácia, pois o clima era frio para permitir que o fogo aumentasse a tempo). Até mesmo o chumbo que era usado para a fabricação de sinos foi vertido contra os atacantes.
Tudo terminou quando o ariete deles irrompeu as portas. Alguns guerreiros ainda tiveram arroubos de coragem, mas eram muitos poucos para vencer e logo vieram a tombar.
Foi então que Carellen e suas companheiras viram o horror.
As estátuas dos Sete foram quebradas em diversas partes, as tapeçarias foram incendiadas e todo o tesouro local, depredado. Nada disso foi comparado ao que fizeram as pessoas do clero.
Muitos septões e septãs foram mortos naquele dia. Boa parte de forma lenta. O mesmo valia para as noviças e pajens. Nem as irmãs silenciosas escaparam.
Os homens ferro pareciam apreciar as noviças, mas o sadismo se mostrava mais em relação às irmãs cinzentas. Pareciam querer provar que elas tinham língua, por isso talvez fossem tão brutais. Muitas foram abusadas, como era de se esperar, mas tantas outras sofreram torturas bizarras.
Uma delas teve todos os dedos dos pés e mãos arrancados um a um – apenas após já terem arrancado as unhas inteiras. O brutamontes que cometeu tal cena brincava que a irmã ainda tinha língua – ele a arrancou logo depois de terminar com os dedos, nariz e orelhas.
Muitas das mulheres – e até de algumas pessoas do sexo masculimo – foram abusadas em frente as estátuas dos Sete, na nave do septo. Os gritos enchiam o local, enquanto todos os outros foram obrigados a ver e ouvir.
(Havia, Carellen notara, um fetiche bizarro de abusar das mulheres defronte a imagem da mãe, talvez como zombaria da maternidade.)
Zemira, uma das noviças, arranhara um dos brutamontes que agarrara o seu pulso e puxara-a para si. Grande erro – irritado, ele deu-lhe tapas em sua face, até obrigá-la a se virar defronte à parede. De início, pensou-se que o agressor iria levantar-lhe as saias e abusar dele, mas ele agarrou-a pelos cabelos e ficou batendo a cabeça contra a parede. Muitas vezes. Não houve gritos.
Não era possível imaginar quantas pancadas a pobre Zamira aguentou antes de morrer; mas deve ter morrido antes de chegar a metade. Uma mancha de sangue ficou no mármore, junto de pedacinhos de carne. A face era uma ruína irreconhecível.
Indiferente, cansado, o homem largou o corpo no chão. Nem deu atenção. “Tem outras para usar”, ele deve ter pensado.
Um dos pajens teve um arroubo de ousadia, tentando lutar contra os invasores; mas ele era apenas um moleque contra soldados armados. Ele foi rapidamente derrubado no chão. Os soldados ficaram chutando ele até ele parar de se mover. O topo da cabeça pareceu ter sido aberto de tantos chutes, a bexiga não suportou segurar-se. O pajem arrastou-se por duas jardas até parar, morrendo. Um rastro de sangue mostrava o caminho percorrido.
Um dos septões, um bem caridoso, seu nome era Eweyn, implorou que poupassem as pessoas da crueldade. Ele tinha pés duros, usava apenas uma manta de lã grossa não tingida. Ele tinha um cãozinho com ele – bem velho, mas um companheiro de longa data. Os cruéis nascidos de Ferro testaram a fé do bom e clemente septão: obrigaram-no a renunciar aos deuses, falando que Euron era seu verdadeiro Deus, e que ele deveria matar o próprio animal.
De começo, como se esperava, o horrorizado septão Weyn recusou-se a fazer tal coisa. Cedeu quando um dos nascidos pegou uma das noviças – uma guria bonita, chamada Beth –, e falou que eles iriam lhe arrancar os olhos, dedos, fudê-la e depois jogá-la ao mar se o septão não o fizesse.
Ninguém teria garantia alguma de que os invasores cumpririam o acordo – por que o fariam? Eram apenas animais armados. De toda a forma, Eweyn fez o que mandaram. Ele matou o cachorro, abrindo-lhe o estômago com um punhal que lhe deram. Eles riam com a cena que se enredou. Mandaram-no enfiar, puxar as tripas – ele fez. Quando brincaram que ele devia comê-las, ele o fez. Chorando, mas o fez. Lágrimas caíam nos cantos de seu rosto enquanto ele se forçava a comer o estômago do velho companheiro sem vomitar.
No fim Eweyn não suportou, vomitando todo o conteúdo. Os nascidos de Ferro uivaram como lobos jubilados. Um deles brincou que o septão deveria lamber o vômito, mas Eweyn nem o ouviu. Apenas começou a chorar, abraçado ao corpo desventrado de seu velho cão companheiro. Ficava pedindo desculpa, mesmo que o animal já estivesse morto. Estava empapado com o sangue do bicho, soluçava sem parar.
De sopetão, aproveitando a posição do septão, um dos invasores foi pé ante pé atrás dele – enfiou a lança em seu ânus, fazendo Eweyn grunhir de dor. Os outros dois o agarram e o obrigaram a ficar onde estava enquanto o agressor girava a lança, fazendo-a se afundar mais. Eweyn foi largado ainda vido. Morreu em cima de seu animalzinho.
Quanto a Beth, bem, seus agressores cumpriram a promessa – exceto jogá-la no mar. Parece que, mesmo sem nariz, dedos, olhos e língua, um dos desgraçados ainda achou que ela seria o tipo ideal de esposa e levou-a consigo para sabem-se-os-deuses-onde.
Carellen desviou de outra noviça que caminhava em direção oposta a sua. Parecia mais velha, mas nem parou para ver que era. Ela perguntou-se ela também teria vivido os atentados ou não. Provavelmente sim. Carellen teve de ver tudo, presa por grilhões, mas escapou de estupro e desmenbramentos – sua falecida tia Elinor conseguiu vestí-la de menino, junto de algumas outras, após deixar os cabelos curtos e passar alguma poeira em seu rosto. Isso não a impediu de sofrer violências como chutes e tapas, mas pelo menos não ousaram violar seu corpo – embora nem todos os rapazes (verdadeiros ou não) pudessem compartilhar tal fado.
A partir da invasão, a Abadia conectada ao Septo Estrelado e o salão das rezas foram marcados como lugares onde os nascido de ferro poderiam ir para compartilhar uma “foda”, como eles falaram. Uma das sobreviventes, Melissa, falou como eles eram sádicos – certa vez, fizeram mulheres digladiar-se entre si, mesmo fracas e doentes. A vencedora enfiou um caco de vidro-chumbado na perdedora. A recompensa pela vitória foi que enfiaram o maldito vidro entre as pernas dela, várias e várias vezes, enquanto se masturbavam. A mulher morreu, vítima da infecção causada pelo ferimento.
Muitas morreram por conta disso: os estupradores não cuidavam das moças, deixando-as com doenças sexuais, praticamente sem comida, tendo de fazer as necessidades no mesmo recinto. Nem quando morriam retiravam o corpo (Melissa insistia que muitos abusavam dos cadáveres).
Coisas profanas também ocorriam em Torralta. Segundo o que Carellen ouvia, Euron e sua então recém-amante tinham desgosto depravados. Não apenas ocorriam orgias e bebedeira – alguns relataram que Euron e Malora faziam sacrifícios de sangue, tomando banho em sangue de donzelas e que diversos bebês eram levados para o alto da torre e nunca mais saíam; seus corpinhos viravam pastas sanguíneas, que O Olho de Corvo aspergia no corpo pálido de Malora.
Alguns ousavam dizer que viravam comida para o casal.
Verdade ou não, quer Malora fosse amante ou refém, o Lorde Hightower estava morto, assim como boa parte de seus filhos – além de Malora, apenas Allerie e Humfrey e algumas outras filhas já casadas e distantes estavam vivos naquele momento. Até a esposa Florent e seu irmão foram assassinados – defenestrados pela janela. Embora alguns digam que Malora serviu a madrasta como prato principal no banquete que teve com Euron. Uma união de sangue esses dois.
A espada ancestral Hightower, vigilância, também se perdera durante a batalha naval do herdeiro varão do falecido lorde Leyton. Se não afundara no mar, a espada valiriana deve ter sido roubada por algum dos desgraçados dos invasores.
No que tangia o Rei das Ilhas de Ferro e sua curta estádia na Torre dos Hightowers, certos relatos ficavam mais obscuros: Euron e Malora devoraram os bastardos de Olho de Corvo; Euron e Malora invocaram os profundos e estes prometeram glória e fortuna se caso trouxesse o apocalypse; que ambos estavam ficando azuis, transformando-se em peixes. Até que eles obrigavam pessoas a ter relações sexuais com animais, como nos tempos em que Valirianos faziam isso com seus escravos. Havia quem dissesse que até as lulas colossais que se atracaram nas encostas foram um invocação de Euron, mas o arquimeistre Ebrose insistia que aquilo era apenas por conta do sangue dos corpos que foram deixados no mar.
Tivesse algo verdadeiro nesses relatos ou fosse apenas um aumento para a já profana dupla que se formara, Olho de Corvo e sua Donzela insana partiram. Partiram muito antes de Aegon chegar.
Quando o autoproclamado Rei Aegon VI cortou os céus, O Rei do Mar havia partido sem que ninguém nem notasse, levando boa parte de sua frota consigo (essa sim todos perceberam a falta). As armadas da Companhia Dourada e os apoiadores de Aegon na Campina (Lorde Tarly e Matthis Rowan) varreram o mal da Campina de uma vez por todas.
O rei usou sua fera alada e verde para queimar as frotas, além de queimar certos campos que eram concentrados por invasores; mas a maior parte das batalhas se deu em terra, com os cavaleiros de ouro destruindo, sem grande dificuldade, os homens de ferro. Eles não eram realmente muito perigosos fora de seus dracares. Isso evitou que mais terrenos fossem destruídos, embora Aegon tenha queimado aqueles que estivessem perto da Região de Highgarden – talvez para mostrar a Lorde Willas o que poderia fazer caso achasse que poderia mudar de lado.
Muitos nascidos de ferro afundaram na água, junto de seus amados navios. Usavam armaduras mesmo na água, talvez para morrer em glória. Certos outros foram jogados contra o mar, como vingança pelos que fizeram.
A partir disso, as coisas se acalmaram um pouco – os corpos dos mortos foram enterrados, as casas muito queimadas foram derrubadas enquanto outras eram reerguidas. O septo Estrelado, mesmo queimado pelo saqueadores, pode não estava em estado absolutamente péssimo – a maior dificuldade foi a retirada de todos os corpos. Muitos foram erguidos por correntes e deixados dependurados pelos nascidos de ferro, como um abatedouro. Uma prova de que a fé deles era vitoriosa sobre os sete dos ândalos. O cheiro de morte parecia nunca desaparecer, imiscuído no mármore negro.
Humfrey Hightower, agora o lorde Hightower, retornou, sem o apoio da irmã e sem uma família para acolhê-lo, mas com uma terra devastada para ajudar a se reerguer. A casa Hightower sempre foi uma das mais ricas da Campina, talvez superando até os suseranos Tyrell; porém Euron havia levado boa parte dos tesouros de Torralta consigo.
(Demorou um bom tempo para que Humfrey retornasse, pois as três cidades livres estavam em pé de guerra; para piorar, um Rei Corsário brigava nos Degraus pelo direito de governar as ilhas. Apenas quando teve salvo conduto e a permissão do Rei Pirata e do Rei Aegon ele pôde retornar a sua pátria.)
O salvamento veio em bom tempo para a Cidadela – os nascidos de ferro conseguiram invadir – talvez até tenham queimado uma boa parte dos pergaminhos e tomos velhos que ali tinham –, mas forma barrados em grande parte por ventos potentes e misteriosos. Euron parecia estar bem interessado no que quer que tivesse nos livros antigos do local, mas, se obteve algum, não foi muito, pois o aglomerado de pequenas ilhas conseguiu se proteger contra praticamente todas as investidas que os capitães de navio tinham a oferecer. Não sem baixas, mas o bastante para resguardar alguns livros antigos.
Por sorte, prevendo a invasão, muitos meistres e arquimeistres conseguiram transcrever certos conteúdos antigos. Alguns até levaram os códices consigo, impedindo-os de serem roubados.
Carellen sempre se perguntaria como a Cidadela conseguiu resistir a um ataque tão devastador quanto Euron Greyjoy. Parecia difícil acreditar que isso fosse possível quando quase toda a Campina havia sucumbido.
Apesar do que pareceu uma nova reviravolta nas marés, a situação logo se mostrou complicada de qualquer forma – além do respaldo negativo da invasão, mesmo com bom o recebimento de Aegon como Rei e salvador, muitos não estavam de fato contentes com a união da Fé dos Sete com a Fé Vermelha.
Muitos sacerdotes e sacerdotisas do deus vermelho vieram para Westeros. Maioria para a Fortaleza Vermelha em Porto Real, uma certa quantidade foi para Dorne, onde já haviam templos assim, mas uma parte veio para Vilavelha. Uma parte indesejada, diga-se de passagem.
Apesar do agradecimento de muitos para com Aegon, havia desgosto de tantos outros com para com a rainha deste – Daenerys. Todos tinham ouvido falar delas, todos tinham uma opinião a seu respeito. Nenhuma era boa.
Apesar de desgostosos com a situação, vendo muitos se voltando para um deus estrangeiro qualquer, o clero da fé andala não estava em condições de arrumar mais uma rusga – a fé vermelha era protegida pelos novos monarcas. Além disso, mesmo com muitos sendo condecorados como filhos do Guerreiro e pobres irmãos, a Capital da Fé era em Porto Real, não na Campina – era lá onde a maior parte dos guerreiros estava, assim como era lá que o líder da fé e boa parte dos mais devotos ficava. Se algo tinha de ser decidido, tinha de ser lá.
Com o tempo, mais pessoas buscavam se aquecer nas chamas pagãs dos ímpios do que na luz de vela dos sete. Provavelmente hipnotizados com as cores e jargões dos adoradores do fogo. Alguns talvez estivessem apenas decepcionados em rezar para os sete e nunca serem ouvidos.
Por sorte, pouco confronto ocorreu entre os adoradores de diferentes religiões – os outros poucos idólatras, amantes de outras deidades, não tiveram a mesma sorte; era como estar no fogo cruzado. Os fanáticos vermelhos conseguiram queimar alguns, enquanto os adoradores dos sete partiram para agressão com socos, espadas e bastões; mas ambas as religiões se mostraram bem desgostosas uma com a outra, tendo disputas entre si. O mesmo acontecia com os seus adoradores, não envolvendo apenas os dois sacerdócios É fácil pensar em como o recém-lorde de Vilavelha ficou desesperado com a situação – havia sangue mesmo após a saída dos invasores. Nos becos, vielas, túneis, ruas. Toda Vilavelha estava um verdadeiro caos; pessoas matavam por crenças religiosas, por desespero por comida, abrigo, dinheiro. Graças ao ambiente belicoso, não é uma surpresa que diversos comerciantes tenham evitado aportar nos cais da cidade portuária.
Não ajudava o Rei pirata nos degraus, a guerra civil entre Myr, Lys e Tyrosh bloqueando tudo. E krakens, é claro. Estavam por toda a parte, afundando qualquer navio ou coca que ainda estivesse de pé. A consorte de Aegon também não ajudava – Daenerys incendiara cidades e quebrara muito da economia estrangeira; quem de Essos ficaria satisfeito em fazer negócios com uma mulher que apenas estragara seus negócios? A doença de fluxo sangrento dela (bom, todos diziam que foram seus estrangeirinhos de estimação que a trouxera) apenas serviu para criar mais ódio. Desconhecidos famintos invadiram os sete reinos, buscando comida e trabalho, trazendo costumes esquisitos, trazendo pragas, e era esperado que todos apenas aceitassem?
O sumiço dos sacerdotes vermelhos e a união do Rei Pirata (um bastardo Velaryon qualquer) com os Reis de Westeros não ajudou como um todo – a cidade portuária precisava de reforma, os mares ainda estavam um caos, a guerra se estendia, acompanhada pelo inverno. Mesmo com os cofres vazios, o lorde recusou-se a aumentar os impostos de forma muito significativa, provavelmente para evitar mais revoltas sendo feitas.
Tudo isso mudou quando Jon Connington assumiu a regência do Jardim de Cima e da Campina. O antigo detentor de Mão do Rei não era bem visto por ninguém – muitos lordes tinham medo do que poderia ser feito a família Tyrell, assim como temiam que algum soldado da Companhia Dourada ousasse tomar alguma terra. Já foi um desgosto que os Conningtons tivessem tido um decreto real que lhes devolvesse as terras retiradas. Além do mais, Jon matara Ronnet Connington – seu parente –, queimara vilas em nas terras da Tempestades e fez diversas famílias que não lhe deram apoio de reféns enquanto os lordes das casas estavam em guerra.
De toda a forma, a regência dele piorou tudo. No começo ele fez uma boa repartição do ouro restante em Highgarden, o que foi bem visto no começo – mas ele obrigou a todos que quisessem algum empréstimo a aumentarem os impostos. Muitos lordes já o tinham feito, mas, ao que parecia, o regente achou que não estavam altos o bastante. A razão para tal era que Jon queria ter garantias de que as famílias iriam pagar os valores devidos depois.
(Importante notar que os lordes que mais foram cobrados a aumentar os impostos foram justamente de casas que prestaram apoio aos Tyrell; talvez Jon apenas quisesse que eles tivessem mais problemas para resolver antes de pensarem em alguma revolta – assim como os próprios Tyrell. Carellen se perguntava se a ideia era de que caso Willas voltasse ao poder, este ganhasse a inimizade dos lordes ao cobrar os cofres vazios que encontrasse em seu castelo; quem sabe, o filho do falecido Lorde Mace apenas perdoasse a dívida para não ter mais querelas – seria visto como fraco por alguns, benevolente para muitos; mas pobre para todo o reino.)
A situação foi aviltante para Lorde Humphrey, que já havia sido obrigado a cobrar as dívidas que existiam no banco de Vilavelha. Ele não tinha dinheiro o bastante para fazer empréstimos para os lordes, de modo que fora obrigado a cobrar os valores para as algumas das Casas que tinham no banco – alguns diziam que isso era obra do próprio Mão Regente, numa tentativa de criar mais desavenças entre o maior dos vassalos dos Tyrell e as outras casas. Verdade ou não, o próprio lorde Hightower teve de pedir dinheiro para Highgarden e a Coroa, assim como aumentar seus impostos, visto que os navios quase não paravam mais em seus portos.
Mas nada garantiu mais o ódio da plebe e da monarquia para com o regente do que a praga.
Não havia como provar, mas todos pareciam certos disso: Jon Connington trouxera escamagris para westeros. Talvez ele tivesse conseguido segurar a doença por um tempo, mas não havia modo de detê-la. As pessoas ainda estavam tratando o fluxo sangrento quando pessoas começaram a ver a pele ressecar a ponto de alembrar pedra. Diversos navios foram queimados em um desespero sem sentido, o que veio a piorar o comércio – agora, mesmo sem Daenerys, o ódio aos estrangeiros estava instalado. Estes sabiam disso. Nenhum comerciante ou fidalgo de Essos ousaria viajar num mar em guerra para encontrar uma terra cheia de pragas e ódio.
A cidade Portuária apenas ficava mais e mais vazia. O cheiro de morte e o azar pareciam estar impregnados no local. A situação se estendia para Tumbleton, Porto Ryam, Porto da Estrela do Mar, Vilavinha e qualquer outra vila mercantil. Todas as ilhas da Campina – Árvore, Recife do Caranguejo de Pedra, a Ilha dos Porcos, o Palácio da Sereia, o Rochedo da Ferradura e o Berço do Bastardo – estavam penando para recuperarem-se da invasão dos Homens de Ferro.
Não se podia contar com as próprias terras westerosi para se cuidar. As plantações estavam devastadas pelo inverno rigoroso; nem mesmo o trigo de inverno crescia mais. O vinho, cuja fabricação fez a Casa Redwyne ser tão rica, estava simplesmente intragável. O gosto era tão ruim que muitos tiveram de se arriscar a tomar água – o problema é que o líquido não era fermentado, de modo que muitos morreram pela infecção ou passaram perto de bater as botas. Cerveja não era uma opção melhor – quase não havia grãos para tal bebida, e a única cerveja boa para um inverno como esse era a cerveja preta do norte – que estava em guerra, bloqueando o comércio.
De fato, não ter nenhum reino do Tridente para cima foi um verdadeiro golpe para a economia e para as pessoas – não havia tanto queijo e cerveja de cevada sem a as Terras Fluviais; as abóboras, grãos e velas do Vale estavam em falta; até mesmo o Norte poderia ter aliviado com alguma comida ou pele para vender.
As Terras da Tempestade, bem ao lado da Campina, não estavam em condição de ajudar – maior parte dos lordes havia sido morta por Randyll Tarly ou estava em apoio com Stannis; o lorde atual era um bastardo qualquer do falecido Rei Robert; a terra deles estava assolada de tempestades massivas de neve. As florestas locais seriam ótimas para um comércio de madeira, mas os lordes tinham de usar muito para si. De resto, não havia muito comércio para ser feito. As estradas entre os dois reinos também não estavam seguras – muitos dos forasteiros de Daenerys, após expulsos de Porto Real, acharam abrigo na mata real e nos matagais de Ponta Tempestade. Era fácil ver como muitos destes estariam desesperados a ponto de matar para roubar a roupa de qualquer um que passasse por eles.
As terras da Coroa também não eram grande coisa – estavam embaixo de neve tanto quanto qualquer outro reino; mas tinham menos tamanho e fertilidade que a Campina. Na verdade, boa parte dos alimentos dos campanários era levado para Porto Real. Eles estavam na fartura, sem se importar com o que a falta de tal alimento fazia em outras terras. Um desperdício e uma afronta para lordes e colhedores, visto que nada daquilo teria sequer volta monetária.
Com a praga assolando a todos, as pessoas voltaram a ficar paranoicas – todos poderiam estar infectados e esconder. Ninguém tinha como saber quem tinha escamagris até que a praga atingisse os pontos visíveis do corpo – e isso se torna ainda mais complicado quando todos se mantinham cobertos com o máximo de vestes que podiam para se protegerem do inverno. Mais uma vez, era vizinho acusando vizinho, toque de recolher que começavam bem cedo e terminavam bem tarde. Vilavelha teve de fechar seus portões e portos novamente, para a desgraça de Lorde Hightower.
A tia-avó de Carellen fora uma das que sucumbiu com a doença. Ela ajudou tantos infectados quanto pode, sempre rezando e tomando banhos escaldantes depois, para garantir que estava protegida – não funcionou. A doença alastrou-se rápido na pobre idosa, talvez por conta da idade, mas meistres explicaram que climas úmidos e de extremo frio devem ter ajudado a escamagris a se alastrar mais rápido em Westeros. Por isso tantos ficaram doentes.
Vinagre, limas, emplastros, cataplasma de mostarda – tudo isso é considerado uma forma de evitar a doença, impedir que se alastre, mas estava em falta. Não que o povo, assustado com a nova praga, sequer deixasse que qualquer infectado tivesse tempo para sobreviver – não deixavam nem os não-infectados sobreviverem.
A morte de sua tia foi um baque profundo no coração de Carellen – desde que a guerra explodiu nos reinos ela foi levada para o convento onde sua tia comandava, ficando lá até o ataque dos Homens de Ferro majorar. Ela nem sequer tinha certeza de que seus pais estavam vivos, visto que estes ainda estavam no Tridente e com ameaças maiores. Os relatos de pragas mais ao norte, a morte de certos lordes, a invasão sem sentido de O Olho de Corvo, a luta de dragões; tudo era falado, de modo que ela não tinha como ter certeza. Era difícil saber de seu pai, mas nada viria sobre a sua mãe.
Mas ela não nutria tantas esperanças – sua mãe não enviava corvos desde que fora para Correrrio. Enviara apenas um, avisando de sua chegada lá.
Mas a angústia era do não-saber, da não-certeza total. O pai de Carellen, Theomar Smallwood, já tivera muita sorte ao não morrer no Casamento Vermelho; assim como sua esposa, Ravella, tivera muita sorte de ter escapado do pior da guerra, ainda mais com Dothrakis e Homens de Ferro. Seriam os deuses bons para permitirem que os dois ainda estivessem vivos?
Após a morte de Aelinor, Carellen ficou sem rumo. Sua tia deveria ter levado-a a sede da Casa Swann, em Pedrelmo; mas a neve e as incertezas haviam se imiscuído demais no reino quando a idosa finalmente pareceu ceder um pouco a ideia. Agora estava morta, deixando a sua sobrinha desamparada. Ninguém mais sabia da verdade sobre Carellen; nem mesmo os Tullys deviam ter ideia de que ela estava em território inimigo – se sabiam, o máximo que poderiam fazer era rezar para que ela ainda estivesse viva, pois seria perigoso revelar a identidade da herdeira da casa Smallwood.
Ela estava sozinha e transida em uma tempestade de gelo e morte.
Mais uma falsa sensação de alívio veio quando finalmente anunciaram o retorno veio quando Lorde Willas retornara para seu assento como lorde.
Lorde Jon fora morto com a garganta cortada, após já estar insano pela doença, com alguns relatando que ele atacava as pessoas que se aproximavam, como se fosse um animal. Contudo, boa parte confirmava que ele já estava sem nem conseguir sde mexer quando fora morto em sua cama, louco e oralizado pela doença. O castelo foi passado na tocha, para impedir qualquer meio de contaminação. Até os jardins e labirintos queimaram, junto das vestes, tapeçarias, móveis, o que fosse.
A decisão não partiu de Willas – foi uma revolta. O povo se revoltou, os guardas abandonaram seus postos. Aquilo foi uma resposta violenta à miséria. Muitos morreram, nem todos por medo da infecção, era apenas vingança. Após isso, Highgarden estava com cofres vazios e paredes torradas. Willas tinha quase uma ruína agora.
Apesar disso, o benevolente Aegon fez jus a sua alcunha; deixou que o lorde de Highgarden levasse uma parte de seu tesouro, assim como deu uma parte dele para Hightower e o Septo Estrelado. Agora, apesar de muitos ainda estarem em choque pelas mortes de diversos Tyrells, tinham algum alívio para si. O lorde Hightower pode abaixar seus impostos, assim como muitos lordes menores da Campina. As reformas puderam ser melhoradas nas vilas, mesmo que depois fosse cobrado o valor gasto do dinheiro da Coroa. De toda forma, um alívio para todos. As coisas se acalmaram.
Com o dinheiro, sem ímpios no local para gerar desavenças, uma guerra que parecia ter entrado numa estranha pausa, os septões do Septo Estrelado puderam usar uma boa parte do dinheiro do Septo de Baelor e da Coroa para gastar em lãs, pão e outras coisas. Para ajudar em tal crise, Lorde Humphrey deu a ideia de que Vilavelha levasse alguns de seus noviços, meistres e, caso possível, arquimeistres, para ajudar no local. O próprio lorde tinha um arquimeistre para si: arquimeistre Ryam, com bastão, anel e máscara de ouro. Ele ajudava o lorde na questão da economia. Imaginava que o lorde Hightower andava precisando disso.
Mesmo com as coisas se acalmando, a intempérie veio a avultar a cada dia. O sol, já pouco visto desde que o inverno irrompeu, agora nem era mais visto. Nos últimos tempos era impossível dizer o que era dia ou noite. Era sempre um negrume com flocos pululando no ar. As estradas estavam cobertas, pingentes de gelo aumentavam de tamanho, os campos outrora verdejantes agora eram campos brancos e cinzentos. As poucas luzes que tinham eram pequenos, baços, rapidamente apagados. Nem mesmo as estrelas faziam-se presentes.
As nuvens que traziam tal escuridão eram tão densas e pesadas que pareciam cada vez mais baixas cobrindo até parte do teto abobadado do Septo Estrela e sumindo por quase que por completo com a torre dos Hightowers, cuja ponta radiante estava coberta pelo cinza.
Com um inverno tão avassalador, não era uma surpresa que vinham para o Septo Estrelado – embora ainda fosse uma surpresa repentina haverem tantos feridos em um curto tempo. Muitos relataram ter sido atacados.
Dorcas, uma das noviças, prestes a ser septã, acreditava que o rei do norte e a Rainha Dragão estavam atacando, visto que os selvagens nortenhos eram adaptados ao gelo. Diziam todo o tipo de loucura dos exércitos nortenhos – que tinham gigantes, que caminhavam na neve, que eram todos troca-peles, montadores de unicórnios e sabe-se lá mais o que. De Daenerys e sua corja, mais negativo ainda eram os burburinhos. Desde que ela se banhava em sangue de virgem, até para ela ter genitais masculinas e que enfiou o próprio pau na buceta para parir as feras aladas. De Stannis, apenas que ele era um pagão e um rei fracassado que desistiu da própria campanha para o trono porque viu que perderia.
Carellen gostaria de ir até o norte, até o Tridente. Falavam que Lorde Jon era governado pela irmã e pela esposa; parecia que a princesa Sansa tinha matado o próprio marido. Apesar disso, parecia melhor estar do lado vencedor do que num campo de morte gélido. Alpém disso, histórias diziam que Sansa tinha uma corte para mulheres e que tinha Margaery Tyrell como sua protegida, além de ser próxima de mulheres que eram ladies por direito próprio. Até falavam que a sua irmã era uma princesa bruxa e que matara Euron Greyjoy e roubara sua coroa; que falava com os mortos, coisas assim. Seria muito melhor para Carellen ter esse tipo de companhia, pelo menos elas poderiam ensiná-la a comandar um castelo.
Após dar a volta em alguns catres, feridos e cadáveres, Carellen chegara até o arquimeistre.
— Arquimeistre Ebrose, cá está o que precisava.
A figura de Ebrose podia ser reconhecida de longe, graças a seu cajado de prata, feito do mesmo material que sua máscara e anel. O bom idoso virou-se quando ela aproximou-se dele, sorriu, indiferente ao caos ao redor dele.
— Ah, muito obrigado, Carellen. — Virou-se para o ferido no colchão de palha. — Não te preocupes, açougueiro, a dor vai diminuir um pouco agora que temos papoula. Ele vai precisar, está em agonia terrível, terrível. Podemos gastar um pouco de nosso leite com ele, decerto.
O careca que o arquimeistre chamou de “açougueiro” olhou para o arquimeistre com olhos grandes, bem arregalados. Não falou nada, apenas se remexeu na cadeira. Estava preso por tiras de couro na cama. Ele era insano, falando coisas absurdas sobre morte. Sua perna havia sido amputada, sendo deixada numa bandeja grande ao lado do catre, empapada de sangue e formando uma poça no chão. Da última vez que Carellen vira o Açougueiro a perna ainda estava no lugar, mas preta como carvão. Era efeito no frio, como bem explicou Ebrose. Haviam muitas amputações sendo feitas nos últimos tempos.
— Agora — disse o meistre, aproximando-se da jovem —, ajude-me a desamarrar um dos braços. Não acho que vou precisar de verme e sanguessugas aqui, vamos apenas suturar o rasgo no braço.
Carellen assentiu. Ebrose virou-se, acenou com a mão para indicar que alguém aproxima-se do local.
— Garin, trata de cauterizar a ferida.
O pequeno dornês assentiu, aproximando-se de onde estavam. Era baixinho, mais baixo do que Carellen, mesmo sendo provavelmente pouco mais velho que ela. cabelo curto, castanho; pele olivácea; inclinados olhinhos escuros. Tinha um sorriso bonito e relaxado, apesar do dente lascado. O rosto era esguio, não muito belo, mas sem dúvida cativante.
Dorneses tinham sido uma estranha leva da guerra – decerto foram um golpe para os campineiros, dada a velha rivalidade entre ambos. Ter uma Rainha dornesa não era sinônimo de aceitação dornesa – pergunte aos apoiadores Blackfyres, caso eles ainda estivessem vivos –, ainda mais com o crescente desgosto para com estrangeiros – e boa parte dos westerosi veem dorneses como nada mais do que estrangeiros.
Deve ter sido um golpe no orgulho de muitos ter de fazer tantas encomendas para que fossem trazidas comidas das terras áridas de dorne – limões, laranjas, pimentas, pimentões, figos, azeitonas. A intempérie do inverno demorou-se para ir além das Montanhas Vermelhas. Isso fez o principado ainda ter boas condições para plantar, mesmo que atrapalhados pela queda da temperatura. E, com uma rainha dornesa, todos queriam seguir um pouco da moda – não fosse o frio extremo, todos estariam andando por aí com seda e linho transparente, turbantes coloridos, usando jóias na testa.
Mas, como já diziam os Reis de Inverno, o inverno chega para todos – mesmo para Dorne. Haviam diversos relatos de que estava nevando em pencas no principado. Como se podia esperar, as plantações não suportaram tal intempérie, definhando rapidamente. As plantações estavam simplesmente perdidas, os habitantes de dunas agora tinham de se acostumar a toneladas de neve imiscuindo a areia. Carellen imaginava que devia estar sendo um verdadeiro pesadelo para todos os dorneses (fossem salgados, pedregosos ou arenosos); estavam acostumados a raios de sol fulgurantes, usarem camisas de tecido fino e até a ficarem descobertos no sol quente. Agora, a brisa que batia em seus rostos queimava, não pelo calor, mas pelo frio extremo. Deviam estar definhando.
O inverno chegará para todos nós, pensou a donzela Smallwood, tremendo o que mais a guerra traria para ela. O tempo de penúria parecia sempre arrumar um jeito de piorar.
O inverno não fora o único golpe que parecia ter afetado o povo dornês – o príncipe regente, segundo diziam, estava fraco e enlouquecido pela dor. Sua gota havia piorado, fazendo-o ter de tomar grandes doses de leite de papoula, o que deve ter causado algum vício nele. Fora isso, as mortes das filhas ilegítimas de seu irmão, o falecido Víbora Vermelha, assim como do possível amante da Rainha Dornesa, abalaram seu emocional; como se já não bastasse a morte de seu filho pelo dragão de Daenerys.
Segundo se sabia, a antiga amante do príncipe Oberyn, uma bastarda nobre, era como uma regente para Dorne; embora Carellen achasse a história absurda até para os padrões dorneses.
Enquanto Garin usava uma haste incandescente para queimar a região ferida do coto abaixo do joelho do Açougueiro, Carellen ajudava o arquimeistre de Cura a desamarrar o braço ferido do homem ferido. Uma irmã silenciosa retirava a bacia onde estava a torcida e escura perna decepada do homem.
A pele siiiilvou conforme o metal encostava na carne exposta. Fumaça acre subiu da região avermelhada. O homem espasmou em agonia enquanto Carellen e Ebrose soltavam seu braço direito e tentavam agarrá-lo. O Açougueiro se recusara a tomar leite de papoula, então teria de aguentar tudo acordado.
Seu braço se movia de forma brusca conforme o metal fazia a ferida aberta na perna guinchar.
— Isso é inútil — declarou Garin, deixando a haste de lado. A ponta não luzia mais, a ponta estava coberta por um líquido preto e borbulhante. O dornês se afastou, voltou quando agarrou um archote.
O Açougueiro debateu-se ainda mais com a cena.
— Bem, devia ter tomado a papoula — ralhou Ebrose, curvado sobre si, enquanto agarrava o antebraço gordo e peludo do sujeito no catre. — Sei que dói, mas estamos tentando o ajudar!
Com um bracejar, o paciente soltou-se dos braços frágeis do Arquimeistre. Carellen escapou de um tapa das costas da mão do Açougueiro. Agora ela podia desviar. Antes, quando era refém dos saqueadores, ela tinha de suportar os tapas. Reclamar ou tentar desviar era pior; eles apenas começariam a tentar espancar mais e talvez até arrancar algo dela, fosse membro ou vestes. Por sorte nunca tentaram rasgar sua veste, ou veriam seu corpo feminino por debaixo das vestes velhas que ela usava.
De chofre, Garin enfiou a ponta flamejante do tição com um gesto brusco. A fumaça subiu ainda mais, o chiado da carne tostando aumentou em um instante. O Açougueiro arqueou-se, parecendo travar numa posição, com todo o corpo ficando rígido pela agonia extrema.
Por fim, o corpo inteiro esmoreceu. O homem desmaiara pela dor.
— Ah, finalmente — falou Ebrose, aproveitando para pegar o braço mole do Açougueiro. — A ferida já foi desbastada, vamos apenas costurar a região.
— Quer que eu tente, Arquimeistre? — Solicitou a jovem dama. A visão dela era mais sadia do que a do ancião, e evitaria que ele tivesse de se abaixar muito.
Ebrose deu um sorriso gentil, assentiu.
A tia-avó de Carellen sempre elogiou sua agilidade na costura; o tempo de penúria não retardou suas habilidades. Pegou o fio, passou-o pela agulha delgada. Com gestos simples mas assaz enfiou-a na carne do Açougueiro, puxou. Repetiu o gesto algumas vezes, até que toda a greta sanguínea estava atada pela linha escura. Puxou, selando a abertura na pele. O tecido humano aproximou-se. Estava acostumada a fazer isso. Sentia-se menos enojada agora. Após tanto tempo ouvindo a cacofonia que eram os gritos, gemidos e choro dos feridos, vendo todo o tipo de feridas sendo abertas, membros sendo amputados, ela achava que costurar a pele humana era algo fácil. Era só mais duro do que enfiar a agulha em um tecido. Só isso.
— Pelo menos não tivemos de usar vermes para limpar, a ferida não estava muito suja. — Ebrose ajeitou o braço no catre novamente após aspergir um pouco de emplastro na região ferida. Voltou-se para Garin, aos pés da cama. — E a perna?
Gerin entornou uma taça sanfonada cheia de vinho quente.
— Terminada. Podemos enrolar as faixas agora. Pelo menos não desperdiçamos bom vinho.
Passou-se um emplastro no tecido antes de enrolá-lo em volta da parte onde a pele havia sido cortada e cauterizada.
Finalizado o serviço, o arquimeistre Ebrose passou a manga de sua túnica marrom pela testa suada e enrugada. Hauriu ar.
— Ainda temos um longo trabalho a fazer — comentou o velho. — Muitos têm marcas escuras, imagino?
Garin e Carellen assentiram.
— E falando de mortos e sabem-se os deuses mais o quê — respondeu a jovem, sentindo-se cansada. Seus dedos estavam rijos, seu vestido estava sujo, seus pés doíam. Precisava dormir, mas sabia que teria apenas algumas horas antes de ser acordada e obrigada a trabalhar novamente. Era melhor cuidar de quantos podia, assim não teria pesadelos e poderia se distrair.
As pessoas surgiam aos montes, apavoradas, falando sobre mortos e criaturas geladas. Alguns falavam da Longa Noite, que Os Outros haviam chegado. As pessoas estavam cada vez mais insanas, parecia até que uma nova praga havia lhes atingido a mente. Falavam até de mortos na água.
— Existe a possibilidade de serem pessoas com escamagris avançada atacando? — indagou Carellen, acompanhando o arquimeistre por entre os feridos, enquanto analisava-os. — Talvez por isso estejam atacando uns aos outros.
O ancião de cura pareceu analisar a sugestão e descartá-la em apenas alguns segundos.
— Improvável. Impossível, até. Claro, a doença deixa as pessoas insanas e agressivas quando consome a mente. Porém ninguém mostrou sinais da doença e nem descreveu a aparência dos supostos agressores como infectados por escamagris. — Balançou a cabeça. — Não, essas pessoas estão mesmo sendo atacadas, mas não por pessoas com escamagris.
— Pode ser só alguma loucura de inverno — sugeriu Garin. — Está cada dia pior, nem mesmo as lulas aguentaram esta tormenta pelo que falam. — Continuou: — Desde que o sol sumiu, apenas os corpos e gelo continuam a aparecer nas docas. Até mesmo as lulas pareceram retroceder conforme o frio avança.
O arquimeistre abanou a cabeça e gesticulou com a mão.
— Esses seres foram atraídos por sangue, mas também pelo frio — explicaram ele. — Com a chegada de um inverno tão avassalador, mais a promessa de comida, essas belas lulas viram-se livres para sair das profundezas e caçar. Se estão afastando-se das margens, devem estar sentindo algo que nós ainda não percebemos; mas é improvável que se trate apenas do inverno.
— O que mais poderia ser? — indagou Garin. — Acha que é um ataque dos nortenhos mesmo? Talvez com alguns bichos da muralha ou mesmo o dragão de Daenerys?
— Isso eu não sei dizer — respondeu Ebrose, estacando-se, voltando-se para encarar os dois. — Não é ora disso. — Bateu o cetro argênteo no chão, fazendo um som abafado pelos barulhos das pessoas sofrendo. — Temos de cuidar dos feridos, não teorizar!
Havia menos larvas e ovos de mosca nas feridas dos enfermos do que nas outras vezes – o que não quer dizer que não havia em grande quantidade.
As moscas eram uma praga que veio junto da escamagris; pouco depois da doença que o regente trouxera. Pareciam ter vindo do norte, nunca antes vistas em Westeros – os meistres pareciam acreditar que eram moscas de Essos, mais especificamente – de terras Dothrakis. Eram mais uma praga da Rainha Dragão ao que aparentava.
Esses insetos eram roxos, gordos, voejavam causando um zumbido insuportável. Elas chupavam sangue da mesma forma que os mosquitos, mas mais dolorosas e irritantes para a pele. Mas o pior era que elas injetavam os ovinhos nos corpos que picavam. Isso ocorria com qualquer dos animais, mas era pior com os humanos fracos. Provavelmente, se Ebrose e os meistres estivessem certos, elas viviam em climas temperados, não sendo adaptadas para o clima invernal no qual Westeros estava preso. Estavam no sul para tentar escapar do friúme, a intempérie e a viagem as faziam ficar esfaimadas, precisando sugar mais sangue; depositar mais ovos para salvar a espécie. Cavalos, vaca, boi, cachorros, gatos, até corvos eram logo picados, ficavam com pústulas fedidas, prestes a explodir e liberar larvinhas.
A próxima pessoa de quem cuidaram era uma mulher com larvas nas partes íntimas. Provavelmente estava assim por conta das feridas de abuso que a mulher sofrera. A região era fétida, cheirando a urina velha, pûs e carne podre. Haviam bolinhas brancas, algumas estouradas soltando pus, onde era a buceta. Largas rastejavam pela região que, ao invés de rosada, estava vermelha e inchada. Os bichinhos estavam emaranhados nos pelos pubianos. As larvas rastejaram até o ânus, entrando na região anal dela, que estava cheia de fezes e feridas infectadas. Era uma imagem bem deplorável, fazendo todos franzirem a cara.
Ebrose e Carellen retiraram algumas das larvas com pinças, após banharem a região fétida e íntima da mulher com água escaldante e vinho quente. As bolhas estouraram, expelindo mais líquido podre. Ebrose, mesmo velho, ainda tinha a agilidade de um gênio curandeiro – passou uma navalha no local, cuidadoso, retirando os pelos pubianos que tinham bichinhos e sujeiras presos neles. A mulher se contorceu, chorou, espasmou, mas os calcanhares estavam amarrados, assim ela não chutou ninguém.
Garin cuidou de tratar de um seio aberto onde devia estar a auréola rosada do mamilo e feridas na cabeça dela. Larvas em todos os machucados.
— Calma, moça, calma… — disse o dornês, tentando acalmar a chorosa mulher enquanto cortava os cabelos dela com uma navalha, ajudado por uma velha septã. — Vai ver, vai melhorar e o cabelo crescerá novamente.
A “moça” não era moça alguma; era uma velha de quase sessenta anos, mas o homem parecia gostar de acalmar os pacientes enquanto cuidava deles. Ebrose também tentava usar de palavras calmas em certos casos.
Carellen não pensava nisso. Palavras bonitas não ajudavam em nada. Aquele mulher, por exemplo, não ia viver muito para ver o cabelo crescer; a ferida nas pernas estava muito avançada para isso. Não era preciso ser um meistre para saber que ela era uma causa perdida. Estavam perdendo um tempo precioso cuidando dela.
— Infelizmente não temos sangue de Myr — lamentou-se Ebrose, após eles passarem unguento e linho nas feridas da enferma. — Sei que elas ardem muito, mas seria ideal para sarar as feridas da pobre mulher de forma rápida. — Suspirou, abanando a cabeça. — Temos tão poucos para tantos…
A próxima mulher de quem cuidaram foi mais simples – uma chorosa com marcas no pescoço. Havia sido garroteada e falava sobre um exército de pessoas pálidos, quase sem vestes, dedos escuros, olhos de estrelas. A mesma ladainha de sempre.
Estava fartas daquelas pessoas. Farta de toda aquela dor. Queria ir para a casa, queria rever seus pais, queria rever a tia. Estava cansada de cuidar de curar as dor dos outros, mas ninguém sanar os seus problemas. Rezava aos deuses todos os dias e noites, mas parecia que nem a escutavam.
— Não darei remédio para você — disse o gentil arquimeistres. — Temos pouco, e não posso desperdiçar com você por tão pouco. — Pousou uma mão gentil no ombro da apavorada mulher, que estava assustada, com lágrimas riscando o rosto inchado e vermelho. — Descansa, filha. Pernoite no septo, creio que temos aposentos para você, mesmo que com pouco espaço. Infelizmente não acho que seja bom para você descansar aqui, pois, além dos feridos, precisamos de todo o espaço para cuidar dos nossos aqui.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O arquimeistre estava pronto para solicitar que Carellen ou Garin para guiar a moça para alguma das alas onde haviam pessoas instaladas quando foi interrompido.
— Arquimeistre Ebrose, precisamos de vossas habilidades — solicitou o septão Nymor. Um septão velho, itinerante, vindo das areias de Dorne. Ele fixara seu ponto no Septo Estrelado pouco após as notícias do casamento da princesa Arianne com o Rei Aegon. Antes disso, Nymor andava por Westeros como um simples septão: abençoava casamentos, batizava bebês, distribuía comida para os necessitados. Mesmo com o crescente ódio contra estranhos de outras terras e reinos o bom septão conseguiu algum clamor público com a plebe – ele distribuiu bastante comida para eles, passava bastante tempo ouvindo suas reclamações, sempre tinha boas histórias de suas viagens pelos sete reinos (indo até quase o Gargalo).
Nymor tinha um rosto liso, sem qualquer vestígio de barba, cabelos dum castanho que confundia-se com preto, com linhas ruças aqui e ali. Era até bem alto, diferente da maioria dos dorneses; pele oliva bem escura, mais do que a de Garin, um tanto avermelhada pelas queimaduras do vento fulgurante do deserto. Havia poucas rugas em seu rosto, ficando ao lado dos cantinhos dos olhos. Era difícil dizer com exatidão que idade ele tinha, mas Carellen achava que ele não devia ter menos de cinquenta dias de seu nome. Provavelmente estava na casa dos sessenta.
Apesar de bem visto por alguns dos famintos, muitos do clero não gostavam da intrusão de Nymor – vinham-no como uma tentativa dornesa de se infiltrar na fé dos sete. Ele estava usando o fato de que a Rainha Consorte dos Sete Reinos era uma dornesa – essa era a nova oportunidade do principado conquistar mais poder sobre os reinos; ganhar espaço quando todas as outras casas nobres haviam dado as costas para a dinastia Targaryen.
A situação era bem propícia – além de ser praticamente a única Grande Casa que apoiou os Targaryen durante a Conquista de Aegon, o novo Alto Septão também tinha uma dornesa como favorita: uma bastarda do falecido príncipe Oberyn Martell, prima da atual rainha Arianne, Tyene. Ela, diziam, foi quem ajudou a unir o chefe supremo da fé andala para o lado de Aegon, agindo debaixo dos panos. Pelo que sabiam, apesar de bastarda, Tyene era bem próxima da família paterna, tendo uma boa educação por isso – embora muitos falassem que ela era filha do Serpente Vermelha com uma septã qualquer, por isso tinha algum conhecimento de religião. (Carellen achava isso estranho e difícil de acreditar, visto que septãs tem voto de castidade; mas suspeitava que, caso fosse dornesa, as septãs e septões deviam ser mais levianos com seus votos.)
Ebrose virou-se para Nymor, os elos tilintando conforme movia-se, lânguido. Arqueou as sobrancelhas de neve cinza.
— Lamento por atrapalhar as vossas labutas, querido arquimeistre — desculpou-se Nymor, fazendo uma leve e desnecessária vénia. — Mas temos duas crianças feridas e imploro-te para ver-lhes o estado. A mãe está inconsolável, pois o marido morreu e teme que os filhos também morram; mas creio ser apenas hipotermia no caso dum deles; o outro, acho que bateu a cabeça.
Ebrose assentiu. Virou-se para uma irmã silenciosa que passava, apontou para a mulher que ele havia acabado de cuidar.
— Leva-a para um local onde possa dormir. — Virou-se, sem esperar resposta, seguindo a direção que Nymeros percorria.
Haviam três crianças, todos homens, cujo mais velho não devia ter mais de treze. Uma mulher chorosa estava ajoelhada ao lado do catre, segurando a mão do mais novo, que estava prostrado no catre, parecendo estar adormecido. Devia ter dez anos ou menos. O mais novo dividia o espaço com ele, parecendo também estar dormindo com a cabecinha pousada no peito do irmão mais velho, enquanto o corpinho estava na beirada do colchão.
A mulher levantou-se, abrupta, ao ver o arquimeistre e o arquimeistre se aproximarem. O filho mais velho ficou parado, apenas encarando, quieto, pouco atrás da mãe.
— Bem, deixe-me ver — disse Ebrose, indo até perto do catre, do lado oposto donde a mãe estava. Ela tinha um olhar cravado nele, sem piscar. Parecia bem nervosa.
O sábio da cidadela afastou um pouco o cobertor dos corpinhos, descobrindo-os.
— Aquelas… aquelas coisas nos atacaram — balbuciou a mãe, ainda encarando o arquimeistre que nem sequer lhe dirigiu o olhar. — Meu marido ficou para trás, ele tinha apenas um axé, ficou para trás, eram muitos… E… ficamos andando na neve, muita neve…
— Lommy caiu — o mais velho falou, observando Ebrose analisar a nuca de um dos irmãos, afagando os cabelos escuros. — Ele caiu enquanto fugimos, escorregou no gelo.
— Quanto tempo estão na neve? — indagou Garin. — Não são de Vilavelha, imagino?
A mulher fez que não com a cabeça.
— Não, não… somos de uma vila há poucas milhas daqui. Estamos todos…
— Fugindo para cá — atalhou Carellen. Conhecia o discurso.
Isso apenas fará o lorde Hightower trancar os portões de vez, deduziu. Os portões andavam fechando e abrindo a cada doze horas. Era assim que mediam o tempo naquele breu. O Lorde Hightower parecia resistente em fechá-los permanentemente outra vez – isso apenas traria mais desespero e Vilavelha talvez não suportasse outro período de reclusão.
— Que se pode fazer, arquimeistre? — indagou Nymor, aflito com os jovens tal qual a mãe deles.
— Seu filho desmaiou há quanto tempo?
— Cerca de uma hora ou menos. Estávamos desesperados, sem rumo, carreguei-o comigo por algum tempo, ele escorregou pouco depois de chegarmos… — Ela desatou a chorar, enterrou a face nas mãos, não conseguiu falar mais nada.
— E o mais velho? — indagou Garin, referindo-se ao garotinho que pousava a cabeça no peito do irmão mais velho.
Foi o mais velho que respondeu:
— Benn desmaiou agora pouco. Eu o carregava nos ombros, para mamãe não segurar ambos. Acho que dormiu pouco antes de subirmos os degraus. — Abaixou a cabeça, fitou os pezinhos. Parecia culpado, ou só muito triste. A cadência na voz era bem monótona, mas o rapaz estava visivelmente cansado. Situações assim soem nos últimos tempos; todos buscavam refúgio na casa dos deuses.
O arquimeistre se endireitou, embora não conseguisse ficar muito ereto. A extensa corrente em seus ombros pareciam pesar muito; mas provavelmente era mais uma questão de idade. Ebrose era um homem bem velho.
— Hmmm… — fez o velho. Deixou o bastão de lado, quando o objeto quase caiu, Nymero o pegou. Enquanto isso, Ebrose enfiou uma mão numa das mangas de sua túnica não tingida. Retirou um alforje, curvou-se novamente, aproximou o objeto das narinas dos rapazinhos dorminhocos. O mais novo fez um gemido irritado, coçou o narizinho. O mais novo se remexeu.
— Uhum, como pensei… — murmurou o sábio, guardando o conteúdo na manga. Deu um tapinha na bochecha do mais velho, que abriu os olhos de chofre, parecendo assustado, piscou algumas vezes. — Arrá! Foi só um sustinho. — Ajeitou-se, tomou o cetro das mãos do septão dôrnes. — Eles apenas estão cansados e famintos. Mas tem que ficar aquecidos, pois o mais velho está com os lábios quase azuis. Vão ficar bem, mas precisam de comida e calor.
Não precisamos todos?, pensou Carellen.
A mãe dos garotos quase deu um grito, chorou mais. Devia estar aliviada, mas estava apavorada e cansada demais para reagir. Caiu de joelhos.
— Deuses sejam louvados. — O septão falou, indo até a mãe. Ajoelhou-se ao lado dela, que chorava sem parar.
— Vou levar os rapazinhos para a cozinha, lá poderão comer bastante e fará bem ficar perto do calor dos fornos. — declarou Nymor, agachando-se perto dos garotos. O mais velho voltara a dormir de tão cansado. Encarou a mãe. — Vai ficar tudo bem, prometo. Você e seus filhos estão seguros aqui.
— Não vai ficar tudo bem — murmurou o garoto mais velho, ainda fitando os pés. — Aquelas coisas estão vindo. Vão pegar todos nós. Estamos presos.
Carellen e Garin se olharam. Sabiam que tinha mesmo algo vindo; todos que chegavam falavam a mesma coisa.
O septão de Dorne não se deixava abalar.
— Bem, seja o que for, terá de lutar contra os sete para fazer mal a você e a sua família ou a qualquer um aqui. — Sorriu para o rapaz enquanto se aprumava. — Tem fome filho? Temos sopa de nabo.
O rapazola o olhou com secura e desconfiança. Parecia levemente irritado – se é que dava para extrair algo daquele olhar.
— Meu pai falava que não se deve confiar em dorneses sujos — Havia alguma raiva fria na voz jovial.
Garin grunhiu, mesmo que não tivesse sido dito diretamente para ele.
— Allan! — ralhou a mãe, tentando se recompor. O irmão Nymor apenas pousou uma mão apaziguadora em seu ombro.
— Está tudo bem. — Voltou-se para o garoto, dando um sorriso simples. — Pais são sábios, então faz bem em ouvir o seu. Os deuses ficam felizes com obediência. — Virou-se para a mãe. — Procurarei algumas peles quentinhas para seus filhos, você pode esperar aqui e…
— Irmão Nymor! — chamou o septão Luceon, aproximando-se dele. Ele era ladeado pelas irmãs Bellonda e Murbella. Esta era alta, pele alva, olhos azuis bem claros e um cabelo loiro bem clarinho que estava escondido debaixo do capuz. Bellonda, por outro lado, não era tão bela e graciosa: rubicunda, olhos escuros, um tanto estreitos e próximos um do outro; pele cheia de sardas que assemelhavam-se a ferrugem; uma boca petulante que sempre parecia pronta para dar alguma resposta ácida; uma barriga cheia que recusava-se a encolher, mesmo ante a penúria.
Luceon era um dos Mais Devotos, o grupo de mais alta patente da Fé dos Sete, sendo eles quem elege quem será o próximo Alto Septão após a morte do atual. Murbella e Bellonda também pertenciam à ordem, sendo as únicas mulheres dos Mais Devotos no Septo Estrelado. A maior parte do grupo estava no Septo de Baelor, a sede da Fé dos Sete – Luceon fora trazido de lá, após a fuga dos Homens de Ferro. Para “botar ordem na casa” segundo ele mesmo. Ser insuportável.
Desde que o novo Alto Septão se instalou em Porto Real, armado com a Fé Militante, o clero dos sete deixaram de lado as vestes chiques e jóias – o novo chefe da fé deixara bem claro que qualquer um que ostentasse enquanto um povo passa fome era um herege, sendo jogado nas celas do septo. Ele mesmo vestia túnicas pobres e nem sequer usava sapatos se o que Carellen ouvia era digno de alguma nota.
No entanto, desde que o ouro da Coroa e do Septo chegara aos cofres do Septo Estrelado, o Septão Luceon pareceu voltar a alguns velhos hábitos – usava uma tiara de cristal; apesar de não vestir tecidos de prata, usava uma rica manta branca. Não tinha renda ostentosa, mas claramente não era simples. Sempre que Luceon se movia, era possível entrever as cores por debaixo do tecido – azul, vermelho, roxo, verde, vermelho –, mesmo que meio baças. O farfalhar, Carellen reconhecia, lembrava o farfalhar dos tecidos da nobreza; não eram simples como as vestes simples da plebe. Eram mais barulhentas e volumosas.
«Cuidado com esse aí», era basicamente isso que Carellen queria dizer para qualquer um desde que botara os olhos na cara chupada de Luceon. Talvez a cara de fuinha desse Frey a fizesse ter algum pé atrás desde que o Mais Devoto botará os pés no primeiro degrau do Septo Estrelado, mas a cada atitude que ele tomava ela só tinha mais certeza de que ele era encrenca.
Quem quer que fosse Luceon, ele deve ter feito uma boa imagem para com o Alto Septão este ter o achado a digno de ir para o Septo de Vilavelha, junto de outras setenta septãs, sessenta e sete septões, oitenta Filhos do Guerreiro e quase noventa dos Pobres Companheiros.
O Septo Estrelado era dele, bem longe do Alto Septão cuidando das políticas na Capital dos Sete Reinos, assim como o Rei trabalhando para vencer uma guerra. Nem mesmo Lorde Humfrey faria qualquer questão de reclamar ou sequer questionar como andava a situação desde que Luceon tomasse conta das coisas.
— Irmão Luceon. Irmãs Bellonda e Murbella. — Nymor fez uma vénia aos Mais Devotos.
— Que faz distraindo o arquimeistre de seus deveres? — quis saber Luceon. — Ele deveria estar a cuidar dos enfermos não perdendo tempo com pirralhos.
Antes que o septão se defendesse, Ebrose espancou o chão com sua bengala de prata.
— Calado, Luceon! Vê se não te metes no que não lhe é devido! — bradou o velho.
— Abusa muito, velho! — avisou a irritadiça Bellonda. — Se está velho demais para tratar os problemas de verdade, deve voltar para sua cama Cidadela!
— E você devia tratar de continuar enchendo a boca com comida ao invés de deixá-la livre para falar porcarias! — Ebrose era um idoso gentil e educado com todos; mas os Mais Devotos estavam sendo demais até para ele aguentar. — Infelizes, todos vocês, malditos fanáticos!
— Controla a língua! — urgiu Bellonda. Era uma mulher belicosa, sem modos. De certo era ela quem mais atiçava o Septão Luceon. Desde que ela viera com ele de Porto Real sempre o apoiava em tudo.
Carellen ouvira que um septão fora jogado nas celas da Septo de Baelor por ser goro demais – poderia ter sido assim com Bellonda.
Garin olhou em volta. Ele deve ter notado os guerreiros da Fé Militante olhando para a cena. Carellen já os havia notado.
Nymor ergueu os braços.
— Irmãos e irmãs, paz, por favor! — implorou ele. — Apenas pedi a ajuda do bom arquimeistre para cuidar dos garotos. Eles precisam de comida e…
— Terão a comida na mesma medida que todos — atalhou Bellonda. — Ninguém é mais importante que ninguém aos olhos dos deuses.
Nymor aquiesceu. Não deixava-se abalar.
— Concordo, irmã — falou ele. — Apenas quero dizer que o próprio arquimeistre mo disse que eles precisam comer e se aquecer o quanto antes. O frio os deixou muito fracos, estão a viandar há dias.
— Vosso coração mole é louvável, irmão Nymor — disse Murbella. A voz era suave, mas dura. Ela nunca gostou do septão dornês e não escondia isso de ninguém. — Mas nós não podemos nos dar ao luxo de gastar mais alimentos com uns e não com outros. O favoritismo é um caminho na cegueira.
Ele acenou com a cabeça.
— Eu concordo, mas…
— Então para de distrair o meistre — terminou Luceon. — Se não for ajudar, não atrapalhe. Vá buscar pão ou sopa se assim quiser, mas Ebrose tem assuntos melhores para tratar.
Como resposta, Ebrose bateu o cajado de prata no chão, mostrando-se irritado, mas não falou palavra alguma.
— Vou pegar alguns pães, sopa e ver se acho peles — anunciou Nymor, fazendo uma mesura aos Mais Devotos antes de girar os calcanhares e se afastar da li.
Bellonda fitou o grupelho que ficou quando Nymor se foi. Focou o olhar em Garin.
— Você também, dornês, pare de vadiar e vá ajudar como prometeu que o faria!
Garin estalou a língua. Pareceu prestes a amaldiçoar as duas mulheres e o septão, mas afastou-se da cena.
— Sinceramente, Carellen — falou Murbella —, vós sempre sois tão quieta, delicada, talentosa… — Balançou a cabeça em gesto de decepção. — Não devia deixar-se levar pelos dorneses. Sabe como são.
Carellen apenas as observou em silêncio. Apertou os dedos contra as palmas, sentindo as úngulas pontudas quase perfurarem a carne. Logo o trio se afastou, seguidos por outras septãs e dois filhos do guerreiro.
Quando eles se foram, Ebrose deu um suspiro, balançou a cabeça.
— Gente religiosa sempre me dá enxaqueca. — Olhou para a família perto de onde estavam. A mãe e o filho mais velho o observavam em silêncio. — Nymor logo chegará, apenas aguardem um pouco. Lamento, mas tenho outras coisas para resolver.
A mãe da família anuiu, dando um sorriso sem graça, agradecendo pela ajuda.
Ebrose e Carellen voltaram a caminhar pelos colchões onde as pessoas estavam feridas. O som das pessoas sofrendo havia diminuído.
— Por isso é sempre bom que o irmão Nymor esteja com a irmã Scolera — comentou ela, forçando-se a ficar no passo lento do arquimeistre. Scolera era uma dornesa, advinda de Porto Real. Estava em bom prestígio com o Alto Septão. Luceon evitava fazer qualquer cena com ela por perto com medo de que ela viesse a discordar.
— Sei disso, sei disso — respondeu arquimeistre Ebrose. — Mas creio que é exatamente por isso que esse maldito septão Frey a deixa ocupada demais para lidar com isso. — Ele estacou os passos, voltou-se defronte a figura da noviça. Pousou uma mão enrugada no ombro dela. — Está cansada, filha. Foi-me de muita ajuda hoje. Descanse, eu e Garin cuidamos do resto sem você.
— Tem certeza? — Apesar do cansaço, não tinha qualquer vontade de descansar. Sabia que teria poucas horas de sono até ser chamada; além disso, não podia tomar qualquer medicamento para não ter sonhos.
Ebrose anuiu.
— Sim. Vá, filha. — Aproximou-se dela, inclinando a cabeça. — Vá para os meus aposentos. Tem um catre lá, caso queira. Coma, lave-se, leia um pouco, durma bastante. Descanse.
Dando um sorriso fraco, Carellen deu um beijo na bochecha enrugada de Ebrose, agradece pela oferta, foi-se para os aposentos dele.
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As cozinhas eram talvez o local mais quente em todo septo. Panelas ferviam, o conteúdo era despejado em tigelas de barro ou madeira, para serem distribuídas para os famintos. Havia alguns pedaços de pão e algumas mulheres mexiam na farinha, enquanto outras faziam velas com gordura. Um cheiro forte de banha de porco pairava no lugar, assim como alho poró.
Enquanto passava pela cozinha, pegando um pouco de pão, Carellen observou o Septão Nymor pegar alguns pães escuros e algumas tigelas de sopa. Mesmo cansado, humilhado até, era um homem que nunca desistia. Se continuasse assim, não demoraria para Luceon e seus apoiadores o expulsassem do Septo Estrelado. Quem sabe não tentavam botar o próprio povo contra ele?
Talvez devêssemos mandar alguma carta para o Lorde Hightower, considerou Carellen. Ela sabia que o irmão Nymor não estaria disposto a criar – ou nesse caso, piorar – uma querela no septo. Além do mais, dificilmente o Lorde de Vilavelha faria qualquer coisa em relação à fé. Mas não se não podiam contar com o Alto Septão…
Balançou a cabeça. Não tinha o que fazer. O septão que se virasse. Ela não devia nada a ele.
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Antes de ir para os aposentos do arquimeistre, passou nas alas onde estavam as noviças dormindo. Haviam diversos beliches, cheios de moças dorminhocas. O local estava escuro, praticamente sem velas acesas. Por sorte o catre que procurava era perto da entrada.
Aproximou-se de um colchão de palha, afastou as cortinas, teve um leve vislumbre do corpo adormecido de Dorcas, sua companheira. Elas dormiam juntas, antes, quando os horários não estavam uma bagunça.
A noviça tinha o cabelo loiro preso numa coifa simples, com um simples cacho escapando; dormia com a mão no peito. Era calma, bela. Estava coberta por um cobertor de pele de cavalo perfumada. O peito subindo e descendo levemente conforme respirava. Doeu um pouco acordá-la, mas o fez de qualquer forma.
Dorcas deu um grunhido, abrindo os olhos. Estavam inchados, avermelhados. Carellen afastou uma mecha solta.
— Que horas são? — indagou Dorcas, cansada, parecendo confusa.
— É a Hora do lobo, como de praste. — Deu um beijo na testa oval da rapariguinha. — Deixei você dormir mais tempo, mas vou me ausentar agora. Não quero Bellonda descobrindo e fazendo caso.
— Eu odeio aquela mulher… — falou Dorcas, fazendo biquinho.
Carellen sorriu.
— Eu também, então temos de evitar que ela use a vara contra nós. — Deu outro beijo na bochecha da moçoila. — Vou dormir nos aposentos do arquimeistre Ebrose. Estarei lá se quiser me procurar. Quero dormir bastante. Estou cansada.
Dorcas assentiu. Ergueu o torso do catre. Colocou a mecha dentro da coifa. Antes havia uma verruguinha perto do centro de sua testa, mas Garin a fizera sumir num instante. Era um dornês habilidoso, daria um bom meistre.
— Quer que eu lhe ajude a se arrumar? — indagou Carellen, no que a colega abanou a cabeça.
— Vá dormir antes que nos procurem. — Deu um beijo suave na bochecha esquerda dela.
Dorcas e Carellen desenvolveram uma grande amizade durante os tempos de penúria. A noviça era a única para quem Carellen ousou falar a verdade de sua linhagem. Dorcas conseguiu escapar do pior, mas nem por isso ela escapara de ser abusada algumas vezes – por sorte, escapou do estupro ao se urinar; mas isso fez com que lhe dessem um ajoelhada na barriga e seu queixo quase quebrou de tantos tapas (os homens pareciam achar a cara dela engraçada quando ela chorava e ficava mais inchada e ribucunda). A surra mais pesada que Carellen levou dos agressores foi quando ela tentou afastar a colega de um dos agressores; acabou por levar um soco de um punho coberto de elos de metal no queixo, uns três chutes na barriga. Valeu a pena – faria tudo de novo.
Um dos golpes mais cruéis foi quando, após derrubar uma jarra de vinho no chão, um dos invasores, alguém da Casa Goodbrother, ficou furioso. Os colegas dele derrubaram Dorcas no chão, seguraram-na, enquanto ele martelava no antebraço dela várias vezes, assim como a mão. Ela uivou de dor, mas Carellen não estava lá no momento.
Com a ajuda de Zachery Frey, ela conseguiu levar Dorcas para seu catre, onde ficou até o fim do reinado de horror de Euron. A pobre noviça ficou dias gemendo e choramingando enquanto o braço inchava a cada dia; o coração Carellen doía com a cena e ela só podia ver aquilo, impotente.
Não fosse a vinda de Ebrose e seus meistres, Dorcas teria morrido. Logo o arquimeistre explicou que o sangue estava praticamente preso, impedindo a circulação total, e que os ossos estavam fraturados demais para serem recuperados. O braço teve de ser amputado. Demorou, mas ela melhorou. Seu braço fora um preço baixo a se pagar.
De quando em quando, as duas ainda compartilham o colchão, aquecendo-se, tentando esquecer as penúrias.
— Depois vou lhe ver — falou Dorcas, trocando a coifa por um véu longo. Estava ficando mais habilidosa em usar apenas um braço, mas Carellen ainda gostava de ajudá-la. — Provavelmente só vão me pedir para tirar sanguessugas, aspergir pomadas e lavar o chão e os degraus.
— Certo. — Beijou-lhe novamente antes de ir dormir.
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Enquanto se dirigia aos aposentos de Ebrose, enquanto subia o lanço de escadas, topou-se com Zachery Frey, que limpava os degraus rachados.
— Está os lavando novamente? — indagou ela, enquanto ele passava uma escova grossa na pedra de mármore negro.
Zachery jogou o objeto no balde, fazendo o conteúdo dentro respingar.
— Bellonda, aquela gorda desgraçada, acha que não os lavei direito — explicou ele, ranzinza. — Ela devia comer menos e ajudar.
— Seu tio não diz nada sobre? — Septão Luceon era tio-avô de Zachery. Ele também era um primo distante da própria Carellen, visto que sua mãe, a segunda esposa de Walder Frey, era uma Swann.
Detestava ter sangue Frey, mas pelo menos Zachery não lhe parecia tão ruim quanto o resto da família aparentava ser. Parecia mais uma fuinha amedrontada.
— Acho que ele meu tio esqueceu que é Frey por nascimento. — Deu de ombros. — Não o culpo, também não ando muito orgulhoso de minha casa. — Continuou, falando mais baixinho: — Acho que ele se irrita pois, em teoria, eu deveria estar no assento das Gêmeas, governando a Travessia. Sou mais próximo da linhagem principal do que o tal Sandor e sua irmã.
Carellen imaginava a mesma coisa que seu colega de cara chupada.
— Seus votos o impedem — ela pontificou.
— Eu ainda não os fiz — lembrou-a, afundando a mão no balde e pegando a escova. — Não quero saber de nada das Gêmeas e das malditas terras Fey, mas meu tio-avô parece ter puxado o falecido lorde seu pai. — Começou a rilhar as cerdas da escova na pedra, fazendo espuma. Bufou, apertando os lábios. — Acho que Bellonda me tortura para agradar ele.
Sem jeito, Carellen apenas assentiu, deu-lhe boa noite, voltou a subir os degraus, se desculpando por estragar o trabalho de limpeza do colega. Andou com cuidado, para não escorregar.
Quando finalmente chegou nos aposentos do arquimeistre, fechou a porta atrás de si, suspirou, aliviada. Seus pés estavam doloridos. As vestes de sua túnica escura estavam manchadas. A cabeça parecia ter sido martelada.
O quarto era simples, com exceção de uma pilha de livros e pergaminhos apinhados no tampo de uma mesa. O arquimeistre deixava Carellen ler quantos livros quisesse e certas vezes ela até os transcrevia, pois o papel estava bem velho, se desfazendo nos dedos. Muitos do clero parecia discordar de que tais livros fossem lidos, mas ela o fazia mesmo assim.
Acendeu o fogo na lareira, assim como algumas velas de sebo. Retirou as roupas, deixando-as no chão. Seu corpo pareceu voltar a respirar. Suas juntas estavam rígidas. Ela deu um gemido desconfortável, amarrando a cara. Seus braços estalaram quando ela os flexionou. Até seus dedos pareceram resistir aos movimentos quando ela os abria e fechava.
Ela inicialmente pensou em tentar ler, mas percebeu-se exausta demais; seus olhos não iriam aguentar ler atentamente nem uma página sequer. Vestiu uma simples camisa de linho, sentou-se na mesa. Mesmo cansada, não queria dormir. Andava tendo muitos pesadelos. Quanto mais exausta talvez nem sequer chegasse a sonhar, mas temia que ocorresse de qualquer forma.
Ela ergueu um braço, deixando-o um pouco iluminado pela luz bruxuleante das chamas. As pequenas cicatrizes pálidas eram finas linhas que quase sumiam no contraste da pele pálida. Passou o indicador nelas, sentindo o relevo delas. Tomara cuidado para que não fossem profundas, mas algumas ainda deixaram marcas eternas. Era difícil escondê-las, principalmente de Dorcas, mas fazia o possível. Em certos momentos preferia o chicote. Lembrava-se de que um dos septões – seu nome era Johenn – falava que se sentia perto dos deuses quando se auto flagelava. Às vezes ele pedia para Carellen flagelá-lo, o que ela fazia, mesmo que sua tia não doubesse. Johem dizia que fazia isso quando se sentia triste e precisava ser castigado. Carellen achava que ele gostava da humilhação, mas tinha fazer o que o septão lhe ordenava – ele sabia, de alguma forma, que Carellen não era uma jovem qualquer (provavelmente ele não chegou a saber que era filha de Lorde Hornwood, mas mas ela não podia arriscar-se que fosse descoberto que ela era uma nobre). Sentia-se imunda usando o chicote, fazendo vergões e cortes na pele do homem; mas a sua libertação veio de forma irônica – os cruéis homens de ferro, que prenderam o septão em ganchos, ergueram-no em correntes, onde ele ficou pendendo, com a pele sendo repuxada pelas pontas curvadas, enquanto era chicoteado diversas e diversas vezes, de novo e de novo, pelos seus algozes. Ele ficou dias em carne viva, o sangue pingando, nu, até morrer pelos ferimentos.
Carellen o alimentava, assim como alimentava os outros membros do clero acorrentados. Tinha de fazê-lo, eram ordens dos algozes, que provavelmente queriam fazer a agonia dos prisioneiros ser estendida. Também teve de aspergir fezes nas feridas deles, sempre que estes não conseguiam conter as tripas. O cheiro fétido atraia mais moscas. Ainda lembrava dos corpos vermelhos, inchados, pendendo a sua frente – nenhum pior que o corpo de Johenn; ele, apesar de muita dor, ainda demonstrava alguma felicidade enquanto era torturado. Lembrava-se de como ele demonstrava uma agonia jubilosa enquanto era flagelado pelos Homens de Ferro. Certa vez, enquanto Carellen era obrigada a passar fezes e sal no corpo doente do septão, este pareceu espasmar, dando um gemido de prazer com a dor. A imagem indelével de um frágil sorriso roçou no rosto inchado e rachado se formando, assim como o de uma ereção se formando, ainda voltava para Carellen.
Seu estômago se contorceu, enjoado. O pão frio que ela comera pareceu querer emergir. Ela se abraçou, tremendo, sentindo o frio tomá-la. Sentia-se inútil, fraca, usada, com a imagem de diversos feridos que morreram pairando sobre ela, fazendo as sombras terem forma. Engoliu seco. Seu coração parecia bater mais forte, parecendo se esmagar contra as paredes do peito.
Ela não tinha nenhum chicote com ela. Nem cordas de cânhamo – elas eram boas para apertar na cintura; as marcas logo sumiam sem deixar cicatriz alguma.
Levantou-se, foi até a sua roupa esquecida. Haviam diversas manchas escuras no tecido, impregnado com o cheiro de sangue, fumaça acre e pus. Ela achou um dos bolsos e retirou uma pequena faquinha da cozinha.
Preferiu por não cortar os braços dessa vez. Afundou a lâmina na sola do pé, arrastando o gume num caminho que ia de perto de onde estavam os dedos até a parte inferior e gorda. Sua pele estava mais calosa desde que tivera de servir os homens de Euron sem um par de sapatos que durasse, ficando boa parte descalça.
Quando parou, sentia a ardência crescer, tomando seu pé. Segurou um grunhido, gemendo, enquanto apertava o pé com uma das mãos. Seus olhos ardiam, mesmo ela os mantendo fechados com muita força, até que luzes estouraram no breu de sua visão. O sangue morno escorreu pela pelinha levemente endurecida. Contorceu o seu pé, apertando os dedos, enquanto sentava por cima da perna, pressionando-a contra cadeira dura e fria de madeira; os músculos pareciam se contorcer – estava tendo uma cãibra. Segurou outro grito, sentindo que toda a sua perna estava tendo uma cãibra. Lágrimas desceram pelo seu rosto, queimando as bochechas, acumulando-se no queixo, pingando. Mordeu o lábio, evitando gritar. O gosto de sangue acumulou-se.
Ela balançou o corpo para frente e para trás, ainda de pestanas fechadas, esperando que a agonia embotasse a sua mente até o sentimento de fracasso, triste e descontrole sumissem. Esperava ainda manter-se acordada até lá. Precisava. Não queria pesadelos; estava farta deles.
Quando as dores pararam, a perna estava formigando. Por sorte Carellen havia tirado a camisa de linho então o tecido não ficou manchado. Seu pé ainda sangrava, no entanto. Ela rasgou uma parte do tecido da bainha de suas vestes de noviça, usou-o como uma faixa. Aprendera isso vendo os meistres e Ebrose usarem tecidos simples para estancar sangramentos. Garin também detinha habilidades assim; o dornês daria um bom meistre, como Ebrose disse várias vezes. No que Garin sempre sorria e brincava que «não suportaria ficar preso entre quatro paredes por muito tempo». Ela Imagina que estava sendo bem difícil para ele ficar nas sete paredes do Septo Estrelado – mas por qual motivo teria ele vindo então?
Levantou-se. Pisar com o pé cortado era como sentir facas furando-a na sola. Suportou a dor. Ela era boa para ela; era o seu castigo, sua forma de escapar das dores da mente e coração.
Limpou o sangue com suas vestes de noviça – ninguém ligaria para o rasgo e a sujeira, pois era fácil imaginar que os estragos foram causados pelos enfermos lá embaixo. Vestiu a camisa de linho, escondeu a faca; claudicou até a cama do arquimeistre. A palha era como que fresca, retesando-se sobre seu magro corpo. Cobriu-se com cobertores de pele espessa. Estava tão aconchegante que ela quase voltou a chorar. Seu pé latejava, mas a dor parecia tão distante…
Queria que Dorcas estivesse aqui. Elas poderiam se aquecer e espantar a solidão. Queria também a mãe e o pai; mas nem sequer sabia se eles ainda estavam vivos.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Estava sendo agarrada pelos invasores, que estavam rindo, bêbados, desnudados; rasgavam as vestes velhas de cavalariço, revelando o corpo magro de Carellen. Tentou lutar contra, mas era inútil, o tecido e o couro estavam sendo rompidos; eles viram suas vergonhas expostas. Seus seios pequenos, sua vagina, suas ancas, as nádegas, a pele dos braços e pernas cheios de linhas, as costas com marcas de chicotes…
Carellen gritava, mas a voz não saia. Ninguém a ouvia.
Estava todos lá: o Goodbrother que espancara Dorcas e martelara seu braço; o bastardo de Euron que gostava de decapitar as cabeças das pessoas e usá-las para fazer oral na frente de todos; o tal de Ralph que gostava de prender as pessoas com ganchos na pele e deixá-las pendidas; o bruto de cabelos ruivo – achava que seu nome era Mão de Pedra – que gostava de mostrar a força de suas mãos enfiando-as nas barrigas e anus das pessoas – especialmente os mais jovens –, abrindo caminho entre as entranhas com os punhos; aquele que chamavam de Qarl e gostava de enfiar ratos nos orifícios anais e nas vaginas das mulheres (especialmente as grávidas) enquanto ria.
Todos estavam sobre ela, pelados, mostrando suas vergonhas e corpos sujos, agarrando-a, prontos para violá-la. Seus risos eram máscaras distorcidas.
Aquilo não era certo, eles haviam fugido antes mesmo de Aegon chegar – deviam estar mortos no Tridente, ou voltado para a Casa.
Ela acordou em um grito. Estava hiperventilando, o corpo úmido pela perspiração. O ar ia e vinha em menos de um segundo, o coração um verdadeiro tambor. As axilas e têmporas pareciam sulfúricas.
Ao ouvir um baque retumbante várias vezes, Carellen olhou para o quarto. Não havia nada. Demorou um tempo para raciocinar e perceber que tratava-se do soar dos sinos pesados do Septo.
Ela passou a língua pelos lábios. O inferior estava com gosto de metal onde ela arrancara uma pele; a boca inteira estava rachada.
Assustada, ela afastou as cobertas, botou os pés para fora do catre. Seu corpo ainda tremia; seu pé direito era apunhalado cada vez que pisava no chão duro e frio. Ao invés de ir até a porta, claudicou até a janela. Esta estava trancada, o vento a fazia tremer. Ela desferrolhou as venezianas de madeira. Não teve tempo de desviar quando as estas bateram de chofre contra o seu corpo, fazendo sua pele estalar. Saltou muito tarde, caindo de bunda no chão. Seu nariz doía, assim como as nádegas e um dos ombros e seio atingidos. O vento invadiu o local, apagando qualquer luz, trazendo diversos flocos de neve consigo. O frio açoitou o magrelo corpinho frágil de Carellen, que tremia violentamente com o golpe enregelante. Os dentes batiam uns contra os outros. A pele se arrepiou, ela abraçou-se. As persianas ficaram batendo violentamente contra as paredes, parecendo ter criado vida própria.
Carellen ergueu-se, ainda ouvindo os sinos, ainda sentindo dores, ainda cansada, ainda assustada. Seu corpo protestou, mas aprumou-se mesmo assim. Seus pés pareciam perfurados por facas, assim como o peito. A neve estava acumulada; uma camada açucarada estava começando a se formar, cobrindo o chão.
Ela foi até o peitoril. Tudo era um breu, sem uma centelha de luminosidade. Uma densa bruma cobria tudo, parecendo uma nuvem.
Carellen agarrou as tábuas de madeira, forçando-as a fechar-se. O vento ricochetava em seu rosto, arrancando seu véu, fazendo seu cabelo dançar. A pele passou de dormente à ardente. Lutava para manter as pálpebras abertas, mas o vento fustigava os olhos; as pestanas começaram a ficar grudentas por conta do acúmulo de flocos.
— Carellen!
Ela virou o rosto, olhando por sobre o ombro. Viu Dorcas aproximando-se dela. Usava vestes alvas, com a saia suja até quase a cintura, indicando que ela devia estar ajoelhada e limpando o chão.
Carellen deixou a janela de lado, indo até a colega. Ladeou o rosto dela com as suas mãos, preocupada; mas o frio nem a fazia sentir o calor e a maciez sempre presente de sua companheira. Esta parecia à beira do choro, água acumulando-se nos olhos azuis.
— Que houve? — interpelou, sem conseguir a própria voz direito, por conta dos sinos e do rugido da ventania.
Dorcas praticamente teve de gritar para se fazer ouvir:
— A parte do telhado, a que estava em reforma, cedeu, caindo em diversas pessoas.
— Ebrose está bem? Chamaram-me para ajudar?
Dorcas meneou a cabeça.
— Não, não, não é isso… — O lábio inferior dela tremeu. — As coisas… elas, elas estão vindo… Os portões estão fechados, mas pessoas estão correndo e gritando. Luceon ordenou que para que fechassem os portões do Septo, trancando os pobrezinhos do povo lá fora. Eles não param de gritar, bater e chorar, amontoados nas nossas entradas..
Carellen franziu o cenho. Então estava mesmo ocorrendo um ataque.
— Luceon fez o quê? Ele teme os invasores? Dorcas, diga-me, são os nortenhos? Ou os invasores das ilhas de ferro voltaram?
A colega de rezas e cama nem pareceu ouví-la.
— Oh, deuses, um dos que Nymor havia acabado de cobrir o corpo levantou-se, agarrou uma das irmãs silenciosas que ia cuidar dele. Depois ele foi até a septã Scolera. Dois pareciam estar garroteando uma das feridas, e uma criança insistia em tentar matar a irmã Dorothea. Oh, Carellen, foi horrível! Está uma confusão lá fora e eles não param de se aproximar.
— Quem? Quem se aproxima? Os nortenhos?
Dorcas a fitou, engoliu seco, tensa, falou:
— Os enviados do Estranho…
Confusa, Carellen resolveu tirar aquilo a limpo. Tentou ir até a porta, para ver o que estava acontecendo, mas Dorcas agarrou seu braço com sua única mão. Por fim, ela voltou-se para a janela. O vento ainda rugia, havia neve para todo o canto. Voltou a agarrar as tábuas de madeira, olhou para baixo. A névoa estava mais densa agora, lembrando ainda mais uma nuvem.
O chão parecia ainda mais um céu agora, engastado pelo rebrilhar de estrelas. Estrelas azuis de inverno. Sombras pareciam andar na treva gélida.
Com uma força repentina que veio pelo medo, fechou a janela, trancou. Dorcas passou uma tábua na porta.
Sem trocar palavra alguma, as duas foram até a cama do meistre, cobriram-se com as peles, ficaram abraçadas. Suas mãos se tocaram, os dedos entrelaçando-se. Carellen sentiu a colega de cama tremer em seus braços.
Carellen fechou os olhos, sentindo o coração de Dorcas bater. Sentiu o calor dela.
Ambas rezaram para que todo aquele pesadelo tivesse um fim logo.
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