Alleras cortava caminho entre as imensas torres de Harrenhal quando viu o imenso dragão cair dos céus, atingindo uma parte das muralhas. Não estava perto do local, mas viu o show de chamas caindo em espiral do céu. Não estava perto para saber se alguns haviam conseguido escapar; mas achava que pouquíssimo teriam sobrevivido.

Está aí o resultado do orgulho Blackwood, pensou, imaginando se era mesmo o lugar onde o Bethany estava. Sentiu uma pontada de complacência. Ao mesmo tempo, fora uma escolha da irmã de Brynden.

Abanou a cabeça. Bethany escolhera seu fado.

Continuou a seguir seu caminho. Resolvera não arriscar-se a ficar perto de Sansa e outros que o haviam visto antes. O disfarce do Glamour estava perdido, mas Alleras sabia que era melhor evitar o risco. De todo modo, o risco maior estava evitado; teve tempo de ver uma apressada caravana sair do destruído salão. Deviam de estar indo até o Bosque Sagrado.

Alleras tinha um último lugar para ir antes de ir ter com Bran – não tardaria para Os Outros invadirem o imenso castelo. Ele sabia que as flechas de obsidiana, apesar de eficazes, não durariam para sempre contra os Caminhantes Brancos. Mas a arma de Marwyn, sim. Um cajado, um anel e uma máscara. Todos de aço valiriano.

Se o que Alleras e Sam acharam na cidadela a respeito de aço valiriano estivessem certo, Os Outros nem sequer o tocariam com tal aparato. O problema era pegá-los: o anel já estava em um de seus dedos, assim como o punhal já estava em sua posse. O problema era pegar o cajado e a máscara. Tivera de deixá-los escondidos. Não podia usá-los quando estava passando pelo castelo para pegar a bebida de Arya – qualquer um pararia uma mulher estrangeira que tivesse aço valiriano consigo. Ainda mais um de quase dois metros.

Conseguira esconder os objetos de valor inestimáveis no septo decadente de Harrenhal. Estavam numa trouxa escura, perto de onde Alleras escondera uma boa parte do ouro. Enquanto trocava as moedas de ouro e prata verdadeiras por falsas moedas de ouropéis, pirita, alpaca e cobre. Ficou absolutamente encantado – embora um tanto horrorizado – com a sua própria habilidade. O metal modulava-se com seus gestos e palavras, até que o falso ouro realmente virou ouro. A falsa prata, prata virou.

Alquimia.

De alguma forma, talvez por conta de Harrenhal, pela magia dos dragões no mundo, pelas ilhas da Cara – o que quer que fosse –, Alleras, de uma forma que nem ele entendia, praticou uma magia que nunca imaginou ser capaz. Realmente pareceu criar prata e ouro. Pelo menos por um tempo.

Teria a magia acabado, tendo tempo limitado? Ou minha vontade de que durasse pouco a fez terminar em dado momento? Ou nunca foi magia de fato?

Não tinha como saber. Nem mesmo Marwyn soubesse, caso o desgraçado ainda estivesse vivo. Aquele filho da puta se fazia de mais esperto do que era. Alleras provou isso quando o fez morrer se esvaindo em fezes. Um sábio erudito, incapaz de saber a diferença entre uma doença trazida pela praga e um pouco de pó de metal derramado no vinho e na cerveja preta.

Alleras sentiu a magia mais uma vez quando quase fora capturado. Não sabia explicar; foi quase um sexto sentido. Acordara de chofre. A pele arrepiara-se, encrespando todos os fios dos corpos. Erguera-se do catre num instante. Antes dos guardas chegarem, já havia partido.

Como tudo aquilo estava acontecendo? Teria alguma resposta? Será que, mesmo não tendo Marwyn consigo, poderia buscar respostas? Talvez com os homens cornudos e os filhos da floresta que estavam rodeando Bran?

Os códices da Cidadela provaram-se pouco úteis no que tange à mágica. Os arquimeistre eram velhos céticos, dando pouco valor para estudos do tipo. A maioria dos livros estava praticamente perdida, sem ninguém ter feito alguma descrição deles antes das páginas se desfizessem entre os dedos de quem virasse uma página.

Andou contra o vento que batia com fúria em seu corpo, impedindo-o de deixar o capuz levantado. Seu manto tremia com fúria. As botas de sola espinhenta ficavam-se no chão, trespassando a neve, quebrando a camada de gelo no solo. Seus membros estavam rígidos, dormentes; exceção dos braços. Estes, apesar de afetados pelo frio, ainda estavam assaz. Pegavam as flechas, botavam no arco dourado, puxavam, soltavam. As setas dardejavam contra os mortos em instantes, incendiando-os. Mesmo sem conhecimento de como fazia-o, Alleras conseguia acender as pontas de obsidiana com o pensamento que nem sabia que tinha.

Poderia ser o seu sangue ancestral. Seu pai, o falecido príncipe Oberyn Martell, tinha o sangue dos roinares e dos valirianos. Estes todos sabiam ter sangue místico, modificados por magias de sangue e gerações de incesto, para aumentar a conexão deles com magia e a habilidade de domar dragões. Uma mudança estranha no ser, modificadas pela magia elemental do fogo e a obscura bruxaria de sangue.

Quanto aos roinares, esses lutaram contra os senhores de dragões, usando da magia elemental para controlar as águas. Se as histórias faladas e dos tomos forem reais, ou dignas de alguma veracidade, trombas d’água foram usadas para impedir – com sucesso – cerca de trezentos dragões.

Teria Alleras algum poder desses, mesmo após tantas gerações? O Esfinge era um mistério até para si mesmo.

Margaery também tinha algum poder mágico dentro de si. Talvez ela precisasse de apenas um empurrãozinho para usá-lo – com a ajuda de Alleras, claro. Ele jogaria o jogo da Tyrell, pelo menos por ora. A sagaz Margaery e seus comparsas – o mesquinho Petyr Baelish e o crasso insuportável do Brynden Blackwood – se achavam bem espertinhos. Mal sabem que, no fim das contas, são apenas títeres controlados pelas mãos dos deuses. Logo iam de descobrir, quando toda essa farsa de pantomineiros acabasse.

Alleras já descobrira há muito. Quando fugiu, foi ajudado pelas mãos dos deuses. Eles lhe deram o punhal que estava em sua posse. Alleras tivera apenas de escolher o caminho certo.

Ele descobriu como prosseguir quando resolveu não matar Baelish no quarto de Margaery. Essa vingança teria de esperar.

Suas rezas para que as flechas durassem pareceram ser ouvidas; estava perto do septo abandonado, com algumas ainda disponíveis.

Usava uma esfera de luz mágica para iluminar o caminho – os mortos não precisavam de luz para se guiar, usando do calor dos corpos e da energia da viva para achar os seus alvos, de modo que não viu motivos para correr no escuro como um idiota suícida.

Por sorte, Alleras não percorria o caminho sozinho: a loba da princesa Sansa e a Carvão o ajudavam. Esta corria com passos assaz para cá e lá, passando pelos mortos vivos, usando de sua simples tocha para queimar os corpos, que pareciam virar imensos tições flamejantes após um simples toque.

Quanto à loba de Sansa – a bela predadora lupina tinha passos elegantes, quase nem parecendo tocar no chão ao correr; derrubava quantos podia. No geral, ela quase não atacava os revividos. Era mais esperta do que isso. Atraía-os para um local, onde era rapidamente cercada; escapando por pouco, quase sendo agarrada e morta. Quando todos estavam juntos, Alleras ou Carvão usavam de suas chamas para atear fogo num deles – as chamas subiam, passavam de um cadáver para outro; uma miríade de corpos começava a virar cinzas.

Alleras achava toda a situação perigosa onde estava metido um tanto excitante – não no teor sexual, mas pelo medo do fim; a qualquer momento tudo poderia acabar. Tinham de ser rápidos. De algum modo, isso fazia o seu sangue correr mais quente do que nunca; o coração batia mais violentamente que um tambor de guerra. Estava em torpor, meio longe de tudo; mas no centro de tudo. Um júbilo.

Será que dessa forma que meu pai vivia a vida? Se assim fosse, ele não sabia se queria ou não viver assim.

Conforme atravessava o caminho cheio de neve, o medo e desespero pareceram dissipar-se da mente d’O Esfinge, que sentia o júbilo aumentando. Nem mesmo quando um imenso lobo revivido começou a correr atrás dele. (De alguma forma, na verdade, isso apenas aumentou seu estado de êxtase.)

Para poder manter o passo, ele não podia atirar as suas flechas. Teve de abaixar o arco, segurando uma flecha contra a corda, mas sem puxar para não fazer força – era impossível manter uma flecha segurada contra uma corda puxada, em posição de tiro; a força para tal feito era muito grande e desnecessária. Derrubava os mortos que andavam com um chofre potente de seu ombro, torcendo para eles caírem, sem o agarrar. Por sorte suas companheiras – ele sempre teve sorte com as damas, não é mesmo? – o ajudavam em seu caminho cheio de percalços.

Quando estava a poucos metros de onde queria, Alleras puxou a flecha, virou-se, erguendo o arco. Sentiu a corda empurrando contra os dedos enluvados. Uma treva em formato lupino saltou no breu, vindo em sua direção. Apenas os brilhantes olhos azuis eram mais visíveis.

A flecha logo inflamou-se, uma labareda surgiu, dançando. Alleras soltou a fecha, que voo até a boca cheia de dentes que voava até ele. A luz dourada revelou o imenso animal pardo-castanho, quase sem pelos, que estava prestes. A atingi-lo. No mesmo instante, Alleras sentiu o medo, percebendo que ia morrer. Voltou à realidade, arqueando as sobrancelhas.

O imenso animal foi atingido pela flecha pouco antes da loba de Sansa empurrá-la na lateral da barriga. Os dois corpos caíram na neve fofa. A loba foi rápida em se recompor; ergueu-se, balançou para expulsar a neve, afastou a passos rápidos enquanto a fera morta começava a ser engolida pelas chamas.

Alleras sentiu um torpor tomar conta de si. Abaixou o arco. Seu corpo perspirava de forma ardente. Abriu e fechou os olhos, lento. Parecia nem enxergar o aglomerado de olhos azuis que se aproximava dele. Assim como nem ouvia Carvão gritar. Nem mesmo a neve parecia cair normalmente. Tuuudo era beeem leeento. Irreal.

A loba de Sansa, elegante como uma boa dama, caminhou até o companheiro. Empurrou-o com a cabeça peluda, na perna.

Alleras desceu os olhos — ainda beeem lentinho ao realizar o gesto –, percebeu a dama.

Apertou os olhos. Manchas claras saltaram. Sentiu o coração pesado a bater. Com a mão livre do arco, fechou, abriu e fechou novamente os dedos. Os ossos pareciam estar petrificando. O sangue parecia voltar a passar por dentro dele. Balançou a cabeça, aturdido. Abriu os olhos novamente.

Carvão corria até ele, vociferando algumas coisas. A loba rosnou contra a coorte de mortos que andava e claudicava até onde estavam.

As axilas, têmporas e nuca de Alleras pareciam arder. O Esfinge grunhiu, mexeu um pouco o rígido pescoço, estalando-o. Parecia mais alguém que havia parado de treinar luta do que alguém correndo pela própria vida de uma horda de escravos revividos no meio da neve. Estava estranhamente relaxado.

(Devia ter uma resposta muito boa para isso em seus ensinamentos sobre anatomia nas aulas do arquimeistre Ebrose, mas ele não estava com os miolos em bom lugar para lembrar sobre.)

Virou-se, observando onde a parede do septo velho e sombrio estava. Poucos passos de distância.

Sua orbe dourada iluminou o local, pintando-o de dourado. Uma greta, grande, preta, amostra. A imensa fenda era vista graças à luz mística de Alleras. Sem ela, ninguém poderia ver – era assim que mantinha suas coisas bem guardadas aos olhos de todos.

Andando de forma truncada, foi até o local. Desajeitado, deixou o arco dourado de lado. Ao chegar, agachou-se, grunhindo, sentindo mais uma perna estalar. Esticou o braço, afundando-o na escuridão de pedra semi derretida. Seus dedos tatearam até sentirem o pedaço grosso de pano. Agarrou, puxou.

— Ande logo com isso, Esfinge! — vociferou Carvão atrás dele, aproximando-se, mas ele nem deu-lhe atenção. Estava bem concentrado no que fazia, além de atordoado pelo corpo que parecia ainda acordar. Retirou a trouxa da fenda.

Quando derrubou o saco no chão, foi rápido em enfiar o braço no buraco novamente. Tatou, sentindo pedra áspera até chegar a haste de metal escondida. Fechou os dedos entre o aço delgado, puxou-o, tendo mais dificuldade para retirar o objeto. O bastão de Marwyn era muito grande, ficando facilmente preso. Alleras usou a outra mão para puxar o objeto com mais facilidade, pegando na ponta curvada. O metal valiriano era tão escuro que parecia ser feito de fumaça, mesmo ante a luz mística de Alleras.

Alleras virou o rosto:

— Consegui! Agora podemos…

Parou ao ver a figura erguida da criaturinha da floresta, cujo corpo era castanho e pontilhado de branco, como um cervinho bípede. Carvão era agarrada pelos bracinhos por dois Wights. Só então Alleras deu-se conta de seu grito.

A imagem o fez arrepiar-se, numa onde encrespante que subiu de chofre dos pés até quase o seu cocuruto. Ergueu-se, equilibrando-se com o cajado de Marwyn, sentindo que seu corpo estava voltando a ficar alerta. A loba de Sansa arreganhava os dentes, mas permanecia perto d’O Esfinge, protegendo-o, impedindo-o de avançar contra o exército, e que este avançasse contra ele.

Mas o exército nem sequer pareceu se importar com O Esfinge. Todos os olhos azuis estavam voltados para ver a tortura da Filha da Florestas.

— Socorro! — Ela berrou, chorando, não parando de se debater, enquanto se via cercada de corpos mortos e olhos azuis. Era a única palavra da língua comum que vinha a sua mente no momento. Sabia que os deuses corrompidos seriam especialmente crueis para com ela. — SOCORRO!

Ninguém podia fazer nada por Carvão, que foi levada para dentro do grupo de mortos, ainda erguida pelos braços. Seus calcanhares foram agarrados, cada um por uma mão, puxados para direções diferentes. Seus cabelos grisalhos também. As mãos que agarravam seus pulsos aumentaram o puxão. O corpo dela estava formando um X. A pobre criatura sentiu seus músculos sendo puxados, os ossos se deslocando.

Seu grito foi sufocado quando dedos invadiram sua boca. Duas mãos forçaram-na a escancarar a abertura. A língua se debatia como um verminho em agonia. A pele da boca começou a ceder, rasgando conforme as mãos abriam caminho. O queixo deslocou-se. Carvão soltava sons agonizantes enquanto era consumida pela dor que aumentava exponencialmente. Seus pulsos e calcanhares estavam tão torcidos que os ossinhos estavam totalmente quebrados. Ela podia ouvir o “crack” sempre que lhe quebravam um membro.

O mundo era um borrão de dor para ela, que apenas olhava para o céu e para os cantos dos olhos. Seus olhos de gatos moviam-se com a mesma velocidade que uma mosca ou abelha batiam as asinhas. Lágrimas escorriam pelos cantos de sua cabeça castanha.

Seus pelos castanhos e grisalhos eram puxados por mais do que seis mãos. Estavam agarrando e puxando o couro cabeludo, abrindo feridas em sua cabeça. Quando um tufo se soltava, não tardava de voltarem a agarrar os fios que ainda mantinham-se preso na pele dela. Quando uma greta pareceu bem grande, os mortos começaram a puxar a área, tentando abrir mais. Até mesmo suas orelhas eram puxadas.

Suas roupas foram rasgadas. Quando a pele estava exposta, mãos apertaram, torceram seus seios. Ela se debatia, indefesa. Exposta. Sentia-se fragil. Não tardou para quatro mãos começarem a cavar na barriga exposta, ao mesmo tempo que Carvão sentia o que parecia um cachorro mordê-la na vagina. Uma mordida forte, mas lenta, afundando os dentes pouco a pouco. Sentia a fria língua lambendo a ferida aberta enquanto isso. Agradeceu por não ver a cena. Assim como agradeceu por não ver suas estranhas sendo retiradas de dentro dela, erguidas pelos seus algozes.

Sua garganta começou a engasgar de sangue. Tudo ficava preto. Distante. Isso era bom; não sentiu o seu queixo sendo quebrado do lado esquerdo do rosto, sendo arrancado. Quando começaram a puxar as costelas pelo buraco na barriga e soltaram a pele do topo da cabeça do crânio, Carvão não estava mais viva. Mas os escravos dos deuses não estavam nem aí; seus deuses os obrigavam a continuar, agraciados pela destruição da traidora filha da floresta. Até mesmo o mastim que a desventrava continuava a puxar a carne que mordia, como que para causar alguma dor.

Uma morte triste, cruel, sem sentido, depravada.

Alleras não viu tal morte. Além da pobre criatura estar além de seus alcances, ele voltou para aproveitar a distração. Como que o desespero fizesse sua energia voltar, ajoelhou ao lado trouxa de roupas que tinha tudo menos roupas. Com mãos assaz, mesmo que trêmulas, pegou a máscara valiriana, botou-a na cara, amarrando as tiras de couro na nuca. Apesar de dedos tempestuosos, teve êxito no trabalho. Pegou o cajado de Marwyn. Fincou a ponta no chão, usando-o para se erguer, como se fosse um velho, não um jovem homem no corpo de uma jovem mulher.

Quando virou-se, deparou-se com uma cena assustadora de mortos virados de costas para ele. Ouviu ruídos estranhos, enquanto os gritos desesperados de Carvão tornavam-se sons guturais desconcertantes, juntos de outros sons sinistros que ele preferia nem imaginar o que poderiam ser.

Alleras observou a muralha de carne gelada e morta à sua frente. Deviam ter pelo menos cinquenta, como passar por todos? Só o arco não poderia incendiar a todos de uma só vez – eles o iriam trucidar antes de cair para as chamas.

Foi quando lembrou-se de seu punhal valiriano em seu pulso e de um truque que lera sobre a magia de sangue. Rezando aos sete deuses e aos deuses do amor das Ilhas do Verão, Alleras levou uma mão até por debaixo da manga que segurava o cajado de Marwyn. Quando a puxou, agarrando-lhe o cabo de osso dragão. O ar pareceu ser ferido quando a lâmina surgiu.

Bateu o cajado no chão de neve acumulada até ele fincar-se no solo, sem cair. Quando conseguiu, cortou a palma com o punhal. Nem sequer esperou tirar a luva. O gume cortou couro, lã grossa, e a palma. Sangue começou a brotar, seguido de ardência.

Alleras grunhiu, mas não tardou em levar a palma até a ponta curva do cajado valiriano. Fechou os dedos na curva, mexeu a mão para frente e para trás, frenético, besuntando o objeto com seu sangue.

Quando o som desumano de Carvão parou, o silêncio reinou. Alleras engoliu seco. Virou-se. Os mortos lentamente giravam seus calcanhares. Os pelos da Dama na frente dele se encresparam. Ela rosnou, pronta para morrer. Um Mastim de crânio torcido surgiu entre as pernas da turba.

Alleras foi rápido em guardar o punhal em um bolso escondido. Agarrou o cajado com as duas mãos, retirou-o do chão, apontou para os inimigos. Segurava a haste com toda a força que tinha; percebendo tardiamente que devia ter tentado arriscar os mortos enquanto eles estavam de costas.

— PRA TRÁS! — cuspiu, mas sabia que era uma ameaça inútil. Ele estava perdido!

O mastim foi o primeiro a correr até ele, mas foi interceptado pela Dama. Ambos ficaram atracados. Os mortos começaram a andar.

Alleras transpirava, enquanto respirava pesadamente. A haste de metal tremia violentamente. Vendo o brilho azul e os corpos disformes se aproximando, fechou os olhos. Engoliu seco, pensando que logo veria suas irmãs e seu pai.

Quando sentiu uma lufada de calor tocar-lhe a face, arregalou os olhos de chofre. Uma luz fantasmagórica ondulava na ponta curvada o metal. Era uma chama!

O corpo do primeiro morto-vivo que encostara na ponta foi rapidamente tomado pela chama. O fogo passou pelos corpos ao lado

Alleras expeliu ar, chocado. Sabendo que não podia perder tempo, voltou a haurir. Num gesto rápido, ergueu a haste, ainda segurando com as duas mãos. Desceu o cajado em uma vertical, acertando a cabeça de uma mulher sem braço e um jovem plebeu (este teve o queixo quebrado). Ambos tombaram, com as cabeças virando pelo choque do golpe.

Voltando a ativa, como se o fogo cinzento o avultasse, Alleras tomou o bastão entre as mãos, começou a girá-lo, cortando o ar. As duas pontas raspavam no chão de neve e nos flocos que caíam. Um círculo pálido e rebrilhante surgiu. Alleras não largava o bastão, lembrando-se dos treinamentos de seu pai, sua mãe e sua irmã mais velha, Obara. Era como se estivessem ali, guiando-o. 《Foco, Sarella!》. 《Firme os pés!. 《Espere o próximo passo do inimigo!》.

Mas o próximo passo não veio. Os corpos controlados pelo inimigo apenas voltaram a parar, observando os movimentos de Alleras. Ele via-os através dos giros da barra que passavam no seu campo de visão.

Eles me vêem, percebeu. Eles estão me estudando? Esperando meu próximo passo?

Fora informado de que o inimigo seria mais esperto do que parecia; mas nem ele imaginava tal nível de intelecto.

Seus pensamentos foram interrompidos ao sentir respingos de água. Quase deixou o cajado escapar, mas seus dedos assaz o mantiveram firme, girando, girando, girando. Olhou para o círculo pálido que formava com seus giros. Água! A neve derretida pelo fogo estava sendo mantida, de alguma forma, perto do cajado que continuava a girar. Um pequeno arco-íris se formava em volta da luz pálida, como um halo.

Como se guiado por um instinto, Alleras girou sobre si, fazendo o cajado dançar consigo; erguido sobre sua cabeça, para os lados, pelas costas – tudo sem nunca deixá-lo escapar de seus hábeis dedos.

Quando parou de girar, virou-se para frente, defronte aos mortos – que voltavam a avançar – fez um corte no ar com o seu bastão valiriano. Uma cimitarra de água fervente chocou-se contra os corpos plácidos. O chofre foi tão potente que os da primeira fileira caíram para trás, derrubando alguns dos outros que estavam atrás deles. Um chiado foi ouvido quando a água fustigante entrou em contato com a pele gelada dos mortos. A temperatura tão alta que dissolveu a carne dos corpos mais decompostos. Fumaça subia deles.

A magia das águas!, pensou, sentindo orgulho de sua ancestralidade. Tinha tanto os poderes deles como a coragem. Ainda havia alguns haustos para si. Um guerreiro inabalável. O júbilo voltava, junto da soberba.

Alleras olhava o resultado, lívido. Respirava profundamente, com o corpo banhado pelo suor e água. O frio extremo o enervava. Olhou de esguelha para o cajado. O objeto ainda tinha chamas dançantes no topo.

Aproveitando o momento, relanceou para onde havia deixado o arco de coração de ouro. Rápido como um gatuno, deslizou no chão, agarrou a madeira, passou o objeto sobre sua cabeça. Deixou-o firme no peito.

Voltou a olhar os vagantes. Eles estavam mais atabalhoados do que de costume – alguns tentavam reerguer-se, enquanto outros tentavam avançar sobre os caídos, enquanto outros tentavam dar a volta.

Alleras voltou a mover sua nova e poderosa arma; moveu o objeto na sua frente, de um lado para o outro, bagunçando os flocos no ar. Uma onda pálida voou. Não tardou para ver mais dos inimigos, tocados levemente pelo fogo, começando a ser banhados pelas chamas.

Ao lembrar-se de sua companheira lupina, Alleras voltou a cabeça para o lado, olhando de esguelha por cima do ombro. Observava Dama de pé, sobre o corpo do mastim, que ainda se debatia. A loba, erguendo nas quatro patas, estava ferida, mas ainda estava excelsa. Ergueu a cabeça, arrancando a cabeça do mastim morto, arrancando-a para fora.

Alleras ergueu o cajado – que de alguma forma brilhou mais pelo gesto –, balançou, gritou:

— Ei, companheira! — chamou, sabendo que tinham de ser rápidos. — Vem! Vem!

A loba o fitou com os olhos d’ouro. Jogou a cabeça do mastim de lado, caminhou até o Esfinge. Este se virou, voltando a encarar os algozes. Apontou o objeto para eles.

Quando a Dama esteve ao seu lado, rosnando para os mortos, Alleras falou:

— Vamos ver a tua dona, sim? — falou, sorrindo como um insano, sentindo-se vivo pela luta, pelo calor do cajado, pelo brilho fulgente da esfera que pincelava tudo de dourado, pela magia fluindo através dele.

Girando sobre si mesmo, girou o bastão entre os seus dedos, como que numa dança. O rebrilhar alvo surgia no ar; a neve derretia, acumulando-se em volta do cajado que se movia num sem vacilar, acompanhando os gestos d'O Esfinge.

Deuses, como ele se sentia vivo!