Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
56 Outros Problemas
A cadeira que Margaery havia derrubado fora levantada, por Sor Jorah. Sansa e os monarcas voltaram a se sentar, com exceção de Jon.
— Tem certeza que a moça fala a verdade? — Indagou ele, dirigindo-se a Arya, que assentiu em resposta.
— Margaery é muito fraca para tais fintas.
— Ela matou Joffrey — Lembrou Sansa, embora não soube o quanto realmente aquilo pudesse ser comparável; Margaery podia até odiar mais Aegon, os Martell e Daenerys do que odiava Joff… Mas envenenar o lobo de Jon? Por que fazer isso? E, mesmo que fosse ela, era difícil dizer que ela tinha como saber o que estava acontecendo na Corte de Porto Real.
— A avó dela devia ter pulso que ela — rebateu Arya. — A velha foi quem o envenenou, até onde eu saiba. E ela sabia dos riscos de matar Aegon e seus aliados. — Deu de ombros. — Provavelmente temia que eles a matassem, ou algo até pior, após o regicídio. Além do mais, ela não tinha muitos motivos para viver.
— E esse Willas? — Perguntou Daenerys. — Ele pode ter tido algo no atentado a Aegon? Se sim, poderíamos nos aliar a ele.
Stannis fungou.
— Não acho que alguém que tenta matar o monarca pelo qual dobrou os joelhos seja confiável — ralhou ele, com a cara fechada.
Daenerys o olhou e franziu o cenho, irritada. O semblante fez com que suas cicatrizes acabassem por se contorcer, como vermes rosas inchados. Ao ver aquilo, Sansa fez uma careta.
— Nem sempre podemos nos dar ao luxo de seguir caminhos honrados — rebateu ela, um tanto irritada.
Como se alguma vez você tivesse tentado seguir um caminho honrado, ralhou Sansa internamente. Aquela monstra nunca saberia o que era honra; sempre seria impulsiva e destrutiva. Bem fez Aegon em livrar-se dela.
Jon sentou-se.
— De qualquer forma — disse ele —, não podemos falar com ninguém no sul por agora.
— Não podemos nos dar ao luxo de ficar parados! — ralhou Daenerys. — Vamos ficar aqui, atolados em neve, enquanto os usurpadores tomam meu trono?
— Por agora — retrucou ele —, sim. Meu irmão viu a muralha cair quando Malora e Euron morreram. Recentemente, ele me disse que as forças de Monte Cailin também caíram. Os Outros se aproximam, a Longa Noite está em seu ápice.
Sansa ouviu aquelas palavras com um arrepio. Apesar dos gigantes, mamutes, Filhos da Floresta, unicórnios e dragões, ainda tinha alguma relutância em acreditar em mortos de gelo, caminhando em aranhas.
As lendas são verdadeiras, pensou, os monstros existem.
Apesar de fraco, Fantasma aproximou-se de Arya. No começo, ele parecia que queria apenas um cafuné dela, até Arya se afastar e o Gato das Sombras dela se interpor entre a Stark e o lobo gigante, sibilando.
Jon franziu o cenho.
— Fantasma! — chamou ele. — Pare! Fica!
O lobo começou a caminhar para trás, ainda fitando Arya e seu imenso felino, mostrando os dentes para ambos.
— O que deu nele? — Sansa perguntou; os lobos nunca atacaram os Starks.
— Não sei — o Rei do Norte respondeu, acariciando o pelo pálido de seu lobo. Olhou para Arya. — Que tem feito?
A princesa o fitou com olhos cinzentos como fumaça.
— Nada.
— Tem feito algo — insistiu o irmão.
Arya pigarreou:
— Não tenho feito nada! — Arya bateu o pé; seu gato-das-sombras sibilou para o Rei.
Jon a fitou com os olhos desiguais, de modo estreito.
— Tem bebido sombra da tarde, princesa — declarou Daenerys. — Vejo isso pelos seus lábios.
Sansa franziu o cenho.
— O que é isso? — ela indagou, virando-se para o irmão.
— Uma bebida dos magos de Qarth — respondeu Daenerys. — Deixa os lábios azuis, como os de sua irmã estão. — Olhou para Arya. — Euron bebia isso.
Sansa pigarreou e, chocada, voltou-se para a irmã.
— Tem bebido algo deixado por Euron? Arya, ficou louca? Você lembra como aquela coisa era!
A irmã fez um muxoxo.
— A poção me faz ver coisas que os olhos não vêem — revelou ela. Olhou para o irmão, depois olhou para Daenerys. — Além do mais, não lembro de você e meu irmão terem reclamado de minhas ervas.
Daenerys afastou o olhar, virando o rosto. Parecia que as palavras haviam lhe atingido como um tapa.
— Quieta — ordenou Jon, numa voz quase monocórdica. — Nem mais uma palavra.
Sansa olhou para o irmão, esquadrinhando seu rosto alongado, cicatrizado e pálido. Um rosto muito diferente do que um dia ele tivera.
O que estavam fazendo pelas suas costas?
Novamente, a ignoravam. Faziam coisas sem ela saber — desconfiavam dela, mesmo após todo o trabalho dela para defender o reino do Norte.
Estava ficando farta deles, de todos eles! Jon, Daenerys, Arya, os lordes do Vale, o Banco de Ferro — Podiam todos ir para os sete infernos!
— Se já terminaram — falou Stannis —, devemos discutir assuntos importantes de verdade, além de seus dramas familiares.
Os dois Starks o encararam, vincando os cenhos e juntando as sobrancelhas. Stannis não se abalou.
— Pode sair, irmã — disse Jon, voltando-se para a mesa à sua frente, sem olhar para Arya.
Arya bateu o pé:
— Eu sou um membro real do Norte! — vociferou ela. O enorme felino negrume ao seu lado mostrou os dentes, sibilando, abanando a cauda preênsil.
— Saia. — A resposta de Jon veio em um tom monocórdico.
A princesa Stark bufou, mas obedeceu, saindo do cômodo a passos largos, com o Gato-das-Sombras logo atrás. Quando ela fechou a porta, o baque surdo retumbou pelo ambiente.
— Vossa irmã tem sangue de lobo — declarou Stannis.
Por incrível que pareça, isso fez Jon dar um leve sorriso.
— Sim, ela tem. — O sorriso morreu. — O que vamos fazer sobre Lady Margaery?
— Ainda digo que devem matá-la — falou Melisandre, após tanto tempo quieta. Seus olhos vermelhos brilhavam, assim como seu rubi, ao refletirem as luzes das velas fracas.
Olhos de sangue e fogo.
— Não — disse Stannis. — Não creio que seja uma jovem tão inocente quanto parece, mas não temos provas de que ela tramou contra Aegon.
— Existem dúvidas de que ela é inocente? — indagou Daenerys. Gesticulou para frente, para o assento onde Margaery estivera. — Viram a reação dela; a pobrezinha é inocente.
A princesa olhou para o local, lembrando-se do choque que fora ver Margaery se debatendo, gritando, como se estivesse em agonia.
Sansa nunca havia visto Margaery daquele jeito; a fúria e a dor no olhar. O grito de angústia, as lágrimas, o desespero ao rasgar as próprias vestes.
Por muito tempo, viu a Tyrell como uma moça crescida, corajosa, altruísta, inteligente, astuciosa… esqueceu que por baixo de toda aquela imagem, ainda existia uma jovem mulher que havia perdido mãe, pai, irmãos, e primas.
Imaginou como ouvir todas as revelações de Daenerys foram como um golpe cruel no coração de Margaery, tal qual saber da morte de Robb e Catelyn foram um golpe para Sansa.
Na verdade, sabia, também, como toda aquela horrível cena de auto-flagelação era o resultado de toda a mágoa e desespero de Margaery — todos os anseios que ela guardou para si, acabaram por serem implodidos nela.
Perguntou a si mesma se um dia acabaria como Margaery; sufocando na própria amargura, debatendo-se, deixando a insanidade tomar conta de todo o seu ser, fazê-la perder todo o autocontrole, perder o poder sobre si mesma, esquecer-se da realidade, perdendo a sanidade…
Um tremor percorreu seu corpo; sua mãe, a amada Lady Catelyn, diziam, rasgou a própria cara ao ver a morte de seu primogênito.
Sansa imaginou como sua estava naquele momento: Arya estava perdida, Bran e Rickon dados como mortos, a própria Sansa, casada, e, por fim, Robb, seu último filho, morto.
Será que ela também sufocaria em seus anseios? Terminaria, assim como sua progenitora, insana?
Sufocou seus temores, inspirando profundamente. Não podia pensar nessas coisas; tinha que pensar no Norte. No bem de seu reino,de seu povo.
Foi um erro duvidar de Margaery. Deixei a desconfiança e mágoa por ela ter me usado para matar Joff me cegar sobre ela.
A verdadeira ameaça, até onde Sansa sabia era, estava sentada ao lado dela.
Todavia, sabia que Margaery não era inocente, e não podia deixar que ela causasse alguma ruptura na corte — o reinado de Jon já tinha seus próprios problemas para cuidar.
— Que Margaery seja vigiada, então — Sansa falou. Virou-se para Sandor. — Traga Ysilla, ela e a família já devem estar no andar de baixo.
Sandor assentiu, girou os calcanhares, e foi fazer o que lhe fora ordenado.
— Acha mesmo que a Royce representa alguma ameaça? — cochichou Alleras.
— Não — respondeu a princesa Sansa. — Mas todo o cuidado é pouco.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Ysilla tremeu internamente ao ver o rosto de Sandor. Por sorte, parecia que ninguém havia notado.
Respirou profundamente, preparando-se para o encontro-interrogatório que estava por vir.
Tudo pareceu acontecer tão rápido; num momento, estava falando com lorde Roland, e, noutro, um soldado — com a libré dos própros Waynwoods — estava entrando no cômodo, falando que ela devia acompanhá-lo até a princesa.
Ela não teve outra reação, senão segui-lo, em silêncio. Ficou tão perdida que nem se despediu de Roland.
Após isso, o soldado a levou por milhares de degraus, deixou-a numa sala escura e fria, e logo trouxeram seu pai e irmão para fazer companhia.
— Tem aprontado muito, irmã — ralhou seu irmão mais velho, Andar, fazendo-a se encolher.
— Pelos deuses, filha! — exclamou o pai deles. — O que andou aprontando?
— Nada pai, eu juro!
Andar fez um som de desdém.
— De toda a forma — continuou Lorde Royce —, você deve ficar quieta. Deixe que eu e seu irmão proteger-lhe-emos.
Ela assentiu, sentindo um nó no estômago.
Agora, enquanto caminhava até os aposentos reais, Ysilla se sentia impotente e frágil. Não achava que tinha coragem para enfrentar aquelas pessoas — e como poderia? Até onde sabia, muitos tinham poderes (montavam dragões, tinham lobos gigantes, eram wargs…), enquanto ela… ela era apenas uma jovem moça levada pelo rancor.
Murmurou uma oração aos deuses, implorando que eles a guiassem.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Sor Tumco Lho já havia retornado, ficando atrás de Daenerys e ao lado de Sor Jorah, quando Sandor retornou, atrás dele, os Royce.
Yohn Royce era um guerreiro ágil, mas velho, porém cheio de valentia. Seu irmão, Andar, era uma versão mais nova e bela dele, sem a austeridade severa em seu semblante.
Entretanto, a pessoa que mais interessava-a não era nenhum deles — era a jovem entre eles.
Ysilla Royce era uma moça alta, esbelta, com belos cabelos longos e escuros, quase pretos. Sua pele era perolada, a face não era tão alongada, e o nariz era retilíneo. O mais belo nela, que chamava a atenção de todos, eram os olhos: olhos cinzentos e acastanhados. Duas cores unidas de um modo único.
A jovem sentou-se na frente dos reis e da princesa. Parecia bem calma, apesar de tudo. Seu pai e seu irmão ficaram em pé, ladeando-a.
Sansa pensou em como já estivera no mesmo lugar que aquela moça a sua frente: jovem, assustada, sendo interrogada por pessoas ruins.
Pelo menos Ysilla tinha seu pai e irmão… Era mais do que Sansa tinha em Porto Real.
Todos saudaram a realeza e então a conversa pode começar.
— Lady Ysilla — disse a princesa, antes que mais alguém falasse —, soube que você e Margaery tem se falado. Sei também que ambas foram falar com Lorde Waynwood.
Ysilla assentiu, ainda calma. Ela sabia esconder bem a ansiedade e medo, pelo visto.
Mas a princesa Sansa a havia visto antes, no Vale. Pouco, mas tinha. Ysilla Royce podia ter o orgulho dos Royce, mas ainda era só uma jovem esposa, um tanto perdida com as ameaças do mundo à sua volta.
Sansa não desprezava Ysilla; pelo contrário, achava admirável que aquela mulher conseguisse ter aguentado a sobrecarga de cuidar do Forte Vermelho, sozinha, durante o ataque dos clãs, quase sem proteção. E compadecia-se pela humilhação que era ser trocada por uma bastarda — Sansa podia gostar de Mya, mas tinha de admitir, era uma situação humilhante demais.
Sor Yohn Royce se moveu um pouco para frente e tentou falar algo:
— Minha princesa…
Sansa levantou a mão, indicando que ele deveria ficar quieto.
— Sei de sua lealdade, Lorde Royce — ela falou. — Nunca me faltou com ela e por isso sou agradecida. Todavia, eu estou falando com a sua filha, agora. Deixe-a falar.
O homem engoliu seco e anuiu. Era óbvio em seu semblante o receio que sentia. O medo de que fizessem algo contra sua pobre filha.
Sor Andar, por outro lado, parecia mais sério, como se aceitasse o que quer que fizessem contra sua irmã.
Finalmente, Ysilla falou:
— Lady Margaery foi uma boa companheira para mim no Forte Vermelho — ela respondeu. — Além do mais, foi por ordem da própria princesa que falei com ela; devia ser sua espiã.
Daenerys olhou para Sansa de soslaio, parecendo não ter gostado disso. Esta, porém, não se abalou.
— E você o fez, por algum tempo, pelo menos — redarguiu ela. — Entretanto, não me falou nada de seus últimos encontros.
Pode ver a raiva silenciosa escurecer o olhar de Ysilla.
— Depois que a princesa não me ajudou com a amante de meu marido, não vi motivos para tal.
— Então, você tem falado com ela em segredo, e não tem falado nada sobre isso.
A jovem Royce engoliu seco.
— S-sim, mas…
— Como podemos saber que não tem tramado nada? — indagou a princesa. — Afinal, ninguém olhava para vocês duas…
— Princesa… — Começou Lorde Royce.
Andar Royce colocou a mão sobre o ombro de seu pai, indicando que ele devia ficar calado.
— Então? — perguntou Sansa, insistindo que a moça a sua frente lhe respondesse.
— Margaery e eu apenas nos acalmamos nos momentos de pesar — Ysilla disse, finalmente. — Ambas estávamos nos sentindo abandonadas, ninguém fala conosco, alguns até nos olham tortos… — Parou de falar, respirando fundo, parecendo tentar se recompor. — É apenas isso. — Olhou para todos os monarcas, um a um. — Eu juro.
Sansa podia ver que havia verdade naquilo; Ysilla e Margaery tinham uma solidão em comum. Entretanto, sabia que aquela Royce não falava tudo.
Não pretendia torturá-la, apenas queria um jeito de fazer com que ela deixasse de confiar em Margaery — mesmo que a tomasse como aia, como confiar nela? Bem, talvez isso a deixasse longe de Margaery…
— Toda esta conversa é uma perda de tempo — declarou Stannis Baratheon, deixando o silêncio de lado. Fitou os Royces com os duros olhos azuis. — Como podemos desconfiar que uma jovem cabeça oca realmente trame algo? Pelo que vejo, ela precisa do pai e do irmão até para defender a si mesma.
Ysilla pigarreou, não esperando um comentário tão agressivo contra sua pessoa.
— Milorde! — Falou Yohn, com o rosto anuviado e tão chocado quanto a filha.
— Fique calado, velho — ordenou Stannis. — E vê se não esquece das aulas que seu meistre lhe ensinou; existe uma grande diferença entre um Lorde e um Rei, Lorde Royce.
Daenerys o olhou como se ele tivesse perdido a cabeça. Virou-se para o Rei do Norte, esperando que ele fizesse algo, mas este apenas observava tudo, introspectivo.
— Na verdade — continuou Stannis —, Lady Royce, eu duvido muito que você represente alguma ameaça sozinha; entretanto, quem não nos garante que você não seria um peão para Margaery usar?
Ysilla pigarreou novamente, sem parecer saber o que falar. Abriu a boca, mas não conseguiu falar nada.
— Não é uma surpresa que vosso marido tenha preferido uma mula do que você, dado que é incapaz de falar qualquer coisa relevante para sequer se defender. Na verdade, não acredito que possa falar qualquer coisa interessante, de qualquer maneira.
— Vossa Graça! — exclamou Sor Andar, ficando vermelho e tomado pela cólera.
— Sim, defenda sua irmã! — zombou Stannis, seco. Depois, voltou a se dirigir a Ysilla. — Vejo que sua irmã não pode nem tentar implorar por perdão. — Continuou: — Diga-me, cara Lady Royce, como sequer sabe que está pensando e agindo por si mesma?
Lorde Yohn pareceu que ia falar algo, mas antes que pudesse, a face pálida de Ysilla ficar escarlate e ela falar:
— Não preciso de ninguém para falar por mim ou resolver meus problemas! — bradou ela, entre dentes. — Não importa que usem coroas ou montem dragões, não vão falar por mim! Sua pergunta, vossa graça, é poeiriu, ainda mais para alguém que, dizem, ouvir bruxas!
O irmão e o pai a olharam, chocados, e quase todos no lugar ficaram tensos.
Ysilla logo se deu conta do que havia dito e se encheu de horror. Foi como quando confrontou seu marido em Correrrio; a raiva, a indignação, tudo isso explodiu ao atingir seu orgulho. Olhou para frente, fitando as majestades.
Surpreendente, o Rei Stannis riu.
— Vejam só, a moça tem garra, afinal! —
— De fato, vossa Graça — concordou Melisandre, parecendo compartilhar do divertimento de seu rei.
Stannis acenou para a jovem Royce com a cabeça:
— Pode ir, Lady Ysilla. Vejo que tem um pulso firme, assim como seu pai e irmão.
— E-eu… — Gaguejou e parou de falar, sentindo-se perdida.
Sansa sorriu.
— Pode ir, Ysilla — disse a princesa, para a surpresa dela. — Você provou seu valor hoje. — Dispensou ela e a sua família com um gesto.
Quando eles se foram, Daenerys se virou para Stannis, de cenho franzido.
— O que foi tudo isso? — ela exigiu saber.
— A garota Royce nunca mais vai ser um capacho de ninguém — ele falou, como se explicasse algo. — Pelo menos, não para sempre.
Sansa ecoou as palavras do Rei:
— Ela precisava apenas desse leve empurrão — ela disse. — Logo, ela provavelmente vai revelar-se contra Margaery, caso esta trame algo. Vai nos falar sobre, acredite.
Apesar de relutante, Daenerys aquiesceu.
— Certo… E agora? Temos que discutir sobre a morte de Harrold ou…?
— Na verdade — interrompeu Sansa —, eu tenho um assunto ainda mais importante para resolver.
Seu irmão ergueu uma sobrancelha:
— O que seria?
— O Herdeiro do Vale.
Jon anuiu.
— Diga quem tem em mente, irmã. Escolha e eu o aceitarei de bom grado. — Sei que fará a escolha certa.
Sansa deu um sorriso cansado; era bom saber que ainda havia alguma confiança entre eles.
— Infelizmente, temo que os lordes…
— Os Lordes que se danem — rebateu ele. — Sei que tem a resposta certa.
Ela corou, não estando tão certa quanto Jon sobre seu próprio julgamento.
— Bom, Harry tinha… Na verdade, ele tem…
Alguém bateu na porta e os imaculados do lado de fora abriram as portas duplas.
Daenerys pigarreou:
— Pelos deuses, o que é agora? — ela perguntou, parecendo mais cansada do que exausta.
Era Lorde Brynden.
Ele entrou no cômodo, acompanhado de outros guardas que usavam a libré dos Blackwoods.
O semblante de Brynden era sério e bravo, quase com uma carranca estampada nele.
— Lorde Blackwood — saudou Jon, após o lorde fazer uma vénia rápida. — O que houve?
— O que houve, majestade — respondeu ele —, é que meu irmão e a Manderly estão numa união profana, desonrando ambas as casas. E eu insisto que vejam a traição com os próprios olhos.
O semblante de Jon ainda era introspectivo; ele apenas assentiu.
— Certo. — Ele levantou-se. — Leve-nos para ver.
Pelos deuses, pensou Sansa, levantando-se, esses dois realmente não podiam esperar?
Nem ela e nem Jon realmente podiam se dizer surpresos; Wylla e Hos se amavam muito. Era óbvio que, após tanto tempo sem permissão, iam acabar por se casar em segredo.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Arya entrou nos seus aposentos, furiosa. Seu Gato-das-sombras veio logo atrás. Após o imenso animal entrar, ela fechou a estúpida porta, com uma força tão grande que causou um baque surdo.
Ouviu um gemido e alguém se remexeu entre os lençois da imensa cama.
— Hmmm… Arya? — Edric a chamou com uma voz embargada. — Que horas são?
— É sempre de noite — respondeu ela, retirando o manto, deixando-o cair no chão escuro e frio.
Deitou-se ao lado do marido, que virou-se para ela e forçou-se a abrir os olhos. Havia sombras escuras em volta deles, e o belo púrpura típico de Ned estava baço.
— Onde está Gendry?
Ele fechou os olhos por um instante, como se pensar o cansasse, os abriu, e respondeu:
— Eu acho que está rezando.
— É bom que aquele imbecil tenha dado as ervas! — ela reclamou, fazendo seu marido voltar a fechar a vista e fazer uma careta.
— Princesa, por favor, não grite… — pediu ele lentamente. Estava claramente cansado.
Arya chegou perto do ouvido dele e gritou, fazendo-o se afastar e fazer um som esganiçado como um cão. Ela riu de sua expressão.
— Ah, querido, já cansado? — Ela levou a mão até um mamilo rosado e desbotado dele, e dedos brincalhões o torceram até ele gemer de dor e morder o lábio.
De fato, ele estava acabado: a pele alva estava acinzentada, existiam hematomas escuros, principalmente no pescoço, e o cabelo estava desgrenhado e sem brilho.
— Você me esgotou, princesa — ele falou, tristemente. — Não aguento mais…
— Você é muito chorão. — Ela torceu mais o bico rosado entre o indicador e o dedão, como punição, fazendo seu futuro marido choramingar. — Achei que ia gostar de finalmente ter Gendry tomando você como esposa. — Deu um risinho abafado. — Você guinchou feito porco e chorou como um donzela sendo estuprada.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho.
— Ele me machucou… — ele falou.
Arya suspirou.
— Não posso mais, Arya — Edric insistiu. — Não posso, entende? Eu…
Ela selou os lábios dele com um beijo rápido. Isso pareceu fazer e hesitar e parar.
— A rainha não vai mais te receber? — ela o questionou.
Ele chacoalhou a cabeça.
— As ervas em nada a ajudaram a engravidar, e… — Ele fez uma careta. — Eu a machuquei. Acho até que seu irmão, Jon, me bateu e…
Arya fez um som irritado e sufocado.
Isso atrapalhava tudo; o que faria agora? Tinha fé de que talvez Margaery descobrisse a traição e fizesse algo, mas agora...
— Arya, você fica comigo?
— Hmm? — Ela o olhou, confusa.
— Fique comigo. Estou fraco, sozinho…
Suspirando, ela entrou nos cobertores dele. Ele a abraçou, puxando para si.
— Você não conseguiu fazer o que eu queria… — Ela sussurrou para ele, com os lábios colados em seu ouvido.
Apesar do contralto suave e brincalhão na voz, Edric se encolheu, como se soubesse o que estava por vir.
— Arya…
— Você devia continuar vendo a rainha, mas você falhou.
Ela deslizou uma mão pelo corpo dele, até sentir as quentes partes íntimas.
— Você merece um castigo por me desobedecer.
Quando ela apertou e torceu o saco e falo mole de seu marido, ele uivou tão alto, que ela achou toda Harrenhal iria ouvi-lo. Arya não se aguentou, começou a rir, e apertando mais.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
O bosque sagrado estava em grande parte vazio. Havia algumas tendas simples montadas, feitas pelos plebeus e alguns soldados.
Estaria mais cheio em outros tempos, mas o irmão de Sansa, Bran, começou a falar com os plebeus no Salão das Mil Lareiras — uma forma mais segura de falar com o povo, sem deixá-los morrer no frio.
Apesar de ter poucas pessoas por ali, Sansa não gostava de andar assim, tão exposta, pois a praga ainda podia ser perigosa.
A neve atrapalhava um pouco a caminhada do grupo, indo até um pouco além dos calcanhares. Soldados erguiam tochas, para iluminar o caminho na densa e negra escuridão.
— Estamos perto — declarou Lorde Brynden. O caminho era absurdamente longo, hectares de distância até o maldito e feio represeiro de Harrenhall.
Quando conseguiram ver a escura silhueta da Árvore Coração, Sansa sentiu um calafrio. Aquilo não fez sentido para ela — por que temeria algo de sua própria fé?
— Ali! — apontou Lorde Brynden, como se já não fosse óbvio para todos.
Conforme se aproximavam, as chamas tremeluzentes iluminaram o local, revelando uma estranha e escura protuberância no chão, que logo se mostrou um manto caído na neve.
Era o belo manto de baleia de Wylla, Sansa notou.
Bom, ela pensou, eles já estavam no bosque sagrado, em frente a árvore coração — talvez o casal apenas tivesse consumado o matrimônio.
— Uma vergonha — ralhou Brynden, fazendo uma careta ao ver aquilo.
— Acalme-se, Milorde — pediu o Rei do Norte, numa voz calma.
O manto pareceu se remexer e escutou-se um barulho de choro, bem, bem baixinho.
Um dos homens de arma Blackwood se aproximou, com uma tocha na mão, e puxou o manto, revelando quem estava por debaixo dele.
Não foi uma surpresa ver o rosto corado e sorridente de Hoster Blackwood, dormindo, com um leve ressonar — a surpresa foi a mulher nua ao lado dele não ser Wylla.
Sansa suspirou, horrorizada, dando um passo para trás, quando a luz da chama revelou o rosto, não de Wylla, mas de sua irmã, Wynafryd.
Ela estava chorando, com lágrimas riscando seu rosto.
— Eu… Eu não queria… Ele… — Ela quebrou e começou a soluçar mais alto.
— O que é isto? — Jon exigiu saber, falando num timbre um pouco mais alto, mas mais irritado.
Hos gemeu e piscou um pouco os olhos, pesadamente. Ao ver a luz da tocha, franziu o cenho.
— Isso — disse Brynden —, meu rei, é a vergonha que meu irmão trás consigo.
Hos piscou, colocou a palma da mão contra a luz.
— Acha que pode fazer essas gracinhas? — indagou Jon, sem parecer notar que o rapaz ainda estava confuso. — Está na hora de pagar por tratar uma lady assim!
Quando Hos abriu os olhos, visualizando quem estava ao lado dele, e começou a entender o que estava acontecendo, ele encolheu-se de horror, principalmente ao ver a moça ao seu lado, que estava chorando, cobrindo os seios com as mãos.
Ele ergueu os olhos.
— Meu rei… Eu… eu não…
— Hos, como pode? — indagou Sansa, perturbada com tudo aquilo.
Fale com o autor