Antes de adentrarem no Salão das Cem Lareiras, junto de todas as outras Ladies, damas de companhia, filhas de lordes; filhos muito novos para lutar, idosos e doentes, a princesa Sansa foi até o septo escuro e empobrecido que havia Harrenhal. Seguindo seus passos, Margaery e as outras damas iam logo atrás.
A construção de sete paredes era escura, suja, inclinada, de teto espicaçado. Margaery imaginava que os homens que ocuparam o local (fosse na época do reinado de Harrold ou sob o poder de Jon) fizeram o melhor para melhorar o local, mas o trabalho melindroso claramente era infrutífero — arrumar harrenhal era uma missão impossível, isso já era uma axioma provada pelas era.
Morcegos e ratos foram expulsos do local; seus excrementos, limpos. Apesar disso, o odor pungente de suas fezes e urinas continuava impregnado no ambiente. (A fumaça densa do incenso queimando não era capaz de ocultar o odor.) As janelas de chumbo colorido estavam todas quebradas, havia talvez séculos, de modo que tábuas de madeira foram colocadas para tapar a grande maioria, impedindo a neve de entrar. Tábuas também foram postas para tapar as frestas no telhado abobadado; isso não impedia a neve de entrar por alguns locais, porém. As tapeçarias que tentavam embelezar o local eram uns panos feios, cuja beleza fora erosada pelo tempo e pela viagem que fizeram até chegar onde agora estavam — umas deviam estar nas paredes há gerações já passadas e mortas; outras, de certo a maioria, devem ter sido trazidas do Norte, sofrendo os piores da longa caminhadas e clima, estragando o pano rico e já anoso. Provavelmente por isso não foram usados para negociar a dívida com o Banco de Ferro.
Apesar de toda a pobreza e escuridão do local, Margaery sabia que, por debaixo de seus pé, abaixo até do chão, havia uma boa quantia de ouro, prata, talvez até de joias. Tudo escondido bem sob as narinas dos monarcas sabichões. Também devia haver entre as frestas nas paredes, imaginou, visto que ambas deveriam ter fissuras nelas, algumas até escondidas pelas tapeçarias.
(Como Alleras conseguiria fazer isso sem ser visto? Será que ele mentira? Ou havia ajudantes entre o clero dos sete? Aquela Esfinge esconde-me algo.)
Nada era mais triste do que as estátuas dos sete deuses. As chama de Balerion, O Terror Negro, tocara cada uma da face dos setes: O Pai do Céu estava inclinado para frente, encurvado, seu rosto era uma expressão de dor distorcida por causa do derretimento; a Mãe era talvez o pior, sendo uma massa disforme de pedra derretida, que não fosse o torso (também distorcido) nunca alguém poderia dizer ser uma fisionomia humana; o Estranho não tinha rosto algum, mas o restante do torso continuava intacto, com um braço erguendo uma cruel foice; o Guerreiro e a Donzela estavam semi-derretidos, meio fundidos, como irmão siameses; a Velha era a mais intacta, com as chamas tendo destruído seus braços, deixando-a com apenas um toco erguido, ao invés de uma mão erguendo uma lâmpada. O martelo do Ferreiro parecia um verme que se contorcia entre as mãos da divindade, que parecia garroteá-lo.
Destruídas ou não, apenas as belas estátuas de mármore esculpidas no Grande Septo de Baelor podiam superar o tamanho daquelas deformidades.
Enormes ou não, Margaery ainda sentia-se tensa por estar no mesmo local que aquelas estátuas. Era como se elas a vissem, perpassando seu corpo, enxergando sua alma. Seus pecados. Inalou profundamente, aspirando um pouco do cheiro acre da poeira, dejetos e fumaça das velas, tochas e incensos. As chamas bruxuleantes pareciam lutar para expulsar as sombras do local, mas que falhavam, parecendo ser poucos pontos de lume deixados a esmo no local.
Haviam poucos septãos e septãs no local (afinal, a fé estava contra Jon e Daenerys e Stannis). Margaery sabia que os reis não se deixavam levar pela benevolência: espiões sempre estavam nos calcanhares dos beatos. Eles não fariam nada sem que o triunvirato de monarcas soubesse. Nem mesmo as cinzentas irmãs silenciosas estavam incólumes de vigias. O Alto Septão não obteria nenhum gorgolejo de seus pardais puídos.
Todos eram possíveis traidores da coroa, fosse um septão que, possivelmente, pregasse algo contra um dos monarcas, ou mesmo um simples padeiro com um sotaque parecido com o da Baixada das Pulgas. Ninguém era inocente até que fosse provado o contrário.
Apesar de tudo, Margaery sentia-se feliz por não ter qualquer vestígio de Filhos do Guerreiro e Pobres Companheiros no local. Não confiava nesse lado fanático de sua fé, que só serviu para prendê-la, junto de suas primas, sem mais nada de últil.
Apesar dos empurrões, esbarradas e cotoveladas que as pessoas faziam para ter entrada no templo religioso, era visível o pouco número de pessoas no local se comparado a quantidade de gente que havia vivendo em abrigo na fortaleza sombria. Margaery esperava muito mais gente.
Será que estão perdendo a fé?, se viu perguntando. Infelizmente, era uma grande possibilidade; enquanto o número de crédulos aos sete diminuía, o mesmo não podia ser dito em relação às outras religiões: cada vez eram vistas pessoas em volta das fogueiras acesas pelo sacerdócio do deus vermelho; o apinhado de rezadores de árvore também crescia, com muitos nem sequer saindo do gigantesco Bosque Sagrado de Harrenhal – mesmo com o clima aviltante que os consumia.
Conforme a multidão aglomerava-se no septo de paredes cinza-pardas, o frio do recinto de pedra semi-fundida quase parecia sumir com o calor das pessoas; não obstante para aplacar o enregelar que tomava conta do mundo. Margaery ajeitou um pouco sua roupa — uma manta marrom forrada com pele de lobo e estola de raposa castanho-avermelhada, um tanto alaranjada.
Todos estavam no local; plebe, nobreza, comerciantes, westerosi, ghiscaris, entre vários outros — mesmo os que talvez nem entendessem o que eram os sete deuses (muito menos que eram um deus de sete aspecto) — passaram pelo umbral afundado da enorme construção angulosa, pois estavam com medo do que estava por vir.
Tudo aconteceu há poucas horas — um vento arrebatador, congelador de ossos, surgiu num chofre enregelante, ceifando qualquer chama no imenso castelo. Toda janela e persiana pareceram explodir, jorrando grande acúmulo de neve nos recintos. A pele de Margaery ficara arrepiada com o borbotão invisível que pareceu subir pelo seu corpo, mordendo em cada centímetro de sua carne macia, como um lobo selvagem. Era quase como um dissemelhante do fogo de um dragão.
Todos em Harrenhal sentiram o toque frio e agourento do medo. Foram várias horas até todas as luzes serem reacendidas. Uma algazarra, porém, tinha antecedido, com todos ficando num estado de medo e agitação, correndo, gritando, alguns até pulando das ameias e torres, numa tentativa de escapar da temível escuridão que acreditavam estar vindo pegá-los — um ato que, infelizmente, para muitos mostrou-se infrutífero; a neve avolumada no chão era tanta, que alguns acabaram por não morrer de imediato. Alguns gritaram e grunhiam, com ossos quebrados, membros retorcidos, até seus corpinhos feridos não aguentarem e a vida ceder. Alguns outros, minoria, ainda estavam sobrevivendo em agonia.
Barbara Bracken e Sor Wylla ladeavam a princesa Sansa. Cynthea Frey estava ao lado de Margaery, que estava bem ao lado da Manderly; a Viúva do Norte estava ladeando a nortenha que tinha o mesmo nome que ela; Bárbara Bracken estava da irmã do Lorde da Travessia.
Distante do grupo de jovens mulheres, estava Wynafryd Manderly, sozinha, cercada por ladies e nobres que a circundavam.
Um septão, velho, trajando vestes puídas, subiu os degraus dum tablado de madeira que fora construído recentemente (a madeira era pau ferro; parecia até brilhar se comparada as tábuas de assoalho velho e das vigas escuras e fungosas, cobertas por uma pátina pueril). Andou com seus pezinhos fracos e frágeis até quase beirada da plataforma, parando de frente à um púlpito de granito velho e mal talhado, onde limpou a garganta de forma ruidosa, começou a discursar:
— Estamos hoje todos unidos neste momento de tamanha tensão — o septão balbuciou, com a imensa estátua do Pai sobre ele, parecendo prestes a cair na frágil figura encurvada de seu devoto —, pois a fúria obscura do inverno cai sobre nós hoje. Dever-nos-emos de rezar agora, pelos guerreiros que hoje hão de nos defender, para que os deuses tenham misericórdia de nossas almas; para que os Sete lancem suas luzes para nós, livrando-nos desta cruel escuridão que nos cerca. Oremos, irmãos e irmãs, pela bondade dos deuses.
Todos deram as mãos, sem olhar sequer para a pessoa ao lado, começaram a rezar para os sete deuses, cantando o hino dos Sete, com todas as vozes encontrando-sez entoando-se em uníssono:
A face do Pai é severa e forte,
entre o bem e o mal determina um corte.
Pesa a vida, do nascimento à morte,
e adora os seus filhinhos.
A Mãe concede a dádiva da vida,
pras esposas é apoio e guarida.
Um sorriso e pra tudo há saída,
e ela ama os seus filhinhos.
O Guerreiro enfrenta o inimigo,
e é sempre para todos um abrigo.
Com espada e lança e com arco e espigo,
protege os seus filhinhos.
A Velha tão sabedora e antiga,
que de todos o destino investiga.
Uma candeia de ouro ergue e liga,
orienta os seus filhinhos.
O Ferreiro trabalha noite e dia,
pra devolver ao mundo a harmonia.
Com martelo, arado, fogo e mestria,
constrói para os filhinhos.
A Donzea anda pelo céu a dançar,
vive quando um amante suspirar.
Sorri e as aves aprendem a voar,
e dá sonhos aos filhinhos.
Os Sete Deuses que a todos criaram,
sempre ouviram aqueles que os chamaram.
Podem adormecer, não cairão,
eles vigiam-nos, filhinhos.
Só fechem os olhos, não cairão,
eles vigiam-nos, filhinhos.
Apenas o Estranho não tinha um hino, pois sua face representava a morte.
Margaery rezou pelo fim da guerra, iluminação no que estava por vir.
Margaery e as mulheres acenderam algumas velas, assim como as outras pessoas. Havia velas de cera, sebo, juncos; todas foram sendo acendidas, sendo coroadas por flâmulas dançantes. A escuridão recusava-se a sumir, porém, permanecendo de forma densa, quase que sólida, no local. Uma monstra que cercava a todos no local, nunca indo embora, olhando todos de todos os lugares; nunca deixando-se ser esquecida, mesmo sem fazer qualquer som. Uma figura pesadelar na vida real.
Margaery ergueu uma vela de sebo, sentindo o cheiro acre de sua fumaça, usando sua luz como um escudo d’ouro, intangível, mas que impedia a imensa treva que estava sobre ela de atacar. Relutante, pousou-a num candelabro, pois o corpo da vela estava derretendo, logo ia queimar seus dedinhos.
Rezou pela alma de seus pais, avós, seus falecidos irmãos, suas falecidas primas, primos, amigos e conhecidos; rezou pela proteção de sua prima, Alla, o irmão vivente, Lorde Willas, o povo de Porto Real e o Povo de seu Reino de nascença, a Campina, tão destruída pela guerra. Orou pela alma da falecida Ysilla (e de seu pai, pois logo ele saberia que mais um de seus filhos foi-se desse mundo), morta antes de seu tempo, tragicamente.
Por fim, rezou por misericórdia para sua própria alma, pois sentia que estava condenada. Que os deuses fossem bons e se apiedassem.
Todos voltaram a dar as mãos. O Septão começou a rezar pela alma dos três monarcas. Neste ponto, Margaery precisou lutar para manter-se ajoelhada, sentindo as mãos segurarem a sua de forma carinhosa.
Murmurou sua própria prece, torcendo para que a foice de Estranho avançasse descesse sobre Stannis Baratheon, Daenerys Targaryen e Jon Snow (Snow! Nunca Stark! Que nunca fosse esquecida sua marca de bastardia). Que o pai os julgasse com dureza, condenando-os aos sete infernos.
Rezou também pela Morte de Arya e Petyr. Admitiu não ter tanto rancor para rezar pela morte de Sansa e Alleras; nem de Myranda — embora ainda não esquecesse de seu atrevimento; iria de mostrar para aquela Royce com quem ela realmente estava lidando.
Piedosa, rezou pela alma de Edric e Gendry. Estes estavam lá fora, junto do mega exército que se formava dentro e fora das muralhas imensas de Harrenhal, prontos para aquela que diziam que poderia ser a última batalha da vida deles.
Quando a reza terminou, todos levantaram-se (pelo menos a maioria). Sansa olhou para Wylla por cima do ombro, mas a ordem que falou foi para todas as suas damas:
— Vamos. — A princesa girou os calcanhares, todas repetiram o mesmo gesto, seguindo-a.
Dado o grande número de pessoas no local, mesmo com Sor Alysanne Mormont e Sor Sandor abrindo espaço, o caminho para fora do septo foi truncado, novamente repleto de empurrões, cutucões, tropeços. Muitos olhavam para Sansa, seguindo sua figura esbelta com os olhos; certas pessoas esticavam suas mãos, querendo tocar em sua pessoa; muitos, ajoelhados, pegavam em sua saia, beijando-a, implorando por ajuda. Em troca, a princesa sorria para eles, dando-lhes algumas moedas e agradecimentos para o povo.
Um dia, foi a mim quem imploravam! Margaery era a figura que a plebe via como sua salvação, seu escudo. Muito mais do que Sansa agora era vista; fora ela quem lges trouxera comida, segurança, atenção, tratando-os como gente — coisa que a maioria dos esfarrapados que vagueavam aquelas ruelas fedidas e horrorosas nunca tiveram nem pelas próprias mães.
Esse era o problema: ali, não tinha essa defesa; Sansa tinha. Seus irmãos também.
Isso podia ser um problema, mas tinha como remediar: bastava ter reféns. A plebe não ousaria rebelar-se caso isso significasse algum mal aos seus “salvadores”.
Feito isso, era só inventar alguma ladainha e, logo, os mortinhos de fome magrelos iam de acreditar que Margaery e os seus apenas queriam o melhor.
Sim, tudo daria certo, ela acreditava — pelo menos pelo tempo que ela precisasse.
Quando já estavam rente ao umbral, a princesa sustou-se, dando uma meia volta, varrendo todas as cabeças do local com seus intensos olhos. Seus cabelos acobreados brilhavam na luz das chamas. Um halo formava-se no topo de sua cabeça.
— Bom povo — disse ela, aumentando o tom de voz, que ainda permanecia firme; o som ecoava no septo assustador —, eu e minhas companheiras vamos nos abrigar no Salão das Cem Lareiras, onde iremos esperar pelo fim da guerra, enquanto nossos bons e nobres reis, em especial meu irmão, o Rei do Norte, Jon I Stark, filho do amado e honrado falecido Lorde Eddard Stark, vão lutar pelo nosso bem. Peço a todos que venham comigo. Estarão a salvo lá, até o fim da batalha que há de se iniciar em breve.
As pessoas no septo começaram a falar ao mesmo tempo, quase que um palratório de cem bocas. O ambiente fez com que as vozes aumentassem num estrepitar esquisito. Quase que um aglomerado de trombeteantes.
Sansa levantou a mão, pedindo para que as vozes cessassem. Quando o som pareceu diminuir, uma voz barítona ergueu-se sobre as outras, esbravejando para que pudesse ser ouvido:
— Vosso outro irmão, o príncipe Brando, o príncipe do inverno, permanece no Bosque Sagrado! Ele diz ser mais seguro lá? Ele diz ser.
Quando todos ouviram a indagação, a mudez tomou conta. As trevas do local pareceram ficar penetrantes. Todos os olhares, cravados na princesa em frente ao umbral do local.
— Meu irmão tem poderes dos quais eu não posso nem imaginar — Sansa respondeu; Margaery sentiu que ela tentava mostrar uma firmeza que não condizia com o compasso de sua voz. — Mas, se querem acreditar que ele e o seu bosque são mais seguros, não hei de interferir. Apenas posso dizer que eu e os meus vamos para o Grande Salão.
Sem mais, a princesa virou-se, voltou a seguir o caminho de antes. Margaery, as aias, as damas, os lordes, os cavaleiros, a seguiram para fora. Alguns ficaram no septo, com medo de sair, acreditando que os que estivessem do lado de fora estavam condenados.
As portas de madeira maciça do templo oblíquo fecharam-se quando a multidão que acompanhava a princesa Stark terminou de sair. Margaery olhou para trás, tendo tempo de ver as figuras sumirem quando a pequena linha reta e alta selou-se de vez.
Do lado de fora, a neve engolfara por completo o chão; montes brancos formavam-se, ondulados, quase como mini-dunas de neve. Uma bruma fria e opaca encobria o mundo, tornando impossível enxergar um palmo a frente As estrelas estavam encobertas pela espessa camada negra que cobria o céu. Uma cortina de trevas densa, cuspindo neve em todos. Margaery sentiu a mesma sensação que tivera dentro do septo: vigiada, sufocada, por uma treva pesadelar que acompanhava cada passo que dava.
Virou o rosto, relanceou as muralhas. Estava tão escuro que seria quase indiscernível saber onde as muralhas terminava e onde a noite começava, não fosse a neve que cobria as ameias e os soldados que corriam para lá e pra cá, erguendo tochas que eram pontos luminosos que flutuavam no mundo de treva. Estalactites de cristal formavam-se nas beiradas das muralhas e torres. Setas mortais, prontas para cair e matar.
Andar era difícil; os pés afundavam na neve, que parecia querer engolir as pessoas. Botas de cano alto, ou botas com espinhos na sola, eram usadas para auxiliar a seguir caminho — a plebe, porém, não tinha como obter tais artifícios para caminhar na neve, de modo que muitos tinham que se virar com o que tinham. Muitos chegavam a pisar no chão com os pés descalços. A névoa densa retardava ainda mais o andar das pessoas, deixando-os temerosos de ser perderem do caminho, ou de esbarrarem contra um grupo de pessoas e animais que passava por eles. Não obstante, o vento brutal atingia os corpos daqueles que no patiam andavam, parecendo empurrá-los para longe, enquanto o friúme enrijecia os músculos, esvoaçava os mantos, que tremiam e debatiam-se em fúria trovejante. Os flocos de neve atingiam os rostos de maneira copiosa, rilhando a carne quente. Era tão frio, mas tão frio, que as partes do corpo que não estavam dormentes, estavam ardendo em agonia, como que queimadas pela ventania.
Por vezes, tiveram que parar caminho, dando espaço para grupos de soldados que marchavam para sabe-se-os-deuses-onde, ou para carroças, barris, cavalos…
De todo o modo, Sansa ateve-se quando estavam próximos do Salão, fazendo todos pararem (mesmo irritados), virou-se para seu Cão de Guarda. Sandor ajoelhou-se defronte a sua princesa; era, ainda, imenso em comparação a ela. As duas figuras eram cingidas pelas chamas erguidas pelos soldados em volta, criando imagens abrasivas que eram ocas.
Margaery, bem ao lado da princesa, ouviu tudo:
— Gostaria que se juntasse a mim no Salão, Sor.
Sor Sandor abanou a cabeça.
— Está bem pode ser minha última batalha, seja ela no fogo, ou no gelo; prefiro morrer de espada na mão, lutando por uma causa pela qual eu realmente acredito.
A mulher Tyrell olhou em volta. Apesar de escuro, viu alguns rostos reagindo à proximidade dos dois. Nenhuma era favorável. Voltou a fitar a princesa e seu cavaleiro truculento e corpulento.
Sansa tocou o rosto de Sandor. A parte feia, cheia de cicatrizes e com o músculo interior da mandíbula aparecendo. Ela não tinha medo, nem nojo. Olhava-o com piedade e compaixão, dando um sorriso triste.
— Então que os deuses lhe guiem e mostrem o que tanto anseia em vida, Sor. E, por favor… volte para mim.
Aparecendo abalado com as doces palavras da Stark — de um modo que Margaery nunca imaginaria ser possível para um monstro selvagem como aquele —, o cavaleiro ergueu-se, brusco, girou os calcanhares, indo para a sua batalha, sumindo entre os corpos agitados e a névoa densa.
Margaery, enquanto caminhava, fitava a princesa. Parecia mais rígida para ela; ao mesmo tempo que tinha um olhar enevoado. Era como se a mente estivesse em mais de um lugar, lutando para olhar o que estava a sua frente, ao mesmo tempo que a mente espiralava para outros locais. Provavelmente era o medo pelo presente momento em que estava — dependendo do que aconteceria nessa suposta batalha, todos que Sansa conhecia podiam morrer… ou, então, toda a vida.
Uma fileira de soldados estavam a espera da princesa e sua comitiva. Pelo menos cinquenta soldados de cada lado, dando espaço para ela e os outros passarem, sem permitir algazarras. Os portões grossos do Salão das Cem Lareiras foram abertos quando a coorte de pessoas aproximou-se, sendo fechadas logo depois que a última pessoa passasse.
Haviam outras pessoas já no local; principalmente mulheres e crianças. As lareiras que davam nome ao salão estavam todas acesas, assim como as tochas nas paredes. Mesas de montar foram deixadas esparsas no local, onde algumas tigelas foram deixadas em cima, para alimentar os necessitados.
Mesmo agora, passando o que podiam ser semanas ou meses, o tamanho de Harrenhal ainda era capaz de surpreender a filha do falecido lorde Mace, que, novamente, viu-se perguntando para si: como teria sido esse castelo caso Aegon, O Conquistador, não o tivesse queimado? Se tivesse sido mais sábio, o próprio Aegon e suas irmãs teriam feito desse castelo sua moradia.
Sor Alys acompanhou Sansa até o estrado, onde esta se assentou numa imensa cadeira de madeira talhada. Um lindo dossel azul-escuro cobria boa parte do local onde ela estava. Margaery e as outras aias foram logo atrás de sua líder. Myranda já estava no local, com sua barriga de grávida a crescer, assim como Jeyne Poole, assentada ao lado dela. A esposa de Lorde Edmure também, amamentando um dos filhos gêmeos que parira há tempo.
No estrado, Margaery varreu o salão com seus olhos de corça. Todos os rostos eram máscaras nervosas, olhares tensos. Todos ali presentes estavam aviltados pela situação.
Também não estava calma, sabia. Seu corpo sentia o toque cruel do inverno escuro lá fora, sentindo uma força estranha nele. Um sussurro silencioso que não sumia de seu ouvido.
Assentou-se. Fitou o que havia na sua frente. Um imenso pano de linho branco cru cobria a mesa do estrado. Pratos e tigelas foram deixados por lá, ainda com fumaça sendo expelida. Margaery preferiu um prato de carne fumegante e batatas cozidas ao invés da tigela de mingau. Enquanto furava um naco de carne com um garfo velho, olhou de esguelha para o lado. Myranda e Sansa falavam entre si, enquanto Sor Alys e Mya Stone estavam aprumadas atrás da princesa de Winterfell, sérias, atentas.
— Como está seu marido? — indagou Sansa.
— Donnel está mais nervoso por mim e pelo seu nascituro — revelou ela. Olhou para a barriga saliente, alisando-a com a mão. — Deuses, eu espero que ele volte, princesa… — Era quase palpável o nervosismo contido na voz de Randa.
Sansa pousou uma mão sobre a da colega, tentando acalmá-la.
— Sor Ronnel é um grande cavaleiro, Randa — disse ela. — Ele há de retornar para sua esposa e filho.
Myranda assentiu, embora não parecesse segura. Ela olhou para o lado, além de Sansa. Seus olhos escuros, negros e brilhantes, um pouco salpicados pelo dourado e vermelho das chamas bruxuleantes do ambiente, encontraram os olhos escuros de Margaery. A mulher de rosto arredondado franziu os lábios, voltou a fitar Sansa.
— Viu Ysilla, princesa? Ela sumiu da minha vista, quase há um dia inteiro.
Sansa abanou a cabeça; Margaery voltou a olhar o prato, sentindo uma onda de nervosismo apossar-se dela. Não podia mostrar qualquer sinal de preocupação agora.
— Creio que ela está escondida nalgum canto… talvez nos próprios aposentos.
Randa assentiu, pegando uma taça de hidromel a sua frente, bebendo. Margaery percebeu que ela voltara a fitá-la.
— Sim, pode estar certa. — Randa pousou a taça. — Enfim, tomara que meu marido volte, princesa… Existem monstros para se combater ainda dentro das muralhas de Harrenhal.
Isso foi uma ameaça?, pensou Margaery, levando um naco de carne até a boca, fingindo não ouvir. Ameaça ou não, aquela gorducha do Vale era problema — grávida ou não, tinha de se livrar dela…
Um aaaawwwwwoooowwww invadiu o local, fazendo todos ficarem mais tensos e assustados, com muitos sobressaltando-se dos assentos. Jeyne Poole quase chorou ao ouvir o som; as crianças longe do estrado, porém, não tiveram o mesmo autocontrole. Suas mãe e avós, que no começo tentaram acalmá-los, acabaram por não segurar as próprias aflições, acabaram por também quebrarem, caindo no choro.
— É o berrante de guerra — disse Sansa, rosto de mármore. — Começou.
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