Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
102 No Cimo dos Céus
Aegon sentia o vento enregelante misturado com o ar fumegante de Rhaegal. Também sentia os floquinhos de neve que não derretiam imiscuindo-se em sua pele, tentando penetrar a armadura de aço negro. O ribombar das asas de seu dragão pareciam que iam deixá-lo surdo.
O monarca não acreditou que conseguiria, mas, de alguma forma, conseguiu passar pela densa treva e intempérie gelada; Rhaegal pareceu superar o medo que sentia diante da penumbra. Seria o amor pela sua mãe? Pelo seu irmão? Ou seus instintos dragonianos superaram o senso de sobrevivência e a fera alada decidiu voar para o perigo?
Sinceramente, já não importava.
Rhaegal estava fraco, esfaimado, após tantos voos nas Terras das Coroas e nas Terras da Tempestade. Voar contra as rajadas de vento enregelante cobraram seu preço sobre o corpo quase serpentino do Wyvern; seu corpo soltava cada vez mais fumaça acre conforme o gelo tentava se imiscuir sobre sua pele coriácea. O verde lutava para expulsar o branco que tentava se sobressair.
Avançar naquele ambiente parecia uma tarefa impossível – estava realmente avançando? Estava na direção certa? Ou Rhaegal estava tão perdido quanto ele nas trevas? Daenerys e seus aliados sequer estavam vivos?
Ele tentou apenas seguir para o norte, rezando para conseguir um bom resultado no fim e não que apenas estava voando para a morte.
Então, em meio a sua viagem (que em teoria devia de ser curta, mas o clima a tardava pelo que pareceu uma eternidade) Rei Targaryen ouvira o som que facilmente poderia ser confundível com o ribombar de trovões – mas que, após mais de um ano convivendo com feras aladas, era inconfundível para um montador: o bater de asas de dragões. Apenas um dragão rugia, porém.
Não sabia como prosseguir, porém, ao ver a forma pálida, com estrelas onde haviam de estar os olhos, ele soube o que era aquela coisa – uma aberração; uma profanação a Casa Targaryen causada por alguma magia negra.
Deixou Rhaegal sentir seus instintos – adentrou nas nuvens antes da fera atacá-los. Acreditava já ter sido visto, porém, a criatura inimiga – seja lá o que fosse – parecia estar mais preocupada com Daenerys e sua montaria.
Quando deu por si, Rhaegal rugia adjunto ao que devia ser Drogon. Num instante, uma pálida sombra, cortando caminho pelas nuvens enegrecidas, surgia, fugaz. Foi quase como se sentisse quando seu dragão queria cuspir fogo – quando deu por si, Aegon estava exclamando “Dracarys!”. Luz irradiou, enquanto a fera alada começava a ficar incandescente, contorcendo-se no ar, envolta de verde-jade, dourado, marrom.
No mesmo segundo, o inimigo sumiu novamente; quase como se tivesse virado fumaça.
Antes mesmo de entender o que realmente ocorreu, Aegon se deu vis-à-vis com sua tia e sua montaria. Apenas as asas dos dragões, junto do rugido da ventania, faziam sons naquele mundo obscuro.
Olhou para frente, defrontando a imagem negra como uma treva solidificada, esforçando-se para permanecer nas alturas. Drogon parecia maior do que a última vez que o vira; mas igualmente imponente e amedrontador, como um pesadelo vivo…
… Porém mais ferido.
Como chegou a isto?, ele se perguntou, chocado com o estado do maior dragão vivo nos tempos atuais: a asa direita batendo fracamente, de forma incompleta, como se movimentar-se machucasse o membro (provavelmente machucava mesmo); ao lado do membro, havia uma imensa ferida esfumaçante, meio brilhosa, onde sangue escarlate vertia. O pescoço serpentino também tinha suas feridas; um rasgo esquerdo na mandíbula inferior, mostrando o músculo que devia estar escondido.
Devia atacar ou fugir, mas a visão de Drogon machucado era tão inimaginável que Aegon demorou até para notar a tia nele. Quase nem a podia visualizar naquele pretume e neve amiudada. Ela parecia pequena montada naquele imenso bicho amedrontador.
A figura de sua tia (não esposa, pois a união deles fora um erro, sendo anulada pelos deuses verdadeiros) era igualmente aterrorizante senão mais – o rosto rachado, com uma mixórdia de manchas escuras e rosadas; o braço esquerdo havia sido sumido, substituído por um toco esquisito, retorcido; a armadura estava torpe, parecendo ter sido semiderratida.
A visão de Rhaegal era um bálsamo para sua mãe, mas os olhos violetas e cansados dela estavam cravados em seu montador. Quase que por instinto, mandou Drogon cuspir fogo contra a figura à sua frente, sem nem pensar em mais nada; mas conteve-se, apenas agarrando a correia com seu único braço. O lábio inferior tremia de ódio.
Daenerys observava Aegon, que estava no alto do céu, surgindo como um salvador divino, entregue pelo reino dos céus. Sua armadura, por um instante infinitesimal, havia rebrilhado com as chamas douradas e verdes de Rhaegal, dando o aspecto de que era um cavaleiro de luz.
Ele não é nenhum salvador, Daenerys rapidamente corrigiu-se. Apenas é um impostor.
Impostor ou não, ela agora precisava dele para eliminar Viserion e a força que lhe dava vida – após isso feito poderia cuidar de seu falso sobrinho rebelde e de seus companheiros traidores.
Como se sentissem o ódio de seus donos, os irmãos-dragão se fitaram vis-à-vis, cheios de cólera; Drogon rugiu como um poderoso aviso, enquanto Rhaegal sibilou como uma cobra e mordeu o ar. Nem pareciam ter voado lado à lado em tempos passados; nem sequer se pensaria que eram irmãos.
Daenerys moveu o único braço, erguendo-o bem, fazendo a correia cair para trás, pronta para ser usada como chicote novamente.
Rhaegal aguardou, sem desviar o olhar, pronto para atacar. Nenhum dos monarcas tirava o olhar um do outro, mesmo que nem se enxergassem direito.
Quando a corrente bateu no pescoço de Drogon, ele deu um mini-rugido, indo para a direção onde fora atingido, irritado.
Aegon não vou alternativa a não ser segui-la. Por ora, eram aliados – mas isso podia mudar em um segundo.
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Os Outros aproximavam-se, como sombras pálidas ganhando forma conforme afastavam-se da neblina densa; os olhos como fogo-fátuo flutuando.
Os mortos erguiam-se de suas tumbas geladas improvisadas; com seus dedos pretumes irrompendo da coberta feita de flocos. Como vermes, eles rastejavam para a superfície, indo até os vivos. Os olhos brilhavam como os de seus mestres gelados.
Eles não emitem som algum, apercebeu Mychel Redfort, observando com horror a cena que enveredar-se diante de seus olhos – corpos destruídos, quase totalmente multilados, tanto de crianças quanto de adultos, esforçando-se para atracar-se com quem pudesse, prontos para matar. Seus olhos eram tão perturbadores de se ver; não pelo brilho, mas pelas emoções que ainda havia neles – ódio, pavor, medo, confusão, culpa…
Mesmo que os rostos (para os que ainda tinham algum) fossem como máscaras de indiferença, a vida daqueles que um dia controlaram aquilo que agora serviam sacos de carne escravizados ainda parecia residir no olhar.
Os soldados tiveram se cortar as mãos e braços que avultavam-se no campo de batalha que havia tornado-se Harrenhal; a carne mole, ossos pútridos eram como manteiga sendo passada na faca quando o gume das lâminas os cerrava.
Uma criança da floresta fora agarrada pelas pernas, derrubada, perdendo seu arco; seus bracinhos também foram agarrados, sendo torcidos e repuxados pelas duras e frias mãos dos Wights. Sua veste de couro curtidos com folhas foi logo rasgada. Uma das mãos que a fustigava na barriga tinha a pele quase totalmente arrancada, expondo unhas e ossos, que eram usados como garras afiadas. As úngulas fendaram na carne molinha da pequena criatura, que gritou até o sangue que expelia pela boca abafar seu aulido. Como um predador que se divertia, os dedos do escravo morto se moviam de forma lânguida enquanto cavava os músculos, perfurando com calma enquanto a presa – cada vez mais sem força, gemendo, tossindo – tentava se debater, agarrada pelos outros algozes.
Um homem de arma dos Royce assustou-se com um urso que emergiu sob seus pés. O soldado caiu, mas conseguiu acertar o crânios do animal com seu machado de guerra antigo. Inútil, o animal revivido nem sequer sentiu. Usando a torta mandíbula, o wight peludo se jogou para cima do soldado, apertou o queixo inferior – quebrando-o –, puxou-o, jogando o pedaço de osso e carne para longe, como se nada fosse. O soldado Royce, abatido em dor, gorgolejou sangue, com a língua dançando, enquanto sangue expelia pela ferida grotesca.
O urso negro se virou, em direção a três homens Blackwood. Esmagou um dos homens, comprimindo-o com seu imenso peso, enquanto tentou acertar os outros dois com suas garras.
Lorde Brynden, que estava ao lado de seu outro soldado, aviltado pelo medo, sabendo que espadas não funcionavam contra aquele ser, agarrou o braço de seu companheiro e o jogou para frente do monstro, antes de se virar, guiado pela luz branca que devia ser a espada do Rei do Norte. Ele tentou não ouvir os gritos de seus soldados – disse a si mesmo que era o certo aqueles homens morrerem por seu suserano.
Uma mulher selvagem pegou sua lança de ponta de obsidiana em formato de folha, jogou-a contra uma das pálidas figuras que se aproximavam, quietas.
A seta cortou o ar, mas pareceu errar; provavelmente o Vagante Branco se desviou num gesto assaz ou a lança sequer chegou perto. Ele não errou porém; sua própria lança de cristal trespassou o ventre da mulher do povo livre, que nem teve tempo de entender o que a acertara antes de cair no chão. A pontada de dor veio em seguida, seguindo pela dor lancinante; então o frio. Então a escuridão.
Os soldados tentavam empurrar a neve se seu caminho, seguindo a luz pálida que emanava da imensa lâmina empunhada por Jon Stark, cujos cabelos encanecidos moviam-se, lânguidos, na brisa enregelante, quase totalmente duros pelo gelo acumulado neles. A própria pele de Jon era tão fria quanto a dos cadáveres que se desenterram da neve.
Todos os que ainda viviam se reuniram, apinhados, perto da espada luminescente do Rei do Norte, que era muito maior e mais brilhosa do que as lâminas dos outros soldados – mesmo a espada de Stannis parecia mais fraca que a chama de uma vela perto d’Alvorada.
Fantasma mostrava os dentes para a serra a sua frente, em um emudecido desafio.
O olho humano de Jon perscrutava a cena que se deserendava, observando, cauteloso. O azul realmente parecia como estrela – estavam acima deles.
Usando as Torres de Harrenhal, ele pensou, alembrando-se do Vagante que saltara sobre o Filho da Floresta.
De sub-reptício, irrompendo-se da bruma, sem nenhum som gerado, o pálido ser de cristal saltou sobre o grupo. Um estranho homem pálido a montava, sorridente, cruel. Os soldados afastaram-se como puderam, atabalhoados pela geada, enquanto Jon permaneceu, sereno – a Alvorada contra as pinças mortais.
O único som da estranha criatura aracnídea foi quando seu pálido corpo chocou-se contra o gume radiante da longa espada; algo como um fragor, estalar, um guincho. Cristais de gelo voaram, obrigando Jon a virar a face, fechando os olhos.
Os homens e mulheres que restavam protegeram o rosto dos cristais, que logo viraram flocos, água, vapor.
A Aranha se desfez, mas não seu dono. Este girou no chão, erguendo-se no mesmo instante, impassível – porém irritado. Seu orgulho fora ferido por um Sangue Quente; isso não poderia ficar assim!
Sem som, seus pés pálidos correram na neve.
Antes que qualquer um sequer pudesse assimilar, o Vagante, empunhando sua espada de cristal finíssimo, avançou contra o Rei do Norte, que se virava, confuso. O Sangue Frio sorriu, feliz em entregar a morte para sua Rainha da Noite.
— CUIDADO!!! — Foi tudo o que Stannis e Mychel Redfort, que estavam mais perto do monarca, puderam berrar enquanto o que parecia um borrão avança contra Jon…
A espada se quebrou como vidro ao entrar em contato com a armadura escura, atingindo onde havia de ser o coração.
TOLO, azurraram os deuses. Os outros irmãos pálidos riram, divertidos com a vergonha do irmão.
Aquilo era aço de Dragão – nenhuma arma de gelo teria efeito.
Ainda em choque, o Vagante quase nem viu a luz branca se chocar contra ele; não teve tempo nem de assustar quando seu corpo foi destruído pela Alvorada.
Os sinistros risos do Sangue Gelado morreram. Os Sangue Quente observaram a cena que acabara de acontecer ainda sem entender; tudo acontecera tão rápido!
Jon Stark encarou as luzes azuis – tanto dos Wights quanto d'Os Outros, sisudo –, empunhando a espada imensa em desafio. Como um convite para tentarem matá-lo; como um guia encorajador para os vivos. Fantasma prostrou-se ao seu lado, pronto para defender seu irmão de qualquer ataque.
Jon sentiu a intensidade daquela espada; sua mente, seu corpo, sua alma – ele podia sentir a vida d'a Alvorada; como se ela estivesse revivendo seu corpo.
A imagem da luz lusco-fusca, seu calor intenso, era venenosa para Os Outros. Os seres de cristal podiam sentir a vida de dezenas, centenas, milhares de almas naquela maldita lâmina ancestral. Uma magia oposta à que eles usavam para escravizar.
A Sacerdotisa dos Deuses Antigos podia não estar presente no local, mas a mente-colmeia lhe indicava tudo, como se estivesse presente em mais de um lugar. O ódio a consumia, assim como consumia sua manada.
Matem todos os Sangue Quente que puderem, seus torpes, falara A Rainha, Mas o Azor Ahai é meu!
Os Vagantes aquiesceram, empunhando suas espadas, avançando, silenciosos, contra a vida.
Mychel conseguira decapitar um cadáver, mas isso era inútil; o corpo avançou, agarrou sua traqueia. Ele usou a espada para tentar arrancar um braço; mas, enquanto o fazia, o inimigo ainda fechava duros dedos enegrecidos, frios, em volta de sua garganta.
Fantasma saltara sobre o corpo revivido, derrubando-o. Sor Mychel quase caira, mas manteve-se firme, enquanto o aperto se desfazia. Tossiu, lutando para recuperar o fôlego. Meio tonto, caiu de joelhos.
Uma mulher do povo livre o salvou usando uma lança com ponta de obsidiana contra um vagante que estava prestes a dar um golpe surpresa contra Mychel.
Quando a criatura guinchou, desfazendo-se, o cavaleiro de joelhos virou-se, assustado; viu o corpo pálido se esfarelando e liquefazendo-se. Mychel assistiu a cena com horror, chorando, enquanto o monstro sumia.
– Chore depois, sulista. — A Esposa de lança estendeu o braço. Arrumando algum brio, o cavaleiro agarrou a mão. Aprumou-se, apesar de fraco.
Os Filhos e Filhas da Floresta, usando de sua agilidade, tentavam atear fogo nos Wights, usando archotes ou flechas flamejante. A carne fria, endurecida pela geada, assim como as vestes velhas, queimava mais fácil do que lenha ao ser tocada pela mais fraca chama.
Stannis decapitou o urso que matara os soldados Blackwood, enquanto uma Filha da Floresta usava um pequeno archote para atear fogo no corpo. O rei, com um bracejar rápido, arrancou a pata que o urso erguera para lhe arrancar o rosto.
— Temos de cortar caminho por esses mortos — exclamou ele, por cima do ombro, para Jon.
— Então pare de brincar com os animais — retrucou Jon, matando mais um vagante. Deuses, o som de gelo trincando e guinchando era irritante; ainda mais quando também usava os sentidos de Fantasma. Queria ter perdido os ouvidos ao invés do olho!
Algo se chocou contra as costas de Jon, quase o derrubando, antes de seus tímpanos estourarem com o chiaaaaado que se irrompera.
Ao virar-se, observou mais uma aranha debatendo-se no chão, com o corpo trincado, trincando, trincando…
— Ah, pelos deuses — colérico pelo som, ele avançou a passo largo, chutando a leve, enfiou a espada no corpo gelado que estava caído. O gelo estourou para todos os lados. — Estou farto dessa praga.
De chofre, sem se fazer ouvir, três seres de gelo surgiram da Bruma, como se materializando da própria névoa, atacando Jon de uma só vez, de direções diferentes.
O Rei os viu com olhos que não eram os seus.
Com uma agilidade que desconhecia, Jon girou sobre si, empunhando a lâmina. Um a um, os algozes se partiam em contato com a lâmina. Quando uma aranha correu até ele, Jon deu um saltou, girando no ar, criando um anel pálido de fogo. A aranha não teve tempo de fugir ao se deparar com o que era o gume flamejante d'Alvorada.
Leve, Jon pousou na neve, sem se cansar. Ele mesmo se viu surpreso com sua própria agilidade – de onde viera isso? Achava que seu corpo cada vez mais estava fraco, mas, agora, ali, naquela batalha, era como se a vida tivesse voltado para ele com uma intensidade que ele nunca tivera.
A mente coletiva, através dos olhos gelados dos Sangue Frio, observava o desenrolar daquela batalha, desgostosos com o quanto aquele monarca feito de carne se mostrava um desafio que eles acreditavam já ter sido extinto há muito.
《Ele está mais rápido》, aperceberam os Deuses Antigos e A Rainha da Noite.
Ele usa a magia daquela lâmina, examinava a Sacerdotisa dos deuses gelados; a que chamam de Alvorada. Sim, a magia é parecida com a nossa – uma miríade de almas, irradiando com a magia de sangue e fogo.
《Os senhores de Dragão aind nos atormentam》, lamuriaram os Deuses. 《Precisamos destruir este falso escolhido, assim como O Corvo, assim como verme alado!》
E eu o farei, meus deuses, prometeu a Rainha, sabendo o que fazer; Meus filhos, deixem que o Rei avance – mas podem tentar matar seus tolos seguidores pelo caminho se o quiserem; mas eu o quero para mim. Ei de mostrar a ele, ao seu Corvo e aos seus tolos fiéis quem é a escolhida pelos deuses!
Usando do novo brio que crescia em seu peito, Jon avançou contra a Bruma, erguendo a espada. Fantasma, seu fiel companheiro, estava logo ao seu lado.
— HOMENS E MULHERES, COMIGO!!!
Embriagados pela força avassaladora do Rei do Norte, os soldados e soldadas gritaram em resposta, avançando contra o desconhecido.
Enquanto isso, A Mente Coletiva tentava reparar outra irritação: os malditos dragões e seus domadores no céu.
X I X I X I X I X I X I X I X I X I X I X I X
Drogon lutava para manter-se no ar. Dany, como que em transe, apenas acertava os grilhões. Rhaegal voava ao seu lado; Aegon na cela, observando a fera alada ao seu lado. Podia sentir o ódio tanto quanto podia sentir o calor.
O Rei não sentia-se seguro perto de sua tia – sua figura, mesmo distante, parecia assustadora, torpe.
Rhaegal parecia sentir o mesmo sobre seu irmão mais velho – intimidado, taciturno. Ele manteve voando um pouco mais para trás, atento.
Como não vira Viserys em nenhum momento, Aegon imaginou que ele realmente era o ser alado que ele atacou mais cedo. Então ele morrera contra Os Outros? Essas coisas então podiam matar um dragão? Ou os boatos da luta entre Daenerys e Euron era verdadeiro? Um Greyjoy montando um dragão era muito impensável… se bem que cada um ouvia uma versão diferente.
Eles estavam mais perto de Harrenhal agora, quase no mesmo raio que as muralhas cobriam.
Como será que estão as coisas lá embaixo?, Aegon indagou para si, observando o mar de treva lá embaixo. Era quase como ver o céu de cabeça para baixo; com estrelas geladas movendo-se, lânguidas.
Daenerys fez Drogon descer, Aegon a seguiu, perdido. Ele continuava tenso, com medo de que o dragão de Daenerys virasse, ataca-se-o.
Fogo caiu sobre os mortos – vermelho, negro, verde, marrom, dourado. As chamas se expandiram como um arco-íris mortal sobre o exército necromante. O azul sumia conforme as outras cores sumiam.
Será que estamos também matando algum vivo? Aegon não realmente se importava com soldados do inimigo, mas era estranho pensar que agora tinha de deixá-los viver para acabar com aquela nova ameaça.
E por que parecem focar tanto em Harrenhal? Sabia que havia ataques ao sul, mas parecia claro que aqueles seres invasores faziam questão dos castelos de Harren, O Negro – qual o motivo? Que havia ali para eles? Algum novo tipo de magia negra?
O Rei quase foi jogado de sua cela quando um solavanco fez Rhaegal parar de voar, parando as chamas enquanto guinchava de dor. Aegon agarrou as correntes e o couro, enquanto seu dragão virava para a direita, abrupto. Seu coração parecia querer fugir pela boca.
Ao ouvir o guincho, Daenerys agiu: ordenou que sua montaria virasse, mas Drogon já o estava fazendo assim que ouviu o berro sibilante do irmão mais novo.
Viserion tinha a cauda de Rhaegal em sua mandíbula; quase o derrubara quando desceu dos céus – pretendia acertar o próprio Aegon, mas o dragão verde era muito rápido para ele.
O dragão pálido girou, torcendo a cauda do Wyvern verde, que se debatia. Sua pele se desfazia em contato com o sangue verde e vermelho, mas não largava por nada. Rhaegal tentava se virar e atacar, mas Viserion era rápido, conseguindo acompanhar a ponta da cauda, enquanto o irmão ainda vivo tinha dificuldade em atacá-lo, tentando lutar para escapar da dor.
Aegon tentava se segurar, perdido no que podia fazer para sair daquela situação.
Quando se virou, viu Drogon, avançando contra ele. Fechou os olhos, tentando, inútilmente, proteger-se colocando um braço na frente do rosto.
As chamas explodiram, mas não em Aegon; Daenerys passou por ele. Tentava acertar Viserion e seu corpo torpido.
As chamas atingiram a cauda de Rhaegal, mas Viserion escapara, voando para o chão, sem se preocupar em esmagar e jogar para longe os corpos dos mortos-vivos lá embaixo. Mesmo que uma parte de seu corpo tivesse queimado, o vento e a neve no chão iam apagar antes que se espalhassem.
Daenerys grunhiu. Sem se importar com Rhaegal e Aegon, ela avançou sobre Viserion, com Drogon deslizando no pretume frio da Longa Noite.
Aegon parecia girar no ar, com Rhaegal se debatendo irritado, ferido, perdido. Demorou até o montador se sentir seguro para pegar o chicote e começar a flagelar seu dragão. Quando deu por si, Aegon bracejava freneticamente o braço, quase sem fadigar, atingindo o pescoço coriáceo de Rhaegal. Em algum momento, o dragão parara, embora ainda irritado.
Arquejando, sentindo o suor sendo expelido de forma ardente em seu corpo, Aegon tentava se acalmar, raciocinar. A tira de couro que prendia seu elmo parecia sufocá-lo. A armadura de placas parecia esmagar seus ossos. Olhou em volta, buscando por Daenerys, por Drogon, pelo inimigo…
Então viu: a chama de sangue de Drogon abrindo caminho no campo de mortos andantes. Mais a frente – um verme pálido, abrindo caminho entre os mortos, erguendo neve. Estava indo em direção a Harrenhal, em uma diagonal estranha. Queria fazer Drogon bater contra a muralha? Ferir os vivos? Ou outra coisa?
Ao ver aquilo, Aegon soube o que fazer. Ele estalou o chico, Rhaegal desceu em rasante, mas calmo, seguindo em frente. Sem chamas, sem rugidos, espreitando.
Daenerys avançava perto do chão; a neve derretia pelo calor das chamas de Drogon. Viserion fazia corpos frios voarem contra os céus, como se fossem bonecas de pano. Drogon também jogava alguns, mas queimava a maioria, tentando acertar Viserion.
Por que ele voava tão baixo, sendo que isso tardava sua locomoção? Era uma armadilha ou apenas desespero pela mudança de campo de ter de enfrentar dois dragões?
Daenerys bufou, não querendo perder a oportunidade novamente; precisava matar aquela profanação que usava o corpo de seu filho mais novo como arma de guerra.
De repente, Viserion afastou-se do chão; sua poderosa batida de asas, mesmo corroídas pelas chamas de Rhaegal, fez um trovar, jogou diversos cadáveres para longe, levantou uma cortina de neve, poderosa era a rajada de vento.
Drogon ergueu o pescoço, pronto para cuspir fogo, mas Dany franziu o cenho.
Foi então que setas de gelo saltaram da cortina de neve que Viserion havia erguido, voando até ela, enquanto Drogon mirava para cima. Daenerys guinchou, sem tempo de gritar um comando ou pegar a corrente.
A chama verde de Rhaegal desceu do céu, atingiu o corpo de Viserion, derreteu as lanças de cristal. No mesmo instante, Drogon cuspiu seu próprio fogo.
O corpo de Viserion dançou em chamas, girando no ar. Rhaegal quase chocou-se contra ele, mas o dragão-wight foi, por bem pouco, mais rápido; Drogon e Rhaegal chocaram-se na agitação de agarrar Viserion.
As membranas das asas de Viserion queimaram até quase sumir, junto da cauda e até do restante do corpo; mas, conforme subia em espiral, com o vento enregelante espraiando em seu corpo decrépito, as chamas coloridas esmaeciam quase até se apagar.
Rhaegal e Drogon se debatiam entre si, como águias em fúria, enquanto seus domadores tentavam apartá-los. Os corpos dos ressuscitados – talvez até dos vivos, caso ainda tivesse algum – voavam e queimavam conforme os dois seres alados sibilavam, rugiam, ribombavam suas asas, remexiam suas caudas. Tudo abaixo deles era destruído como se não fosse nada.
Os valirianos balbuciavam em sua língua materna antiga, enquanto usavam seus chicotes nas montarias.
— Pare com isso, Drogon! Controle-se!
— Isto não lhe é digno, Rhaegal! Temos outro inimigo por ora!
Os dois monarcas tentavam acalmar, sem sucesso, seus dragões, desesperados com a possibilidade de perder Viserion quando este estava mais fraco.
Subitamente, os dragões sibilaram, parando os rugidos, parecendo ficar entorpecidos. As feras se afastaram, parecendo afligidos por… algo.
O que é isso agora?, Dany olhou em volta, com medo de ser algum ataque dos seres de gelo; mas estavam mais longe das muralhas, num campo cheio de corpos queimados amontoados entre si.
Rhaegal voou baixo, enquanto Drogon pousou, parando de tentar voejar, irritado, balançando a cabeça.
— Que bruxaria é essa? — murmurou Aegon, sentindo o próprio dragão agonizando e se acalmando no mesmo instante. Daenerys fez isso? Mas como?
Vocês não tem tempo há perder…, o vento sussurrou para Dany.
— Bran? — Ela olhou em volta, mesmo sabendo que o rapazola não estava ali. — Você fez isso?
Enquanto Daenerys tentava assimilar a ideia do Stark mexendo na mente de seu dragão, Aegon olhou para cima. Uma fraca luz amainava.
— Sōvēs! — O chicote estalou, o dragão voou.
Daenerys, vendo Aegon afastar, grunhiu, deu o mesmo comando a Drogon, que se impulsionou com cólera. Foi uma tentação para ambos atear fogo contra Aegon naquele momento tão propício – mas não podiam fazer isso, não agora.
Viserion lutava contra as chamas, usando a pouca pele nas asas para manter-se firme. Por sorte, o corpo magro, incansável, conseguia manter-se nos ares; mas a Mente Coletiva sabia que isso não ia de perdurar. A cauda estava quase toda destruída graças a Drogon; a asa esquerda queimara demais; os músculos do pescoço estavam expostos, enegrecidos; os lábios estavam arruinados, sobrando apenas dentes negros tortos, afiados, totalmente expostos. Menos corpo podia ser menos massa, mais leveza; mas também era menos força, mais fraquezas.
A mente de Viserion, atordoada pelas centenas de dezenas de vozes furiosas, não conseguia se libertar – seu corpo não o obedecia, suportando toda a dor dos golpes, enquanto ele era obrigado a ir contra a mãe e os irmãos.
O dragão sufocado pelas almas corrompidas apenas queria voltar para a morte. Queria que a dor e as vozes parassem.
As chamas lutavam contra o vento, mas a magia do gelo dos deuses antigos as enfraquecia. O dourado, o preto, o vermelho, o verde minguavam, diminuindo até sumir, enquanto crostas de gelo voltavam a cobrir as escamas grossas de Viserion.
O dragão diminuiu o voo. Não ousava avançar muito além das nuvens negras. O resultado não seria bom em seu estado.
Agora que estava recuperado, bem nas alturas, as mentes – que sabiam que os dragões voavam até ele, mas estavam fora do campo de visão por agora – começaram a pensar qual seria o próximo passo.
Antes que qualquer decisão pudesse ser tomada, um dos dragões surgiu – Rhaegal, cuspindo suas chamas. Muito cedo para um bom golpe; Viserion virou a direita. Para sua sorte, a cauda quase totalmente destruída, apesar de custar-lhe o equilíbrio, conseguiu escapar do fogo.
O dragão verde seguiu o dragão pálido (onde estava Drogon?), que desceu em diagonal, tentando fugir das chamas verdes. Por pouco escapava da lufada de chamas.
Firmou um voo reto quando Rhaegal e Aegon estavam há uma boa distância – Drogon devia estar bem ferido, por isso estava longe. Tinha de aproveitar a chance.
Viserion adentrou numa nuvem negra, usando a tática que usara antes – percorreria um caminho camuflado, dando um bote por trás. Rhaegal estava com a cauda já ferida, e, se os olhos dos Wights conseguiram ver bastante, a rápida briga com Drogon provavelmente deixara alguns ferimentos e causara fadiga no dragão menor.
Percorreu, como uma serpente numa toca, o caminho esfumaçante das nuvens negras. Sentia a vida que emergia de Rhaegal, mas a de Drogon também parecia por perto; não podia cometer o mesmo erro de ignorar isso – por duas vezes isso fizera Aegon dar um poderoso golpe que quase destruira sua carcaça.
Se conseguisse matar mais um dragão… ou pelo menos matar um dos montadores…
Virou-se, sabendo que seu alvo estava logo à frente. Uma luz surgia, indicando que devia estar cuspindo fogo na expectativa de atingir Viserion.
Ao sair da camada de nuvem, vendo a figura verde a sua frente, Viserion abriu sua mandíbula torta, com dentes serrilhados, prontos para fecharem sobre a carne de Rhaegal…
As vozes que escravizavam Viserys urraram em fúria quando os dentes de Drogon cravaram-se sobre a barriga exposta de Viserion. O mesmo dragão havia desferido golpes na região, expondo os órgãos internos, jogando-os para fora. Agora, Drogon esfacelava o que restava, quase raspando os dentes de ônix na espinha do irmão.
As chamas espalharam-se sobre a carne gelada, como se fossem pergaminhos velhos. O dragão atacado se contorceu, tentando fugir; o gesto resultou em perder mais mais de sua carne e músculos. As costelas se partiram com o impacto, perfurando os inúteis pulmões e o coração parado… e rasgando a carne já carbonizada de Viserion, saltando para fora. O corpo da besta revivida estava se desfazendo de dentro para fora.
Rhaegal cuspira fogo na direção que Viserion percorria enquanto escapava de Drogon que terminava de cuspir a carne tostada do irmão, enquanto ainda expelia o próprio fogo.
Desajeitado, o corpo tentava seguir as ordens das mentes dominadoras, como um títere tentando seguir sem cordas os gestos de seu mestre. Agora a asa direita estava pegando fogo, enquanto a chama negra subia do estômago até o interior do tórax. A fumaça percorria o caminho oco da garganta, saindo expelida pela boca. Não aguentaria mais muito tempo naquele estado, nem suportaria mais uma lufada que fosse dos Wyvern.
Sem outra saída, como um verme miserável com asas, o corpo se dirigiu aos céus, com os dois dragões logo atrás, voando em círculos ao seu redor, como tubarões ou abutres.
Com toda a força que ainda lhe restava, o dragão revivido subiu, subiu, subiu…
O ambiente era mais escuro ali, dentro das nuvens dos deuses obscuros e tempestuosos, com cristais percorrendo todo o espaço; o friúme se intensificava; o ar sumia, rarefeito…
Graças ao frio e ao pouco ar, as chamas internas logo sufocaram, mas deixaram seus danos – os ossos estavam partidos, a pata direita estava destruída, diversos órgãos caíam para fora do corpo, carbonizados; as costelas rasgavam sua carne de dentro para fora…
Mas a mente uno que comandava o pobre dragão só percebeu o grave erro ao emergir da alvorada.
Ao irromper a camada cinzenta das nuvens que castigavam o mundo, os raios de sol tocaram a pele pálida de Viserion, pintando-o com seu velho tom de dourado – seus cornos voltaram a rememorar ouro, como em seus dias de vida. O céu azul se interpunha contra o poder dos deuses antigos, desafiando o azul gelado das orbes de Viserion.
Perdidos, sem saber para onde voar, com medo do próximo golpe de alguma das serpentes aladas, os deuses deixaram Viserion voando no mesmo lugar, na dúvida entre fugir, esperar, atacar – as vozes não se decidiam!
Por fim, o calor logo cobrou seu preço; seu contra-feitiço. O disco dourado fulgente destruiu o encantamento necromântico.
As membranas translúcidas se desfizeram como papel velho, terminando de se esfarelar. A carne da mandíbula terminou de se desprender dos ossos e dos dentes, expondo o interior de ossos escuros e rachados; os órgãos internos caíram quase para fora, pelo buraco imenso que Drogon deixara; as costelas quebradas deslizavam mais fácil agora que a carne não tinha mais tanto gelo (que derretia com o sol ou se quebrava com os movimentos do bater de asas), rasgando mais o flagelado corpo serpentino de Viserion. Voar agora parecia mais difícil, como se sua pele estivesse sendo puxada para baixo, esfolando-o.
Finalmente, convencidos pela Rainha, Os Deuses Antigos acharam melhor Viserion se retirar; antes que ele pudesse fazê-lo, porém, os dois dragões irmãos emergiram das nuvens – ambos espiralando no ar, cuspindo suas chamas; sem qualquer chance, o que restava do corpo decrépito de Viserion foi imbuído pelo redemoinho de cores flamejantes, sendo totalmente cobertos. A visão fora totalmente perdida quando os olhos azuis explodiram pelo calor exorbitante.
Enquanto as mentes que torturavam o pobre animal zurravam em ódio, a pequena, singela, alma de Viserion, mantida prisioneira em meio a todo aquele ódio, sentiu-se feliz ao rever a figura dos irmãos e da mãe uma última vez antes de finalmente retornar a paz.
A carcaça restante caiu junto dos esqueletos de Viserion, ainda pegando fogo, sumindo na nuvem escura.
Daenerys observou o restante do que fora seu filho sumir, caindo no nada cinzento. Parte de si estava um pouco aliviada; outra, estava abalada por perder o seu filho uma segunda vez.
Mas o que mais doeu, foi perceber o vazio maior que estava em seu peito. Era como se parte dela simplesmente não se importasse mais.
Ela ergueu o olhar, apercebendo o sol dourado engastado no céu azulado. A visão feriu seus olhos, mas era tão reconfortante que quase a fez chorar. O calor era um toque cálido, espantando o frio, mas sem a crueldade destrutiva do fogo dos dragões.
Então, ela olhou para frente.
Os dois dragões ainda vivos se encaram – o trovar enchendo o ambiente pacífico. Agora, os montadores podiam ver melhor um ao outro.
A visão de Daenerys era ainda mais assustadora agora – sem cabelo, com cicatrizes, bolhas; um torso torcido, com aço fundido. Parte de Aegon estava assustada; outra, tinha pena daquela que um dia compartilhou seu leito.
Em silêncio, ambos fizeram suas montarias descer do céu – tinham de voltar para Harrenhal.
Caso eles sobrevivessem a tudo isso, um deles teria de morrer no fim; apenas assim todas as guerras terminariam.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Arya estava um pouco mais recuperada, tentando manter-se erguida. Sor Gendry a encarava de longe, carrancudo, sentado a zero no raíz torcida do represeiro, como se montasse um verme. Seus intensos olhos azuis eram intensos, como duas tempestades.
O que há com esses dois?, questionava-se Sansa, perto do carro de bois onde Myranda ainda estava. Ela esfregava a mão da amiga na sua, tentando deixá-la quente. A mente de Randa ia e vinha, com ela murmurando coisas, depois apagava. Nunca estava realmente acordada.
Wylla segurava a bebê, que dormia em seu braço. Estava viva, graças aos deuses, mas a temperatura era muito fria para ela suportar. Bárbara Bracken ainda estava desmaiada, com hematomas no rosto causados pela queda no chão; Jeyne esfregava as mãos, orando aos deuses; Roslin abraçava Robb, segurando o choro, enquanto seu herdeiro dormia, sem nem pensar nos irmãos.
— Esperar é tortura — ralhou a carrancuda, rechonchuda, Aly Mormont, em pé ao lado da carroça.
— Concordo — falou o líder do clã dos Thenn, que afiava o machado com uma pedra de molar.
Irritada com aqueles dois, que ignoravam as dores e perdas de todos os pobres amedrontados ao redor, Sansa disse, entredentes:
— Se querem tanto morrer assim é só andarem até os mortos ou pularem em alguma fogueira. Ninguém está prendendo vocês!
Os dois viraram-se para ela, chocados – a princesa sempre teve falas gentis.
Lady Mormont pareceu que ia reclamar, mas apenas abaixou a cabeça.
— Desculpe.
Sansa nada falou; estava sem paciência – a morte parecia nunca chegar.
Sandor, prostrado ao lado dela, murmurou, ainda ferido, falou:
— Fico feliz se o meu fim for ao seu lado, Passarinho.
Sansa virou-se para ele, com um sorriso triste.
— Estou feliz se for morrer com os que amo, Sor.
Aquilo pareceu emocioná-lo; ele virou o rosto. Tudo bem. Ela sabia que Sandor nunca fora de demonstrar suas emoções – a maioria dos homens parecia ver isso como uma fraqueza. Suspirou, pensando o quanto ela mesma necessitou guardar muito de seus sentimentos para sobreviver. Quem sabe, no além, pudesse finalmente ser mais sincera ao que sentia?
Lorde Edmure estava falando com Donnel e Roland Waynwood, mas não havia realmente um plano, apenas ti-ti-ti para ignorar a dor das perdas e a agonia de não saber o que estava acontecendo com os outros guerreiros vivos – se é que ainda havia algum; nem mesmo o dragão de Daenerys voltara a surgir.
Bran olhava para todos, do alto de seu trono. Todos eram tão pequenos, simplórios, sem nada realmente conhecer, perdidos em suas próprias emoções…
Os Outros não eram muito diferentes em algum grau – eles eram seres frios, cruéis, mas não totalmente desprovidos de humanidade; apenas desprovidos do que era positivo nos sentimentos humanos.
A Mente Coletiva dos Deuses Antigos era um amontoado de almas odiosas, embevecidas pelo ódio aos humanos que os caçaram, aos novos colonizadores valirianos que vieram após os primeiros homens, trazendo fogo.
Era isso que era o tal Grande Outro – ódio, crueldade, rancor, inveja, sadismo, ambição, soberba… um amontoado de emoções negativas, supérfluas, fugazes; buscando apenas uma vingança sem sentido e sem pensar no que ocorreria após conquistarem seus objetivos cruéis.
Não importava – Os Outros e seus deuses corrompidos não conquistariam o que queriam; a verdadeira aurora surgiria, o Longo Verão. Podiam até não conseguir destruir o represeiro corrompido pela necromancia e a magia do gelo, mas Bran e seus aliados ainda podiam conquistar a vitória nessa guerra. E Bran ainda tinha seu campeão – só precisava que ele cuidasse dos Vagantes Brancos enquanto o próprio Bran se livrava do restante dos “heróis”.
Mera foi até perto de Bran, que sorriu para ela. Ela iria falar algo quando Verão ergueu ao lado de seu príncipe, em alerta. Bran ficou tenso, fitando o campo à sua frente. Isso fez a cranogmana virar-se, encarar…
Nada. Ou assim parecia. Meera virou-se para Bran:
— O quê…?
— Olhem! — Arya exclamou, apontando para o céu. Algo que seus olhos cinzentos viram antes de todos.
Todas as pessoas ficaram em alerta; mesmo as que não ouviram a princesa perceberam a agitação.
Sansa levantou-se, vendo uma luz no escuro… descendo… um cometa? Não, não parecia…
Todos empenharam suas armas; os arqueiros estavam prontos para alvejar…
— Não! — falou o príncipe Bran. Apesar de confusos, os arqueiros obedeceram.
— Mulher Vermelha — Murmurou Wun Wun, cerrando o olhar.
— Melisandre? — Sor Gendry franziu o cenho, olhando para o piscar distante, cada vez mais perto.
A luz foi descendo, piscando conforme descia; demoraram para perceber que eram quadrados que surgiam e sumiam, cada vez mais baixos, cada vez mais pertos.
— Pelos deuses, o que é isso? — Margaery levantou-se para ver, suportando a dor no pé, graças ao frio dormente. — Aquele é…? — Parou ao enxergar, achando melhor não falar demais. Arregalou os olhos.
Melisandre e Alleras caíram na neve quando o último quadrado de chamas se desfez quando estava há quase três ou quatro metros de distância da neve. Os soldados e plebeus assustados os olharam, confusos, temerosos.
A Sacerdotisa e o feiticeiro estavam esbaforidos, suados, com as vestes rasgadas, meio chamuscadas. O rubi de Melisandre pulsava, queimando-a. A região do peito dela expelia fumaça, com a carne rosada formando bolhas. Parte dela queria aquilo e jogar longe dela, ou esmagar com suas próprias mãos.
Ao ver as duas figuras caídas, Sansa soltou uma exclamação, saltou da carroça, tentando correr até eles. Apavorada, Sor Aly Mormont foi logo atrás, reprovando:
— Princesa, pelos deuses, tentou agarrá-la, mas foi inútil; apesar da neve, Sansa agachou-se ao lado de Alleras, que lutava por ar, parecendo sufocar, retirando a máscara de ferro. Ele segurava um estranho cajado de pastor consigo.
Obviamente não devia, mas a Stark tentou ajudar Alleras a erguer-se.
Quando ele virou-se para ver quem lhe ajudava, ambos pararam – o olhar escuro, oblíquos, d'O Esfinge encontrou o azul limpo e inocente da loba.
— Princesa… — Ele disse, formando uma leve nuvem dos lábios. — Eu… eu sinto muito…
Ela afastou-se, confusa. Lá estava ele, mas porque? Onde ele estava todo esse tempo? Por que a roubara? Por que a traíra? Por que voltara?
— Você voltou. — Foi tudo o que pensou.
Ele deu um sorriso torto, ainda galante, mas exausto.
— Não podia perder uma última dança. — O sorriso morreu. — Afaste-se, agora, princesa. Eles estão a chegar, fuja!
Sansa franziu o cenho, mas Sor Aly a pegou pelo ombro, erguendo-a.
— Princesa, volte para a carroça! — A ursa estava livida, o que fez Sansa sentir-se como uma criança levando bronca.
O Esfinge fitou Melisandre de Asshai, que lutava para se erguer. Ele agarrou o cajado de Marwyn com os dois braços, ergueu-o, fincou na neve densa.
— Levanta, feiticeira! Hemos de lutar!
Arya aproximou-se, assustando Alleras quando este se ergueu, achando que ela ia de atacá-lo.
— Eles já chegaram. — O rosto dela era uma pedra. Nymeria estava ao seu lado. Edmure ajudava Melisandre a se erguer, surpreso com o calor dela. O corpo até soltava fumaça!
Um vento frio veio, mais forte, fazendo todos tremerem. O bebê de Randa começou a chorar, assim como o filho de Roslin e Edmure.
A Loba de Sansa, ao lado do carro de bois, também ergueu-se da neve, empinando as orelhas.
Todos olharam em direção donde o vento surgia – para o norte.
Estrelas brotavam ao montes, uma a uma, cercando todo o local. Até em outras direções.
— O que é isso? — murmurou Margaery, abraçando-se, sem forças nem para fazer o símbolo da estrela de sete pontas enquanto os lábios tremiam.
Alleras e Melisandre estavam de pé, mesmo que fracos; Arya deu um passo para trás, assustada.
Os olhos verdes de Bran fitaram as formas corporais que se aproximavam. As árvores pareciam ganhar vida, a neblina tornava-se corpórea.
Em meio aos desconhecidos que se aproximavam, lerdos, a primeira forma saiu da bruma – um linda mulher, envolta em seda azul-translúcida, com um sorriso cruel nos lábios.
A Rainha da Noite perscrutou suas próximas presas apavoradas antes de fitar O Corvo de Três Olhos em seu trono de madeira.
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