Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
60 Mexeriqueira
Tinha de admitir, ser aia de Sansa era uma mudança de rumos que a sua vida havia tomado que mais surpreendeu Margaery — um dia, foram amigas, com Sansa sendo uma jovem a ser protegida, sem família, sem poder político, a qual a rapariga Tyrell abraçara como sua companheira.
Agora, porém, Margaery, mesmo sendo a mais velha – mais velha do que quando se conheceram –, estava tendo o dever de servir a moça que um dia pediu por sua compaixão. Nesse momento, Margaery era a pária. Ela era quem estava sem família e a disponibilidade de um lugar na corte.
Detestava sua atual posição.
Antes era a rainha, agora, estava a atar os nós do vestido de tafetá vermelho e de renda dourada da princesa nortenha, como uma reles empregada!
O séquito pessoal de Sansa era algo triste de se ver: Wynafryd já não mais servia como aia, assim como Hos deixara o serviço de copeiro; Wylla (ou "Sor Wylla", como agora podia ser referida, para o desgosto e confusão de Margaery) era uma mulher irritadiça, que encontrava-se arredia desde os últimos acontecimentos; Bárbara era uma mulher quieta, com um triste semblante sempre a acompanhar o seu rosto; ainda pior, era Jeyne Poole, que era uma criatura chorosa, olhar medroso, parecendo estar sempre prestes a chorar ou gritar de pavor; Jeyne Westerling, em contra-partida, era mais régia, mesmo que também parecesse sempre triste e austera, graças as suas vestes pesadas de luto, com um imenso véu negro a cobrir-lhe a face; Cynthea era uma criaturinha feia, sem queixo, olhos pequenos, cara chupada, nariz esquisito, que pouco falava qualquer coisa. No mais, Sor Sandor (que às vezes sumia sem motivo, mas Margaery sabia bem o porquê) e Sor Alys (era muito difícil para Margaery aceitar que aquela mulher, assim como muitas outras, agora recebiam o título de cavaleiro) pouco serviam para criar um ambiente agradável para uma dama da estirpe de Sansa.
(Myranda e Mya praticamente não eram vistas desde que Margaery chegara; fazia-se três dias que não apareciam para visitar-lhe. Curiosamente, o tio de Sansa, Lorde Edmure, também nunca visitara a sobrinha desde que a Tyrrell chegou para servi-la, nem mesmo sua esposa veio ter com a princesa Stark.
Quanto aos irmãos de Sansa, apenas o mais velho, o Rei Jon, deu-se ao trabalho de ir visíta-la, apenas uma vez. Ficara pouco tempo: não comeram nada, trocaram poucas palavras, sendo todas o dialeto antigo dos primeiros homens, o que impedira Margaery de tomar qualquer nota mental sobre o que era dito.)
Wylla e Bárbara trouxeram um imenso espelho de prata martelada e deixaram-no afronte de Sansa, que inspecionou sua imagem baça que era refletida na superfície bem polida do metal. Um diadema simples de prata, engastado com algumas safiras azul-escuras, que combinavam com o azul-claro de seus olhar Tully, delineava a angularidade de sua fronte; seus cabelos expressos cabelos acobreados caiam até quase o meio de suas costas, rebrilhando a luminosidade das velas de sebo e junco que luziam no ambiente; uma simples corrente de ouro branco fora colocada em volta de seus ombros, com apenas uma ágata branca engastada no centro da corrente, no meio da boca larga, com dentes afiados, de um lobo; um cinto era trançado, dourado, com o formato de uma corrente de peixes a nadar.
Enquanto a princesa se observava, Margaery esquadrinhou-lhe a figura: o olhar azul-claro, límpido como um céu sem nuvens; a tez perfeitamente alva, como porcelana fina; um nariz retilíneo largo; dedos pálidos e longos; pernas compridas, dando a ela uma boa altura, sendo maior até que Margaery, que tinha uma boa altura; seu rosto era bem angulado, com proeminentes bochechas avermelhadas, que contrastavam com o longo, reto e severo rosto dos Stark.
Havia algo de sua mãe no rosto de Sansa; não apenas pela aparência Tully. Margaery vira a mãe da princesa nalgumas vezes, quase dez anos atrás, quando a falecida Lady Catelyn fizera uma viagem até Ponteamarga, indo falar como emissária de seu primogênito, o então Rei do Norte, Robb Stark. Era quase escandaloso, uma mulher – não, uma mãe! – agindo como uma enviada na guerra; falando de frente ao rei e seus conselheiros, sem vacilar, como uma igual. Era impressionante para muitos (e ultrajante para todos) que um rei enviasse sua mãe para negociar termos políticos de um assunto tão importante.
Apesar de qualquer adversidade, fosse no caminho para Ponteamarga, ou mesmo pela rudez dos homens do séquito de Renly, aquela mulher não se abalou, falando pessoalmente com o Rei e retrucando, ríspida, qualquer comentário indecoroso contra sua pessoa e seu primogênito.
Mas, por baixo de todo aquele duro verniz de orgulho, existia o rosto belo e cansado de uma mulher que havia perdido seu marido e estava longe de seus filhos. A mãe de Arya e Sansa tentava escondê-la por baixo de uma armadura de cortesia e orgulho; ainda era possível ver a verdade em seus olhos, entretanto. Um olhar duro e triste.
Sansa tinha esse olhar; um tipo de olhar cansado pelas durezas e desilusões da vida (e algumas sombras por baixo dos olhos, causado pela constante falta do sono), mesmo que ainda fosse um olhar jovial e brilhante; uma dureza perseverante, sem o velho ar de inocência de antanho. Olhos de uma mulher adulta, amadurecida antes do tempo.
Margaery ainda podia se ver surpresa com o quão diferente a outrora inocente criança que conhecera havia se tornado. Era como se Sansa fosse a mais velha entre as duas.
Margaery olhou para seu reflexo, logo atrás do reflexo da princesa. Ainda possuía boa beleza: o nariz fino e arrebitado dos Tyrrells (embora um pouco torto e inchado, graças a abusada princesa-bruxa, ainda estava bonito o bastante para isso quase não ser perceptível), a pele mui perolada, mãos pequenas, ombros finos e pontudos, bons quadris, bochechas ovaladas; sem dúvida o mais belo, entretanto, em sua aparência era o exuberante cabelo castanho, que caia em caracois até suas costas; brilhante como a crina de um cavalo de corrida que fora bem lavada. Seus olhos de corça também eram belos: olhos castanhos, afastados, bem arredondados, por vezes brilhantes como ouro derretido e incandescente. Sim, achava que talvez este fosse seu melhor tributo de beleza.
Apesar de ainda bela, não se poderia dizer que estava por completo feliz com atual aparência: sentia que o cansaço era um aspecto que permeia seu semblante, impregnado seu olhar e, de alguma forma, em seus lábios; e, por mais belo que ainda fosse, dano permanente em seu nariz ainda lhe irritava.
Era uma mulher bem-crescida agora, amarga pelas adversidades da vida, assim como Sansa.
— Obrigada, Margaery — agradeceu a princesa, movendo a cabeça de um lado para o outro com certa lentidão, como que para poder observar melhor sua fisionomia coroada.
— Não tem de quê — respondeu ela, enquanto acenava levemente com a cabeça, forçando um sorriso simples, escondendo qualquer dissabor que estivesse sentindo com a desconfortável situação.
A princesa andou até uma mesa, que estava apinhada de papeis, sentou-se numa cadeira de madeira simples, pegou um dos pedaços de papeis que tinha e começou a ler, em silêncio.
Margaery suspirou; os dias com a princesa — certo, foram apenas uns dias, pouco mais de uma quinzena, sendo justa; mas duvidava que fossem melhorar — se resumiam a isso: longos, tediosos, quase sem nada para fazer. A princesa de inverno praticamente não saia, nem recebia muitas visitas. Nem seu irmão se resignou a vê-la muito durante esse período.
Margaery se perguntava se a princesa tornara-se tão reclusa após a quebra de confiança de Alleras, que destruira a imagem de Sansa perante muitos, ou se o Rei apenas preocupava-se com a segurança de sua irmã — houveram tentativas de assassinatos contra a rainha e o lobo gigante; poderiam tentar o mesmo contra sua irmã.
No geral, o pequeno séquito de Sansa tinha uma agenda repetitiva e limitada: cantar, tocar harpa, costurar, transformar lã em fios finos, almoçar, cear, então, dormir, repetir o ciclo. Era assim desde que Margaery chegara.
(A falta Wynafryd e Hos deviam deixar o ambiente ainda mais triste para as mulheres, imaginava Margaery — o casamento entre a Lady Manderly e o Blackwood fora um forte golpe para Sansa e seu séquito; nenhuma delas seria capaz de imaginar que o rapazola Hos fosse capaz de ter um caso [ou abusasse, dependendo da língua que fosse murmurar a fofoca] com a irmã de Wylla. Todos acreditavam que esta e o rapazola estavam enamorados, prontos para casar-se.
A culpa também recaiu na princesa: Wynafryd era parte de seu séquito, então, fora ela uma devassa ou uma vítima, era culpa da princesa Sansa por não ter cuidado dela. O mesmo valia para Hoster: ele era para ser escudeiro do Rei Jon, não copeiro — nunca teria abusado da Lady Manderly se Sansa apenas nunca o tivesse deixado com que ambos se aproximassem.
Wynafryd teve de casar: ninguém acreditou nela e em sua trama estapafúrdica; para preservar a honra dela, teve que casar-se com Hoster, ou os múrmurios nunca lhe deixariam.
O casamento deles não era nada feliz: ambos se odiavam, com a Manderly tentando por duas vezes envenenar o marido; ademais, ambos ainda dormiam no mesmo catre, mas separados pelas roupas sujas de Hos, que a Lady de Porto Branco mandara que não fossem lavadas, e as usara para barreira.
Em contrapartida, Hos fez diversos poemas agressivos — Margaery preferia nem pensar neles, pois duas estrofes sobre como Wynafryd era uma baleia-bruxa que o enfeitiçou para dormir porque sentia inveja da irmã fora o bastante — em relação a esposa. Ele até vendera alguns dos vestidos dela para converter em lã e dar roupas à plebe — deixando-a com roupas simples e sem qualquer adereço. Por vezes, Hos até dizia que ela nunca ia de voltar a tocar qualquer prata de Porto Branco e que ia queimar o septo em Porto Branco.
[Sor Wylla, enquanto isso, nada falava sobre: apenas tinha um carão sério, olhar distante, poucas palavras a proferir sobre qualquer um e qualquer coisa.]
Margaery preferia não falar nada sobre Wynafryd e Hos, pois, caso viessem a descobrir a verdade sobre o ocorrido e as ações de Margaery para feito, sua vida seria incurtada — e isto em nada era sinônimo de morte rápida.
Todavia, ainda havia uma questão nisso tudo: Arya Stark.
Arya e Gendry sabiam da culpa da Margaery? Arya queria mesmo que Margaery desse as ervas para Wylla e Hos? Se sim, por que não lhe confrontou após o que ocorrera com Wynafryd e Hoster? Ea falou com eles? Ou com Brynden?
Não podia se arriscar a falar com a princesa-loba entretanto; ela podia só estar esperando isso para falar aos irmãos — ou pior, matá-la! Não, não, não... Tal conversa seria impossível no momento, entre elas.
Mas, caso viesse a ser delatada, Margaery ia garantir que soubessem quem lhe entregara as provas... O problema era que não confiava que isso salvaria sua pele.)
Os documentos de Sansa eram escritos por alguns meistres, que os traziam até a sua princesa, deixados em sua mesa, para que ela lesse e tomasse alguma decisão sobre o assunto em questão. Eram assuntos da plebe, que, como se podia imaginar, passavam por maus bocados: saques, fome, estupros, falta de tecido para aquecer-se… Entre outras tantas coisas assim.
As listas eram divididas entre a Rainha e a princesa; os meistres estavam encarregados de decidirem para quem iriam. Sansa insistira para os monarcas que era seu o dever de tratar assuntos da plebe — a Rainha, deduzira Margaery, queria o cargo para si, como monarca. No fim, o Rei deu a solução de ambas cuidarem disso.
(Com o tempo, menos papeis chegavam para a princesa.)
A rainha rabiscava algumas anotações nos documentos, após mergulhar a ponta de uma pena num tinteiro negro. Para garantir que a tinta não derretesse, uma vela de sebo fora colocada ao lado. Logo, seus longos dedos estavam grudentos e escuros pela tintura negrume.
Ao seu lado, estava Wylla, aprumada, segurando um jarro d’água para encher a taça da princesa, caso fosse-lhe solicitado que o fizesse; Barbara estava cardar lã, junto de Cynthea Frey, que era assaz em fazer tal tarefa, mesmo tendo dedos pequenos; Jeyne Westerling tocava uma harpa e cantava “A Loba de inverno” que era a música que falava sobre o confronto entre a princesa e a Rainha; Jeyne Poole estava apenas deitada na cama, silenciosa, com os olhos fechados — embora Margaery não achasse que ela estava a dormir.
Margaery sentou-se ao lado da rainha viúva de Robb Stark, em silêncio, começou a cardar lã também. Preferia costurar algo bonito, mas a lã iria dar algum aquecimento para a plebe.
A monotonia atual não fora algo vivenciado por Margaery quando esta chegara aos aposentos da princesa nortenha.
Todas as damas de companhia de Sansa estavam no local. Junto delas, estava Lady Myranda, seu marido Donnel Waynwood, assim como a bastarda Mya Stone (havia também Ysilla Royce, mas esta nada falara naquela ocasião, ficando parada no canto, encostada numa parede). O enorme e selvagem Sandor Clegane e a raivosa Aly Mormont faziam guarda, ladeando a entrada dos aposentos. (Não havia sinal algum da outra princesa Stark, seu marido, ou mesmo seu amante, curiosamente.)
Margaery estava defronte a Sansa Stark, fitando o semblante brando e ovalado da princesa, que esquadrinhara-lha face com seus olhos profundos. A Tyrrell estava a forçar um sorriso por demasiado tempo, sentindo suas maçãs do rosto doerem. Os lábios imploravam para serem baixados, cansados.
Finalmente, após algum silêncio desde que Margaery apresentara-se, a princesa sorrira.
— É claro que será aceita em meu séquito, Margaery! — falara Sansa, com brandura. — Espero que os tempos difíceis pelo qual passou, e nisso falo das desavenças não atrapalhem-nos de compartilhar uma boa companhia entre nós. — fez um gesto para as mulheres que as ladeavam. — Isto, é claro, diz respeito às minhas damas que, espero eu, possam compartilhar de bons momentos com você, deixando de lado qualquer infortúnio que um dia existiu. — Olhou para suas damas.
Wylla, uma mulher com idade mais próxima a de Margaery, foi quem respondeu:
— Creio que ter uma dama de alta estirpe sulista… além da rainha Jeyne, é claro…, vinda de uma terra tão encantadora como a Campina, onde os prados são belos, bem verdejantes, e rosas douradas enchem os montes, será, sem sombra de dúvidas, um bom adereço ao nosso séquito, visto que ficou um tanto pequeno nos últimos tempos. — Virou-se para a dama Bracken.
(O modo floreado e circunlóquio das mulheres tinha um motivo óbvio: Margaery estava em pé há um bom tempo; antes disso, fora obrigada a andar uma boa distância até chegar na torre onde a princesa — que se deu ao trabalho de ficar o mais longe possível de sua cunhada, ficando praticamente doutro lado de Harrenhal — estava alojada. Teve de descer vários lances de escada, ser escoltada no frio enregelante pelo que pareciam milhas, subir mais uma miríade de degraus até chegar aos malditos aposentos da princesa nortenha e sua corte de lambisgoias mexeriqueiras, onde ninguém lhe oferecera qualquer banqueta que fosse para descansar — nem sequer um copo d’água!
[Não ajudava que, para melhorar sua situação, ainda estava ter suas regiões íntimas com o estado da lua: a fenda de seu corpo expelia sangue, que era tapado por alguns lenços e algodões que um bom meistre lhe dera [embora isso não tivesse impedido que ela sentisse um pouco de sangue da lua escorrer até uma parte de sua coxa, demorando-se um tanto para coagular — talvez estivera a sangrar mais um do que o normal pois seu ciclo menstrual havia atrasado-se]. Sentia dores pélvicas, além de uma enorme dor de cabeça que parecia piorar cada vez mais; para piorar, não sabia se fora pelo fluxo sangrento entre suas pernas, ou por causa do intenso enregelar do caminho pelo qual ela atravessara para chegar até os aposentos da princesa, quase desmaiara no meio da neve, tamanha a tontura que atormentava-lhe a sua mente]
Claro, tudo aquilo tinha um motivo óbvio: além das querelas que Margaery arrumara para si em relação com aquelas moças — abandonar Sansa após seu casamento com Tyrion, usá-la para matar Joffrey, rebelar-se contra Lady Myranda —, todas deviam saber muito bem que nada mais era do que uma espia da Rainha dragão.)
Barbara Bracken tomara o momento para si:
— Ora, Wylla, falastes muito bem ao expressar meus pensamentos sobre ter uma moça tão bem quista, de um um reino também mui bem quisto, para compartilharmos belos momentos, momentos esses que serão repletos de boas músicas, costura, brincadeiras, canções, boas refeições. — Continuou: — Creio, também, pelo que ouvi de milady Margaery, que ela nos dará ótimas fofocas para mexericar-mos. — Virara-se para Jeyne Westerling. — não é verdade, majestade?
Pelos deuses, não sofri humilhações o bastante? Pelo menos deem-me um assento para que possa sentar e ouvir as humilhações!
A mulher de pele oliva e cachos castanhos, parecidos com os de Margaery, mas mais claros, envergara um vestido grosso e preto, sem qualquer adereço. Era um símbolo de seu luto eterno pelo seu marido, que fora injustamente morto no Casamento Vermelho pelos Freys. Um véu de seda preta e simples, preso por um alfinete de osso de baleia, estivera afastado de seu rosto em formato de coração.
— Creio que a herdeira de Janos Bracken está certa, fico feliz em dizer. — Sorrira para Barbara, parando de falar por uns instantes, o que fizera Margaery deduzir que a viúva estava pensando no que falar. Por fim, Jeyne voltara-se para encará-la. — Ambos fomos rainhas, não é interessante, Milady?
Margaery, que deixara o sorriso de lado, sentindo o rosto doer, voltara a se obrigar a levantar os lábios, que foram rápidos a começar a doer, de modo que o sorriso fora mais fraco.
— De fato — foi tudo o que respondera.
— Nossa princesa, a bela Sansa Stark, também fora uma rainha. Oh, uma lástima que uma coroa não traga-nos felicidade, não é?
— Com certeza.
— Embora, creio eu — a Rainha Viúva não calara-se por nada —, que deva ter sido muito mais complicado para você, não? Afinal, perdera três maridos! Imagine só! Perder três companheiros, três coroas… — fizera um muxoxo, abanando a cabeça. — E ainda por cima, depois de tudo isso, ainda não pudera sentir o prazer com um homem sequer! Que lástima!
Margaery sentira as bochechas ficarem quentes ao ouvir tal indecorosidade. A memória fez suas bochechas arderem mesmo agora, que carnava lã, fazendo-a franzir os lábios, quase deixando o fuso escapar e furar-lhe o dedo. Fez um estalo com os lábios irritada ao pensar que a mulher que zombara de sua virgindade estava a cardar lã ao seu lado, em silêncio.
Não tivera sido o bastante a pilhéria sobre sua intimidade, Myranda Royce (a maldita Myranda Royce! Aquela mil vezes puta! A lambisgoia das lambisgoias!) tivera a pachorra de fazer sua própria pilhéria:
— Ora, mas ela também não ajuda o próprio lado! Matou o segundo marido antes das núpcias! Eu mesma matei o meu primeiro na cama!
As mulheres riram, o que fizera com que Margaery perdesse o sorriso no rosto, sentindo-se tomada pelo constrangimento. Tivera de lutar muito para não baixar a cabeça, nem relancear para Lady Royce com cólera — não lhes daria esse gostinho.
— Lady Myranda Royce dos Portões da Lua — falou Sansa, virando o rosto e olhando para a colega de pé, com o braço dado ao seu recém-marido —, minha caríssima Randa, diga-me, agora: teria você, após todo esse tempo passado, após tantas perdas, um novo casamento, e uma repentina grávidez, encontrado em seu coração, uma forma de perdoar Margaery por sua histeria sem sentido?
(«histeria sem sentido», a indignação por aquela débil frase ainda percorria em seu corpo. É assim que destratam meus medos? Minha raiva?
Mas não se deixava abalar; logo ia de mostrar para todas naquele séquito o que acontecia com quem zombava de sua dor.)
Myranda estava grávida, isso era sabido por todos. Era provável que estivesse grávida antes mesmo de sua cerimônia de casamento (que provavelmente só ocorrera para que não nascesse um bastardinho); mas seja como for, assim como agra, o único tamanho avantajado que Randa exibira em sua barriga naquele dia, era por conta de bons bolinhos.
A Lady dos Portões da Lua relanceara sobre a figura Margaery, fitando esta, que encontrava-se cansada, com as pernas a doerem. Deu-lhe um simples sorriso com seus lábios generosos e rosados.
— Beeem — falara ela, finalmente —, diante de tantos infortúnios (foram muitos, pois!), responder-lhe-ia, cara e amada princesa Sansa da antiga e honrada Casa Stark de Winterfell, que agora tenho problemas maiores para me preocupar do que guardar um rancor bobo com uma simples jovem-mulher que, como a própria princesa Sansa da recém-restaurada Casa Stark, filha de Catelyn da Casa Tully, disse, estava apenas desvairada pelo medo e pesar no coração, que a impedia de usar a razão, ou jamais teria tentado uma ideia tão estapafúrdia quanto a que teve ao tentar rebelar-se, sem nenhum motivo contra mim.
« Acredito que agora, tendo enfrentado mais perdas, sua sanidade poderia ser contestável, mas, creio eu que, graças aos deuses, Margaery da Casa Tyrell, que governava toda a Campina, tendo belíssimo assento em Highgarden… que ouvi dizer ser muito belo, apesar dos Dorneses, anos antes, nos tempos em que os Gardners reinavam, terem queimado o Trono de Carvalho, uma pena não? Bem, imagino que você já tenha visto por si só própria como dorneses são… está agora em boas mãos, que irão ter candura ao tratar de suas possíveis insanidades, visto que deve se sentir totalmente sozinha, desamparada, totalmente desacorçoada… — Deu uma pausa, ainda sorridente, depois continuou: — Palavras não faltam para descrever seu atual estado quebrado e fracassado.
«Enfim, devo estar-lhe a atormentar com o meu falatório incessante; mas imagino que saiba como mulheres como eu são, não é? Ah, sim, tenho certeza que deve ter diversas e revelantíssimas opiniões sobre todos aqui — opiniões essas que, sem dúvida, todos damos grande importância, a importância merecida para os pensamentos de Margaery da Casa Tyrell, filha do falecido Lorde Mace da Casa Tyrell, irmã do atual Lorde da Campina, Willas da Casa Tyrell, o protetor do Sul.
«(Engraçado este título de sua família, não acha Margaery? Visto que Dorne fica mais ao Sul e vocês nunca foram capazes de mandar em nada que os tangesse. Na verdade, se bem lembro-me, diversos lordes Tyrell foram mortos ao tentar ajudar os Targaryen a dominar os desertos ao sul das Montanhas Vermelhas, certo? Um que até acabou cheio de escorpiões, pois? — Randa fez um gesto débil com a mão, abanando o ar frio. — Bem, garanto que um meistre qualquer irá lhe responder. De certo, a Campina tivera mais sorte contra os Dorneses na época de seus reis Gardeners; creio que estes monarcas sempre foram os mais capazes de comandar um reino.)»
Margaery quase não conseguira compreender o que lhe era falado por aquela gorda a sua frente; o que entendera era algo que preferira não ter entendido, pois eram apenas insultos que eram quase que disfarçados de circunlóquios pela matraca da irritante Lady Royce. Suspirou profundamente, sentindo a neve escorrer por debaixo de suas vestes, ficando com água fria e grudentas nas costas do vestido, que era por onde mais escorria a neve derretida do cabelo. Seus começaram a ter espasmos, com o direito parecendo lutar para contorcer, por causa da cãibra. Sua cabeça parecera pronta para explodir por causa das imensas marteladas que a atingiam em todas as direções da cabeça.
Feliz que Randa fechara a boca, Margaery abrira a sua própria para falar; entretanto, Myranda voltara a matraquear:
— Na verdade, creio que perdão pode ser uma grande coisa para se aprender-se nesses últimos dias (na verdade, anos, para sê-la mais exata). — Antes que alguém falasse algo, voltou o rosto para o do marido, Donnel. — Meu querido, amado e dedicado Donnel Waynwood, outrora o mais corajoso dos protetores do Portão Sangrento, crê que dever-lhe-emos achar em nosso carinhoso e compartilhado coração volupio, perdão para as atitudes de Margaery Tyrell? — indagara ela, enquanto gestículara para a figura da moça (que estava, agora, não mais avermelhada, mas pálida e suada).
Sor Donnel Waynwood relanceou o olhar para Margaery, apertando um pouco o olhar, como que para ajudar a esquadrinhar a bela figura a sua frente.
— Eh, bem, se minha esposa e minha princesa assim o querem — disse ele, ríspido, sem compartilhar da cruel zombaria das mulheres —, acha-lo-ei em mim um pouco de espaço para achar um pouco de perdão para Margaery Tyrell e seu emocional descontrolado.
Ele lambera o beiço, provavelmente pensando no que falar, pois devia ter de participar dos alongados rodeios das mulheres.
— Minha Randa é tudo o que quero por agora — voltou Donnel a falar —, quando a temível guerra sobre nós passar, dias melhores vir-lhe-ão; mas hei de ter de lutar para ter de derrubar os clãs selvagens, e minha esposa há de fazer um longo e trabalhoso esforço para comandar o reino…
Ele parara de falar, tocara de leve o ventre da esposa, voltara a falar:
— Havemos de conseguir, com a graça dos deuses. Dito isso, não existe espaço para dar-nos o luxo de guardar rancor de uma jovem desvairada com ideias obtusas de rebelião. Então… hããã… Sim, querida Randa… — Limpou a garganta. — E princesa, é claro… Eh, eu, hmm… Perdoamos os desatinos de Margaery. Isso.
(Era óbvio que Sor Donnel não tinha qualquer ideia do que falar, visto que atrapalhava-se nas palavras, sem ser sagaz nas escolhas de palavras prolixas como sua esposa.)
Margaery, no meio de tudo isso, apenas acenara, sentindo que suas forças estavam quase totalmente eivadas pelo cansaço e pelo sangue da lua. Seus espasmos pélvicos estavam mais potentes, de modo que estivera um tanto curvada sobre si, com uma mão tremida pousada na barriga, coberta por uma luva forrada com pelo de urso. Apesar das luvas e do grosso manto, sentia-se a congelar, como se estivesse coberta de neve. Era um milagre suas pernas não terem se esmorecido naquela altura. Não tivera forças nem para falar nada, apenas esforçando-se para engolir um pouco de saliva na garganta, que no momento estivera totalmente apertada, o gosto da bílis tomara a conta de sua boca, fazendo-a achar que estava prestes a vomitar.
Fechara os olhos, lentamente, inspirara profundamente, abrira-os novamente, fitando ninguém em especial que estivesse defronte a sua pessoa. Lambera os lábios finos, sentindo, através de sua lenta e seca língua, que estes estavam ressecados, cheios de linhas secas e sulcadas. Sentira que sua boca estava praticamente sem saliva, tornando difícil umedecer os lábios e a língua.
— Acha perdão importante, Mya? — alguém perguntara para a bastarda do Vale (não se lembrava quem, teria sido Myranda? Era o mais provável).
Para a sorte de Margaery, que sentia-se farta de todas aquelas interlocuções floreadas, a bastarda com cheiro de feno fresco e mula apenas respondera com retrair de ombros, cabisbaixa, com um semblante austero.
— Acho que sim. — Sua voz era monótona.
Feliz por não ter de ouvir mais rodeios de palavras, aproveitara o momento:
— Dado que estive um bom tempo para chegar, e que minha voz encontra-se enrouquecida, pelo que podem perceber, peço-lhes apenas para descansar em um assento — pedira, esfregando as mãos enluvadas. — Ou, melhor ainda, se pudesse me trocar…
— Ora, descansar! — exclamara Randa. — Mas já descansastes por demasiado tempo, Margaery! De certo não quer mais deitar e mofar num catre qualquer, não é? Vá lá, mulher! Que tanto gosta de fazer ao deitar-se? No Vale mesmo, quando não estavas a tramar, estava a descansar no colchão de palha!
Todas voltaram a gargalhar da pilhéria humilhante da Lady, fazendo Margaery voltar a sentir o refluxo quente nas bochechas. Comprimiu os lábios para dentro da boca.
— Ora, deixe-a, Randa! — censurou Sansa, sorrindo, após rir com as suas damas. Relanceou para Margaery. — Claro que Margaery está fraca após tanto andar até esta alta torre! Precisa de um banco, certo?
Segurando a irritação, Margaery aquiesceu.
— Creio que está óbvio, minha princesa.
— “Óbvio”! Sim, óbvio! Ah, por quantas vezes nos negamos a ver o ódio, não é, velha amiga?
Lá vem…
— Sim, o óbvio por vezes passou pelos meus olhos, mas neguei-o — continuou a matraquear a princesa. — Acreditei no que era belo e me acalentava na desilusão; mas, no fim, por vezes, os deuses devem ter rido de mim ao verem-me chamar pessoas das quais eu não deveria ter confiado de “irmãs”. Sim, “irmã”, acredita? Mas, no fim, era por diversas vezes uma peça a ser deixada de lado quando não lhes convinha mais!
As palavras atingiram-na mais do que as outras.
A voz não estivera carregada de ódio, mas nem por isso Margaery deixara de perceber que havia veneno suave nas palavras da princesa. A irritação e o cansaço haviam deixado seu corpo naquele momento, dando lugar a culpa e vergonha, que grassara-lhe o corpo, deixando-a afônica. Abaixara os olhos, olhando para o chão. Teve uma boa e longa olhada para a bainha do longo manto, que estava sujo de neve derretida e lama. Uma poça d’água cria-se em volta de Margaery, no chão de ardósia fria e cinzenta, como os olhos de um Stark. Alisou as dobras.
Com o tempo, ainda emudecida, pareceu que a princesa Stark ficara irritada com a falta de resposta.
— Ah, o que estava a dizer-lhe? Ah, sim o seu banco! É claro que quer um; e um bem especial, imagino. Afinal, pelo que sei, você sempre precisa de um lugar para sentar-se… um que combine com sua grande estirpe. Hmm… Não, na verdade, um até melhor, diria eu.
Margaery levantara os olhos, relanceara para a princesa Sansa. Um dia, foram amigas; irmãs. Agora, porém, eram duas mulheres amarguradas, com rusgas próprias entre si, que provavelmente nunca seriam resolvidas, dadas as atitudes de cada uma.
No passado, houvera o que talvez muitos chamaram de “falsa amizade”; ninguém duvidaria da veracidade da querela entre elas, no entanto. Era real, podendo ser visto nos olhos de ambas, ouvido pelas palavras das interlocuções entre elas, sentido pelo ar.
Sim, ainda lembrava-se vividamente do momento. De como o olhar azul-Tully de Sansa não era zangado — estava magoado.
Margaery, cansada de toda a situação, voltara a falar:
— A princesa toma-me por alguém que não sou. Mas tudo bem, pois, como ir-lhe-ei provar, sou alguém por quem vale a pena ter confiança.
— Humpf — fez Sansa, com um meio sorriso debochado. — Como queira, Milady.
A princesa levantara a mão, pronta para falar para alguém pegar um banco para Margaery, quando alguém de seu séquito interrompeu — e, é claro, este alguém era Myranda:
— Ah, desculpem-ma interrupção, mas, aproveitando o propicio momento em que todos encontramo-nos — atalhou —, eu apenas queria mostrar a Margaery que este é um séquito de boa gente. — Virou-se para encarar Jeyne Westerling, que estava bem à sua esquerda: — Diga-nos, Jeyne, lamento-lho infortúnio de lembrar-te tal coisa, mas, como seu marido faleceu no Casamento Vermelho, diga-nos, acha-se incapaz de dispor de perdão de pessoas com o mesmo sangue que os vilipêndios que mataram vosso marido?
Todos no local a relancearam, chocados com o descaramento de tal pergunta. Seu marido foi quem mais arregalara os olhos, fitando a esposa com uma óbvia censura afônica. Sansa era quem mais parecera desgostosa com a menção ao seu falecido irmão mais velho.
A pergunta, por mais que não lhe fosse dirigida, atingiu Margaery com mais força do que as cólicas em seu estômago, fazendo-a arrepiar-se ao som da longa e circunlóquia indagação de Randa para a ex-cunhada da princesa do Norte, a viúva de Robb Stark.
A mulher, chocada com a pergunta, arregalando os olhos para a rechonchuda moça que se atrevera a fazer tal questionamento. Antes que pudesse falar, todavia, Randa continuou, gesticulando em direção a outra moça ao lado da rainha Jeyne: Cynthea Frey, a irmã do atual Lorde da Travessia, Sandor Frey.
Cynthea, que até então estivera quieta, ficou mais chocada que todos ao ter sua atenção chamada pela Lady regente do Vale de Arryn. Parecia uma garota — apesar de não o ser — assustada e com o olhar perdido, relanceou-o por vários rostos, como que para pedir ajuda num apelo afônico.
Entendendo agora o que devia ser feito, entendendo a estranha senda que Lady Randa havia lhe mostrado, Jeyne respirou fundo, girou os calcanhares, esquadrinhou a face feiosa de Cynthea, que por si só olhou-a assustada. Por fim, girou novamente os calcanhares, encarou Margaery por um tempo.
O surpreendente fora quando a viúva conseguiu esboçar um sorriso — não meigo, mas lupino.
— Apesar dos receios de muitos quanto a Casa Frey — falou Jeyne, mantendo a boa postura, aprumada. — Cynthea e seu irmão foram bons com todos, respeitando seus juramentos, ao contrário de todos os outros familiares crueis que acabaram sujando a imagem de sua casa. — Virou a cabeça, abaixou os olhos, olhando novamente para a nanica Frey. — Diga-nos, cara Cynthea, crê que Margaery há de achar, aqui, um bom lugar neste nosso grupelho feminino?
O quê!?, Margaery, que voltara a sentir o refluxo abrasivo tomar-lhe conta de seu corpo novamente, ficara incrédula: obrigariam-na a ouvir os circunlóquios de uma feia-Frey? Esta pantomima desbaratada passou do limite!
Cynthea fitou Margaery, depois para jeyne, novamente para Margaery. Sua estava aberta o tempo inteiro, dando-lhe, também, o aspecto de burra, para combinar com o aspecto de feia.
— Eu… Eu… — A moça ajeitara-se, aprumara-se, limpara a garganta. — Creio que minha família, apesar de eu saber que nunca o conseguirá totalmente, não deve ter a imagem maculada por tamanha san-sanguinária traição… — engoliu seco. — D-de modo que acho que Margaery não deve também ser para sempre malquista pelos outros por erros do passado…
Margaery dera um sorriso fraco, assentira com um gesto da cabeça.
—... Porém — Cynthea veio a continuar (o que surpreendera a todos no cômodo, mostrando que não era de praste da moça) —, sei também que Margaery realmente foi culpada pelo assassinato de um cruel rei, que usara a princesa Sansa para tal ato; rebelou-se contra Randa e fez um furdúncio no Vale que poderia matado ambas e todos no local; e que seu nome está ligado a mortes importantes no Sul, mesmo que nada tenha sido provado… — Emudou-se, parecendo não saber o que falar. Deu uma rápida olhadela em todos, voltou a falar: — Neste caso, creio que dever-lhe-emos lembrar que Margaery não é culpabilizada pelos crimes de sua família: ela é culpa por crimes, e merece provar que merece nossa confiança.
Um silêncio maçante tomou conta do ambiente — sufocante, como que ar viciado que entrava nos pulmões, agonizando-os.
(Em contraste, Margaery percebera que Myranda segurava uma boa gargalhada, com a resposta-humilhação de Cynthea para Margaery.)
Essa feiosa ainda há de me pagar!, prometeu Margaery a si mesma, enquanto terminava de fazer a lã grosseira virar fios. Estava divagando há tanto tempo que estava com os dedos doloridos e atabalhoados.
Quem aquela feiosa coisa-Frey pensava ser para achar-se no direito de julgar Margaery? Achar que tinha o direito de comentar suas opiniões sobre as atitudes que esta tomara para viver? Não sabia de nada! Era uma feiosa, mexeriqueira, invejosa, suja e sorrateira fuinha-Frey! Sim, tinha no semblante a cara chupada de uma fuinha, assim como Arya tinha a cara longa de um cavalo! Malditas, todas elas! Malditas!!
— Muito bem dito, Cynthea — comentara Sansa, com um semblante inexpressivo. A voz era monocórdica, mas cortante. Virou-se para o homem ao seu lado, o marido de Myranda.
— Sor Ronnel, faça-nos o favor de pegar uma cadeira para minha nova aia, Lady Margaery. — Virou-se para ela, com o olhar gelado. — Creio que ela já aguentou por demasiado ficar em pé.
Terminou de cardar a lã. Recostou-se no espaldar, cansada, sentindo os dedos doerem pelo gesto repetido amiúde. Sentiu alguns espasmos, como os seus pés quando chegou ao cômodo da princesa aquele dia.
Olhou para o lado. A viúva Jeyne estava ainda a cardar, mas Cynthea dera uma pausa para si, bebericando um pouco de vinho aquecido no braseiro.
As chamas da lareira perto estavam mais fracas, de modo que Jeyne Poole jogava alguma lenha para aquecê-la.
Com o passar do tempo, as velas foram se apagando, a cera escorria, diminuindo a luz do ambiente. Barbara, já cansada de cantar, levantou-se e acendeu algumas velas apagadas, enquanto mandava uma serva trazer outras velas.
Não fazia diferença entre o dia e a noite; sempre era ermo.
Quando Sansa terminou de escrever nos papeis, Wylla deixou-os bem enfileirados, apinhados em três pirâmides.
— Creio ser um bom momento para voltarmos a costurar a bandeira, não? — indagou a princesa, indo em direção a sua cadeira.
— Claro, princesa — falou Wylla, indo logo atrás.
Sansa assentou-se na maior cadeira e Wylla trouxe-lhe o belo trabalho no qual a princesa e suas aias andavam trabalhando nos últimos dias, ajudando-a a costurar a bandeira.
Era um belo trabalho, devia ser admitido: numa parte era de belo linho branco, meio-perolado, e um lobo coroado com espadas, levantado nas patas traseiras, era costurado com fios de prata bem brilhante; noutro, o tecido era negro como breu, mais bem cedoso e brilhante, com um dragão de três cabeças, duas patas e duas asas bem empinado; cada cabeça (e pescoço) era de uma cor (fios d’ouro numa, fios verde-esmeralda noutra, com a terceira cabeça, que ficava de frente a cabeça do lobo de prata, sendo feita dos mesmos fios escarlates do corpo), uma coroa de ouro pairava sobre cada uma das cabeças das feras cuspidoras de fogo (o fogo era da mesma cor da respectiva cabeça que o cuspia). Quando terminado, rubis, jades, topázios dourados, seriam incrustados no tecido dos Wyrms — com exceção de onde seriam os olhos, que teriam ametistas nas órbitas vazias. O corpo teria, também, rubis e ônix.
Um trabalho desses demoraria dias, semanas e meses. Porém, estava assaz rápido, graças aos esforços amiúdes das damas da princesa, que juntavam-se para auxiliá-la — o enorme brasão terminaria terminado adrede o planejado.
(Ninguém poderia negar, porém, que a principal causa para auxiliar o término de tal trabalho de costura eram os dedos habilidosos da princesa Sansa, que passava horas e mais horas costurando o vestido. Por vezes, nem sequer dormia, mesmo que o insistissem para fazê-lo, parecendo que estava hipnotizada em costurar, costurar e costurar, sem se importar com ferimentos que acabavam-lhe por furar os dedos e fazê-los sangrar.)
Isso enjoava Margaery — aquele maldito símbolo sendo costurado. O fato de estar a costurar para aqueles dois malditos monarcas que tanto lhe causaram mal, que iam contra tudo que ela acreditava, que atormentavam-lhe sem parar.
Mas tinha um papel a fazer. Resignou-se a apenas costurar, sem retrucar. (Agora, porém, teve a desculpa de cardear mui quantidade lã, então pode apenas ficar quieta em seu canto, enquanto Sansa, Wylla e Jeyne costuravam no imenso tecido.)
Margaery perguntava-se: por qual motivo Sansa fazia isso consigo mesma? Por que ela costurava para uma mulher que odiava? Existia de fato uma razão, ou apenas tentava escapar da solidão e humilhação de seus longos e tristes dias atuais pelo qual estava passando? Talvez nem a própria Stark soubesse; apenas costurava, sem quase nunca descansar. Era um esforço invejável, mas também era de partir o coração.
Após um longo tempo passado, quando a princesa Stark estava a terminar a cauda escarlate do símbolo Targaryen, um meistre velho adentrou nos aposentos, após ser anunciado.
— Vim pegar-lhe os papeis, princesa — disse, após curva-se, um tanto fracamente, por causa da idade.
Sansa levantou o rosto, o olhou por uns instantes, assentiu, abaixou a cabeça, voltando a costurar.
Então parou, ao enfiar a linha no tecido preto, e ergueu a cabeça, observando o meistre, que tomava os papeis em seus dedos enrugados.
— Vai entregá-los à Rainha? — indagou ela, monótona.
O homem idoso parou, com alguns dos pergaminhos em seus braços, voltou-se para ela, um tanto sobressaltado.
No fim, ele aquiesceu.
— S-sim… Ela o demandou.
Sansa aprumou-se, fitando-o.
— O rei ordenara que os papeis que o viessem para mim…
— A Rainha, princesa, insiste que ela deve analisar as questões.
Sansa deixou o trabalho de lado, amassando-o. Wylla o puxou, com medo de que rasgasse, enquanto a princesa erguia-se.
— Ela não tem o direito de imiscuir-se em assuntos meus! — vociferou ela. As altas bochechas anguladas estavam a enrubescer-se.
O meistre levou um dedo até a corrente envolta em seu pescoço, puxando os elos.
— A Rainha tem direito maior que uma princesa — retrucou o velho sábio.
— E meu irmão? Se ele não sabe disso, eu irei pessoalmente…
— Pri-princesa — o homem a interrompeu —, o rei sabe. Ele deu permissão para tal.
Ao ouvir aquilo, o rosto de Sansa anuviou-se, perdendo a cor, que esvaiu rapidamente. Era como se tivessem-na xingado e a toda a sua família.
— Tinha minhas suspeitas de que isto ocorria há tempos, mas não imaginava que meu irmão… — Abanou a cabeça. Relanceou para o velho meistre com os papeis. — E por que tal coisa? Eu…
— As pessoas têm reclamado de suas posições — ele revelou. — Os homens, tanto lordes como a plebe, reclamam que a senhora encorajou mulheres a armar-se, e que tem punido com muita severidade os homens que vão contra isso…
— Ah, pelos deuses! — exclamou ela, com a voz temperada pela irritação. — São estupradores em sua maioria! Ou, então, pais e maridos que se sentem no direito de bater nas esposas e filhas que querem treinar a auto-defesa! Como raios podem achar que mandar gente assim ser agredida ou executada como algo muito pesado?
O meistre encolheu ante a sua raiva… até ficar com a cara gorda escarlate e vincar o rosto, parecendo zangar-se com as palavras proferidas pela nobre.
— Mas a senhora não escuta os pedidos dos homens também!
Sansa pigarreou:
— Pelos deuses antigos e novos, você ficou louco? Não ouve os relatos? São homens que reclamam que tem o direito de bater nas esposas, filhas, ou mesmo em prostitutas! Ou pedindo permissão para, deuses me perdoem, prostituir esposa e filhas! Crê mesmo que coisas assim merecem atenção?
O meistre parecia mais inchado e vermelho do que nunca:
— Eles reclamam que a senhora nada fez sobre os estrangeiros e selvagens! Eles confiaram que, diferente da rainha, a princesa seria capaz…
— Capaz do que? Eles estão apenas a reclamar de que os estrangeiros e o Povo Livre estão a comer e a aquecer-se; estão reclamando que consideram que estão desperdiçando comida e tecido de lã apenas para Westerosis. Ou que eles estão a conseguir o serviço de costurar, cozinhar e servir a nobreza. Que posso fazer? Eles não cometeram crime algum; não posso ser injusta, gostando ou não deles!
O meistre bufou, voltou a pegar os papeis na mesa, amassando-os no processo.
— Vou levá-los até a Rainha — repetiu ele, com asco na voz, sem olhar para a rainha.
Encolerizada, Sansa disse:
— Vou exigir uma reunião com meu irmão!
O meistre girou os calcanhares, virando-se para ela, encarando a figura vermelha da princesa.
— Dada as decisões que tomou ao confiar em quem não devia — disse o meistre —, a princesa tem sorte de Vossa Graça e alguns pobres famintos ainda lhe darem ouvidos.
Que absurdo!, pensou Margaery, surpresa, enraivecida, e, de algum modo, divertida!
Ao ouvir aquilo, Sansa calou-se, voltando a sentar-se na poltrona. Estava afônica.
Sandor desembainhou a espada, Aly Mormont repetiu o gesto. O som de aço ressoou no ar. Wylla levantou-se
— Falar assim com a irmã do Rei é um absurdo. — Olhou para Sandor, relanceou para o meistre (agora com um semblante assustado), e apontou-lhe com o queixo. — Mata o desgraçado!
— Com prazer! — Sandor andou dois passos até o meistre, que deu um ganido assustado.
Não é mais tão corajoso agora, pensou ela.
Sansa parou seu Cão de guarda com um gesto de sua mão.
— Deixe-o, Sandor — a voz dela era calma, mas triste. Suspirou. — Deixe que ele leve os papeis.
Wylla pigarreou:
— Mas princesa…
— Deixe, Wylla. É apenas um velhote qualquer.
O meistre fez um “humpf!” e abaixou-se, grunhindo, para pegar os papeis no chão. Sandor fez um som abafado de raiva, embainhou a bainha, voltou para onde estava. Wylla fez um muxoxo, assentou em sua banqueta, pegou o tecido, voltou a ajudar na costura, ainda irritada.
Margaery aproveitou o momento, levantou-se:
— Eu o ajudo a levar — falou, enquanto andava até onde o meistre estava, sem nem olhar para as mulheres no local, que a fitaram enquanto afastava-se de onde elas estavam.
Sansa nada disse — claro, ela sabia que Margaery era uma espiã da rainha, não havia porque perder seu tempo para impedi-la. Além do mais, não havia nada que Margaery pudesse relatar para a rainha, de qualquer forma. Continuou passando a linha no tecido preto, agilizando seu trabalho.
(Na realidade, Margaery pouco tinha realmente vontade de falar algo de relevante para a Rainha Targaryen [se é que tinha mesmo algo de relevante a ser dito]; apenas estava a tentar afastar-se do local, daquelas mulher, quem sabe até achar Petyr ou Alleras para conversar.)
Margaery e o velho meistre saíram dali (Sandor fechou a porta atrás deles com uma força tão bruta, causou um estrondo tão alto, que até os assustou), desceram diversos lances de escada íngreme.
Ela deteve-se um pouco, evitando andar rápido nos degraus gelados, apavorada com a altura do local. O meistre, que era lento por si só, pois era um velho corcunda (e Margaery não o ajudara a pegar os papeis, deixando-o cansar-se), estava pouco atrás dela, tomando o máximo de cuidado que podia para descer nos degraus — um pé no degrau, depois o outro, então repetia o mesmo gesto no próximo degrau, retardando o próprio andar.
— Falou com muita coragem com a princesa — Margaery comentou, sendo dócil na escolha de palavras.
O meistre grunhiu.
— O Rei logo há de deixar esses assuntos para si — disse ele, com a voz fatigada pela lenta descida. — Todos estão desgostosos, desiludidos eu diria, com as decisões tomadas pelas duas mulheres. Eles estão a reclamar para o próprio rei Jon, pedindo que algo seja feito.
— Eu imagino quais sejam estas tais “reclamações” — ela falou, seca, enquanto andava escada à baixo, enquanto o frio arrepiava sua pele.
Terminaram de descer, passaram pelo pátio, andaram pelo frio, sentindo o vento morder-lhes o rosto. O som de aço mordendo aço reverberava, um tanto distante. Homens e mulheres testavam a força e agilidade de suas armas e movimentos corporais. Alguns lutavam e atiravam flechas em estafermos, mas, no geral, no local haviam poucas pessoas, em sua maioria servos, que levavam algumas roupas lavadas (ou para lavar), cota de malha polidas, diversos tipos de comida, bebidas, entre outras coisas. Muitos também retiraravam neve do solo, para facilitar o caminho dos andarilhos.
Margaery, que usava uma lâmpada de chumbo, de luz dourada um tanto esmaecida, para ver o caminho, olhava em volta, procurando por Alleras, Petyr, Ysilla, Brynden, qualquer pessoa relevante para si. Por sorte, avistou uma figura feminina conhecida — que sem dúvida estava à espera de Margaery — que era exatamente quem precisava.
— Psiu, você aí! — chamou ela, e a figura logo apontou para si, com um semblante confuso. — Sim, você.
A forma feminina de Alleras aproximou-se.
— Aqui, tome alguns — estendeu-lhe os papeis amassados.
Então, acelerou o passo, deixando o meistre para trás. Confusa, logo a figura feminina foi atrás dela, batendo o pé rápido na neve.
— Não o ajude — falou Margaery para Alleras, sem lhe dirigir o olhar. Sua fala formava nuvens brancas no ar, que logo sumiram. — Acredite, o verme não merece ajuda.
Alleras não fez expressão alguma.
— Alguma coisa? — ela indagou.
— O Brown Ben Plumm parece ter gostado da lábia de Petyr — ele comentou, ela percebeu que fazia um tipo de sotaque falso com a voz. Isso era bom, ninguém acreditaria ser uma mulher westerosi.
— Como sabem que podem confiar nele?
— Não sabemos — falou ele, com o suave contralto, parecendo cantar, graças ao seu sotaque dornês. — Mas um anel de aço valiriano convence a qualquer um. — Um meio sorriso roçou no canto de seus lábios cheios. — Um presente do mago Marwyn. Para algo aquele bastardo devia de ser útil, creio.
Margaery não assentiu, nem fez qualquer gesto para mostrar que ouvira e compreendera as palavras d’O Esfinge. O vento queimava seu rosto, de modo que ela logo não sentia nada em sua pele, nem mesmo se a movesse. Ignorou o gelo da neve em seus pés, andando longamente até a torre onde a rainha estava.
O velho meistre andava bem atrás deles, ficando ainda mais para trás, por causa da neve que o cobria.
— E a praga? — indagou ela, percebendo que realmente não sentia o movimentar de seu rosto.
— O fluxo anda a diminuir — respondeu-lhe ele. — A outra, porém…
— Ainda há muitos casos?
— Os mesmos de sempre, milady. Algumas pessoas morreram, no entanto.
— Ainda acha ser veneno?
Ele deu um rápido aceno.
— Vômito, diarreia, cólicas, feridas nas mãos, fraqueza, perda de cabelo, perda de visão, da audição…
Margaery tinha certeza que fez uma careta, apesar de não poder sentí-la.
— Que veneno faz algo assim?
— Vários, na verdade, principalmente entre os metais. Mas nem todos fazem todos estes efeitos que vos falei.
Ela o olhou de esguelha por um instante, voltou a olhar para frente.
— Que quer dizer?
— Quem envenenou essas pessoas, deve ter colocado mais d’uma substância venenosa, M’lady — explicou ele.
Quase não conseguiu segurar um suspiro de horror.
— Por que alguém faria tal crueldade? Para garantir a morte?
Ele anuiu.
— Talvez. Ou, uma coisa que pensei, é que tudo isto é para fazer parecer uma falsa praga. Para passar despercebido pelos sábios meistres, que estão ocupados com esses e outros problemas.
— E eles não poderiam suspeitar de ser uma praga, Alleras?
A figura feminina deu de ombros.
— Estão afobados com mil e um problemas, a praga nova é apenas um deles. E pragas surgem fácil em tempos de guerra. Mesmo os tempos de paz do Rei Jaehaerys teve a praga da Arrepios, que devastou todos os sete reinos. — Continuou: — Além do mais, o Rei mandou ordenar queimar todos os cadáveres. Morreu, vai para as chamas.
— E não tem como achar o sinal de algo envenenado?
Ele chacoalhou a cabeça, fazendo parecer que estava a espantar a neve dos cachos pretos.
— Muitos venenos são solúveis, incolores e inodoros, M’lady. Podem estar em qualquer bebida; desde vinho até a água d’um poço.
Ela tremeu. Não por frio, mas pelo horror de alguém tão cruel e esperto existir — pior, existir alguém assim entre eles, sem saberem quem seria.
— Como está a bela princesa? — indagou Alleras, criando nuvens gélidas, bagunçando flocos de neve.
— Continua bela.
— Sabe o que quero dizer.
Ela suspirou.
— Cansada, triste e sozinha.
Caminharam um pouco em silêncio, com os passos afundando na superfície densa e gelada que cobria o chão.
— Não estamos todos? — Alleras falou, num tom monocórdico, enquanto seguiam em frente.
Nada mais foi dito por um tempo.
Quando estavam perto da Torre da Viúva, onde a rainha Daenerys encontrava-se, Margaery disse:
— Vê se trata de dar uma boa lição naquele meistre ela falou, pouco antes de entrarem na torre.
— Por que? — perguntou num sussurro. A curiosidade foi tanta, que deu um leve franzir de cenho.
— Acredite, ele merece.
— Não é resposta.
— Humilhar sua amada princesa é o bastante? — indagou ela, sem olhá-lo. Ele não respondeu.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Estava realmente farta de subir e descer os malditos degraus desse castelo. Quem dera Aegon I tivesse queimado aquela maldita fortaleza!
Como os aposentos da Rainha também eram os aposentos do Rei, ela fora obrigada a passar pela imensa e íngreme ponte de pedra que levava até a Torre da Pira do Rei — o cuidado para segurança era tanto, que agora ninguém poderia subir diretamente até os aposentos dos monarcas.
Margaery andou pela pedra negra e fria, sentindo os golpes potentes de ar enregelante tentando lhe jogar dali. Seu cabelo batia em seu rosto, alguns papeis voaram, mas ela estava acostumada a tais situações — não acostumada o bastante para não ter medo, mas acostumada o bastante para fingir não tê-lo.
Entrou nos aposentos da rainha, sentindo-se aliviada por finalmente sair da neve.
A rainha estava sentada de frente a sua escrivaninha. Virou a cabeça em direção a porta onde estava Margaery e seus companheiros.
— Deixem os papeis e saiam — demandou ela. — Menos Margaery.
Alleras pegou os papeis do Meistre e deixou-os por cima da mesa, com Margaery fazendo o mesmo gesto. O Esfinge e o meistre fizeram uma vénia, saíram, sem virar, de cabeça baixa. Margaery permaneceu.
Apenas as servas de Daenerys lhes faziam companhia. O rei não estava por ali, pois estava a treinar soldados no pátio.
(Era mais fácil para Jon, não é? Ele podia liderar e treinar com os seus com mais segurança do que a esposa e a irmã, mesmo que muitos estivessem desgostosos dele por justamente dar apoio à elas — como as duas sentiam-se em relação a isso?)
O cabelo prateado da monarca ainda estava bem curto, chegando quase até as bochechas, estava livre de tranças, mas encontrava-se mais revigorado após o tempo que ficara chamuscado após a batalha dos dragões.
As cicatrizes, porém, nunca iam de sumir.
— Então? — a Rainha Daenerys indagou, sem olhar para ela, desenrolando um dos papeis deixados em sua mesa. Estava cheio de dobras, pois acabou sendo amassado durante o percurso (na verdade, todos os documentos foram).
— Não tenho nada a informar, Majestade.
Daenerys a olhou pelo canto do olho.
— Tem sido bastante repetitiva quanto a isso — ralhou Dany. — Sinto que até Ysilla tem conseguido me falar mais de Lady Myranda.
— Lamento, Vossa Graça, mas nada tem acontecido na vida de vossa cunhada atualmente.
O semblante de Daenerys ficara pensativo após isso. Ela deixou de lado os papeis, recostando-se em seu assento. Suspirou longamente, parecendo estar cansada. Seus ombros estavam caídos. Relanceou para baixo, vendo a pilha de documentos na sua mesa.
— Deve realmente estar sendo difícil para ela — falou a Rainha, referindo-se a Sansa. — Ysilla tem dito o mesmo para Myranda.
— Foi feito algum acordo em relação ao herdeiro do Vale? — atreveu-se a indagar.
Daenerys virou seu semblante para encará-la, parecendo exasperado pela imiscuidade da moça. Por fim, deu de ombros.
— Tentamos — respondeu-lhe —, mas o Banco disse que o rapaz é seu refém até a guerra acabar. Ou seja, até que paguemos a maldita dívida.
— Nada disso aconteceria se Sansa não tivesse confiado na pessoa errada — pontificou Margaery. — Ela cometeu um erro ao ser tão leviana quanto a Alleras.
— Eu também confiei demais nele — ela retrucou. — Ninguém poderia prever que ele teria tamanha astúcia. — Meneou a cabeça. — Deve estar em algum lugar do Sul agora, talvez em Dorne. Ou quem, sabe, conseguiu um navio para fora do continente. De qualquer forma, duvido que esteja no Tridente.
— Crê que ele possa estar na Capital? Um enviado de Aegon? — Era bom aproveitar e tirar qualquer possibilidade da Rainha suspeitar do inimigo estar por perto.
Daenerys negou tal possibilidade com a cabeça.
— Não é impossível, mas não creio nisso. Ele devia apenas querer dinheiro. Pode muito bem ter fugido com os próprios bravosis e esteja em alguma mansão de Braavos neste momento.
Daenerys voltou a olhar os papeis.
— A princesa sabe que você tem visto seus casos — revelou Margaery.
Daenerys deu de ombros, sem tirar os olhos dos escritos.
— Que seja, eu nem sou contra as decisões dela — disse. Olhou para ela. — Não devia ter lhe dado ouvidos quando sugeriu-me pedir a Jon… — calou-se.
Nesse momento, Margaery engoliu seco, sentindo o olhar púrpura de Daenerys a fitarem de forma sombria. Encolheu-se, não conseguindo esconder o medo que sentiu.
No fim, ela fez um gesto leve com a mão.
— Não importa. Deixei-me levar pelo asco em relação a minha cunhada, apenas eu posso culpar-me por isso.
A rainha pegou o papel que havia desenrolado para terminar de ler. Ao fazê-lo balançou a cabeça, soltou o papel, recostou-se no espaldar da cadeira, suspirou.
— Pelos deuses, é um pai achando-se no dinheiro para vender a sua filha em troca de comida, como raios eu poderia discordar da decisão da princesa ao dizer que, além de não ter dinheiro, a filha deve ser afastada do pai? — Apertou o nariz com os dedos e fechou os olhos com força, o que fez suas cicatrizes se contorcerem, enquanto meneava a cabeça. Quando abriu os olhos, olhou para cima, como que fazendo um apelo mudo e cansado aos deuses. — Existe mesmo algum motivo para lutar pela vida? — Voltou seu rosto para a mesa, gesticulou para os papeis com os braços. — Porque, vendo todas essas atrocidades, eu realmente não sei mais no que acreditar!
Margaery apenas a fitou, emudecida. Por fim, Daenerys pareceu lembrar-se de que ela ainda estava lá, dispensou-a com um gesto da mão. Margaery fez uma vénia, girou os calcanhares, saiu do cômodo.
No lado de fora, Alleras — ainda em sua esguia figura feminina — e o velho meistre a esperavam, aguentando as crueis rajadas de vento que agrediam seus corpos.
— Não sei por que esta maldita falou para que eu a esperasse! — grasnou o velhote, abraçando-se para proteger-se do frio, com o tilintar dos elos das correntes, que agitavam-se pelo vento. Acenou com a cabeça para a alta e bela figura escura e feminina ao seu lado, que permanecia afônica.
— Vamos — Margaery falou. — Quero sair logo deste frio.
— Mas…
— Depois lhe explico — ela atalhou, passando pelo velho, mas Alleras a parou, tocando-a no ombro. Dirigiu-lhe um olhar confuso, fitando-lhe os olhos escuros, até que entendeu, assentiu.
Deixaram o meistre passar por eles. Apesar de confuso, ele não reclamou, querendo sair logo do frio congelante.
Alleras não podia cuidar dele ali, na ponte, pois os imaculados estavam de vigia no local, parecendo aguentar o frio, aprumados, segurando suas lanças. Nem sequer pareciam tremer.
Enquanto desciam os íngremes degraus em silêncio, Alleras e Margaery retardavam bem os passos, para se deixarem bem atrás dos passos do velho sábio à frente deles. Quando teve certeza de que estavam sem vigias — e cansada de andar tão lentamente — Margaery acenou para Alleras. Este repetiu o gesto, acelerou um pouco os passos até ficar bem perto do meistre, levantou uma perna, arqueando-a, chutou-lhe as costas com força. O homem soltou um ganido assustado quando pareceu quase voar, batendo seus braços no ar, parecendo um corvo a bater suas asas. O envelhecido e frágil corpo bateu repetidamente em diversos degraus oblongos e pontudos, diminuindo conforme caia, caia, caia…
Margaery seguiu a figura girar, cair, diminuir, até sumir na escuridão, com seus olhos de corça. Isso a levou para o passado, até seus tempos no Vale, antes de chegar nos Portões da Lua, quando ainda estava nos Dedos, aquelas terras pequenas, pobres, sujas, esquecidas pelos deuses. Lembrou-se de quando irritara-se com um meistre — nem lembrava-se mais o porquê — e pedira para Sor Gendry o derrubar da escada da torre sem nome de Petyr Baelish.
Lembrava de ter sentido culpa ao ver a imagem estatelada do meistre, grunhindo de dor, ferido por sua culpa.
Agora, no entanto, não sentia nada.
— O meistre precisa de um meistre — debochou ela, num tom monocórdico.
Alleras virou e ergueu a cabeça na direção onde ela estava, franzindo o cenho. Estava numa posição que lembrava a de Sor Gendry, após este empurrar o pobre meistre, quebrando-lhe a perna (fora mesmo a perna?). A diferença era que Gendry era a olhou com um leve gracejo nos olhos azuis; Alleras cravou nela um olhar de espanto e descrença.
— Vejo que vosso coração é tão duro e frio quanto as pedras desse castelo — ralhou ele, com seu contralto suave, girou os calcanhares, desceu pelos degraus onde havia acabado de empurrar o meistre.
Margaery ficou ali, parada, observando a esguia e esbelta figura descer os lances de escada até sumir de sua vista.
Pense o que quiser, disse ela a si mesma. Não iria dar-se ao luxo de ficar triste pelos comentários d’O Esfinge. Voltou a descer os degraus, em silêncio, pensando em aproveitar o tempo e ir até o pátio, onde os homens treinavam. Sim, era uma boa ideia. Lorde Blackwood poderia estar lá.
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