Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
88 Golpe Surpresa
A Rainha encontrava-se absolutamente irritada com o recém descoberto óbice em seu caminho para vitória: seu mais novo dragão de estimação simplesmente não era tão resistente quanto o esperado! Além do fogo, mal podia arranhar o outro ser cuspidor de fogo! Como poderiam os deuses obter alguma vitória se sua principal arma bélica ainda fosse mais fraca em comparação a arma inimiga? Isso era mais que um infortúnio!
Uma onda de vozes turbulentas percorriam a sua mente e corpo. Uma onda de ódio que enchia o coração – ou algo metafórico a isso – dela. O ódio que os deuses sentiam, era dela também. E dos outros servos dos deuses, os de sangue frio.
— A criatura está ferida, gloriosa rainha – pontificou Jorah. Provavelmente queria tirá-la desse estágio miserável de fúria, derrota e humilhação. — Podemo-lo matar. — A voz era hesitante. Tinha medo dela matá-lo.
A rainha tentou usar a razão em meio a irracionalidade emocional que acometia em sua escravizada alma. O dragão-wight ainda podia ser usado – não contra o irmão ainda vivo, mas contra o Corvo de Três Olhos. Sim, enquanto o Wyvern se recuperasse de sua última queda, poderiam levar o escravo com asas até onde se encontrava o corvo e…
NÃO!, o panteão de deuses que vivia em seu cérebro ordenou, fazendo ela sentir uma onda avassaladora de dor. Todo o seu corpo pareceu quase quebrar quando os deuses antigos lhe flagelaram a alma.
Mas o último vidente deve ser morto, ousou ela contestar, para que assim possamos garantir a derrota total da humanidade…
Silêncio! A horda de revoltosos deve de ser assimilada por nós, para que assim possamos aumentar nosso poder. Para provarmos que somos os ganhadores, os deuses de verdade. Matar a colmeia de mentes apenas seria uma vitória vazia, sem real ganho. Sem mentes para comandar…
Mas, ao matarmos o corvo, matamos não apenas o conhecimento dos pagãos assassinos; matamos praticamente qualquer chance de vitória do inimigo, pois este não teria como ter poder e conhecimento igual ao nosso. A derrota da humanidade é tudo o que importa para…
VOCÊ NÃO NOS DIZ O QUE IMPORTA!
A agonia foi tamanha, que a Rainha nem percebeu que estava caída no chão por algum tempo. Caira de sua montaria aranhosa. As deidades tinham tomado sua decisão; ela obedecia.
Ninguém ousou falar nada enquanto a rainha se aprumava, ficava ereta, subia na montaria de gelo. Era sempre constrangedor quando o nume se unia para humilhar a líder deles.
— Temos de obedecer nossos deuses — falou ela, sem entonação alguma, ao terminar de montar em sua aranha. Nem sequer olhou para qualquer um ali. — Quando fizermos o que eles querem, quando cumprirmos nosso dever, estaremos nas graças divinas. Estaremos livres, agraciados por eles.
Ninguém retrucou. Apenas estavam quietos, olhando para a mãe deles. Estavam sentindo a apreensão dela (e ela, a deles). Ninguém realmente sabia se existia algo após o propósito divino. Na verdade, sequer pensavam sobre tal fato.
Antes de qualquer um deles tomar qualquer atitude, a rainha ergueu o olhar, esquadrinhando o campo de batalha.
Uma imensa cortina de fogo cobria o escomunal castelo onde o corvo estava. Usando os olhos dos escravizados, notou que eram pessoas que erguiam o fogo tecido – usavam vestes de cores quentes, enquanto cantavam. Cultuadores do fogo, pelo que pode apreender das almas dos mortos. Sim, eram sacerdotes de terras além mar – terras onde a frágil Dany um dia vivera; ou próximas dela (agora tinham nomes e edificações muito diferentes). Acreditavam que os deuses dela eram “O Grande Outro”.
Patéticos, apenas usavam uma magia elementar, nada demais. Ela se lembrava de que, em outra vida, ouvira histórias de pessoas que moravam próximas d’um imenso rio, que eram capazes de comandar a água. Era apenas mais um sortilégio qualquer.
Fosse a religião dos de vermelho verdadeira ou não, a mágica deles a atrapalhava. Tinha de dar um jeito nisso.
Quanto ao castelo em si, estava com alguma vantagem: diversos morreram no vendaval enregelante que a Rainha mandara. Quase pudera matar todos no salão, mas os sangue quente conseguiram salvar-se a tempo, queimar os corpos mortos, fugir. Isso era coisa do Corvo! Ele comera boa parte dos escravos, dando tempo para os humanos se recomporem.
Não importava. Havia um coorte de Wights no castelo; matariam vários antes deles conseguirem escapar para algum local seguro. Além disso, o dragão que despencara do céu ajudou a abalar ainda mais as estruturas; esmagando os vivos embaixo dele, amedrontando os vivos. Muitos perderam a vivacidade para lutar quando o imenso ser de fogo caiu dos céus escuros. Desnecessário dizer que os de sangue frio usaram disso para garrotear quantos podiam.
Destarte, ainda havia uma irritação que se encontrava entre as muralhas de pedra e as de fogo; o ser que empunhava a espada de luz contra a escuridão. Seu brio brilhoso ascendia a coragem e esperança nos homens e mulheres, ela podia sentir através de suas habilidades – as almas aprisionadas sentiam o desejo de lutar voltando com tudo quando observavam o rebrilhar da espada longa. A luz queimava os olhos da Rainha, enfurecia o seu ser.
Conhecia aquele homem: Jon Stark (ou Snow, que seja). As almas eram um livro de história para a Rainha, que os lia com rapidez. Ele unira o tal “Povo Livre” com os outros povos do Sul. Sim, ele parecia-se com um valiriano, ou mesmo com um vidente verde albino, mas não era nem um nem outro. Era um Stark. Era da linhagem que a derrotara há muito.
Milênios se passaram, mas em nada as informações surpreendiam a Rainha – a sociedade dos sangue quente, pelo que ela absorvia de suas mentes escravizadas, em nada mudara muito – castas inúteis, vivendo uma hierarquia velha e desbotada; regras de gêneros que os homens que viviam em castelos impuseram; mesquinharia e fintas desnecessariamente sangrentas. Não era surpresa que a cruzada dos deuses estivesse indo tão bem – magia estava praticamente esquecida; a sociedade, dividida; os servos dos deuses antigos eram uma história de ninar infantil.
Em milênios de preparação, a humanidade apenas regrediu, nunca aprendendo com seus erros.
Esse era o momento, o momento das deidades tomarem o que lhes fora tirado à força!
A rainha concentrou suas forças no escravo no céu; apesar de não ter o corpo inteiramente perfeito – ainda em vida fora desventrado pelo irmão antes de cair para a morte –, ainda era a melhor arma que tinham.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O
Stannis olhava irritado para as chamas. Cerrava os dentes. O cenho num esgar duro, franzido. Os sacerdotes nem o olhavam, apenas cantavam, mantendo as chamas acesas. Boa parte dos guerreiros que ainda estavam vivos encontrava-se perto do Rei – se é que ele ainda podia ser chamado assim. Formavam algumas fileiras para abater os mortos que se aproximavam, mas não era muito encorajador a ideia de ficarem parados no mesmo lugar, enquanto um exército de mortos, em número bem maior, caminhava até eles de um lado, e uma parede de labaredas estava logo atrás.
Mas Stannis os fez permanecer. Estava aguardando Jon. Sabia que ele logo ia de estar por ali. Apenas tinham de esperar na neve massante, enquanto lutavam contra seres imortais e esperavam os fanáticos de fogo pararem de brincar.
Será que não veem que a fogueira é inútil? Sabem que não há de afetar os Caminhantes, apenas os seus mortos de estimação; mas isso não durará, nem será eficaz.
Stannis observava a direção donde estava o dragão caído. A fera alada de Daenerys despencara dos céus, esmagando as pessoas na muralha de harrenhal; deslizou até o chão, em seguida, esmagando os que por lá estavam. Duvidava que o monstro estava morto; a criatura gritara sem parar, batendo as asas num som ribombante copioso. Agora, acreditava Stannis, o dragão estava fraco, exaurido pela batalha voadora e a queda. Talvez estivesse desacordado.
Viva, a criatura ainda era de grande utilidade – provavelmente mais útil do que qualquer um que corria de espada na mão –, mas, enquanto desfalecido, era um alvo tentador para os inimigos. Especialmente para o estranho ser esquálido que o Rei vira despencando junto do dragão negro, pouco antes do bicho bater voo, largando Daenerys e sua estranha cria para a morte.
Se a Mãe de Dragões estivesse morta, Stannis não tinha garantia alguma de que seu dragão vivo seria útil. A fera podia voar – se ainda fosse capaz de –, jorrar fogo tanto nos vivos quanto nos mortos; entretanto não estaria de nenhum dos lados, sendo só mais uma fera descontrolada.
Rilhou os dentes mais uma vez. Olhou de través, vendo um luz pálida urgindo em meio à treva que cobria o mundo. Stannis ergueu sua própria espada, sinalizando (ou pelo menos tentando). Uivos foram ouvidos, aumentando paulatinamente.
Uma matilha devastadora varreu os mortos insurgentes, destroçando seus corpos frios com dentes e úngulas afiados. Os mais fáceis de serem abatidos foram os que não usavam armaduras, esses tinham a pele mais exposta e usavam, mormente, vestes lanosas desgastadas. Alguns nem vestes tinham, mostrando seus corpos nus e esquisitos. O rei do Norte usava de sua imensa e rebrilhante espada para cortar os corpos de seus oponentes, que eram trespassados pelo gume com mais facilidade do que uma faca ao cortar um queijo, sendo logo imbuídos em chamas. Os homens e mulheres armados usavam de suas lâminas mais comuns para repetir o gesto, embora menos eficazes. Alguns usavam clavas, machados, escudos, adagas, arakhs, o que quer que tivessem. Dois mamutes lanudos surgiram, com selvagens atirando flecha de imbuídas em fogo contra os mortos, pisoteando em qualquer um e qualquer coisa que estivesse em seu caminho – por vezes até em vivos que estavam no lugar errado, no momento errado. Stannis intuiu que os imensos quadrúpedes lanudos eram controlados por wargs, pois os ressuscitados de olhos brilhantes amedrontavam tais animais. Os gritos de guerra dos humanos, o uivar dos lobos, os gritos dos gatos-das-sombras, o relinchar dos cavalos, mesclavam-se na noite densa, num uníssono ensurdecedor, quase que estourando os tímpanos.
Jon Stark estava montado, ereto, em seu imenso lobo albino. As chamas pintavam a penugem alva do animal de dourada. Havia sangue em algumas partes de seu corpo, pontos rosas em outros; os revividos deviam de ter lhe agarrado o pelo, puxado com força. Baba escorria pela boca, onde dentes amarelos estavam arreganhados. O lobo gigante parecia em fúria, mas não fazia qualquer som.
O monarca apeou do animal. Trajava a armadura escama de Euron, com ondas cinzentas; runas e glifos dançavam quando o brilho da parede de chamas as tocavam. O Rei Stark mais parecia um Targaryen – não apenas pela armadura envergada; seus cabelos brancos pareciam prata com filetes d’ouro (causados pela luminosidade); sua pele pálida, cheia de filetes rosados, assemelhava-se a tez da Rainha Dragão. Apenas o rosto oblongo e o queixo forte assemelha-se a ossatura Stark.
Jon aproximou-se de Stannis. Seu olhar era desconcertante até para o rei Baratheon – rubro e negro. desigual. Imperfeito. O lusco-fusco batia na face longa do nortenho, a pele luzia, macabramente sem vida, por um lado, enquanto o outro era constituído por treva. O olho de vidro de dragão estava do lado iluminado, contrastando com epiderme brilhante, parecendo um buraco onde devia de estar o olho. O outro o olho, por outro lado, brilhava como o rubi que Lady Melisandre usava no pescoço; ou como uma bolsa de sangue de dragão. Parecia pulsar no ermo.
Stannis fez o possível para não abalar-se ante tal visão. Parecia estar de cara com um monstro de contos antigos. Sem rodeios falou:
— Temos de tirar os sacerdotes daqui — apontou para o clero com a cabeça.
Silencioso, o Rei do Norte olhou para a barreira de chamas, esquadrinhou o sacerdócio, depois voltou a encarar Stannis.
— Certo. Mas não acho que hão de me ouvir. — Voz monótona. Baixa.
— Benerro escuta Daenerys, mas ela talvez nem viva esteja.
Jon assentiu, languidez no gesto. Fumaça saia tanto de sua espada quanto de seu braço preto.
Ele é o príncipe que foi prometido, pensou Stannis, o Rei do Norte e do inverno e da aurora.
Mas por qual motivo Bran dissera que não era Jon quem traria o inverno e a aurora? O bastardo de Ned Stark não tinha tal fardo sobre seus ombros? Tais pensamentos ainda fincavam-se em sua mente, atordoando-o. O Corvo sabia de algo, isso era bem claro; mas Stannis sabia que tinha de cumprir o seu dever. Nunca pediu por isso; mas o faria mesmo assim. Era o seu dever, e ele sempre fora um homem de dever.
Antes de continuarem a interlocução, Jon virou-se para o exército.
— Não devemos perder a esperança — declarou para todos. — Daenerys ainda pode estar viva, e devemos lutar mesmo que ela não esteja conosco. Quero todos armados contra o inimigo; mesmo que tenhamos-no derrotado, o pior está apenas por vir.
Alguns soldados gritaram e balançaram as armas, mas era visível ver que a maioria ficou muito abalada ao saber que tudo o que passaram fora apenas o começo. Os dois reis voltaram a se encarar. Havia um corvo velho pousado no ombro do rei nortenho, mas ninguém nem prestou atenção quando a ave sequer pousou nele. Estavam todos distraídos com outras coisas mais importantes para sequer dar-lhe atenção.
— Os sacerdotes podem ser nossa linha de defesa — falou Stannis. — Mas justamente por isso deveriam estar dentro do castelo. Quando tudo cair… e vai cair…, devem preparar-se para protegerem seu irmão a todo o custo.
Jon concordou.
— Acha que podem ouví-lo? — Stannis indagou. Os seguidores podiam ou não ser a grande salvação que tanto proclamavam ser, mas fanáticos eram fanáticos; tinham ouvidos moucos para a razão e eram mais obedientes que um cão para quem achassem ser o salvador proclamado. Insetos voando até a luz.
O rei respondeu com um dar de ombros. Seu manto negro esvoaçava de forma ruidosa por conta da ventania.
— Talvez. Onde está Benerro?
Dessa vez, foi Stannis quem deu de ombros.
— Não faço ideia. — Apontou para o lobo gigante de Jon com o queixo barbado. — Segue o cheiro.
Jon deu um meio sorriso, parecendo achar divertido. Stannis não gostou disso.
— Não é lá má ideia, mas… — Nunca conseguiu encerrar a sentença, pois virou-se, encarando o céu, sobressaltado.
Stannis franziu o cenho; os animais pareceram ficar igualmente alvoroçados.
— Que foi agora? — Quis saber, vendo que o Stark não era desse feitio. Algo ruim estava chegando.
Ao mesmo tempo, houve um grito perto de onde estavam. Stannis relanceou para a cena. A princesa Nortenha parecera ter desfalecido.
— Arya? — Gendry virou-se. A irmã do rei estava nos braços de Ned, que a pegou quando ela deu um grito e as pernas pareceram esmorecer. Tinha uma mão pousada na têmpora, grunhia de dor. A loba dela uivou contra os céus, antes de começar a parecer ter algum ataque, começando a se morder loucamente, enquanto ficava rodando no solo.
O Rei Baratheon viu tudo aquilo, sem entender nada. São os trovões que os assustam?
— Mas que…?
— ABAIXA!
Sentiu alguém dar-lhe um baita puxão pelo braço, quase esmagando-o. Era o rei do norte com sua cadência enrouquecida; mas agora tomada pelo desespero.
Alguém apontou para o alto, gritou:
— DRAGÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!
Todos berraram na mesma hora. Alguns correram; outros abaixaram-se. Mas a fera não cuspiu fogo. Seu corpo disforme, cadavérico, aterrorizante, cortava o ar, parecendo castigá-lo com o chicotear das asas. Desceu perto do local, não chegando a pousar no chão. A poderosa golfada de vento apagou as chamas que faziam uma barreira no poço, mas esta logo se refez no mesmo instante. O golpe de ar, porém, fez alguns soldados, sacerdotes, filhos da floresta e animais serem arrebatados para longe, quase voando. Outros, porém, foram apenas pegos pelas garras e dentes do Wyvern.
Um dos apavorados, talvez perdendo a conexão com seu mestre – fosse por esse ter morrido, desacordado ou apenas perdido a concentração no golpe surpresa – mamutes correu para longe, ignorando os protestos dos selvagens que o montavam; alguns caíram durante a debandada. O outro mamute, porém, não teve sequer chance; Viseron cravou suas mandíbulas em sua cabeça pequena, torceu-a. Assim que soltou o animal, este tombou de uma vez, já morto.
Um dos gigantes tentou agarrar o dragão, mas o animal, mesmo morto, ainda era mais rápido e sagaz; mordeu o gigante lanzudo no ombro, fazendo-o urrar de dor enquanto pressionava mais a mandíbula e balançava a cabeça, esmagando os ossos e músculos por trás da pele rasgada. Sangue jorrava, empapando o pobre gigante. Durante a cruel cena, uma mulher gigante, talvez companheira do lanudo atacado, segurando um machado feito de tronco de árvore e pedra tentou aproximar-se por trás, pronta para dar um bote na fera alada. Inútil, pois, mesmo sem intenção, uma chicotada da cauda de Viserion quebrou-lhe o pescoço, rachou-lhe o crânio.
O dragão pálido soltou sua presa, que caiu de joelhos, depois deu cara na neve. O ombro atingido estava esfacelado, jorrando sangue; o braço, praticamente separado do corpo. Ainda não estava morto, mas logo estaria.
O dragão começou a erguer-se no ar, batendo as asas. Neve, pessoas e animais voltaram a voar. Bruscamente, parou, voltando a voar baixo. Suas garras agarravam os que encontravam; isso quando seu vento não os empurravam para longe do chão. Em alguns momentos descia a cabeça, agarrava os humanos com os dentes, jogava-os para longe, como bonecos de pano qualquer. Alguns tentavam usar de flechas, mas estas mormente eram jogadas para longe pelos golpes de vento potente; isso quando não passavam longe do corpo esguio e pálido de Viserion, ou simplesmente se quebravam contra sua pele encouraçada.
— Como paramos essa coisa? — indagou Gendry, observando a figura escura e dourada de Viserion matar quem quer que estivesse em sua frente de forma desenfreada. Era um verdadeiro abate!
— Só um outro dragão podê-lo-ia fazer! — redarguiu Arya. Cuspiu sangue na neve, junto de um dente. O irromper de asas do dragão jogara ela, Sor Gendry e Edric para longe. Mesmo com a neve fofa amortecendo a queda ainda acabaram machucados pelo impacto.
Edric ergueu o torso, firmando-se pelos cotovelos, jogou a cabeça para o lado, escarrou sangue. Seus cabelos argentinos, bagunçados pelo vento, ficaram empapados de vermelho.
Arya virou-se, alerta. Dirigiu o olhar cinzento para a barriga de seu marido. Havia uma espada pequena fincada em sua cintura, lado esquerdo, trespassando o tecido púrpura e o couro fervido por por debaixo. Uma mancha escura estava se intumescendo em volta do local.
— Pelos deuses… — falou Gendry ao ver aquilo, nem se lembrando de que só acreditava em um deus.
Arya deu um grito ao ver acena. Por instinto, levou a mão enluvada até a empunhadura. Deu um puxão, que fez seu marido se contorcer de dor. A pequena lâmina logo estava solta. Edric deu um grito horripilante, expelindo mais sangue. Os dentes ficaram amarelados, debruados em vermelho. Filetes sanguíneos escorriam pela pele perolada.
Assim que o fez, arrependeu-se. Como fora estúpida! Agora não tinham como estancar o sangramento!
Largou a espada, deixando-a de lado. Levou uma mão até o ferimento aberto, tentando estancar o sangramento. Um gesto débil, mas ela estava desesperada demais para pensar e fazer algo com sentido. Segurou as costas de seu marido com o braço, levando uma mão até a nuca dele. Sor Gendry erguia-se, ainda abalado após ter sido jogado para longe. As pessoas gritavam e morriam enquanto o dragão causava no céu, mas Arya nem reparou neles, assim como nem reparara nas lágrimas que escorriam e queimavam seu rosto. Apenas olhava para Edric; fitava seus olhos púrpuras, semicerrados, chorosos. Seu marido a olhava de modo fraco. Sua respiração era um desconcertante chiado agitado. Moveu os lábios, rubros, fracos, trêmulos:
— F-foi…
— Não fale — disse ela, sentindo uma dor intensa no peito. — Por favor, não force…
— V-v-você… — Ele ergue a mão, gesto lânguido, apontando um fraco dedo para ela. — Foi… Você…
Confusa, Arya franziu o cenho, não vendo sentido no que ele balbuciava para ela. Assustada quando pareceu compreender, dirigiu os olhos até a pequena espada caída no colo de seu marido. A delgada lâmina acerada estava empapada pelo sangue de Edric. Curta como uma espada bravosi.
Era Agulha.
Fale com o autor