Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
82 Farol de Esperança
Stannis nunca teve gosto pela batalha. Robert, porém, sempre fora glorioso nela – lutava como ninguém, fazendo inimigos virarem aliados com facilidade. Stannis, infortunadamente, não nascera com tal dom – as pessoas amavam Robert e Renly, mas nunca gostaram dele. Tudo bem, nunca pedira para ser amado; mas o ressentimento nunca sumiu. Seus irmãos nunca o agradeceram por qualquer apoio, assim como nenhum aliado dele – exceto o falecido Davos, o único que realmente mereceu a alcunha de “amigo” por Stannis – jamais deixou de compará-lo a Robert. Não importava o quão barulhento e beberrão o primogênito de Steffon Baratheon fosse, ele sempre seria o preferido de todos para lutar, beber, caçar, até mesmo reinar. Tal qual o ultimogênito de Steffon também sempre era mais amado do que o rebento do meio.
Stannis lutou pelo trono porque era seu direito; agora ele lutava pelo que era certo para a sobrevivência do reino. Pela sobrevivência da vida. Ele, Jon, Daenerys, unidos contra o mal maior. Não importava a ambição e o direito de cada; um monarca lutava pelo bem de todos.
Não sabia se podia mesmo confiar em profecias – elas já o haviam feito de tolo antes –, mas ele estava disposto a seguir aquela que prometesse salvar os reinos do fim.
Se isso prenunciasse seu fim, que assim fosse.
Sua espada não emitia calor algum, mas agia como um farol para todos que buscavam uma esperança para lutar. Mesmo após o devastador golpe gelado, o espírito vivo ainda tinha alguma força vital para continuar a batalha.
Sua perna direita parecia arder como um tição em brasas, mas não importou-se, forçando caminho entre os mortos que andavam, usando sua lâmina rebrilhante para cortar os seus membros. No começo mirava na cabeça, mas logo percebeu que era inútil quando se viu obrigado a ainda cortar as pernas e braços.
— Cortem as pernas e braços, tolos! – berrava diversas vezes. — Essas coisas não precisam de cabeças, mesmo elas sendo mais inúteis que as vossas!
A neve fustigava os olhos dos demais, como quando uma tempestade aspergia com seus pingos copiosos, cegando todos no campo aberto. A neblina de frio e fumaça cegavam ainda mais. O montante de flocos no chão retardava os passos dos combatentes. Aqueles de olhos azuis como estrelas, mesmo parecendo lentes, desengonçados, pareciam não se importar com nada daquilo. Marchavam sem parar.
Stannis tentava chutar a neve, enquanto lutava para se manter em pé. O enregelar parecia enrijecer seus membros, deixando-o, assim como a todos no exército, lentos. Nem mesmo o estofado por debaixo das placas de metal era capaz de aquecer o corpo naquele frio em que o mundo estava preso. Um inferno invernal.
Por sorte o Povo Livre detinha habilidades que auxiliavam na batalha: controlar a mente animal. Muitos usavam lobos, outros ursos, alguns até estavam montados em mamutes, usando flechas de obsidiana para acertar os inimigos. Alguns, incapazes de montarem em seus companheiros, lutavam no chão, enquanto usavam de seus animais asas – para ter um boa visão do céu –, das garras e bicos para rasgar e bicar a pele dos caminhantes pútridos.
Havia alguns que tinham o auxílio dos esguios e saturninos gatos-das-sombras. Belos, mortais, passos como uma dança leve. Seu pêlo azul-preto, riscos branco-neve, escondia-os nas trevas, prontos para desferir o ataque.
Apesar de todo o frio que sentia, Stannis ainda sentia seu corpo transpirar, parecendo arder nas têmporas. Resfolegava, criando neblinazinhas. Isso quando não rangia os dentes.
O rei tentava achar Jon, ambos se perderam nesse terreno tempestuoso que o inimigo criava. Apenas quando a luz ressurgiu, não criada por tochas, mas pelo que se assemelhava ao lusco-fusco de um sol nascente, Stannis guiou seus homens para a frente, podendo se localizar melhor. Marcharam todos para a luz, como insetos atraídos pela luminosidade. Seguiram a música do cântico de rezas, que aumentavam conforme mais próximos estavam da luz.
Por fim, mesmo não encontrando o Rei do Norte, mas encontrou os sacerdotes de R’llhor, que estavam bem em frente à cortina de fogo onde ficava o fosso que fora escavado com afã, sem se importarem com o calor fustigante que era expelido. Todos estavam de costas para o exército dos vivos. Ele varreu o local, buscando a imagem de Melisandre, mas sem sucesso. Havia diversas pessoas na linha de frente formada pelo sacerdócio – homens, mulheres, altos, baixos, magros, claros, escuros. Todos usavam vestes escarlates que esvoaçavam com a ventania.
— Melisandre! — chamou-a, sentindo a garganta em carne viva. — Lady Melisandre! — Stannis apertava os olhos, desacostumado com a fulgência após tanto tempo nas sombras. Sua sombra, assim como a dos homens do exército dançavam como demônios loucos e alongados pela luz.
Por fim xingou, exasperado, sabendo que nunca a acharia por ali. Decidiu, porém, ali permanecer, pois sabia que era por lá que o inimigo viria, pronto para atacar. Destarte, a neve derretia com o calor. Sim, ali era um bom lugar para se reagrupar; os soldados e soldadas estavam todos indo para a luz. O Rei os aguardou, deixando o calor efervescer o seu corpo. Voltou, mais calmo, a examinar a fileira de sacerdotes vermelhos, que ainda falavam num jargão estranho, meio musical leve, meio truncado. As mãos erguidas para o céu, como que em adoração ao céu, mas ele sabia que era rezas pela chama de R’hllor.
Ele apertou o maxilar, desaprovando a cena. Aquilo não estava certo; esses sacerdotes estavam no ambiente errado! Expostos!
Ele avançou até eles, puxando um pelo ombro, abrupto, rosnou que deveriam se afastar antes do ataque. O rapaz, jovem, pele argentina, cabelos curtos, encaracolados e pretos, apenas o fitou com olhos azuis de cólera, sibilou como uma serpente em sua face, voltou a fitar as chamas altas; erguendo os braços, rezando.
Stannis bufou, mas não ousou outra tentativa. Irritar o sacerdote errado podia lhe fazer virar cinzas.
Teria de esperar. Ele sabia que logo chegaria o momento certo; teria de esperar até lá, porém.
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Arya olhava para as figuras agigantadas, tentando não transparecer medo – mesmo que isso não fizesse qualquer diferença nesse caso. Suas duas únicas armas não fariam qualquer diferença agora.
Um dos gigantes, um com metade da cara sendo o crânio exposto, moveu um lânguido braço para baixo, na direção do grupelho. Arya saltou para trás, enquanto o restante de seus colegas correram dispersos, gritando. O outro gigante, praticamente sem pêlo algum, formou dois punhos com as mãos, ergueu-os sobre a cabeça, então os fez descer. O impacto fez o chão tremer, derrubando todos do grupelho. Arya conseguiu se reequilibrar logo em seguida, mas todos estavam aturdidos.
No mesmo instante em que se aprumou, algo a arrebatou. seu magro e pequeno corpo, assim como seus dois braços, foi levemente esmagado enquanto os pés perdiam o chão sob eles. Ela chutou, inutilmente. Olhou para baixo, vendo o chão parecer estar fugindo, enquanto olhava para a imensa mão negra, com dedos de pedra dura e fria, que lhe agarrava. Tentou se soltar, mas não obteve sucesso.
Apesar da dificuldade de respirar com o aperto, a fera não a matou, apenas a segurou, aproximando-a do rosto. Ao olhar para frente, Arya deparou-se com dois olhos azuis enormes, rebrilhando como estrelas. Ambos se olharam, afônicos, enquanto o resto do mundo era luta, gritaria e morte.
Arya não desviou o olhar. Havia algo nele que a hipnotizava. Era impossível não olhar para a luz.
Então tudo era silêncio. Apenas ela e o olhar da Longa Noite. O olhar da morte, do fim, do silêncio. A escuridão abraçava Arya, ela sentia o toque enregelante cobrir-lhe o corpo, embalsamá-la. Ah, ela viu-se na neve, cheia de joias de gelo, com os homens que ela amava servindo-a como uma deusa. Todos eram pálidos, elegantes, azuis.
Apenas tinha de ser tocada, sabia. Um toque, e viria a eternidade…
imprevistamente, o rosto do gigante desmanchou-se, imbuído em chamas pálidas. As estrelas azuis se apagaram, ofuscadas pelas labaredas famintas que consumiam a face do gigante.
Arya começou a piscar algumas vezes, confusas, enquanto percebia que as labaredas alastravam-se pelo corpo imenso do gigante peludo, queimando seu pêlo como palha seca e escura, atingindo até o braço que a agarrava. O corpo pareceu perder forças, o vento soprando contra Arya conforme seu algoz parecia se mover.
Os dedos se afrouxaram. Ela usou isso para deslizar, saindo da palma fechada. Estava apenas a alguns metros do chão, de forma que ela não temeu quando aterrissou na neve, de costas. Os flocos dançaram com seu peso, mas ela aguentou a dor do impacto, sem vacilar ao segurar a dor. Tinha de parecer forte a todos que a vissem.
O corpo do gigante tombou, sem nenhum grito por parte da criatura, enquanto as chamas o consumiam, fazendo o solo vibrar. Os outros dois gigantes também estavam queimados, com um ainda de pé, recusando-se a render.
Arya, estando forte o bastante para parecer sem dor, aprumou-se, vendo o ser imenso e em chamas, clareando a noite, agarrando um homem qualquer, que estava a gritar de dor pelo aperto nos braços e pelo fogo que passava a queimá-lo por todo o corpo.
Sentiu alguém puxá-la pelo braço, afastando-a da cena. Ao virar-se, viu que era seu marido, agitado. Seus cabelos argentinos pareciam ouro fulgente na luminosidade que estavam.
De algum modo, Edric lembrava-a do inimigo, de como era belo, mortal, perfeito. De como ela apenas precisava…
— Depressa, Arya! — berrou ele, irritado com a lerdeza dela, ainda puxando-a.
Quando ela ergueu o olhar, apertando o passo para seguir seu companheiro, notou quem mais estava com eles; além de Sor Gendry , Sandor, e Nymeria, havia Jon, com seu longo rosto Stark sem emoção qualquer, e sua amante selvagem (bom, imaginava que eles eram amante dado os olhares famintos de seu irmão para a mulher, semelhante ao olhar de Gendry sempre que estava duro ao fitá-la), a “princesa” Val. Bonita, essa princesa. Beleza cinzelada, olhos verde-acinzentados (vezes azuis pálidos), pele argentina, cabelos cor-mel trançado. A líder do Povo Livre tinha suas vestes alabastrinas sujas de sangue e terra, com uma manga rasgada. Seu peito arfava, enquanto as bochechas estavam bem avermelhadas. Agora sim parecia uma mulher do povo livre.
Ao lado do "casal" estava Fantasma, o lobo de Jon. Quase do tamanho de um cavalo grande, o companheiro lupino tinha alguns de seus pêlos arrancados, revelando a pele rosada que estava por baixo. Alguns locais tinham feridas abertas, espichando sangue, formando algumas bicas vermelhas que manchava os fios alvos. As pernas estavam especialmente sujas, praticamente pretas de tanta cinza e terra misturadas. O animal respirava de forma acelerada, dentes arreganhados, focinho sujo de sangue. Os olhos vermelhos fitavam Arya, parecendo ter uma raiva acusatória contida neles.
Jon ainda usava as vestes teciturnas, cobertas por placas de metal negro. A placa no peito, amassada. Os cabelos estavam uma bagunça completa, desgrenhados, com algumas partes parecendo ter se quebrado. Por sorte, o olho de Vidro de Dragão ainda estava no local; porém, estava torto, com o que era para ser a pupila sumindo no canto esquerdo. A pele de Jon parecia ainda manter a palidez sepulcral, sem qualquer indícios de esforço ou fadiga. Sequer respirava entrecortado como todos os outros.
Uma parte do rosto de Jon era coloreada pela luz pálida de sua espada, revelando o olho vermelho-sangue. A outra parte estava nas sombras, entrevista pela luminosidade do local.
Arya fitou a enervante lâmina do irmão. As chamas, de algum modo, assustavam-na.
— A morte de Tormund não será em vão — falou o Rei do Norte, referindo-se ao homem morto pelo gigante (agora caído, terminando de queimar).
— Meu rei — disse Edric —, os sacerdotes criaram a barreira…
— A barreira não vai segurar o que está vindo — declarou Arya, sabendo do poder que estava por detrás daquela cortina de chamas. O exército silencioso que se aproximava para dar um fim nos barulhentos humanos.
Jon anuiu, sério, como o pai deles. Sua face oblonga era matizada apenas pelas cicatrizes rosadas, que deixavam-no ainda mais intimidador. Mesmo sem sua coroa, ainda era o rosto de um homem a ser respeitado, temido até.
— Quero todos comigo — demandou ele, antes de se virar, erguendo a espada contra o céu, como uma seta. As chamas lambendo-a, dançando no aço leitoso.
Arya deu um passo para trás, como se a chama ferisse seu corpo macilento. Apertou os olhos, odiando aquela luz.
Jon saltou sobre seu lobo gigante, como se fosse um cavalo, ainda erguendo o braço encouraçado, o rebrilhar apavorando a escuridão. Antes de avançar, porém, o Rei olhou para Arya, parecendo esperar por ela; contudo, a princesa apenas o fitou de cenho franzido, sem entender.
A loba de Arya deu um leve empurrão em sua dona, usando de seu focinho. Esta deu-lhe um cafuné, fitando seus olhos dourados.
— Arya — disse Ned, ao lado dela. — Precisamos ir, princesa.
Arya não os olhou. Enevoada, apenas fitou o dourado de Nymeria, perdida. Tentou achar o azul nos olhos de âmbar, mas sem sucesso.
— Anda logo, inferno! — ralhou Sor Sandor, nervoso. De fato, apesar de não observá-lo, tanto quanto observava o marido no momento, podia sentir o nervosismo e o medo na voz dele. Não era raiva; era medo.
— Arya — falou Jon, por cima de sua montaria branca e peluda —, eu avançarei nessa guerra sem você, mas sei que não vou ter tanta força sem minha matilha. Precisamos estar juntos, irmãzinha.
Apesar da baixa cadência, a voz pareceu ter efeito em Arya, como que acordando-a quando ela nem sabia estar dormindo. Ela olhou para Jon, vendo não mais um estranho inimigo, mas um irmão há muito perdido.
Ela assentiu, virou-se, montou na loba em um salto veloz, agarrando seus pelinhos.
Jon deu um sorriso lupino, acenou com a cabeça. Fantasma correu pelo campo de neve, com Nymeria logo atrás, uivando. Logo, outros lobos da matilha dela estavam correndo com ela, seguindo sua líder.
Jon ainda erguia a lâmina pálida, agindo como um farol na tempestade. Todos os homens e mulheres, assim que avistavam, seguiam-no, fosse a pé ou a cavalo. Era como se a luz rebrilhante acendesse a esperança e coragem nos corações. O grito de guerra dos homens unia-se ao uivo dos lobos, com todos trilhando o caminho até a luz das chamas que cercavam Harrenhal.
Apesar de sentir a coragem pulsar a cada batida em seu coração, era como se a cólera corrompesse o interior de Arya. Uma fúria contra Jon que ela tentava reprimir.
(Um toque… basta um toque…)
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