Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
84 Encurraladas
Sentiu algo – ou alguém – puxar-lhe o braço, tirando-a da neve. Margaery tossiu, cuspindo o gelado acumulado em sua boca, regurgitando o que estava entalado em sua garganta. Vômito frio escorreu por seu queixo, mas ela nem sentiu, pois frio tirava qualquer sensação corporal.
Quando as tosses diminuíram, olhou para cima, piscando, sentindo os flocos gelados grudarem seus cílios. Notou que a pessoa que a retirara da neve e ainda puxava seu braço era uma rude selvagem, com cabelos castanhos, dentes tortos e morena, magra como um bicho morto de fome.
Margaery tentou agir de forma polida, agradecendo, mas a feiosa salvadora apenas grunhiu antes de se afastar para ajudar os outros. Apesar de ter achado uma atitude rude, Margaery imaginou que a macilenta que trajava peles mulambentas nem devia ter entendido suas palavras (ou sabia mesmo e não deu a mínima; mas não tinha como saber quais selvagens falavam ou não o idioma comum). De todo o modo, ficou sentada no chão, golfando um tanto da comida que tinha acabado de deglutir. Levou uma mão para trás da cabeça, que doía tortuosamente. O impacto fortuito da neve a jogara com tudo no chão, deixando suas costas em brasa, ao mesmo tempo que quase rachara seu crânio. Sua perna esquerda também doía, como se um punhal tivesse lhe perfurado a panturrilha. Seu corpo tremia, tanto pela agressividade do impacto, quanto pelo frio. Agarrou-se, quase cravando as unhas na própria carne.
Olhou em volta, esmiuçando as múltiplas cenas acontecendo em único cenário catastrófico. Os meistres que sobreviveram – bem poucos, vale salientar – cuidavam dos sobreviventes do melhor jeito que podiam em meio a tamanha catástrofe invernal. Alguns ainda tentavam cavar a neve, fosse para desenterrar alguém ou abrir uma passagem para fora. Muitos agarravam corpos sem vida, chorando. Dos portões da frente, mais as janelas inclinadas, jorrara uma imensa quantidade de neve, criando o que parecia uma montanha de açúcar.
O local onde Margaery estava, bem no estrado, era bem onde a neve terminava, como se fosse uma falda. Não fosse a estrutura de madeira (agora afundada, com diversas partes inclinadas), todos no tablado teriam morrido.
Sansa estava de costas para a parede, coberta por um cobertor de pele de urso branco, abraçando Jeyne Poole. Apesar da troca de calor, ambas tremiam como Margaery. Sor Aly Mormont estava em pé ao lado das duas, embora nada estoica; seu ombro direito estava caído, o rosto gorducho estava avermelhado, os lábios, azuis. O cabelo era um ninho de mafagafos.
Perto da adjacência onde neve e madeira encontravam-se, Wylla Manderly chorava copiosamente, ajoelhada na cama branca, perto donde o chão do tablado estava lascado, enquanto a Lady de Correrrio, que segurava o próprio varão chorão ao qual dera a luz com um braço, tentava consolá-la.
Myranda estava gritando a alguma distância delas, mas Margaery não conseguia vê-la; um meistre estava ajoelhado defronte a ela, de modo que só era possível captar as pernas flácidas de Randa, que esperneava, chutando o ar. Lady Karstark e Bárbara Bracken ladeavam a flácida e barulhosa Lady Royce, com a Senhora de Karhold segurando uma de suas mãos.
— Forças, menina, forças… — murmurava a nortenha.
A Lady dos Portões da Lua estava dando a luz, enquanto o mundo morria. O próprio pai da criança podia já estar até morto.
— O bebê está virado — falou o meistre examinando a prenha. — Terei de tentar virar e puxar, mas não sei se serei capaz nessas condições...
— Deuses! — bradou Randa, erguendo-se um pouco. — Tirem isso de mim! TIREM ISSO!
Onde está Mya?, indagou-se Margaery. A amiga de Myranda nunca deixaria nesse momento tão…
Seu pensamento foi interrompido ao ver um corpo estirado contra o chão. A omoplata esquerda estava contra a parede escura do salão, o braço e o pescoço em uma posição desconfortável de olhar. Os olhos de Mya estavam abertos, encarando para o teto, olhando sem ver. Sangue escorria no chão, saindo do cabelo preto.
Margaery fez uma careta ao ver a imagem desconcertante e torta da bastarda. Até as pernas estavam retorcidas. Alguém jogou um cobertor sobre os seus ombros. Ao virar-se para encarar, notou ser um estrangeiro de pele preta. Sem reação, apenas o encarou, enquanto ele se afastava dela, sem esboçar qualquer emoção com a atitude desconfiada de Margaery, que deduziu que ele já estava acostumado.
Quando ele partiu, Margaery arrastou-se até perto da parede, onde encostou suas costas. A coberta fedia, era gordurosa, mas aquecia-lhe o corpo. Contorceu-se, ainda sentindo dor nas costelas, sentindo dificuldade em respirar, ficando com o ombro apoiado no muro de pedra fria, onde descansou a testa. Fechou os olhos, enrodilhado-se com a pele gordurosa. Seus ossos doíam pelo frio, assim como todo o resto; não sentia seus pés; não suportava os gritos de Myranda, nem o de todo o resto. Os gritos ficaram mais intensos, virando um verdadeiro estrépito que aumentava ao bater e voltar pelas paredes e tetos; mas ela nem deu atenção, apenas apertando os olhos. Queria sair daquele inferno; queria ter morrido naquela merda de avalanche (ou como quer que fosse o nome daquela tempestade de neve). Estava farta de mortes, quando elas iriam ter fim?
Sua cabeça doeu ainda mais ao ser agarrada pelos cabelos, puxada para trás. Não teve reação a não ser gritar, enquanto o manto que cobria o topo de sua cabeça e os cachos de seu cabelo eram abruptamente apertados. O corpo de Margaery logo passou a ser arrastado a alguns centímetros enquanto ela esperneava de dor. Segurou o braço da pessoa que a arrastava, não encontrando outro, tentou bater nele até que a soltasse; mas sem sucesso. Debateu, chutando o chão e o ar enquanto era agredida. Seus calcanhares pararam ao serem agarrados por dedos de ferro, que vieram a puxar contra a direção da pessoa que lhe puxava o couro cabeludo.
Margaery logo foi erguida do ar, fazendo-a berrar ainda mais. Parecia que a pele de sua nuca seria arrancada junto de seus pés, que eram esmerilhados pelo outro desconhecido que a atacava. Os ossos dos pés estalaram, mas, graças aos deuses não foram quebrados. Bateu os braços como uma maluca, sem conseguir se libertar. Lágrimas saltaram de seus olhos – tanto por dor quanto por medo –, escorrendo pelas suas bochechas, assim como o sangue escorria na parte de trás da cabeça.
Por fim o cabelo rompeu, fazendo-a soltar um guincho, sentido que um naco de carne partira junto. Sua cabeça tombou no chão de madeira, em alguma parte onde o tablado estava inclinado, rachado, onde algumas lascas quase a perfuraram como pequenas lâminas. A ardência em suas costas aumentou, parecendo explodir em brasas. Deve ter mordido a língua, pois logo o sangue encheu-lhe a boca, embora ela nem tivesse sentido a dor.
A queda não parou sua tortura, porém; seus pés ainda estavam erguidos, agarrados pelos calcanhares doloridos. fosse quem fosse, parecia querer o sofrimento de Margaery a qualquer custo, pois a arrastou em meio ao chão de neve e lascas.
Não fosse o grosso tecido do manto e do vestido, as lascas a teriam perfurado-lhe o corpo em mil lugares. Todavia, nem por isso a pobre moça estava livre da dor.
O baque que sofrera na nuca pareceu esmorecer toda a pouca força que tinha. Seus braços pareceram quase virar água, duas varas molengas, pesos totalmente inúteis. Até suas pernas perderam a capacidade de dar um chute sequer. Sua visão estava turva. Uma treva em forma humana aproximou-se dela, agachou-se ao seu lado. A mesma força que segurara e arrancara seu escalpo agora pressionava sua pálida e fina garganta. Margaery deu um gemido fraco em resposta, um tipo de zumbo, sem conseguir gritar. Fitou seu assassino, percebendo como seus olhos eram intensos e azuis. Um olhar fulgente, vazio, enregelante; não demonstrando qualquer sentimento. Apenas teve força para levar uma mão até o pulso que lhe sufocava; mas não achou qualquer força residual dentro de si para interromper o garroteamento.
Enquanto se encontrava impotente no chão, Margaery sentiu sua mente espiralar para o passado, para seu segundo casamento – a visão de Joffrey pairou a sua frente, rubra e púrpura pelo veneno sufocante, quase preta por total. Seu marido a olhava com súplica e acusação, enquanto tentava quebrar-lhe o pescoço.
O aperto daquela única mão não cessou; nem quando uma lâmina cortou sem dó o braço do agressor – que tampouco reparou na perda de seu membro. Não tardou para a cabeça pular para fora do corpo. Nenhum dos cortes jorrou sangue, como mormente acontecia. O mesmo estranho caso aconteceu quando um guerreiro cortou fora as mãos que agarravam os calcanhares de Margaery, separando-as dos braços, deixando seus pés finalmente caírem no chão. Todavia, ainda sentia o cruel aperto lhe afligindo.
Enquanto a guerreira – que ela reconheceu ser Aly Mormont – derrubava o êmulo de Margaery com um chute, girava os calcanhares, pronta para derrubar o outro atacante, Wylla, junto de mais alguém, aproveitou a deixa para agarrar a moça que ainda estava sendo sufocada, arrastaram-na para longe.
Quando pararam, Wylla e Bárbara – que estava no local esperando ela, não sendo a outra moça que auxiliou no salvamento da moça da Campina –, agarraram o braço decepado que insistia em garrotear Margaery, que conseguiu engolir um pouco mais de ar em toda a confusão. Sansa logo uniu-se a elas.
Quando as três finalmente retiraram o membro de sua garganta, Margaery sentiu que quase teve sua pele esfolada; contudo, logo veio o alívio quando o ar finalmente entrou em seus pulmões. Teve um espasmo de vida, arqueando-se para frente. Sua garganta logo se irritou, causando um ataque de tosses violentas tão violento que machucou-lhe o estômago. Ela baldeou toda a sua janta mais uma vez, com muito mais intensidade do que quando vomitou a neve. O conteúdo quase que por inteiro caiu em cima de seu peito e barriga. O cheiro azedo da bílis e do vinho encheu suas narinas, assim como o cheiro agourento de neve e morte; muito mais forte do que o odor gorduroso do fedido manto.
Apesar de voltar a respirar, a dor em seus calcanhares não havia terminado. Margaery soltou um ganido, ainda sentindo o repolho e queijo escorrendo de seu queixo. Wylla Manderly e Bárbara Bracken foram até a ponte de suas pernas que ainda eram flageladas por um par de mãos negras. A moça Bracken agachou-se, tentando usar de suas próprias mãos e dedos para tentar desprender a mão que agarrava uma das pernas. Faltou esse cuidado na Manderly que pisava e chutava o local onde a outra mão estava, machucando ainda mais a pobre Margaery. Esta uivou de dor conforme os pontapés de Wylla acertavam a sua canela. (Teria xingado a imbecil, filha de uma baleia mal comida, mas as dores lhe impediam de dar vazão a tal atitude, de modo que continuou a aguentar os golpes.)
Por fim, a outra moça que ajudou Wylla a carregar Margaery, Cynthea Frey, ficou ao lado de Bárbara, e ambas conseguiram desprender a mão escura, jogando-a para longe. O meistre afastou Wylla com uns leves empurrões, agachou-se, cortou os dedos da outra mão com uma pequena faca de comida que achara em meio a neve, libertando seu outro pé.
Margaery, suja, exaurida, esbaforida, apenas ficou chorando enquanto sua cabeça, costas, pés e pernas ainda doíam. Parecia um bebê cheio de vomito de tanto que chorava, o ranho escorrendo pelas narinas, espalhando-se pelas bochechas e queixo.
— Margaery, calma! — falou Lady Roslin, em pé, com o bebê no colo. Robb Tully havia parado de chorar, mas tinha um semblante de quem estava prestes a fazê-lo. — O pior já passou, Milady!
Não era bem verdade, o pior ainda estava bem ali.
Os corpos trazidos pela neve (e os corpos de pessoas mortas por ela) escavaram um pouco, até conseguir entrar no local do salão, que não tinha quaisquer defesas que fossem contra eles. Alguns corpos eram imprestáveis, os ossos quebrados pelo impacto de neve acumulada, vento forte e objetos jogados; mas boa parte estava apta para matar. Qualquer membro por si só era uma arma lenta.
Sem as chamas, foi difícil ter luz para enxergar o inimigo; ainda mais difícil foi queimá-los. Do monte de neve, que estava na parte de entrada do salão, pessoas rastejavam aos montes, como vermes rastejantes brotando do solo. Apenas os glóbulos oculares permitiam que fossem vistos no breu total. Logo, esses seres de trevas pontilhadas de luz avançaram, agarrando e garroteando todos os seres vivos que encontravam. A maioria dos soldados estava morta; boa parte morreu no irromper da ventania – provavelmente muitos ressuscitaram e atacaram os poucos vivos no salão.
As esposas de lanças e os soldados ao sul da muralha (este último sendo a guarda em menor número) lutaram como puderam, fazendo barricadas com os pedaços de madeira que encontravam; fosse com ripas de madeira, tábuas ou alguma mesa que ainda encontrava-se em bom estado (ou no melhor estado possível naquele momento). As pessoas logo estavam por cima do destruído estrado de madeira, apinhadas em desespero, machucando-se com as lascas soltas. Boa parte estava ferida desde que o salão explodira, com muitos quase nem chegando até o tablado oblíquo. Alguns acabaram por serem pisoteados pela multidão desesperada, que pouco se importava com classes sociais e sobrenomes em momentos como esse.
Sansa, que segurava a mão de sua melhor amiga, Jeyne Poole, tentou recompor um pouco de coragem nesse momento, sabendo que poderia ser o fim de tudo caso ela se deixasse levar pelo temor. Sor Aly, apesar de ferida, mantinha uma postura de coragem e liderança por detrás da barricada mal-amanhada. O exército doutro lado forçava uma entrada lenta, mas os números eram maiores, aumentando perenemente. Quando pareceu que animais uniram a horda, os empurrões tiveram mais força, fazendo a barreira de madeira retesar-se, mover-se para trás, cedendo em alguns locais por onde mãos avultaram-se para o lado dos vivos, tentando agarrar qualquer um por perto.
— Precisamos de fogo contra essas coisas! — gritou uma das mulheres do povo livre. O problema é que toda e qualquer chama fora apagada quando a neve irrompeu pelo salão. Estavam em completo breu e desespero.
Algumas selvagens e guerreiros homens, apesar de atabalhoados pelo empurra-empurra causado pela multidão alarida, conseguiram pegar o mantel rasgado que cobrira a mesa durante a ceia, rasgaram em alguns pedaços grandes, enrolando-os em algumas estacas. Usando as lascas das lanças de sílex, as chamas logo surgiram, queimando pedaços rasgados dos tecidos; as tochas, reacesas. Cada um usava sua chama para acender a de outra pessoa. Quando um bom número de mãos segurava um lume, alguns jogaram os tições pela amurada de madeira, enquanto alguns batiam nos imorredouros com elas.
O resultado não tardou; como palha seca, os mortos logo vieram a ter suas corpulência imbuídas em fogo, que alastrava-se cada vez mais. O cheiro acre e pungente da fumaça que subia até o teto impregnou as narinas de diversas das pessoas que estavam no salão, tentando escapar do local. Algumas pessoas mais corajosas, conseguindo achar uma lâmpada à óleo, melaram o imenso mantel de linho, jogaram-no contra os mortos, depois trataram de acendê-lo com uma madeira em brasas, jogando-a no alvo oleoso.
Destarte, apesar de todos os esforços, pareceu ser impossível impedir o avança dos enviados pelos vagantes. A madeira que servia como barreira logo veio a arder pelo fogo, enquanto o inimigo, mesmo em chamas, avançava enquanto podia. A fumaça acre estava em todo o local, cegando os vivos, sufocando-os. Margaery, encostada de costas à parede, percebeu que algumas pessoas estavam a desmaiar, enquanto ela mesma estava tossindo. Seus olhos ardiam, lacrimejando. Botou uma mão na boca, tapando, também o nariz, mas sem muito efeito positivo. O cheiro de seu próprio vômito era abafado pelo rançoso cheiro de carne podre queimando. Alguém pisou no seu pé, fazendo-a soltar um uivo de dor; mas ninguém pareceu ouvir sua agonia – os gritos, lamentos e tosses ocultavam-na.
Myranda estava em cima de uma carroça quebrada – trazida pelo levante de neve, que trouxera até mesmo uma árvore consigo, que encontrava-se na montanha açucarada na ala norte do salão –, com o bebê ainda preso dentro dela, fazendo-a acordar com espasmos de dor, debatendo-se. Junto da agonizante prenha, estavam Alys Karstark, Bárbara Bracken, Roslin Frey (ainda com seu filho) e Cynthea Frey. Infortunadamente, o meistre veio a morrer na algazarra que veio a se seguir, sendo pisoteado vivo. (Ninguém viu Jeyne Westerling desde o desastre inicial, o que indicava que a Rainha Viúva fora uma das arrebatadas.) Haviam outras pessoas usando objetos – fossem de pedras ou madeiras –, para subir, tentando escapar da balbúrdia.
As mulheres tampouco tiveram paz, com diversas pessoas – alguns nobres, mas principalmente a plebe –, se desesperando, avançando contra fina barreira de soldados. Os poucos soldados armados que se mantiveram para proteger a nobreza foram rapidamente destruídos pela turba (que nada tinha a perder naquele momento) que avançou contra os nobres. Lady Waxley foi arrancada de sua pequena mesa de madeira por um bando de mães – desesperadas para salvar seus filhos –, jogada no chão, onde teve cada parte de seu corpo foi esfacelada por dezenas de pés desesperados – só tendo um rápido fim quando um brutamontes pisou em seu pescoço. O mesmo destino abateu Alys Karstark – embora não de forma tão rápida –, que foi puxada pelos ombros e braços por um bando de mãos desconhecidas, sem nem lhe dar tempo além de soltar um grito de surpresa e horror. A mulher não pôde fazer nada a não ser sentir pessoas pisoteando-a, quebrando seus ossos com a pressão; jogando seu rosto contra o piso de ardósia fria, pressionando sua nuca com força arrítmica, até que quebraram seus dentes e nariz, deslocaram seu queixo. Cada ossinho de suas mãos e pés foi esfacelado pela turba. A nortenha nada pôde fazer além de tentar, sem sucesso, se locomover para escapar daquela dor.
A ama de leite que cuidava dos gêmeos paridos pela Lady de Correrrio, não conseguiu subir na mesma carroça que a Lady dos dois rebentos que ela cuidava, pois acabou se perdendo durante a algazarra, afastando-se de seu séquito, sem conseguir achá-lo novamente. Acabou por achar um outro local onde lordes e ladies se refugiavam. Porém, foi impedida de passar, pois não a reconheceram nem aos filhos do lorde do Tridente – ou talvez apenas tenham fingido para não aceitá-la. Os soldados que resguardavam a nobreza não se amoleceram diante de seu desespero. A ama dos bebês implorou para pelo menos aceitarem os recém-nascidos, mas um dos homens ameaçou espancá-la se não se afastasse.
Vendo que não seria aceita ali, e que a turba estava ficando pior, ela bateu os pés, com dois bebêzinhos nos braços, até um local seguro. Nunca achou um porto seguro, porém, pois, enquanto tentava seguir as soldadas que escoltavam a princesa Sansa – tinha a esperança de que a irmã do Rei do Norte talvez pudesse reconhecê-la; caso não o fizesse, como ela sempre foi boa para com a plebe, talvez fosse capaz de salvar pelo menos os dois rebentos pequenos da morte certa –, acabou sendo levada por uma corrente humana, que a fez perder-se em meio ao caos. Torceu o tornozelo, tombou, estatelando-se. Alguém puxou os bebês de seus braços (talvez achando que a "mãe" deles estava morta, querendo salvá-los do pisoteamento), mas ela conseguiu agarrar um deles – não sabia se o menino ou a menina –, puxando para si. Não adiantou nada, pois tudo o que conseguiu fazer foi tentar proteger o bebêzinho, ficando por cima deste, enquanto ambos pisoteados – por fim, o corpo da pobre ama de leite apenas serviu para esmagar a pobre criança mais rápido, enquanto os pés da multidão quebravam as costelas desta, perfurando seus pulmões que vieram a ser enchidos de sangue.
(Pode-se dizer que talvez tenha sido um destino mais misericordioso, visto que a cuidadora não percebeu que aqueles que puxaram a pequena filha de seus braços não eram salvadores – eram wights. Estes agarraram a pobre infanta chorona, desmembrando-a como cães famintos lutando por um pedaço de carne qualquer.)
Catelyn Bracken, uma das irmãs mais novas de Barbara, não teve tempo para se unir às suas outras irmãs, sendo afastada pelo aglomeramento de pessoas, deixando-a perto da barricada de mesas e tábuas. A pobre moça nunca as reencontrou com as suas irmãs, pois um wight, após conseguir passar por uma das brechas da barricada, avançou, capenga, tentando matar quantos fossem antes de seu corpo se desfazer. Por fim, seu corpo ateou fogo em três pessoas antes de dar uma abraço ardente em Catelyn, que gritou ao se virar e ver a tocha humana vindo contra ela – apesar de cada vez mais lento, o corpo conseguiu alcançá-la pois a pobre moça não pode dar um passo sequer ao ser barrada pela murada de pele que eram as pessoas no local. No fim, sem conseguir mais se manter em pé, o corpo tombou em cima da Bracken, esmagando-a, fazendo o tecido do vestido dela queimar, sem se importar com os gritos de sua vítima, que sentia sua pele se contorcer, inchar e arder. A criatura grudou a bochecha na dela, fazendo as peles se unirem pelo calor.
Sor Aly – que havia deixado a amurada de mesas e ripas para proteger a princesa Stark – ainda mantinha-se em pé, mesmo estando claramente fraca; ofegante, rosto vermelho, inchado, perspirando tanto que o cabelo estava grudado em partes do rosto. A cara era uma gorda maçã. Ao lado dela, uma parte das esposas lança. Havia outra fileira delas na frente, tão excelsas e mortais quanto a fileira inferior. As mulheres do Povo Livre não se ajoelham a ninguém, mas dariam a vida pelo sangue do Rei Jon – ele era o beijado pelo fogo que ressurgiu para salvar a todos. Deviam suas próprias vidas a ele. As mulheres usavam escudos de madeira pauferro e ferro para bloquear qualquer um que se atrevesse a passar, usando de lanças, que passavam entre o pequeno espaço entre os escudos, para perfurar quem se atrevesse a passar.
Com o pouco de força que essas guerreiras ainda detinham dentro de si, elas protegiam Sansa Stark, que estava com Jeyne Poole e Wylla Manderly ao lado de si. Esta encontrava-se um pouco mais afastada das outras duas, tentando olhar pela corrente protetora, tentando ver o rosto da irmã em meio a multidão que tentava tanto romper a corrente, quanto apenas corria para cá e acolá.
Sansa sentia sua companheira tremer em seus braços. Jeyne recusava-se a olhar para frente, mantendo os olhos chorosos, a cabeça baixa. Tal momento lembrou a princesa de quando ainda era a filha de um lorde ainda vivo – estava lá, ela e a jovem filha do castelãos, a jovem e ainda feliz Jeyne, abraçadas, chorando, enquanto homens morriam do lado de fora do quarto. O pai de Jeyne morreu no evento; Lorde Eddard, porém, viveu para ter sua cabeça decapitada a mando de Joffrey, bem diante dos olhos da filha mais velha. Sansa e Jeyne tinham apenas onze dias de seus respectivos nomes quando a vida ceifou a inocência delas.
Teriam os deuses sido tão crueis que deixaram as duas vivas, reencontrando-se, apenas para as matarem?
Enquanto os vivos se desesperavam, as chamas se alastravam pelos mortos; quase que um novo sol parecia raiar pela parte sul do salão; os corpos decompostos logo não tinham força alguma para avançar, caindo no chão de neve, atrapalhando os que ainda tentavam avançar. A montanha açucarada logo veio a esmorecer, com os flocos vindo a derreter, causando uma lerda avalanche de neve. A camada branca, mesmo abafando as chamas no fogo, provou-se incapaz de sufocar o calor por completo; derretendo cada vez mais, mais e mais. Até que, por fim, a montanha sofreu uma verdadeira avalanche – a cortina branca, levando qualquer corpo preso, pedra ou madeira, deslizou sobre os corpos flamejantes, como quando a neve implodiu no salão, soterrando a todos.
A grossa fumaça acre subiu ainda mais conforme os corpos eram enterrados. A neve avultou-se até dentro das barricadas, quebrando-as por completo, deixando os materiais esparsos. Doutro lado, o lado invadido, apesar da invasão de flocos, as pessoas não morreram como da primeira vez – apenas foram empurradas pela grossa camada e pelo material que ela trazia consigo.
Antanha gigante, a figura montanhosa e açucarada de neve desmanchou-se, revelando as janelas entortadas e os portões escancarados.
Os mortos, os que haviam sido carregados pelo deslize, como que trazidos por onda dum mar de musselina, mesmo com alguns tendo seus corpos ainda consumidos por fogo, aproveitaram a oportunidade – agarraram qualquer um ao alcance deles. Os incêndios que ainda não haviam sido apagados pela neve alastraram-se para as vestes rasgadas de suas vítimas.
Margaery, agora erguida, lutando para superar a dor flagelante em seus pés, estava com metade do rosto contra a parede de pedra fundida. As pessoas se empurravam umas contra as outras, deixando ela sem ter como livrar-se do aperto. Por sorte havia conseguido forças para erguer-se, antes que fosse pisoteada – embora isso em nada parasse o sufocamento que sentia sempre que era prensada contra um corpo desconhecido, fazendo seu corpo doer mais, perdendo o pouco de ar que ainda tinha. Suas mãos, desesperadas para sair dali, pareciam tentar rasgar a muralha a sua frente, como se fossem feitas de tecido ao invés de pedra negra e grossa. A unha de um de seus indicadores deve ter se prendido em uma parte torta da rocha – talvez uma rachadura pequena (pequena para padrões avantajados de Harrenhal) ou elevação na pedra disforme –, pois a úngula pareceu ser arrancada de seu dedo, fazendo uma dor lancinante surgir enquanto o sangue escorrer pela ponta do dedo.
Margaery fechou os olhos, sentindo as lágrimas de azeite deslizarem, queimando seu rosto. Seu corpo ainda era abatido por um chofre ou outro. Seu seio esquerdo – apesar de protegido pelo tecido da roupa – começou a arder quando alguém trombou de lado contra ela, fazendo-a ralar na parede. Facas pareciam se enfiar em seus pés e pernas. As solas de seus pés doíam, principalmente a do direito, pois este tinha uma farpa enfiada no antepé. A saia de seu vestido estava rasgada, assim como as anáguas por debaixo. Os joelhos expostos estavam ralados pelo rilhar constante na pedra. Sentia o sangue morno escorrendo pela pele que ardia.
Sua cabeça girava, ainda sentindo os dedos arrancando seu escalpo. A fumaça adentrava cada vez mais, impedindo-a de respirar. Sentiu-se tonta, as forças esmorecendo…
Uma lufada de ar gélido avultou-se no salão, trazendo mais neve consigo, passando pelas janelas e pelos portões do local, gora livres. Todos os que ainda estavam vivos sentiram o frio perpassar a pele, penetrando até os ossos. A fumaça escura rodopiou em si, em diversos locais, dissipando-se.
Toda chama ainda restante apagou-se no mesmo instante. A escuridão tomou conta de tudo. A única luminosidade remanescente era a do azul enregelante dos olhos dos revividos, que agora estavam desimpedidos para matar quantos quisessem. Cada vez que mais alguém morria, o exército inimigo aumentava.
Muitos dos corpos multilados pelo pisoteamento arrastavam-se pelo chão, agarrando aqueles que por ali passavam. Torcendo os membros que agarravam. Quebrando. Matando.
A carroça onde Roslin, Cynthea, Barbara e a grávida Myranda estavam voltou a mover-se. As mulheres (exceção de Randa) gritaram assim que a sentiram chacoalhar, agarrando-se nas beiradas da madeira gelada. A roda de um dos lados – que já estava quebrada ao ser carregada até o local pela fustigante nevasca – finalmente veio a ceder, fazendo a carroça tombar de lado. As Ladies gritaram de horror. Roslin agarrou seu primogênito, que agarrou-se a ela, guinchando feito um porco, quando viu que ia cair; a mãe caiu de costas no chão. Cynthea e Barbara, que estavam na outra ponta do veículo, praticamente foram arremessadas quando tudo veio a cair. A pobre Frey caiu em cima de três homens, enquanto a herdeira Bracken veio a estatelar-se no chão, quebrando o nariz.
Quanto a Randa, ironicamente, talvez até felizmente, não sofreu uma grande queda, tombando ao lado de um acúmulo de neve – nem por isso pode ser dito que não houve dor; mas foi amenizada pela própria dor das contrações do parto.
Roslin tentou erguer-se, gemendo de dor, enquanto ouvia seu filho berrar em seu ouvido, piorando a sua dor de cabeça. Ajoelhou-se ao lado da carroça tombada, agarrada, protetora, ao seu herdeiro chorão, enquanto sentia suas forças esmaecendo. Desmaiou. Randa estava ao seu lado, acordando vez ou outra, não pelos gritos e empurrões a sua volta, mas por conta dos movimentos de seu bebê.
Barbara ergueu, não vacilando nem quando alguém pisou em sua perna. Perdida, sem enxergar bem por conta do cabelo rosto e a escuridão no salão, apenas andou a esmo, levada pela maré de pessoas.
Cynthea, desajeitada, ergueu-se, em meio aos empurrões e cotoveladas dos homens em que caíra e da multidão que corria à sua volta. Alguém chutou – com ou sem intenção – o seu chupado rosto enquanto ela se equilibrava, fazendo-a cair de novo. Por fim, ela conseguiu, de gatinhas, avançar até onde estava a carroça, não tombando quando muitos esbarravam nela, chegando até a caírem. Cynthea aproximou-se de Myranda, toda suada, ficando por cima dela, ofegante, sem força alguma. Começou a chorar, desesperada pelo irmão.
A imensa carroça caiu sobre as mulheres.
Wylla observava as mulheres-escudo começarem a ceder conforme a multidão desesperada avançava contra elas. As estoicas detiveram alguns, matando-os com lanças, mas isso logo se provou contraproducente – os abatidos logo levantaram-se, olhos abrilhantados, avançaram novamente contra a mini-amurada. Enfiar as pontas de lança em nada ajudava contra eles.
Ao sentir um roçar em sua mão, virou-se em um rápido reflexo, assustada, alerta. Percebeu ser apenas a mão estendida da princesa Sansa, ainda abraçada a chorosa Jeyne, que permanecia de olhos fechados. Wylla aceitou o acalentar, aproximando-se das duas. Por fim, as três nortenhas se abraçaram, chorando, aguardando o fim que estava prestes a chegar. Fecharam os olhos. Aguardaram. Logo tudo terminaria.
Uma mulher do povo livre, talvez num ato de desespero, tentando impedir o pior, talvez apenas buscando uma morte excelsa, quebrou a fileira de escudos que guardava o trio de jovens mulheres, usando de seu próprio escudo para atacar um dos mortos revividos. O objeto voou contra o queixo de um magro homem revivido, erguendo-o, jogando a nuca para trás. A mulher se endireitou, usando a couraça de madeira e couro para atingir a criatura no peito, usando de seu ombro para impulsionar o ataque. Funcionou, o alvo tombou.
A selvagem, porém, condenou-se, pois tanto os humanos vivos quantos os mortos avançaram contra ela. Derrubaram-na em um instante. Ela virou-se, ficando de lado, mas percebeu que sua lança de represeiro estava perdida. Antes que pudesse tentar levantar-se ou usar de seu escudo foi agarrada por diversas mãos. Os mortos e os vivos tinham-na como alvo, puxando seus membros com tamanha força que a pobre mulher foi erguida a poucos metros do chão, enquanto a afastavam de suas companheiras. Os gritos que deu não apiedou nenhum coração. Sentiu seus braços e pernas se deslocarem, enquanto, por fim, os ossos cediam aos puxões e retorcidas. Os estalos aumentavam conforme os ossos quebravam. A dor pior, porém, ocorreu quando os mortos, ao avistarem o torso exposto, agarraram a cota e a camada de pele curtida. Os elos se romperam, o tecido, rasgou; a pele logo foi perfurada pelos dedos frios e duros, que agarraram as tripas, puxaram para fora. Os gritos da mulher de Além-muralha eram ganidos sufocados pelo gorgolejar de sangue.
Quando a mulher-escudo caiu, as outras fizeram o possível para tapar a falha que ela havia deixado. Mas era tarde demais. Os humanos tentaram avançar com fúria e desespero, seguidos pelos calmos mortos, que se arrastavam até agarrar um pescoço.
Não tardou para a fileira principal das mulheres morrer, consumidas pelos mortos que avançaram. Conseguiram algum tempo para si, aproveitando enquanto os cadáveres fustigavam os vivos, usando disso para ferir as pernas de qualquer um no campo de visão delas, para impedir que pudessem andar. Apesar do valente esforço, uma à uma tombou ante a morte.
— FIQUEM EM POSIÇÃO! — bradou Sor Aly, sentindo o vento frio rilhar em sua carne, fustigando a face que queimava pelo sangue interno que fluía em toda ela. Sabia que a hora de sua morte estava a uns passos à sua frente.
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