Margaery não sentia vontade de fazer nada; não apenas se sentia cansada, como também se sentia vazia. Era como se o seu coração estivesse oco; arrancaram algo dela.

Sua mãe se foi, assim como Megga, Elinor, Loras, Garlan, Olenna, os Redwynes, Mace, Mina…

Todos mortos. Suas histórias haviam sido finalizadas de modo abrupto. Margaery, entretanto, continuava viva, mas… por quê? Por que continuava a respirar?

Nada fazia sentido em sua mente; estava com uma imensa dor na nuca, deixando-a com pensamentos embotados.

A dor que sentia, a física, percorria o seu corpo — cabeça, costas, pernas, pés, mãos… tudo isso parecia se contorcer de dor. Todavia, parecia nem importar; era como se a dor em seu corpo estivesse distante, pequena demais para ser importante.

O vazio e a tristeza dentro dela eram maiores do que a dor.

A dor demorou para se fazer aparecer, entretanto; meistre que cuidara dela deu-lhe um pouco de leite de papoula, para amenizar a dor. Ele analisara a nuca de Margaery, para garantir que não havia nenhum problema, e chegara a ver apenas um fino corte na nuca, que apesar do leve sangramento, não apresentava risco algum.

A mente de Margaery ficara embotada por um tempo; sonhos sem sentido iam e vinham, logo esquecidos e substituídos por outros sonhos anuviados e desprovidos de qualquer sentido.

Quando sua mente pareceu ficar um pouco lúcida, a sensação era de que as pestanas de seus olhos pesavam como chumbo, tornando um desafio mantê-los abertos. Seus dedos também estavam estranhos, desengonçados.

Fechou novamente os olhos, voltando a tentar dormir, sentindo suas forças se esvaírem.

Quando pareceu que o leite de papoula e a confusão pela batida se dissiparam, a dor veio com mais intensidade, mas não com mais importância.

Seu pé esquerdo começou a latejar; provavelmente ela chutou algo com força. A dor começou como uma mera pontada no dedão do pé; foi aumentando, fazendo o seu pé esquerdo entrar em sofrimento; tão logo, toda a sua perna estava sentindo uma onda lancinante de agonia, que quase fez Margaery gritar de dor (ela estava tão fraca e sonolenta que deu apenas alguns ganidos, como um cão abatido).

Então, suas mãos arderam como em brasas, e sentiu dolorosas câimbras nos nós dos dedos. Teve compulsivos espasmos, fazendo com que seus dedos começassem a se contorcer. Isso a incomodou mais que a dor na perna; fez com que debatesse seus braços, de forma débil, pois estava fraca, os batesse no ar frio.

A dor em vários locais a fez dar um gemido de dor vacilante. Havia perdido o controle das mãos, tomadas pela agonia das contorções.

Suas costas também ardiam; era o local menos agonizante, entretanto. Apenas as omoplatas (principalmente a direita) tinham um nível acentuado de ardência, mas era supérfluo em comparação ao resto do sofrimento em outras partes do corpo de Margaery.

A dor real começou quando atingiu sua cabeça.

Margaery pareceu ter voltado a dormir (ou estava fraca o bastante para parecer chegar a tal) quando um martelo a atingiu com força na parte de trás de seu crânio; toda a sua cabeça começou a doer, tomada por um intenso golpe desnorteado que pareceu se repetir de novo, de novo, de novo… sem nunca sumir. Era como se a qualquer momento sua cabeça fosse explodir. (Parte dela queria isso, para acabar com seu sofrimento.)

Apesar de não ter mais forças (nem voz) para gritar, Margaery começou a choramingar, sentido as lágrimas escorrerem pelos cantos de seu rosto, queimando-a. Ranho também escorria, saindo de suas narinas, passando perto de seus lábios, indo até os cantos de sua boca; ela estava fraca demais para limpar o local, entretanto, sentindo o muco se acumular em seu rosto sem conseguir parar o fluxo gosmento.

Percebeu que tinha caído no sono quando, após sentir a dor de cabeça voltar, tentou abrir os olhos e as pálpebras inferiores e superiores não conseguiram se soltar. Tentou fazer força para separá-las, sentido que os cílios também estavam grudados. Conseguiu forças para erguer uma mão e levá-la a um dos olhos que permanecia selado. Usou dois dedos, um em cada pálpebra, para forçar a abertura de seu olho.

Foi como se estivesse rasgando sua pele, sentindo os párpados parecerem arder de dor conforme ela os separava. Apesar da fraqueza, da dor, do cansaço, ela não desistiu; ao ver uma nesga de luz tomando forma, um tanto cortada pelas pestanas, aumentou um pouco a força, até abrir de vez um dos olhos. A visão estava incompleta e dolorida, com olho aberto tendo uma visão baça, e o outro, ainda fechado, estava tomado pela escuridão.

Logo descobriu ser um esforço inútil, pois se viu sem força alguma para repetir o mesmo ato no outro olho. E, de qualquer forma, acabou por sentir o cansaço tomar conta dela novamente.

Voltou a cair num sono sem sonhos.

Quando acordou, sem saber quanto tempo havia permanecido adormecida, sentia-se limpa, com algumas partes de seu corpo umedecidas. Deduziu, com um pouco de força de raciocínio que ainda prevalecia em sua mente, que o meistre e/ou algumas servas a limparam de todo o suor de seu corpo, assim como a crosta endurecida de ranho – e qualquer outro fluido corporal pelo qual era melhor ela não pensar sobre. Provavelmente lhe deram mais leite de papoula, pois a dor havia se dissipado em grande parte, e boa parte de seu corpo estava relaxada demais para fazer alguma outra coisa que não fosse relaxar.

Conforme o tempo foi passando, as dores voltaram-lhe a atormentar, mas menos intensa do que antes. Quando sua mente começou a desbotar, permitindo que Margaery pudesse voltar a raciocinar, mesmo que minimamente, logo as memórias foram voltando a ganhar forma: a morte Loras, Garlan, Mace, Allerie, Megga, Elinor… Tudo estava voltando para ela, sem permissão, como se fosse um golpe em seu coração; cada memória, uma torção a mais para lhe afligir. Em algum momento, voltou a chorar, mas nem se importou, nem sequer lutou contra isso. A ardência já não importava mais para ela.

Também não lutou quando colocaram algum papado em sua boca, embora não estivesse com vontade alguma de comer nada.

— Está muito fraca — um meistre qualquer balbuciava, embora ela não soubesse dizer se era para ela ou mais alguém —, precisa de alimento sólido, mas temo ainda estar fraca para ingerí-los; a garganta ainda está ferida demais.

A papa parecia ser mingau com mel, às vezes tinha um ou outro gosto a mais, mas eram só de vez em quando.

Conforme foi melhorando, Margaery pouco fez para sair da cama. O tempo dentro de seu enorme quarto — o qual não tinha tantos buracos e frestas como a maioria dos outros cômodos em harrenhal — passava e ela permanecia a mesma. Não falava com os servos que lhe traziam comida e até parou de tomar banho. Não tinha vontade alguma de se limpar, nem de comer.

Os servos ainda lhe faziam comer um pouco (alguns nacos de pães, mingau, sopa, alguns goles de cerveja de cevada para lhe aquecer...), mas ela comia e bebia o mínimo possível. Também ignorava quando tentavam falar com ela, até mesmo quando era algum meistre.

A bem da verdade, nem sequer se importava se Alleras estava a envenenar sua comida ou não, não dava a mínima para seu invisível algoz. Nem sequer se importava em saber o que acontecia fora de seu cômodo.

Não se importava com nada. Estava desacorçoada.

Às vezes a dor voltava com alguma intensidade acentuada, principalmente em sua cabeça. O meistre passou a lhe administrar doses menores de leite de papoula, misturando com vinho aquecido — um modo de não causar dependências, sem dúvidas, visto que a bebida advinda das pétalas moídas da papoula podia ser muito viciante. Apesar das doses pequenas, Margaery sentia que seu rosto estava inchado; provavelmente devido aos dias de grande consumo do leite enervante.

Logo a dor no pé sumiu, sendo a primeira das dores a se dissipar, não sendo mais necessário botar um pouco de unguento no dedão; em seguida, suas costas logo ficaram melhores, perdendo a ardência potente que antes havia nelas; as mãos e dedos foram os últimos a se acalmar, embora os cuidadores de Margaery ainda passassem um pouco de Fogo de Myr na lateral da mão esquerda, pois esta ainda se encontrava com a pele ralada, demorando-se para sarar.

Margaery suportou a queimação com resiliência; estava para além da ardência.

O único local de seu corpo que permanece em constante dor, além de sua garganta, era a nuca; agora, mesmo diminuída, parecia que um ferreiro martelavam pregos no crânios dela, torcendo-os.

Uma parte de seu cabelo foi raspada uma navalha, sendo delicadamente movimentada pelas mãos de um meistre, expondo mais a região onde sua pele se encontrava aberta, ferida, tendo inchaduras em alguns lugares; bandanas de linho com fogo de Myr foram enroladas em sua cabeça — provavelmente o meistre ficou preocupado com o sangramento, embora Margaery nem tenha dado atenção ao sangue morno que escorria pelo travesseiro —, e por lá permaneceram por um tempo considerável, só sendo retirados vez ou outra, para serem trocados por linho limpo.

Deve ter permanecido assim por apenas um punhado de dias, até que lhe retiraram os linhos e não voltaram a colocar; não se deu ao trabalho de perguntar quanto tempo, entretanto. Apenas deixou acontecer. O meistre virou-lhe a nuca, examinou e deixou assim. O sangramento havia parado e os calos entumecidos haviam diminuído.

O meistre e servos — servos estes que eram westerosi, não mais de essos — que cuidavam de Margaery tentavam puxar algum assunto com ela, indicando que ela estava melhorando, perguntando como ela se sentia, se não queria comer mais, que precisava se levantar… Ignorou a todos; não havia razão para lhes dar ouvidos ou mesmo lhes dirigir a palavra.

Quando convenciam Margaery a tomar um banho banheira (no geral eles raramente pediam tal coisa, e, quando o faziam, ela apenas vinha a virar o rosto e ignorá-los), era sempre necessário que eles a ajudassem a se levantar e a caminhar até a banheira, pois seu corpo parecia fraco, de modo que ela parecia um grande estafermo, porque sentia que seus músculos eram, agora, palha quebradiça. Quando se afundava na água quente, era como se virasse uma marionete de pantomineiro, pois os servos, vendo que a fraqueza deixava Margaery maleável, pegavam seus braços, pernas, ou mesmo empurravam-na para fazê-la se curvar e expor as costas, para facilitar a limpeza de seu corpo — que geralmente estava sempre com enormes crostas de sujeira, principalmente entre as pernas, onde as fezes líquidas e urina velhas estavam acumuladas. A água sempre estava turva quando a retiravam da banheira de madeira, e os servos sempre faziam cara de nojo enquanto faziam Margaery se erguer e a secavam com toalhas.

Um dia — depois de terem lhe dado uma dose a mais de leite de papoula com vinho —, sem perguntarem para Margaery se ela queria tomar um banho, os servos pegaram-na de forma rude pelos braços, quase a derrubaram na pequena banheira de madeira que tinha em seu cômodo, e ela sentiu que a água não estava bem aquecida, mas não reclamou, querendo apenas acabar com tudo aquilo.

— Essa moça ainda está viva? — brincou um dos servos que a lavava certo dia, passando-lhe um sabonete cinzento pelo braço (era um homem, de modo que era fácil vir uma piada infame de seus lábios, e que o banho de Margaery seria demorado — não que ela se importasse, visto que nem sequer reagiu quando lhe faziam erguer o tronco do corpo para expor os seios em uma lavagem demorada.)

— Não sei, mas fede como uma cadáver — ralhou o outro, fazendo careta, enquanto passava uma escova por uma das pernas da Margaery, retirando merda líquida dela, que deixava a água num tom amarelo-baço. — Por que temos de limpá-la?

O outro servo, erguendo de forma desajeitada o braço de Margaery, esfregando-lhe o suvaco (e roçando de forma claramente mal-disfarçada no pequeno seio dela), deu de ombros.

— A rainha e a princesa mandaram, não reclame.

Sempre que os servos lhe davam banho, outros servos limpavam a roupa de cama, que estava sempre cheia de sujeira dos dejetos de Margaery, criando um cheiro acre sufocante (o banho, como é óbvio, era só uma desculpa para retirar Margaery e tirar a sujeira do local, embora a própria Margaery nem mais se importasse com o odor). Dessa vez, porém, a cama de roupa não foi limpa, de modo que os rapazes a retiraram de forma rude da banheira, demoraram um bom tempo passando-lhe toalhas em seu corpo, enfiaram-na de qualquer jeito numa camisa de linho, e a colocaram volta na cama, indo embora rápido, sem falar nada.

Ela ficou ali, deitada na cama fétida, com uma mancha escura nos lençois, enquanto sentia o cheiro rançoso subir em suas narinas. Não se cobriu, sentido o frio enregelante de Harrenhal tomar conta de seu frágil corpo — que apesar de ter ficado em bom tempo sendo secado pelos irritantes servos, ainda permanecia muito molhado em algumas partes —, fazendo-a tremer e arrepiar-se.

Margaery chorou muito naquele dia, não parando nem quando as servas chegaram e lhe fizeram indagações — ou, mais precisamente falando, interpelações —, confusas ao verem ela em tal estado.

Sua garganta era a única região corporal que recusava-se a melhorar; apesar do longo tempo em repouso. Demorou muito para que parasse de doer; mesmo assim, a dor incomoda ainda voltava para lhe afligir. Os alimentos pastosos e bebidas eram as únicas coisas que podia digerir sem dificuldades; entretanto, no começo, principalmente, ainda lhe causava um tormento ao sentir a comida passando pela sua goela, e parecia que a comida passageira era um veneno que lhe destruía por dentro. Agora, mais recuperada, conseguia digerir mais facilmente, com apenas um ou outro momento de dor leve e passageiro.

Além do sangue preso em sua garganta, sentia também o gosto ardido da bílis; por vezes acabava por vomitar o alimento que lhe davam, mas, em vários momentos, acorda com dores horríveis, como se o seu pescoço se torcesse, e ela tossia até expelir uma grossa e amarelada quantidade de bílis. Por sorte, quando expulsava o azedume, sentia seu estômago relaxar e podia relaxar; mas isso ainda acabava por aumentar seus problemas internos no pescoço, com a pele interna voltando a ficar em agonia e o sangue voltava a surgir e se fazer presente em sua boca, com o gosto metálico tomando conta de tudo. A fome e a sede também aumentavam quando isso ocorria.

O gosto do sangue logo foi embora, sentiu a inflamação diminuir, e o bílis parara de lhe provocar enjoos. Porém, ainda não podia comer alimentos sólidos; não até que estivesse com a garganta em melhores condições. O problema é que as pastas que lhe davam a mantinham viva, mas em nada restauravam suas forças; não sentia vitalidade para se locomover, e seu estômago era rápido em se desfazer de tais alimentos, fazendo-a sentir cólicas horríveis até que evacuasse todo o alimento. Não era preciso dizer que isso a deixava faminta com rapidez, e, deduziu, aumentava mais a sua sede (embora isso também devesse ser culpa de sua garganta, que rapidamente parecia secar a saliva de Margaery, deixando sua língua dura, os lábios, rachados, e o céu da boca em agonia). O problema é que água podia ser ótima para matar a sede, mas era difícil para se conseguir, pelo menos em boas condições, visto que era menos limpa que bebidas fermentadas, como vinho e cerveja (essa última era quase impossível para Margaery, principalmente a nortenha, pois era dura e tinha que ser servida bem quente, o que poderia proteger o seu corpo contra o frio, mas rasgaria a parte interna de sua garganta, como se tentasse beber navalhas, pedras e sal); então, água tinha ser trazida em um jarro, fervida na lareira, colocada de lado até que pudesse esfriar, e só então colocada em um copo grande para que Margaery pudesse beber sem grandes preocupações — até lá, ela deveria esperar, enquanto sua goela secava.

Margaery não ligaria de tomar água sem todo esse lenga-lenga, mas isso dependia do meistre, e ele não lhe permitiria fazer tal coisa. De resto, ou ela esperava, ou se contentava com vinho.

Durante todo esse seco e longo ínterim, apesar dos pesares, foi melhorando mais e mais; a perna estava melhor, o fogo de Myr já não era mais passado em sua mão, a dor em sua cabeça vinha com menos frequência, e o ar entrava com mais facilidade em seus pulmões, conforme seu pescoço sarava.

No fim, mesmo com todos esses cuidados, a força nunca voltou para Margaery; estava esgotada, sem energia e motivação para continuar. Se via dormindo muito, comendo de vez em quando, e, às vezes, sendo forçada a ir para um banho. No meio disso, as tochas bruxuleantes se apagavam, e logo eram trocadas por outras acesas, até que estas também se apagassem; a lareira chamejava até virar um conjunto de tições, que logo eram trocados por lenha nova e repetiam o cíclo; a jarra de água e vinho logo também vinham a serem esvaziadas, enchidas, aquecidas, esvaziadas, enchidas, aquecidas, esvaziadas…

Seus dias eram assim, de novo, de novo, de novo, de novo… sempre a mesma coisa, nada mudava, apenas uma pessoa ou outra, mas sempre eram os mesmos rostos. Seus dias (que pareciam só um longo dia) eram uma enorme repetição sem fim de um ciclo sem vida e monótono, sem nada realmente interessante; apenas o corpo de Margaery parecia mudar, perdendo os ferimentos; mas nunca o vazio: isso era um peso invisível que acompanhava ela, sem nunca deixar seu corpo. Uma chaga invisível que nenhum meistre podia ver ou curar.

Não sentia-se motivada a fazer qualquer coisa para mudar a sensação de vazio, de qualquer forma, de modo que permaneceu nesta repetição por um tempo que não era capaz de delimitar, apenas deixava tudo acontecer — pelo menos até a visita que acabaria por reacender o fogo dentro de si.



Não sabia quando, mas em algum momento, durante seu tormento solitário e silencioso, Ysilla Royce lhe fez uma visita.

— Sente-se melhor, milady? — indagou Ysilla, sentando-se numa banqueta ao lado da cama de Margaery.

Margaery apenas a olhou por um tempo, introspectiva. Finalmente, assentiu de forma curta e quase imperceptível. O olhar da Royce era cinzento e piedoso.

— Lamento por tudo — disse a moça sentada à sua frente, com sinceridade.

Margaery, sentindo que sua garganta estava melhor, começou a falar:

— Eu… E-eu… — Sua voz estava enrouquecida. Parecia que ela havia esquecido como se falava, com as palavras demorando para serem pronunciadas, vindo de modo arrastado.

Ysilla pousou uma mão pequena no ombro dela, fazendo-a parar.

— Evite falar, Milady — avisou ela com suavidade. — O meistre informou-me de que gritou muito, e que, mesmo que tenha se recuperado, ficou muito tempo sem falar. Sua voz vai estar falha, mas a comida que tem ingerido a fez melhorar mais rápido, embora o meistre tenha me dito que a falta de sólidos a enfraqueceu.

Margaery limpou a garganta e assentiu, dessa vez, de forma mais visível, meneando mais a cabeça.

Ysilla se viu no direito de prosseguir:

— Está neste estado há quase uma volta da lua, milady. Perdeu… Certas coisas na corte.

Margaery abriu um pouco os olhos e gesticulou com a pálida mão, indicando que ela deveria continuar a falar e explicar tudo.

— O arquimeistre Marwyn está morto — revelou ela. — Morreu pela praga, poucas horas depois de você ser levada para cá. — Ysilla se calou e a fitou, como se esperasse que Margaery falasse algo, ou, então, para dar tempo que ela reagisse a informação.

Passado pouco tempo, Ysilla continuou:

— Aegon enviou exércitos para a Campina, temendo um ataque nosso. Creio que Lorde Tarly está em campo, mas não sei de qualquer movimento do inimigo para nos atacar. — umedeceu os lábios e falou: — Margaery, seu irmão, Willas, ele está em Highgarden; voltou para governar a Campina.

Aquilo pareceu reanimar os sentidos de Margaery; seu irmão, seu último irmão, Willas, estava em casa. Uma onda de quase estimulação pareceu cobrir seu peito.

Apesar de saber que não devia tentar falar, fez uma tentativa:

— O quê…? — Lutou para formular a frase que vinha a sua mente. — Como ele… coff… Ele está bem?, coff, Aeg…

A moça sentada na banqueta de três pernas ergueu a mão, fazendo com que Margaery parasse de forçar a fala.

— Jon Connington está morto — Ysilla esclareceu, embora Margaery nem se lembrasse deste homem e seu papel na Campina — Parece que foi por escamagris; está havendo uma praga disso nas terras Tyrell, lamento lhe informar.

Margaery a fitou, quieta, escrutinando as informações nas palavras ditas. Escamagris? O que mais os deuses reservaram para ela e sua família sofrer? Willas estaria com a praga? Aegon o mandou para a morte? E quanto a lorde Randyll e lorde Matthis, teriam eles feito o lorde de Highgarden como refém?

Margaery apontou para Ysilla Royce com o queixo, indicando que ela poderia continuar a lhe explicar sobre a atual situação dos Sete Reinos.

— Parece que Asha tomou conta das Ilhas de Ferro; matou o tal Erik Ironmaker e Daenerys ordenou que ela fosse…

Margaery franziu o cenho, fez um esgar, e estalou os dedos, com alguma força e coordenação motora que conseguiu ter com a leve onda de irritação que aquele assunto leviano lhe dera, indicando que Ysilla deveria mudar de assunto; não queria saber dos malditos homens de ferro e de sua maldita rainha.

— O que quer saber? — indagou a jovem Royce, sem saber por onde começar. — Ocorreu muita coisa, Margaery. — Parou um tempo para pensar, juntando as sobrancelhas e franzindo os lábios, até que ergueu o belo olhar castanho-acinzentado, encarando a acamada, e falou: — Deve querer saber… Daenerys parece estar grávida; pelo menos é o que ela diz, muitos ainda têm dúvidas.

Margaery arregalou os olhos e agarrou o cobertor de pele de urso negra com uma das mãos, torcendo o tecido.

— Sim, é verdade. Ela anunciou recentemente; entretanto, parecia nervosa ao fazer o anúncio.

Margaery pigarreou, sentindo a bile voltar a se acumular em sua garganta. A Rainha estava grávida; a linhagem dela iria continuar, mesmo depois de todo aquele mal que havia causado.

Como que para dar certeza, talvez achando que a mente de Margaery ainda estava um tanto anuviada para compreender o que lhe era dito, Ysilla assentiu e voltou a falar.

— Sim, é a verdade. Oh, Margaery, se você soubesse o quanto aconteceu em menos de uma volta da lua… — Ela olhou para os cantos, como que para ver se havia alguém, curvou-se, aproximando-se de Margaery, e sussurrou: — Não consegui falar com Petyr Baelish. Ele sumiu, não veio me ver.

Demorou um tempo até que ela pudesse assimilar de quem, e do que, a moça Royce estava a falar.

Margaery sentiu seu peito encher-se de medo e raiva. Petyr Baelish, aquele canalha!

Tinha assuntos para resolver com aquele pequeno e ardiloso homem; entretanto, havia outra pessoa pela qual ela queria saber.

— Alleras? — Indagou, num sussurro rouco. A palavra pareceu irritar a sua garganta, de modo que ela tossiu, pigarreando um pouco.

Ysilla se empertigou.

— Eu não sei onde ele está — revelou ela. — Ninguém sabe. Dizem que ele fugiu com o dinheiro.

Margaery franziu o cenho, confusa, até lembrar-se de que Alleras estava trocando as moedas verdadeiras por… alguma outra coisa.

Ao entender o que Ysilla estava lhe contando, arregalou os olhos.

— Ele… fugiu?

Ysilla assentiu.

— As moedas de ouro derreteram — ela revelou. — A própria princesa Sansa viu parte do tesouro, que ainda estava aqui, pronto para ser levado, derreter em sua mão, perdendo o dourado luzente, ficando semelhante a cobre ou bronze liquefeito, e escorrer por entre seus longos e pálidos dedos, lembrando sangue grosso. Quando isso aconteceu, ela ordenou que procurassem e prendessem O Esfinge, mas ele já havia sumido. — Continuou: — Não sei como, mas Alleras… ou Sarellas, seja lá o nome que a serpente usa… conseguiu mimetizar os aspectos exatos do metal: o peso, a dureza, os detalhes na cunhagem… tudo isso foi testado pelos bravosis, e lhes enganou por um tempo.

Margaery sentia que a garganta estava seca, como se tivessem passado Fogo de Myr em sua goela. Passou os dedos pela garganta, sentindo a pele suave e lisa, e a língua pelos lábios, também secos, sentindo-os rachados.

Vendo sua situação, Ysilla levantou-se, foi até uma mesa ali perto, encheu um copo com água e voltou onde estava, entregando a bebida para Margaery, que bebeu o conteúdo em um quase desespero; não havia se dado conta do quanto estava sedenta.

Após consumir todo o conteúdo, deu um suspiro de prazer. Voltou-se para Ysilla.

— Continue… Por favor.

Ela aquiesceu.

— Ele estava passando mais tempo com a princesa e a rainha desde que Marwyn morreu — respondeu. — É um duas caras; sei que ele falava tudo que conversa com a princesa Sansa para a Rainha Targaryen, e vice-versa. Acredite, ele não vale nada, ajudando a jogar uma contra a outra.

Então O Esfinge seguiu os planos.

— É uma serpente, tal qual o pai — Ysilla avisou. — Ele claramente sempre esteve jogando o próprio jogo. — Se remexeu na banqueta.

— O Banco de Ferro… Ainda está?

A moça fez que não com a cabeça.

— Eles nem avisaram da finta d’O Esfinge; sumiram antes, deram um jeito de fugir de harrenhal, deixando apenas um punhado de servos e cozinheiros inúteis, disfarçando alguns como se fossem enviados e deixando muito da bagagem para trás. Saíram com pressa, tenho certeza, mas, de algum modo, conseguiram sair sem usar os portões e sem serem vistos.

Alguém os guiou por uma passagem?, perguntou a si mesma, embora achasse pouco provável; Alleras não poderia se arriscar, pois eles sabiam de seu envolvimento com o tesouro e o teriam matado; Petyr era uma boa opção, pois o pilantra provara-se ótimo em fazer sub-reptícios do tipo.

— Os homens que ficaram… eles os torturaram?

— Não, não havia motivos. — Deu de ombros. — Não podiam dizer nada de importante, de qualquer forma, os enviados do Banco foram-se, e, com eles, boa parte do nosso dinheiro já pago e os mercenários. Perdemos muitos, e os que sobraram não vão tardar em tentar fugir, ou nos trair a qualquer momento, como espiões para Aegon.

Margaery entregou o copo para Ysilla, que o tomou em mãos, levantou-se e foi até a jarra de água para pegar mais um pouco para a companheira acamada.

Daenerys estava sem o Banco de Ferro — que obviamente uniu-se à causa de Aegon nesse ponto. Mesmo com um dragão, era claramente um golpe em suas chances para obter o trono.

Perguntou a si mesma o que aquele golpe deve ter causado na imagem da Rainha… e (por que não?) na princesa. Ambas eram vistas com Alleras, ambas iriam ser responsabilizadas pelas fintas d’O Esfinge.

Pegou o copo de Ysilla, quando esta voltou para ficar defronte a ela e ofereceu o objeto para beber o conteúdo nele. Quando o levou até seus lábios, saboreou o gosto metálico d’água, deixando-o escorrer pelo canto de sua boca, pois o tinha erguido de mais, e não conseguiu sorver a bebida tão rapidamente.

Quando terminou, engoliu uma grande quantidade de líquido que permanecia parada dentro de sua boca, limpou os lábios e o queixo de forma rude, passando as costas da mão pelo local molhado.

Parou para pensar, antes de continuar a falar. Alleras não devia ter fugido; e duvidava que, mesmo que o tivesse feito, nunca teria conseguido levar toda a prata e ouro que havia afanado consigo. Não, aquela serpente bastarda podia ser boa em ser sorrateiro e surrupiar, mas nem ele devia conhecer alguma mágica que enviasse todo o tesouro num alforje sem fundo.

O ouro podia estar em vários lugares; de certo, Alleras o escondeu em vários locais, ele facilmente poderia achar tais esconderijos — Harrenhal, afinal, era cheio de buracos esguios, locais abandonados que estavam destruídos pelo tempo, ou mesmo grandes cômodos desocupados que passaram despercebidos pelo gigantesco espaço do castelo negrume, embora esses últimos fossem improvável, dado o fato de que os Starks teriam vasculhado cada recinto.

Limpando a garganta, agora um pouco mais calma, Margaery falou, com a voz ainda enrouquecida:

— Tem certeza… de que Alleras não está? — Ela se viu obrigada a encurtar a frase, pois não conseguia se esforçar muito.

Ysilla assentiu, convicta.

— Sim, milady, todos estão à procura dele.

— A procura de Alleras — Margaery a fez lembrar, tentando pontificar o fato de que Alleras não era a única identidade d’O Esfinge.

Ysilla juntou as sobrancelhas castanho-queimadas, até que entendeu o que Margaery queria dizer e as separou.

— Também pensei nisso, Milady, mas O Esfinge nunca veio falar comigo. Por que ele não teria tentado?

Margaery não imaginou que Alleras estivesse longe; Arianne era, ainda, a rainha em Porto Real, e era a grande inimiga de Daenerys — Alleras nunca deixaria a rainha de lado; não enquanto ela fosse uma ameaça a sua família; todos os Martells seriam alvos da ira da tirana.

Não, O Esfinge ainda estava por perto, tal qual Baelish… o problema é que, diferente de Petyr, não sabia se podia ter Alleras como seu apoiador — não que confiasse nele antes, mas agora, se ele lhe culpava contra o atentado de suas irmãs, as coisas eram ainda piores; Alleras com certeza não tardaria em matar Margaery, Petyr, e quem mais achasse que estava envolvido na finta sangrenta que matara as malditas Serpentes de Areia.

Mas ele não era o único com raiva de Petyr. Margaery também queria respostas de Mindinho; sua prima (não, sua irmã!), e sua avó, Olenna, morreram, e, para piorar, em vão! Aegon e Arianne ainda viviam, enquanto os Tyrell estavam caindo como rosas no inverno.

— Alleras… — Margaery falou, pausadamente. — Ele ainda está aqui, eu sei. Petyr também.

— E como vamos achá-los? — indagou Ysilla.

— Não vamos — retrucou. — Eles virão até nós, acredite.

Sua companheira não parecia compartilhar de suas certezas.

— Mas…

— Conte-me. Conte-me mais, Ysilla.

Apesar do olhar titubeante, a moça logo voltou a falar:

— Lembra-se da praga? — indagou, e Margaery respondeu com um aceno de sua cabeça. — Bem, tivemos outra.

Margaery franziu o cenho, mas esperou que a moça prosseguisse.

— Diversas nobres começaram a ficar doentes — ela explicou. — Uma irritação na pele, pelo menos no começo, logo foram acamadas, e muitas morreram, após dias de agonia; vômitos, diarreia, cólicas horríveis… morrer foi uma misericórdia para elas, mas veio apenas após dias de dor. Muitas ainda estão nesse estado.

Margaery matutou sobre aquilo, aproveitando os momentos de silêncio para, também, ajudar a garganta a se acalmar. Teria sido Alleras? Um pensamento adrede a fez pensar nele, mas como poderia, visto que mesmo ele teria dificuldades para matar tantas mulheres assim? E sem motivo; nenhuma dessas Ladies, pelo que Ysilla lhe contou, nenhuma era a própria Rainha Dragão. A matança não tinha sentido.

— Veneno? — ela indagou, curiosa se a companheira chegaria às mesmas conclusões que ela.

Ysilla tomou um tempo para matutar. Por fim, respondeu:

— Talvez, mas quem? O Esfinge? Ou… — Ergueu um punho cerrado, então levantou o dedo mindinho, para que Margaery entendesse o outro suspeito.

Lorde Petyr. Seria ele capaz de tanta maldade? Deuses, ela preferia nem sequer saber até onde aquele pequeno homem podia ir para ter o que queria.

Bom, Lorde Baelish talvez tivesse crueldade a ponto de matar diversos inocentes; mas por quê? Destruir o reinado de Sansa e Jon? Seria um motivo plausível (pelo menos para a deturpada mente de Baelish), mas ainda faltavam os meios para que ele pudesse chegar a tal feito: ele parecia fraco, quase à beira do desespero, por mais que tentasse não o demonstrar, e precisava de todo o apoio possível.

A menos que Baelish fosse um ótimo pantomineiro, Margaery não via meios pelos quais ele pudesse ter um veneno tão potente. Talvez, caso ele tivesse se aliado a Alleras, mas ela não acreditava que ambos pudessem estar juntos; O Esfinge claramente culpava o lorde deposto pelas mortes das irmãs.

Margaery não fazia ideia de quem mais poderia ser além de Baelish…

Teria de deixar a questão de lado; não tinha como falar com Baelish agora, Alleras ainda estava sumido, e, no fim das contas, não podia fazer nada sobre isso de qualquer forma.

Por agora, tinha de se concentrar em tentar saber tudo o que ocorreu enquanto estava acamada. Um ano inteiro poderia ter se passado e ela nem iria perceber. Quando pensou que deveria fazer mais interpelações para Ysilla, entretanto, sentiu a fatiga voltar a tomar conta de seu corpo; sentiu um repentino cansaço, como se tivesse percorrido por toda a Harrenhal, e recostou-se na cabeceira da cama, sentindo o travesseiro preenchido de penas retesar-se com o peso dela. A falta de vontade voltou a tomar conta dela.

Por que iria querer saber qualquer coisa? Estava sem família e amigo; sua casa perdeu, de qualquer forma.

— Margaery? — Ysilla a chamou, vendo que ela nada mais falava.

Margaery não a olhou de volta.

— Eu tenho mais para…

— Quero ficar sozinha — interrompeu-a, ainda sem erguer os olhos, olhando, indiferente, para os cobertores da cama, feitos de pele grossa.

Ysilla ficou parada e muda, olhando para Margaery, sem fazer nada para sair do cômodo.

— Houve casamentos importantes…

— Sai, Ysilla — Margaery falou, monótona, deitando-se no colchão.— Depois falaremos mais. Preciso… de descanso.

Virou-se, sem olhar para a moça sentada na lateral, e cobriu-se com o cobertor.

Sem nada falar, ouviu Ysilla levantar-se da banqueta; o farfalhar de suas saias a acompanhava, diminuindo conforme ela afastava-se do catre de Margaery, que se viu em tomada por uma estranha sensação de nervosismo e curiosidade.

Apesar de sua fadiga, margaery, que havia acabado de afastar de a moça que lhe fazia companhia, viu-se com alguma agitação dentro de si; um fogo acendido em seu corpo que a deixou em quase alerta, fazendo seu coração se agitar um pouco, a mente começou a sopesar a importância das informações que Ysilla tinha para lhe dizer…

Então, após tanto tempo com sua mente embotada, sem pensar em nada, deixando memórias em oblívio, Margaery lembrou-se de uma importante conversa que teve antes de ficar desacorçoada. Afastou o cobertor, descobrindo a sua cabeça.

— Lady Ysilla? — Chamou-a, e o farfalhar do vestido da Royce parou.

— Sim?

— Quais casamentos?

Um silêncio permaneceu, até que ela lhe respondeu:

— Foram ao mesmo tempo — respondeu ela —, na mesma noite; Arya e Lorde Edric; Lady Myranda Royce e Sor Ronnel… que alguns falaram que ocorreu pois Randa já estava grávi…

— E o outro? — Ela quis saber; a irritação a fez forçar a voz, mas esta ainda saiu rouca e pareceu ferir a sua garganta.

— A Lady de Porto Branco, Wynafryd, e Hoster Blackwood, irmão mais novo de Lorde Brynden. — Continou: — Se o que os sussurros dizem isso ocorreu pois ele abusou de Wynafryd. Não sei o que pensar, pois todos parecem dizer que ele amava a irmã de Wynafryd, Wylla, que nem sequer foi na cerimônia.

Ysilla parou de falar, como se esperasse que Margaery lhe explicasse sobre o assunto, mas esta apenas assentiu.

— Obrigada, Milady. Pode se retirar agora; depois nos falamos.

O farfalhar voltou a ecoar, mais baixo, até que sumiu, sendo sufocado pelo som da porta do cômodo sendo aberto e fechado, o barulho retumbou pelo imenso quarto, agora quase todo negrume, com poucas chamas bruxuleantes luzindo no ambiente. Por fim, o som do baque da porta parou e tudo ficou em silêncio.

Margaery fechou os olhos, pronta para dormir; as palavras de Ysilla tinham dado para Margaery algo no que pensar, pelo menos quando acordasse. Sim, ainda tinha alguns bons motivos para acordar e começar a matutar; era como se tivesse um fogo reacendido dentro de si.