Maresia
1 Capítulo 1
Maresia
Temporada um
Capítulo um
O fim de tarde estava tremendamente frio apesar do sol forte que se recusava a perder a batalha para a lua. Os dois caminhavam lado a lado pela orla da já conhecida Praia do Porto. Ambos já estavam familiarizados com os ventos fortes que traziam junto de si a areia inconveniente que adentrava suas calças e tênis.
— Por que você está sorrindo desse jeito? – sussurrou Mateus. Suas sobrancelhas sempre franziam quando ele fazia algum questionamento.
Tomás nem reparara que estava sorrindo até o amigo comentar sobre o ato. Não tinha motivos surpreendentes para sorrir. A vida caminhava normal e monotonamente bem. Seus pais continuavam casados, por mais que isso fosse apenas um tobogã chegando no fim da descida. Faltava apenas uma semana para o término do tão entediante ensino médio, que Tomás não cansava de afirmar, que se alguma coisa boa saíra daquilo, com toda certeza, foi a amizade de Mateus, e o amigo concordava.
Mateus tirou uma cartela de cigarros do bolso e ofereceu para Tomás que pegou um, o outro fez o mesmo e levou o cigarro aos lábios fazendo cabaninha com as mãos para acender sem ser atrapalhado pelos ventos do litoral. O cigarro era uma conexão dos dois, não sabiam muito bem o porquê, contudo era um momento em que eles não precisavam falar, questionar ou compreender, precisavam apenas apreciar a companhia um do outro.
— O que você vai fazer nas... – Antes que pudesse terminar de perguntar, Tomás fora interrompido por um vulto de longos cabelos loiros que atravessaram sua frente e se chocaram em seu amigo. Era Luíza, a quase-namorada de Mateus.
Luíza chegara poucos meses atrás, se intrometendo na amizade dos dois e criando um espaço antes, inexistente. Não que Tomás não gostasse dela, até que gostava, entretanto não sabia explicar o porquê de preferi-la distante.
A menina puxou Mateus para o lado, fazendo com que o mesmo largasse o cigarro na areia, e o beijou. Não foi um selinho discreto, ou apenas um beijo de boa tarde, fora um belo beijo estilo Titanic. Em seguida cumprimentou Tomás com aquele sorriso deslumbrante de alguém que não tem problemas para serem resolvidos e muito menos apenas um amigo para passar o tempo.
— Bem, eu vou indo então... Amanhã nos falamos, beleza?
Mateus acenou com a cabeça e o outro sorriu. Ambos tocaram as mãos e Tomás seguiu seu caminho até o ponto de ônibus.
*
Ao chegar em casa, Tomás caminhou até o quarto onde largou a mochila e decidiu tomar um banho já que o dia fora longo e a maresia fazia com que sua pele ficasse ainda mais oleosa. A água quente em contato com sua pele fez com que seu corpo relaxasse e um cansaço que outrora não existia, agora estava ali, batendo em sua porta, fazendo suas pálpebras se fecharem mesmo sob a água.
Antes que algum desastre acontecesse, ele caminhou até o quarto, onde colocou uma roupa e em seguida se deitou. Pegou o celular na mão por puro hábito e vício. Lá, estavam cinco mensagens de Mateus.
19:22 “Tomás?”
19:26 “Responde ô lerdão...”
19:32 “Desculpe pela Luíza, essa garota está me enchendo! :@”
Tomás sorriu assim que terminou de ler as mensagens e procurou seu fone de ouvido na mochila. Conectou o fone e em seguida puxou o cobertor para espantar o frio e ligou para Mateus antes que ele pirasse de vez.
— Fala ai, cara! – Tomás disse assim que seu amigo atendeu do outro lado da linha.
— Que voz é essa de sono, cara? Já foi dormir? São nem oito horas ainda! – Mateus disse e começou a rir.
Aquela risada fez com que Tomás sentisse algo estranho. Como se algo muito gelado estivesse atravessando sua espinha, mas não era ruim. Era um sentimento bom, muito bom para ser honesto.
Depois de alguns segundos em silêncio, Mateus continuou.
— Desculpe mesmo, você estava falando alguma coisa sobre as férias, mas ela interrompeu.
— Eu ia perguntar o que você faria nas férias. Nada demais. – Mateus ouviu a resposta curta e seca de seu amigo e suspirou do outro lado da linha.
— Tudo bem então, cara, vai cochilar. Amanhã a gente conversa melhor, está bem?
Tomás concordou e ambos desligaram simultaneamente.
Depois de alguns minutos repassando a conversa mentalmente, Tomás mergulhou nas profundas águas do sono e se deixou levar pelas ondas até as areias dos sonhos.
*
Tomás acordou em uma típica manhã de inverno do litoral. Os ventos fortes cortavam as janelas fazendo com que suas cortinas fizessem um certo barulho ao se chocarem contra as paredes. O céu nublado, de um cinza-escuro melancólico. Em sua concepção, o dia estava lindo. Perfeito para ser mais exato.
Tomás tomava café todos os dias sozinho, sua mãe e seu pai trabalhavam na mesma empresa, e ambos saiam de casa pela madrugada. O menino quase nunca os via, o que fazia com que ele se tornasse cada vez mais autossuficiente.
Fez a caminhada de sempre até o ponto de ônibus com seus fones de ouvido no último volume, apreciando a vista do mar quase negro pela manhã. Quase deu um pulo ao perceber quem estava em seu ponto aquela hora da manhã.
— Mateus? – perguntou Tomás assim que chegou mais perto e confirmou a identidade de seu amigo. Já tinha reconhecido seu característico casaco de moletom azul-escuro, mas por via das dúvidas, preferia conferir de perto.
O outro se virou e tirou os fones de ouvido, abrindo um largo sorriso ao ver o amigo. Puxou Tomás para um abraço e antes que o outro tivesse a oportunidade de fugir já começou a se desculpar novamente pelo ocorrido no dia anterior.
— Cara, eu já disse para você relaxar! Você tem que namorar mesmo, não aguentava mais você me enviando link de pornografia o dia inteiro. – Ambos começaram a rir enquanto caminhavam para a fila do ônibus. Poderiam ir caminhando, mas estava frio demais e nenhum dos dois parecia sentir vontade de sentir câimbras logo pela manhã.
Ao entrarem no ônibus, se sentaram no último banco, Tomás na janela e Mateus do seu lado, pois Mateus era no mínimo uns dez centímetros mais alto que o amigo e se ele sentasse na janela impossibilitaria o outro de apreciar o caminho, logo, por questões óbvias de justiça, os dois estipularam esta regra três anos atrás.
— Bem, meu pai vai viajar segunda que vem. Vou ficar sozinho, se você quiser ir pra lá pra a gente jogar alguma coisa, chamar umas garotas...
— Pode ser. – Antes mesmo que Mateus pudesse terminar sua pergunta, Tomás já a tinha respondido, fazendo com que o amigo sorrisse.
— Por que você está sorrindo? – Dessa vez fora Tomás quem perguntara, e como seu amigo da última vez, Mateus nem havia reparado que estava sorrindo.
*
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