Mare de sorte

1 Capítulo Único


Era a segunda vez aquele dia que acabava tropeçando nos próprios pés enquanto corria em direção a algo, já tinha caído da cama e que seu equipamento de exploração tinha quebrado, os mantimentos conseguiram ser devorados por javalis e os pássaros ainda ousaram comer um pouco do pão que guardou. Um ótimo dia, como todos os outros, mas Bennett não poderia ficar afetado por isso, eram apenas detalhes, estava vivo, cheio de saúde e ainda teria um bom e longo dia pela frente! Afinal, como poderia ficar triste e desapontado com coisas que aconteciam com qualquer um quando naquele dia teria um encontro legal com o amigo Razor?

Bem... Encontro era uma palavra muito forte, então preferia usar outras para não causar estranhamento demais para os demais. Muitos de Mondstadt poderia não gostar de Bennett por quais fossem os motivos ou achá-lo muito atrapalhado, mas não deveriam julgar seu amigo ou a maneira da qual eram próximos, a única pessoa que entendia tamanha proximidade e buscava saber por Bennett como Razor estava era a senhorita Lisa, a bibliotecária. Deveria ser uma tutora ou professora do garoto lobo já que as perguntas eram mais sobre a segurança e sociabilidade de Razor.

Meio caminho andado e já estava próximo do ponto de encontro, sorrindo ao ver de longe o garoto lobo, poderia ser qualquer um, mas Razor deveria ser a única pessoa que usaria capuz em um dia como aquele, ensolarado e bonito. Era fofo.

“Espero que não tenha demorado muito. Olá!”, sorria, se aproximando e percebendo o mesmo abaixar o olhar, “Ei, ânimo! Vai ser legal! Como eu disse, vai ser uma atividade bem de aventureiro e ainda vai ter comida para sua alcateia, a que você sempre me conta”, Bennett comentava, mesmo que Razor não fosse nunca de falar.

Razor apenas concordou, olhando para a mochila de Bennett com um olhar curioso, como se aquilo fosse algo diferente de quando ficavam juntos.

“Ah! Trouxe algumas coisas para pesca, vai ser divertido já que pensei que pelo sol e tempo bom, poderia ser legal e... Divertido”.

“Divertido. Razor não ser... Divertido?”.

“Não é isso! É só que... Queria me divertir e fazer algo diferente além de trancar a gente em uma cela com mecanismo antigo ou quase matar a gente com algo dos antigos...”, contava nervoso, com uma risada sem graça.

Deveria aproveitar, nada de errado tinha acontecido e por milagre, seu azar não afetou nem mesmo o tempo ensolarado e gostoso de passar o dia a beira do mar. Sorrindo, já preparava as coisas perto da areia e entregava as iscas para Razor, esse que olhava estranho para as mesmas enquanto Bennett explicava que mesmo sendo coisas simples, foram muito difíceis de encontrar já que ninguém parecia ter em estoque ou que muito do que ele tinha foi danificado por algum imprevisto e eventualidades da vida, algo bem frequente.

Com as coisas já arrumadas e seguindo para um ponto um pouco mais alto para a beirada da praia, Bennett já sorria de ponta a ponta e nem mesmo percebeu que ao seu lado, Razor tinha deixado as iscas e tirava o casaco, deixando as armas de lado, tanto que quando o garoto azarado foi olhar para ver como o outros estava, teve que fechar os olhos quando a água o atingiu e um peixe bateu em seu rosto, o fazendo cair deitado na grama.

"Pelo Arconte...? O que foi.. Isso?", palavras não concluídas ao olhar envergonhado para Razor, esse que cuspiu o peixe na própria boca enquanto voltava para perto de Bennett, "Estou vendo que minhas iscas não são necessárias".

"Eles não iam fisgar. Pouca isca para um peixe só", contava, sacudindo o cabelo para tirar o excesso de água.

As borboletas na barriga de Bennett se agitaram com a visão. Claro que a visão ao mar, a paisagem, até o vinhedo a distância eram coisas bonitas de se olhar, mas a paisagem com Razor nela, essa sim era mais bonita, tanto que apenas tal pensamento o fez sorrir um pouco mais e nem percebendo a proximidade e o olhar curioso do garoto lobo.

"Bennett está sorrindo estranho".

"Estou? É que você fica engraçado com o cabelo todo molhado", comentou, fazendo com que Razor tocasse o próprio cabelo, "Mas isso não é uma coisa ruim, você fica mais bonito".

"Bonito?".

"Sim... Bem, como eu poderia explicar...? Você fica bem diferente de quando usar o capuz, nunca o vi assim".

"Bennett gosta de.. Razor molhado?", indaga.

Pelos Arcontes, por que as borboletas não iam embora de uma vez? Por que o azar não afastou Razor ainda? Era de se esperar que ele se afastasse, seria a resposta ideia para a forma mais cruel do próprio azar.

"Você fica um diferente de quando com o capuz e isso é algo legal, gosto do Razor molhado", o respondeu, dando uma risada sem graça enquanto coçava a nuca.

E apenas com tal resposta, Razor se aproximou um pouco mais de Bennett, o encarando como se fosse uma coisa bem ruim ou bem necessitada de atenção, mas para o desespero do garoto azarado, aquilo não era bom já que a barriga do mesmo não tinha apenas borboletas como as pernas ficavam dormentes e a ponta das orelhas ardiam, até mesmo as cicatrizes em seu ombro e braços começavam a pinicar.

"Razor gosta de Bennett", o garoto lobo falava, "Bennett ser lupical de Razor, fazer Razor sorrir".

E aquele era o momento para cair um raio na cabeça de Bennett e fazer duplo sentido ao termo "estar chocado".

"Você tem certeza.. Somos dois... Você sabe..."

"Ser lupical de Razor, não saber de outra coisa", contava, negando com a cabeça e ainda se mantendo próximo.

"Você está muito perto, Razor... Parece que vai me abraçar ou coisa do tipo", sussurrou, pensando em usar a palavra 'beijo', mas temendo uma reação negativa e não querendo que o outro se afastasse, de jeito nenhum queria que o outro se afastasse.

Todos já se afastaram dele, menos os próprios pais, não queria perder um bom amigo como Razor.

Amigo.

"Lisa mostrou algo de livro para Razor. Beijo. É como lambida entre lupical", contava.

E de tais palavras e sem esperar uma reação de Bennett, Razor se aproximou ainda mais do rosto dele para... Beijá-lo? Era isso? Seria beijado? A beira mar e com um dia lindo, que nem os cenários de livros com casais apaixonados, mas com um garoto? Bennett conseguiu pensar o suficiente apenas para fechar os olhos e ser beijado, mas pelo bom destino, o que veio foi um tapa na própria boca e o cheiro de peixe, abrindo os olhos e vendo que o peixe de antes que Razor "pescou", atrapalhou o momento. Mas isso pareceu não ser o suficiente para fazer o garoto lobo mudar de ideia, determinado a beijar Bennett e voltando a ficar perto de seu rosto, mas tendo o outro peixe passando pelo rosto de ambos.

Ótimo.

"Que constrangedor...", murmurou, olhando para os peixes de debatendo, apertando as mãos e olhando para o chão, claramente envergonhado.

Mas isso não pareceu ser algo constrangedor para Razor, não desistindo e segurando o rosto de Bennett com ambas as mãos e deixando suas testas coladas. Sem um beijo, mas próximos, tão próximos que conseguiam sentir um calor bom que não era do dia ensolarado.

"Bennett ser lupical de Razor"

"Então serei seu lupical...", murmurou, levando ambas as mãos ao rosto de Razor.

Sorrindo, aquele dia estava realmente perfeito, era literalmente uma boa sorte e era sortudo em ter o garoto lobo. Um grande amigo, um... Lupical que sabia pescar e tentar beijar.

Um dia perfeito até se ouvir um trovejar ao longe, mas do que importava? Ainda era um bom dia.

Notas finais
Oneshot já postada no meu perfil do spirit fanfics
[https://www.spiritfanfiction.com/perfil/lirilinda]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!