DEPOIS

4 ligações perdidas de Bianca

3 ligações perdidas de Mãe

Permaneci em estado de choque por cinco semanas. Passei por todos os estágios do luto. Desejei ter ido no lugar dele. Gritei com o rosto mergulhado no travesseiro. Troquei a fronha molhada de lágrimas. Achei que tinha desidratado porque chorei sem lágrimas também. Rolei na cama por horas. Tomei remédio para dormir às nove da manhã e às nove da noite. Não penteei o cabelo por dias a fio. Esqueci de tomar banho também, se for pra ser cem por cento honesta.

Minha mãe batia na porta do quadro, perguntava como eu estava, saía e voltava para fazer a mesma coisa periodicamente. Tentei convencê-la a voltar para a casa dela, mas ela disse que só sairia dali quando sentisse que era a hora certa.

— Estou bem, na medida do possível — eu sempre acrescentava o "na medida do possível" à mentira para que ficasse mais plausível.

Todo esse sofrimento psicológico se transformou em sofrimento físico. Tive crises de dor de coluna e enxaqueca, tomei mais remédios e dormi mais. Dormir era a melhor parte do meu dia, me tirava da realidade. Sonhei com ele duas vezes.

No primeiro sonho Marco tinha ressuscitado. Ninguém questionava se aquilo era possível no sonho, só agradecíamos e comemoramos como se fosse normal ter uma pessoa de volta da morte. Parecia que ele tinha desaparecido por uns dias e voltado. Puro êxtase. Beijei-o com tanto amor que parecia que eu realmente estava encostando em seus lábios. Acordar era a pior parte por reviver o luto. Chorei por muito tempo pedindo para que sonho fosse realidade e realidade fosse só um pesadelo.

No segundo sonho eu sabia que ele estava morto, dessa vez ele tinha vindo me visitar e ele conseguia voar. Segurei na mão direita dele e voamos juntos. Sobrevoamos por todos os principais lugares da nossa história: o banco na rua em que nos conhecemos, o apartamento dele, minha casa, nossa primeira viagem, a praia em que ele me pediu em noivado... Cada lugar era uma lembrança boa. Nesse sonho eu ainda estava triste, mas o rosto de Marco trazia uma paz que me fazia muito bem.

— Fique em paz, viva, estou bem — ele se despediu.

Quando acordei, não chorei, pelo contrário, acho que sorri de leve. Lembrei da nossa história, nossas poesias, piadas internas, pratos preferidos e músicas que tomamos para nós.

Olhei para o computador e tive uma ideia. Abri a pasta em que arquivei todas as fotos e lá estavam cada um desses momentos. O dia em que voltamos para o bar em frente ao banco em que eu lia Mário Quintana, o dia em que cozinhei para ele pela primeira vez, o dia em que conheci o apartamento dele... Todos os dias que me ensinaram a amá-lo de uma forma que parecia impossível, como se meu amor tivesse esgotado de tanto que o amei.

Parecia que era uma forma de me martirizar, mas não, aquilo me fez bem. Ri comigo mesma dos dias engraçados. Olhei para o desenho num papel toalha, emoldurado em cima da minha escrivaninha. Eram lembranças felizes que estavam quase me hipnotizando, nem sei quanto tempo passaria ali se não tivessem batido na porta.

— Mãe?

— Sou eu — era Bruno.

— Entre — honestamente, eu queria ficar só, mas não quis ser mal educada.

Bruno entrou devagar e foi vendo o que eu estava fazendo. O rosto dele trazia uma enorme preocupação. Todos estavam preocupados comigo. Pedi dois meses afastada do trabalho, outros patrões já teriam me demitido. Meu vazio só aumentava.

— Não acredito que você está se torturando — ele reclamou.

— Dessa vez não é da boca pra fora: estou realmente bem. Quero dizer, estou um pouco melhor. Sonhei com Marco dizendo que está em paz.

— Que bom, Sara. Marco era muito especial e sei que ele desejaria que você fosse muito feliz e continuasse sua vida.

— Sei disso, mas ele sempre será o amor da minha vida. Não adianta.

Bruno fez que sim com a cabeça e se aproximou de mim. Ficou admirando aquelas fotos comigo.

— Vocês são demais — ele murmurou. — Cada foto melhor que a outra. Muita história aí. O casal mais espontâneo que conheci.

Estávamos vendo a foto da minha última viagem com Marco, uma das mais difíceis de ver porque era muito recente. Tive vontade de voltar lá para me despedir com calma.

— Marco fez esse desenho? É você? — ele viu meu papel guardanapo emoldurado. Assenti. — Desenho estranho, mas dá pra ver que é você direitinho.

— São os olhos esbugalhados e o cabelo sem vida — brinquei.

— Seus olhos e seu cabelo são bem bonitos — Bruno elogiou e ficou um pouco sem graça depois disso. — Ele acertou nas características que te fazem única.

— Acredita que isso foi no primeiro dia? Ele ficou me assistindo num bar perto de um banco em que eu estava lendo. Aí chegou em mim com esse desenho estranho. De lá para cá foi muita história.

Bruno sorriu e concordou. Quem conhecia Marco sabia que essas maluquices eram a cara dele. Passei algumas fotos até que acabaram-se as possibilidades. Era a última foto, o último momento registrado. Apertei na seta para direita três vezes e a tela não mudava, então desisti.

— Pronto. Acabou. Vamos ver o sol? Sair desse quarto? Isa me recomendou um bar legal.

Olhei para Bruno com olhar de desânimo, não queria sair de casa.

— Vamos... Qualquer lugar. Você escolhe! — ele estava insistente.

No meio das recusas, tive uma ideia. Não sei se ele toparia, mas eu tentaria.

— Tem um lugar que quero revisitar — falei.

— Onde? — ele ficou curioso

— Você vai ver. Espera um pouco que vou me arrumar.

***

Sentamos na mesa do bar. A mesma mesa que Marco adorava. A vista dava certinho para aquele banquinho velho. Bruno olhava para o cardápio sem entender o que havia de especial naquele lugar, até que me viu admirando o banco de pintura descamativa.

— Não acredito que você me trouxe aqui — ele resmungou. — Meu objetivo era te animar, agora até eu estou deprimido. Você tem que procurar coisas que façam você seguir em frente, não o contrário.

— Estou contente em estar aqui. Para seguir em frente é preciso digerir todas as coisas que aconteceram antes.

Bruno esticou os lábios, renegando minha atitude, e foi falar com o garçom, que não tinha vindo nos atender mesmo com chamados.

— Pedi filé com fritas, espero que esteja à sua altura. Não espere nenhuma batata rosti com wagyu, tá? — ele brincou.

— Filé com fritas raiz tem seu charme — respondi.

— A Sara que eu conheço é uma crítica culinária desde os treze anos de idade — Bruno lembrou.

— Nove anos — corrigi em tom jocoso.

Sentar ali me trouxe muitas lembranças. Quase senti o perfume amadeirado de Marco no ar. O filé com fritas demorou meia hora para chegar. Não sei se era a fome, mas estava delicioso. Amo filé com muita cebola, principalmente cortada à julienne. Só sobraram as camadas de papel toalha em cima do prato.

Enquanto eu estava limpando meus lábios com guardanapo, Bruno sorriu, tirou uma caneta da bolsa e pegou o papel toalha que estava — encostado do prato, menos sujo de óleo. Entendi e sorri na hora.

— Espere um pouco — ele falou. — A modelo tem que ficar parada. Finja que está lendo um livro.

Gargalhei e fingi que estava folheando uma revista. Bruno demorou uns cinco minutos, ele era detalhista desde criança, mas não era nenhum desenhista.

— Estou ficando curiosa — apressei.

— Espera aí, falta o detalhe final — ele explicou.

Pegou a caneta por uma última vez, assinou no canto do papel e me entregou. Outro desenho meu com cabelos escorridos e sinal no queixo e olhos grandes. Na parte esquerda da blusa, um coração com um band-aid em cima. Quis chorar, mas consegui disfarçar.

— Perfeito, né? — ele perguntou em um tom debochado.

Olhei para Bruno pelo canto superior dos olhos, como uma crítica culinária apreciando um prato novo, cara de pensativa.

— Marco me prometeu que aquele desenho valeria cem mil e trinta anos. Qual o valor monetário deste rabisco?

— Hum... — ele raciocinou. — Quarenta por cento do original, já que é uma inspiração.

Dei uma risada alta e guardei o desenho com o mesmo carinho que guardei o primeiro. Dinheiro nenhum no mundo tiraria aquele momento de mim.

— Eu estava lendo Mário Quintana naquele banquinho ali — apontei. — Estava chateada com a minha mãe e vi me esconder no primeiro lugar que achei. A vida é engraçada às vezes.

— Não conheço muito de poesia. É o tipo de coisa que vocês falavam em códigos secretos. Marco era esse sujeito divertido, um pouco palhaço e um pouco homem de negócios. Ele sempre me dava dicas sobre investimentos.

— Ele era imprevisível mesmo. Chegou recitando Mário Quintana e do nada explicou que gostava de ser contador. Bizarro.

Bruno se perdeu nos próprios pensamentos enquanto fixava o olhar no banco. Um senhor grisalho sentou-se naquele lugar. Tive um pouco de ciúmes dele porque sentia que era o meu lugar.

"A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado... Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas..."— li na tela do meu celular.

No meio daquelas palavras, Bruno prestou atenção no que eu dizia. Seu olhar era uma mistura de tristeza enorme e contentamento sutil. Mário Quintana era sempre certeiro.

— É Mário Quintana? — ele perguntou.

Fiz que sim com a cabeça e olhei novamente para o banco.

— Estou me sentindo bem mais leve. Acho que é esse o caminho para seguir em frente. Preciso me despedir das coisas que vivi. Preciso passar nesses lugares mágicos que Marco me apresentou... Pelo menos mais uma vez.

— Não acha que vai ser muito dolorido? — Bruno não conseguia esconder sua preocupação.

— Acredite em mim, nada vai doer mais que perdê-lo. Preciso disso. Você me acompanha, Bruno? Sei que é pedir demais, mas farei isso com ou sem você. Claro que prefiro que venha comigo.

Então Bruno apertou a minha mão e concordou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.