Marco e a Feiticeira
1 Capítulo 1
Ainda me lembro do dia em que minha vida se transformou de uma forma que, independente de quem seja meu ouvinte, serei execrado como o mais perfeito dos enganadores, tal como um Barnum tupiniquim.
Quem governava a adorada pátria não tem importância, basta dizer que eu preferia que fosse Manda-Chuva e sua trupe de gatos – quem não gosta de gatos?
De qualquer forma, quem sou eu para entrar em assuntos tão complexos quanto política nacional e a governança do espécime felino sobre esta nação das nações? Acaso tenho a voz de um Cícero e uma pena de Drummond? Digo que não…
Sou apenas um estagiário que trabalha no departamento jurídico de uma empresa financeira (cujo nome recuso-me a pronunciar, pois sei que atrai azar).
Ainda me lembro do dia em que entrei naquele terrível sala, onde montanhas de papéis se amontoavam em mesas de madeira envernizada, junto de computadores – com versões tenebrosas do Windows –, materiais de escrita e os mais finos e arrumados ternos que um homem poderia ter (roupas horrorosas que eram frias no inverno, mas verdadeiros fornos no verão).
Sempre odiei a roupa engravatada, mas naquele dia especial, 29 de outubro (o famigerado “Halloween”, como chamado pelos irmãos do norte), eu quase não dei importância à vestimenta, afinal de contas, estava esgotado pelo trabalho e desejoso de voltar para casa.
O escritório estava cheio e minha querida patroa, doutora Marisa, mostrava animação ante a festa de Halloween, que aconteceria na noite do dia seguinte:
—Estão todos convidados para a festa de amanhã – dizia ela, com um sorriso alegre – Mas peço que, por gentileza, não faltem e usem fantasias legais, ok? Quem não estiver usando fantasias não vai entrar.
Comuniquei a minha patroa que, infelizmente, eu não poderia ir, já que estava me tratando de uma terrível doença chamada "síndrome de Allan Poe", que fazia meu bigode crescer e me deixava com aparência de cansaço, como se eu houvesse virado muitas noites trabalhando duro por aquela empresa que eu “tanto amo”.
Como minha desculpa parecia razoável (talvez pessoas importantes sejam mais ingênuas do que eu imaginava), Marisa permitiu que eu faltasse à festa, mas pediu que Claudia (minha colega de estágio) me levasse de volta para casa (pois a patroa pensou que a doença era contagiosa!).
Seguindo em seu belo carro verde, Claudia e eu fomos para minha casa, onde ela me fez ir para a cama e tomar um copo da infalível receita da mamãe: chá de limão com mel e guaco, um dente de alho, gengibre e um pequeno cubo de açúcar (pois “com uma colher de açúcar tudo vai melhorar”).
Claudia tinha cabelos curtos e pretos, como a pelagem de uma pantera, óculos retangulares que muito lembravam janelinhas de um hotel antigo, vestido curto, casaco de couro preto(que a etiqueta dizia vir da Bélgica), botas de couro também pretas e uma meia calça escura.
Apesar de seus lindos olhos de esmeralda, lábios pequenos e uma pele rosada, o visual de Claudia parecia remeter a uma feiticeira, ao contrário de sua posição de estagiária.
Eu deveria ter imaginado, a muito tempo, que ela era uma bruxa de verdade, afinal de contas, seria preciso uma magia braba para comprar um carro como o dela, apenas com nosso miserável auxílio de estágio.
“Fique na cama, Marco”, disse minha amiga, “você precisa se recuperar dessa tal síndrome de Allan Poe”.
Após me dar um beijo na testa (talvez ela se sentisse como uma mãe cuidando de uma criança problemática), Claudia saiu, mas não antes de me deixar um embrulho onde, para minha alegria de doente, encontrei um delicioso bolinho Ana-Maria recheado com chocolate (porque todos sabem que esses bolinhos são o primeiro dos grupos básicos).
Após comer o bolinho e tirar o gosto ruim do chá, dormi um sono digno dos maiores reis e soberanos da Terra, acordando apenas na noite do dia seguinte.
Festa na empresa? Bah! Eu odiava aquela empresa, odiava aquele pessoal (com exceção de Claudia e Marisa) e odiava o excesso de trabalho que sempre caia sobre mim; naquele empresa, eu me sentia um escravo no Egito, fazendo tijolos para os palácios do faraó e suas potestades.
Naquele dia de folga, porém, eu tinha outros planos, a saber, ir até uma bela praia, bem longe daquele escritório diabólico, colocar um calção de banho e ficar o fim de semana inteiro dando mergulhos no mar, surfando com a galera praieira e, depois da curtição, ficar dormindo até não poder mais.
Com esses doces pensamentos, acordei de meu sono restaurador, porém, nesse momento, dei-me conta de algo que me encheu de pânico: meu corpo estava coberto por uma pelagem escura, curta e brilhante, minhas pernas e braços haviam diminuído de tamanho, meus pés e mãos agora possuíam garras retráteis, meus lindos cabelos castanhos desapareceram, minhas orelhas tornaram-se pontudas e altas, como bandeiras triangulares…
Eu havia me transformado em um gato preto, com cauda e tudo!
Não precisei pensar muito para entender a diabrura que havia se abatido sobre mim: Claudia era uma bruxa de verdade e o bolo estava enfeitiçado.
Em desespero, tentei calçar um par de botas e colocar uma capa (pois, apesar de toda aquela pelagem, eu me sentia nu), mas como comecei a achar a situação um tanto ridícula, decidi apenas fazer o que a razão manda em uma hora tão peculiar…
Comecei a gritar – isto é, miar – em desespero, enquanto trovões anunciavam uma chuva torrencial que, dentro de pouco tempo, cairia sobre a cidade.
Embora a situação fosse trágica o bastante, comecei a ver vultos nas sombras, ouvir risadas sinistras e, ao me posicionar no parapeito da janela do quarto (com dificuldades, pois a cauda não me ajudava muito) olhei para o canto mais escuro do recinto e vi as mais assustadores hostes: gnomos com chapéus pontudos e vermelhos, sorrindo malignamente, sombras fantasmagóricas de deputados, senadores e bicheiros do Rio, zumbis de cobradores de impostos (que diziam "pague seus impostos") e dois agentes da polícia montada que, com olhos vermelhos brilhantes diziam “quem te deu a propina?”
Não suportando mais aqueles filhos da escuridão, fui até a cozinha e pulei pela janela semiaberta (já que a do quarto estava trancada) e corri pelas ruas, em busca de ajuda.
Infelizmente eu encontrei o socorro na figura de Jonas, um garoto de 8 anos (pelo menos me parecia igual a um garoto de 8 anos, então vou presumir que a idade dele fosse essa) que tentava sobreviver próximo ao sinal, jogando bolinhas coloridas para o alto e, com extrema habilidade, recolhendo-as sem deixar cair umazinha sequer.
Naturalmente eu esperava uma ajuda melhor, do tipo que me traria mais esperanças de voltar ao normal, porém, como “cavalo dado não se olha os dentes” corri até o garoto (que já estava voltando para um beco solitário) e pedi ajuda da forma mais educada que alguém poderia fazer:
—Ei, de menor! Poderia me dizer onde mora a Claudia?
Pensando bem, não havia razões para acreditar que o menino sabia quem era Claudia e onde ela morava, mas eu estava desesperado demais para me dar conta de detalhes tão pequenos como esses.
Não entendi o porquê daquele garoto ter aberto a boca e me olhando com ares de espanto, afinal de contas, eu é que tinha razões para me desesperar!
Vestido em andrajos, descalço e tentando limpar a poeira em seu rosto moreno, Jonas colocou as mãos sobre os cabelos escuros e crespos, enquanto tentava segurar seu grito de horror – o que achei um grande exagero –, dizendo em seguida:
—Sai encosto! Volta pro demo!
Depois de ouvir as palavras de meu novo amigo, eu pensava em estrear minhas lindas garras quando, de repente, bracinhos me rodearam em um abraço, enquanto uma vozinha de menina dizia “olha Jonas, um gatinho fofo! Vamos ficar com ele?”, o que me “quebrou” por dentro e me fez desistir de minha vingança egoísta.
A menininha tinha 7 anos (pois ela disse que tinha essa idade), tinha um vestido um tanto gasto, rosto moreno, cabelos crespos (e um tanto mal cuidados), olhos castanhos alegres e, aparentemente, era irmã de Jonas.
Quando ela me abraçou, lembrei de um desenho animado antigo, onde uma garotinha amava animais e os deixava sem ar com abraços esmagadores, porém, não pude deixar de sentir certa paz naquele abraço.
Acho que minha condição felina começava a me deixar um tanto “carente”, então apenas deixei o abraço continuar para, em seguida, me apresentar e explicar minha lamentável situação.
Jonas pegou um pedaço velho de madeira, enquanto dizia “cuidado Maria, ele é enfeitiçado”, mas a garotinha se recusou a permitir que o irmão fizesse mal a mim, me fazendo pensar que, nos meus recentes tempos como humano, ninguém nunca se preocupou em me fazer mal.
Foi difícil, mas Jonas concordou em me ajudar, o que veio bem na hora, já que as hostes sinistras do meu quarto já haviam chegado naquele beco, estendendo suas mãos e foices na minha direção.
Nós três corremos em direção ao parque, onde havia muitas árvores frondosas, uma fonte de mármore e um pequeno lago, onde as pessoas costumavam olhar os peixinhos.
De repente, as árvores começaram a ganhar vida e nos cercar com suas raízes, enquanto espíritos angustiados começavam a subir do gramado e rodear o parque, em meio a uma ventania gélida e gritos de horror.
As crianças abaixaram e começaram a chorar, mas Jonas tentou se levantar e, ficando na frente da irmã, cerrou os punhos e olhou para o céu com fúria – e lágrimas –, como deve ter feito em inúmeras situações da vida.
“Deixa a gente em paz!” gritava o garoto, enquanto um grupo de bruxas rodeava as árvores em meio a um vórtice de nuvens verdes e medonhas.
Completamente cercados, esperávamos que aquele tormento chegasse ao fim de forma dramática, porém, quando Maria me abraçou forte, as hostes pareceram se afastar aos poucos.
Na verdade, observei o quanto estávamos indefesos e, ainda assim, nenhum mal real caíra sobre nós, a exceção do grande terror que havia se abatido sobre nossos corações: Estariam aqueles seres das trevas apenas brincando conosco?
Puxando Maria pelo vestido com minhas garras, levei a garota até alguns bancos próximos, sendo seguido por Jonas, que sempre tentava esconder seu medo.
Meu coração de gato batia rápido e eu já estava ofegante quando, de forma inesperada, um grande relâmpago acertou o vórtice de nuvens verdes, fazendo-o desaparecer junto de todas aquelas hostes medonhas.
“Mas o que foi isso?” perguntou Jonas, ao que respondi que não tinha ideia, mas Maria disse que havia sido a “moça bonita de chapéu": era Cláudia que, com suas roupas e óculos de sempre, tinha na cabeça um chapéu pontudo.
No começo, pensei em arranhar aquilo que ela chamava de cara, como “agradecimento” pela maldade que ela me havia feito, no entanto, acabei mudando minha expressão furiosa por uma de pena: com uma expressão triste, Claudia estava sentada naquele banco de praça, começando a liberar algumas lágrimas de seus olhinhos verdes.
Em consideração à moça, Jonas e Maria sentaram-se junto a ela, o rapaz à esquerda e a menina à direita, enquanto eu me sentava no gramado em frente da feiticeira.
Eu pensei em exigir ser transformado em homem de novo, porém, achei mais cortês perguntar a razão das lágrimas, ao que a moça respondeu:
—Não é nada, eu só estava matando o tempo. E você ficou um gato bonitinho…
—E vejo que você não está chocada com isso – respondi, sentindo o sangue ferver – então não deve se importar em me trazer de volta a forma humana!
—Eu devia é te deixar assim para sempre – disse Claudia, segurando as lágrimas –, você é egoísta, mal-humorado e mentiroso! Ou achou que eu acreditei naquela baboseira de “síndrome de Allan Poe”?! Você está tendo o que merece!
—Claudia… porque fez isso comigo? Foi só por causa da mentira?
Eu estava no caminho certo, pois a mulher começou a tentar me olhar nos olhos, enquanto balançava a cabeça negativamente.
Tentando animar um pouco as coisas, Jonas pegou algumas bolinhas do bolso e começou a lançá-las para o alto, pegando cada uma em seguida, de forma semelhante à que havia feito antes, fazendo Claudia mostrar um sorriso tímido:
—Eu só queria ir na festa com você… Mas você sempre recusa esses eventos!
—Poderia ter falado comigo – respondi com brandura.
—Mas você quase sempre me ignora no escritório! Além disso, sei que todos ficam longe de mim por causa dessas boatarias.
—Boatarias? – perguntou Maria.
—Sim, garotinha – respondeu a mulher – eles dizem que sou esquisitona, que sou bruxa e outras coisas. Desculpe Marco, acho que eu só queria passar um tempo com você no Halloween, mas talvez eu tenha exagerado.
—Você acha? – perguntei irônico, enquanto as primeiras gotas de chuva caiam sobre a cidade.
Diante da situação, ela segurou uma risadinha fofa e, levantando-se rápido, disse que estava havendo outra festa a fantasia próxima dali, ao que as crianças ficaram animadas.
Bancando a fada madrinha, Claudia transformou Jonas e Maria em vampiro e fadinha, para que ambos pudessem participar da festança.
Eu poderia gastar mais algumas palavras para descrever o quanto aquela festinha de colégio foi divertida, com suas músicas patéticas, pessoas pisando nos pés umas das outras naquela pista de dança, doces sem graça (pois, como gato, eu não podia comer nenhum deles) e aqueles enfeites bregas, mas vou apenas deixar essas coisas de lado.
Embora eu tenha permanecido como gato por mais algumas horas, duas coisas fizeram aquela noite valer a pena: A primeira foi descobrir que Claudia era, a sua própria maneira, alguém até que “charmosa” e, o mais importante de tudo, ver aquelas duas crianças, Jonas e Maria, tendo a chance de serem aquilo que eram…
Crianças.
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